6. Chuva caindo, outras coisas subindo

Na manhã de sábado fui tomar café na casa de James e Lily. Fazia tempo que não via Harry, e, puxa vida, ele era meu afilhado! E o moleque estava enorme, correndo de um lado pro outro, parecendo um anão bêbado. Eu adorava passar minhas manhãs de sábado lá. Era um programa família que sempre me animava e confortava, mas bastava chegar a hora do almoço pra eu ter plena certeza de aquele não seria meu futuro. Não, não quero briga com a mulher, filho chorando, cachorro latindo, bolo queimando no forno e amigo rindo da minha cara, obrigado. Sério, é um caos total.

- Sirius! – disse Lily me abraçando. – Finalmente veio visitar seu afilhado.

- Eu só não pude vir sábado passado. Não é como se eu tivesse rejeitado completamente...

- Você é um padrinho ausente, admita – falou Pontas me cumprimentando.

- Você não vai me deixar culpado.

- Será que alguém um dia vai conseguir? – disse Lily rindo.

- Claro que não, eu sou muito confiante.

- Todos nós sabemos, Almofadinhas. Vamos pra cozinha, Lily ainda está terminando as panquecas.

Naquele momento, quando eu entrei no lar perfeito daqueles dois, só por um instante eu pensei "Oh, meu Deus! Que diabos eu estou fazendo?". Mas depois me confortei dizendo que James e eu não tínhamos um caso nem nada parecido e não era eu quem tinha um compromisso com a Lily. Estava tudo ótimo, pelo menos pra mim.

Logo Harry apareceu arrastando o cachorro pela coleira e dizendo coisas indecifráveis e Pontas foi lá pra dentro fazer não sei o que.

- Como estão Peter e Remus? – perguntou Lily.

- Eu não tenho idéia.

- Vocês não se viram na quinta? James disse que...

- Eles não puderam ir, certo? – falei meio alto, suando muito. – Não é como se James estivesse tendo um caso com alguém e...

Certo, eu tinha que maneirar. Eu estava me entregando completamente. Lily riu sem entender. Pontas reapareceu trazendo consigo um jornal. Ajeitou os óculos no rosto e ficou lendo concentrado.

- Vocês dois estão estranhos.

- James sempre foi estranho, Lily – comentei rindo. – Me diga, por que, afinal, você resolveu casar com ele?

- Você não me achou estranho naquele dia.

Ok, era Pontas quem estava nos entregando agora. Desse jeito Lily iria acabar descobrindo. Nós não estávamos sendo nem um pouco discretos, e ainda nem havia começado a diversão.

- Que dia? – Lily quis saber.

- No primeiro dia de aula – disse Pontas emburrado, dobrando o jornal de qualquer jeito. – Quando ele veio puxar papo comigo.

- Bem, as panquecas estão prontas. Sirius, põe o Harry na cadeirinha?

Não vou dizer que nós comemos em silêncio. Não, houveram piadinhas e tudo mais, mas foi uma conversa vazia. Foi como se nós não tivéssemos intimidade. Ah, mas nós iríamos superar isso. Ah, se iríamos...

...

O clima ainda estava meio estranho entre Pontas e eu na segunda-feira. Quando eu entrei na sala dele, um cheiro de loção pós-barba impregnou minhas narinas.

- E aí? – falei, porque ele não desgrudou os olhos da tela do computador.

- Olá, Almofadinhas – falou sorrindo e bagunçando o cabelo. Nessa hora eu também notei que ele estava com um terno alinhado, todo bem passado e, pasmem, um lenço no bolso. Pelo amor de Deus, quem usa lenço hoje em dia?

- Beleza?

- Claro, e com você?

- Também. Escuta, que tal a gente ir ao Joe's amanhã? – falei, na falta do que falar. Na verdade eu planejava dizer aquilo, apesar de não querer. Eu não sei, estava muito confuso.

- Pode ser. Você vai chamar o Aluado e Rabicho? – ele perguntou, se recostando na cadeira com os braços atrás da cabeça. Parecia bem descontraído.

- Não sei se eles vão poder ir. Sabe, Aluado e a nova namorada, Peter e seus assuntos secretos...

- Hum, ótimo – ele disse sorrindo mais uma vez. – Então a gente se vê – falou praticamente me expulsando da sala e piscando.

...

Lá pro comecinho da noite, Pontas e eu fomos caminhando até o Joe's. Nós ainda estávamos meio estranhos, e fiquei me perguntando se nossa amizade algum dia voltaria ao normal.

- Sabe, nós podíamos marcar em outros lugares das próximas vezes – ele disse.

- Por que? O pub não está bom pra você? – perguntei.

- Não, é porque nós sempre fazemos as mesmas coisas. Saímos do trabalho, vamos ao Joe's beber, voltamos andando, eu deixo você em casa e volto pra minha. Sempre encontramos as mesmas pessoas, sempre... a mesma coisa.

- Bem, se você prefere assim nós podemos marcar em outro lugar – falei erguendo as sobrancelhas e sorrindo com charme.

Sim, eu estava flertando com meu amigo. Eu estava clara e inconscientemente lançando meu olhar apertado em sua direção e dizendo coisas idiotas. E depois percebi que James também estava fazendo a mesma coisa. Aquela loção pós-barba, o terno, a piscadadinha e, principalmente, aquela bagunçada no cabelo, céus! Ele estava me paquerando e eu estava retribuindo.

Quando Joe's colocou uma porção de amendoins na nossa frente eu fiz uma piadinha sobre aquilo ser afrodisíaco. E Pontas concordou sorrindo e dando tapinhas na minha perna. Oh, tão próximo da virilha! Eu estava morrendo de vontade de ficar bêbado. Bêbado o bastante pra terminar o que nós tínhamos começado. E James parecia andar na mesma direção, porque suas bochechas já estavam vermelhas e ele ria de qualquer bobagem. A não ser quando fui dar em cima de uma garota que tinha acabado de entrar.

Ele disse, com a voz embolada e de mau humor, que eu ia levar um fora porque estava muito bêbado. Até tentou me segurar na banco, mas eu me levantei e fui cambaleando até lá. Nem me lembro o que eu disse, mas a garota enrugou o nariz e eu percebi que Pontas estava certo. Voltei pro balcão e James me sorriu com satisfação.

- Eu falei – disse aliviado.

- Vá se ferrar! Vamos?

- Só mais uma cerveja.

Tomou a maldita cerveja, eu o acompanhei, na falta de algo melhor pra fazer, e depois saímos do bar. Uma chuva gelada nos aguardava. Caminhamos sob a água um quarteirão antes eu empurrá-lo contra a parede de um beco e beijá-lo.

Bom, vocês sabem, ele estava rindo igual um demente, daquele jeito que tanto me enche de tesão, e eu simplesmente não pude resistir. Eu também estava com raiva, por isso o joguei com força contra a parede, pra machucar. Só depois, olhando pro seu rosto molhado, o cabelo pingando sobre os óculos, as bochechas ainda coradas, foi que o beijei. Com força. Enfiei minha perna entre as suas e puxei seu paletó pra mais perto. Sua língua, com gosto de cerveja, se enroscava violentamente com a minha e ele apertava meus ombros com força.

A chuva continuava a descer torrencialmente, e outras coisas começavam a subir. Pontas deslizou as mãos nas minhas costas, apertou minha cintura e me empurrou contra a outra parede. Agora era ele quem estava fazendo as coisas. Lambendo meu pescoço, enfiando a mão no meu cabelo comprido, me deixando abrir suas calças.

Uma luz clara cegou meus olhos bem na hora em que ele ia abrir minha camisa. Saímos correndo na chuva espalhando água pra todos os lados. James tentava abotoar as calças e eu vestir meu terno, antes jogado no chão molhado. Era só um maldito carro e seus faróis. Andamos os metros restantes até o trabalho. Quer dizer, cambaleamos, chutamos poças de água um no outro, rimos, corremos e brincamos até avistarmos o prédio do nosso trabalho. Quando chegamos no carro, ele explodiu numa gargalhada. Sacudi a cabeça tentando secar um pouco o cabelo.

- Assim você parece um cachorro – disse.

- Au – lati entrando no carro. Pontas riu de novo. – Você fica idiota quando bebe – comentei.

- Só eu?

- Eu faço coisas idiotas quando bebo. É diferente.

- A Lily vai me matar – ele falou encostando a cabeça no volante.

- Por que?

Pontas levantou a cabeça e me encarou, bêbado e sério.

- Não acredito que você não saiba...

- Ah. Bom, aquilo não foi nada... sério. Foi?

- Pra mim traição é sempre sério.

Ele dirigiu em silêncio até meu prédio. Não sabia direito o que fazer.

- Quer... subir? Trocar de roupa, não sei – falei antes de abrir a porta. Lá fora ainda fazia um frio danado e eu não queria sair do carro. Ele me olhou por um tempo antes de responder:

- Hoje não.

- Certo. Quem sabe na quinta? – E apesar do meu tom interrogativo, aquilo pra mim soava mais como uma afirmação. Corri até a frágil proteção de um toldo rasgado e vi o carro virar a esquina, espalhando lama para todos os lados.

"E eu nunca amei você como ela
Embora a gente precise encontrar o tempo
Somente fazermos essa merda junta"

N/A: Ok, me matem por isso ainda não ser o final. Sexta que vem eu posto o resto, juro!