Estava amarrado assim como os outros, os cabelos sujos de sangue espalhados pelo peito nu, os olhos fechados em uma tentativa de descanso, mentira, gritou a voz dentro de si, mas não deu ouvidos a ela. O rosto cansado e sujo, suado e exausto, triste realidade daqueles condenados por se acreditar em algo, quem disse que precisava acreditar. A voz já o irritava, mas não conseguiu forças para gritar em resposta. Seus pensamentos vagavam distantes dali, mesmo com a dor que sentia.
Lembrava se dela, mas sabia que não deveria pensar, só pioravam as coisas ali. Abriu os olhos. Observava vagamente o local onde se encontrava. Desde o teto quase não visto pela distancia, até o chão também muito distante por estar suspendido naquele castigo que já durava horas, dias, semanas, não sabia o tempo, e ele também já não importava. Vai continuar a mentir, você é patético. Fechou os olhos e respirou fundo. Abriu novamente a se concentrar na sala onde se encontrava, triste pensar em se concentrar em um lugar tão podre e morto quanto aquele, mas de certo uma forma de não pensar nela. Nossa uma grande verdade em pelo menos 2h, mas sabe que também não funciona. Bufou voltando a dormir, ou pelo menos tentar. Ali sempre que se adormecia podia ver-se os piores sonhos, e lhe acontecer os piores pesadelos.
Sonhou em sair dali, ajudando seus amigos e sendo ajudado até mesmo por aqueles que foram inimigos, os poucos que conseguiram tal liberdade, por amor a justiça, mesmo que fosse uma justiça diferente da sua. Justiça? Não sabia que você tinha algum ideal. Tomou um caminho diferente dos outros, sabe-se lá o por que. Quer procurá-la seu ignorante, vai mentir em sonhos também? Caminhou até atingir novamente aquele caminho, há tanto tempo esquecido. Em bem verdade o conhecia como a palma de suas mãos feridas, mas esquecido sim para o tempo em que o tomara pela primeira vez.
E novamente, como já sabia aquelas lembranças voltavam em um turbilhão, pode parecer uma coisa simples, afinal você sabe que já esteve ali, e que as coisas não foram tão ruins assim, mas era a magia daquele lugar: Ferir as pessoas em lembranças passadas, não sabia exatamente como explicar o que sentia, mas apenas sentia.
Tinha por volta de seus 13 anos, acabara de ser declarado cavaleiro, o rosto jovem a chamar a atenção dos olhares aspirantes, fossem os masculinos por se sentirem irritados, ou os femininos pelos motivos de sempre. Não a via dali, em bem verdade como poderia ver alguma das amazonas se nunca tiravam as máscaras? Concluiu o giro de 360º, e a encontrou, geralmente as aspirantes continuavam com o mesmo uniforme que o da infância, o lenço era impossível de esquecer. Num primeiro momento queria correr até ela, mas como sempre já mais poderia fazer isso. Não era uma pessoa comum, depois daquele dia com a armadura moldada ao corpo, impossível não ter certeza.
Aproximou-se com cautela, a passos lentos e firmes que todos os cavaleiros da elite deveriam manter. Queria saber o que dizer, como agir perto dela, era tão mais fácil antes, porque será que em menos de 5min, tudo parecia mais apertado que o normal, ou difícil que o normal. Ouviu a voz familiar de um dos companheiros de treino, o sotaque a denunciar o italiano. Conversavam tão simples e calmamente, de fato Alonzo tinha se tornado cavaleiro de câncer antes dele, mas como conseguia falar com as pessoas como se não fosse nada além de uma pessoa normal?
Viu-se lançado aquele turbilhão, porque afinal de contas estava tentando se comunicar com ela, afinal ele era o guerreiro mais forte, ele quem teria de morrer porque ela não tinha capacidade nem força o suficiente para ser se quer metade do que ele estava destinado a ser.Viu-se lançado aquele turbilhão, porque afinal de contas estava tentando se comunicar com ela, afinal ele era o guerreiro mais forte, ele quem teria de morrer porque ela não tinha capacidade nem força o suficiente para ser se quer metade do que ele estava destinado a ser. E que mau gosto tinha ela com relação a escolhas, não via em nada algo que o italiano tinha de melhor que ele, sendo assim ela quem tinha problemas não ele.
A imagem mudou, estava novamente sentado sozinho, no mesmo lugar em que costumava treinar, no mesmo lugar onde ela fora atacada, no mesmo lugar em que se permitiu ter medo de se aproximar. Não tinha mais os 13, tão pouco os 15 em que ela acreditava. 18 anos e sem muito que mudar além do tamanho. Novamente sentia-se nervoso perto dela, inseguro, frustrado. Novamente aquela reação estranha, ela já era uma amazona bom proveito, pois não era melhor que ele. De fato também mudará bastante desde a última vez que se viram naquele lugar, e por um acaso 10 anos não deveriam mudar alguém, não era nada muito grandioso. Queria dizer algo inteligente, para que se ela não tem capacidade para lhe dizer algo do tipo.
Sentiu raiva, e raiva naquele lugar é a última coisa que se pode ser sentida. Sentiu raiva por se deixar cair naquelas armadilhas tão pequenas e baixas. A raiva aumentava conforme o cosmo se propagava nas paredes onde os grilhões estavam presos. E como sempre via acontecer aos outros os grilhões se partiram. Viu a queda impossível de se deter, quantos metros até o chão e a pior dor de sua vida até ali 10, 20. Pouco importava, iria voltar para ali mesmo, dor a mais, dor a menos, ainda estava vivo, e ainda sofreria, mas com toda certeza não por lembranças.
Via uma pequena luz que cada vez mais se alargava, pouco importa não vou vê-la de novo. Não escutou o grito de seus amigos, à uma hora dessas sem voz, sinto por isso, mas o que podíamos fazer fizemos. Sentia o corpo doer e o nariz sangrar com o cheiro do perfume de flores, estou de volta, as ilusões estão piores. Ouvi-a o grito dela tão próximo de si, chorou. Era a única coisa que poderia fazer por eles. Sentiu o toque macio de suas mãos sobre seu rosto ferido, e depois mais nada alem de um novo turbilhão e o fim de seus sentidos.
