Cap. 2

A Voz do Anjo Marítimo

- Não precisa se preocupar, eu posso me virar sozinha! – sou derrubada da cama por um monte de roupas.

- Ah, desculpe! Você está bem? – Mei se aproxima com um sorrisinho e segura um bolo de cima de mim – Eu não me sinto incomodada. Vou te ajudar no que precisar, a começar pelo vestuário. – fala sério... O guarda-roupa do quarto dela, abaixo do convés e no fim do longo corredor depois de uma escadaria atrás da porta perto do timão, é cheio de vestidos de luxo de todos os países! Antes eu tivesse um senso de moda tão bom...!

- Ah, é sério! Eu estou bem assim. – ela me olha de cima a baixo.

- Você está com um vestido de seda, o calor vai te matar!

- E o que você sugere que eu vista? – sento novamente na cama e cruzo os braços.

- Para um membro do Star Gold o melhor é sempre algo fresquinho, então... – ri. Ela dá medo às vezes!

Em alguns minutos troco os saltos por sapatilhas, seda por algodão e solto o cabelo molhado. Devo admitir: não está ruim. Agora posso até respirar sem o espartilho! Um chapéu branco, a maquiagem pesada vai embora com muito algodão e água pia abaixo, além dos brincos, pulseiras, o anel, a gargantilha serem guardados, e...

- Não! – coloco a mão sobre meu colar dourado em formato de coração – Não precisa tirar isto. Eu gosto dele!

- Tem a foto de alguém especial aí? – respinga perfume sobre meus ombros nus – Seu namorado?

- Eu não tenho namorado, nunca tive nenhum!

- Não? Sério? – surpreende-se – Você é tão linda!...

- Obrigada... É que isto foi presente da minha mãe. Ela disse que quando eu achasse alguém especial na minha vida eu deveria colocar sua foto junto da minha para carregar perto do coração. Por enquanto, ele está vazio...

- Ah, por enquanto! – ajuda-me a levantar – Então, veja dentro dos meus olhos, azuis nos castanhos. – só escutei isto antes de uma declaração – Sempre quis ter uma amiga que pudesse passar um tempo longe da biblioteca, como a Sheska. Eu vou te arranjar seu amor perfeito e serei a sua amiga a partir de agora, então pode contar comigo!

- Puxa... Obrigada Mei, eu acho que era justo o que estava precisando! – rimos.

- Terra à vista! – anunciam. Damo-nos as mãos e subimos. Os piratas estão alinhados e o capitão observa o horizonte com uma mão na testa e um pé sobre a proa.

- Ótimo, chegaremos logo ao nosso destino! – vira-se e paralisa assim que me vê. Preciso começar a fazer cara feia para ver se ele reage e fecha a boca – Nossa, que mudança? É você mesma?

- Claro que sou eu! Está querendo me irritar, é? – que baixinho chato!

- Agora que se arrumou e tirou aquela bagagem que vocês chamam de "se vestir com classe", talvez eu consiga te vender por um bom preço. Pode se apresentar em um circo! – ri.

- "Eu vou matar ele, eu vou matar!" – bufo – "Mas talvez seja melhor ir sem meu colar!" – guardo-o no bolso.

Assim que desembarcamos desço devagar logo atrás de Edgar, que praticamente me empurra para sua frente e vai segurando meu braço. Sheska e Mei acompanham acenando para os que as cumprimentam pela frente.

- "Este reino não é muito diferente do qual vivia; mas os aldeões são mais asseados!"

Entramos em um albergue elegante e com pintura fresca na porta de duas aberturas. Pela janela vejo alguns clientes paquerando garçonetes, com decotes do tamanho do enorme busto! Com o canto dos olhos posso ver os piratas entregando saquinhos amarrados e cheios de alguma coisa para um homem de cada família.

- Ei, Armistrong, me vê o de sempre! – Edgar pede ao gigantesco barman de bigode. Logo que ele me focaliza seu sorriso some depois de servir um copo de cerveja leve, e sua surpresa traz alguns dos olhos alheios para cima de mim e um medo fulminante meu – O que é? – encara-me e volta os olhos para ele.

- Oh, ela acaso é a sua pequena Edgar? – alguns homens começam a rir quando ele cospe a bebida.

- Não! – dizemos ao mesmo tempo e nos encaramos. Qual é a do barbudo sorridente?

- Ela é uma ex-servente dos militares do rei Roy que peguei quando atacamos um navio pequeno da frota. – sim, e o troçinho aqui pode te dar um apelido também?

- E qual é o seu nome, gracinha? – diz um homem do trio que chega perto. Os dentes indicam alcoólatra!

- Wendy!... – sorrio no mesmo tom de "Parece, mas não sou inocente!".

- Wendy é um bonito nome! – escuto levemente Edgar rir.

- "Será que ninguém neste boteco tem uma faca?"

- Você gostaria de dar um passeio conosco? – de repente a face dele muda e se põe frente a mim.

- Vocês não têm nada melhor para fazer? – segura meu pulso – Venha comigo! – deixa o copo e me puxa.

Paramos na frente de uma idosa com cachimbo e um vestido rendado, que abre um largo sorriso ao vê-lo e deixa de lado as garotas por volta da minha idade com quem falava. Ele tira um saquinho igual aos que foram entregues por aí e, com outro sorriso, entrega para ela com delicadeza.

- "Que diabos têm dentro desses malditos saquinhos? Macumba?"

- Velha Pinako, eu quero que você fique com esta garota. – empurra-me, desfazendo o sorriso.

- "Sim, ótimo!... Já estou cansada: tenho cara de carne de segunda, que passou da validade e está prestes a ser vendida mais barato?" – a senhora vira meu rosto, várias vezes, aperta de leve minhas mãos e analisa meus seios.

- Não a quero! – encara Edgar e assopra a fumaça do cachimbo. Quando também olho na mesma direção, o vejo sentado e confortavelmente rodeado de prostitutas. Os piratas, bebendo, olham de longe enquanto Sheska negocia seus livros. Do mesmo jeito, a maioria das pessoas que escutam a resposta começa a rir.

- "E qual é a graça? Espera um pouco... Ele estava querendo...! Ah, filho da mãe!"

- Mas ela é uma ex-servente da milícia e tenho certeza de que ainda é virgem!

- E como é que você sabe? – escuto os outros rirem mais alto – "Droga! Saiu sem querer! Por que fui falar?"

- Isto não importa! Como pode esperar que eu aceite uma garota que nem sabe se arrumar direito?

- "Minha senhora, a escolha não foi minha e eu nem sonharia em me vestir feito uma vagabunda!"

- E ela é... – assopra outra vez a fumaça e me olha de novo antes de voltar-se para ele – Fininha...

- Fininha? – se distância das que se consideram mulheres – Como assim "Fininha"? Ela é... – aponta com a mão e pára quando me vê de braços cruzados e batendo um pé no chão – De qualquer jeito... – volta a se encostar às outras – Não poderia usá-la para alguma coisa? Faxineira já serve!

- Faxineira? – ele ri da minha indignação. A idosa sorri e sacode o cachimbo.

- Depende... O que ela sabe fazer? – ele me olha.

- Ah, eu sei cantar e dançar... Não muito bem, mas... – ela segura meu braço.

- Muito bem, vamos tentar!... – leva-me direto para um palco ao lado. Um pianista começa a tocar.

- "Ai, e agora? Não estou preparada! Eu sei alguma música que não seja de ninar?... Espera, acho que... A que a minha mãe me ensinou desde criança; pode servir."

(Motherland - Encerramento de Full Metal Alchemist)

- Wendy, você canta divinamente! – Mei me abraça depois de atropelar a platéia em pé.

- Que voz de anjo você tem, e nem nos contou! – Sheska elogia. Sorrio animada; pelo menos lembrei a letra!