Capítulo Sete

- Kohaku, que faz aqui?

Em seguida deu-se conta de que tinha empregado um tom seco e pouco acolhedor, quase acusatório inclusive. E viu no rosto de seu noivo que tinha lhe magoado.

- Já se passaram três semanas, Rin. Pensamos que gostaria de ver alguém - contestou Kohaku ao mesmo tempo em que se alisava o cabelo - E, a verdade, seus pais ficaram preocupados depois de seu último telefonema.

- Por que? -perguntou ela, forçando-se a sorrir - Não vejo nenhuma razão. Disse que estava bem.

-Talvez foi isso o que os alarmou.

A preocupação de Kohaku a fez se sentir culpada.

- Por que isso iria preocupá-los? - respondeu Rin enquanto ele tirava o casaco.

- Nenhum de nós sabe o que faz aqui na verdade... nem o que pretende conseguir se isolando de todo mundo.

- Já expliquei mil vezes - contestou ela com voz cansada. Maldição! Era sua vida! Por que tinham que questionar todas suas decisões?

Em qualquer caso, optou por comportar-se educadamente.

- Sente-se, por favor. Quer algo? Chá, café?

- Não quero nada, obrigado - Kohaku se sentou.

Sentia-se fora de lugar com seu traje cinza, sua camisa branca de Oxford e sua clássica gravata. Não lhe tinha ocorrido afrouxá-la durante a viagem. Olhou a peça e pensou que a choupana era rústica e que estava demasiadamente isolada. Onde estava a cultura: os museus, as bibliotecas, os teatros? Como Rin podia suportar esconder-se no meio do bosque durante semanas e semanas? Estava seguro de que o única coisa que precisava era alguém que lhe desse um empurrãozinho, e em seguida faria as malas para voltar com ele e para seus pais.

- Que demônios faz aqui durante todo o dia? - perguntou Kohaku, sorridente.

- Já disse nas cartas, Kohaku-kun - Rin se sentou frente a ele- Preciso tempo para pensar, para tentar clarear a mente. Dou longos passeios, leio, escuto música. Desenhei muito. De fato...

-Rin, tudo isso é normal durante uns poucos dias - a interrompeu com impaciência - Mas este não é lugar para você. É fácil ler nas entrelinhas que está desenvolvendo uma espécie de gosto romântico pela solidão, por viver no meio do nada.

- Kohaku, te asseguro que estou contente - insistiu ela.

Não se o parecia. Em realidade, notava-a irritada. Convicto de que podia ajudá-la, deu-lhe uma palmadinha numa mão.

-Pode ser que por enquanto esteja. Mas o que passará dentro de outras duas semanas, quando se der conta de que tudo isto só é um interlúdio? -perguntou Kohaku - Então será tarde demais para recuperar seu posto de professora e matricular-se nos cursos de verão que tinha planejado para o doutorado.

Rin entrelaçou as mãos sobre o colo, para evitar fechá-las em punho sobre os braços da cadeira.

- Não é um interlúdio. É minha vida.

- Exato - a face de Kohaku se iluminou, igual ao rosto de um aluno de raciocínio lento quando conseguia compreender um conceito complexo - e sua vida está em Quioto. Querida, tanto você como eu sabemos que precisamos de mais estímulos intelectuais dos que podemos encontrar aqui. Precisa seguir com seus estudos, com seus alunos. Sei que sente falta. E os cursos que iria dar? E não deu sua palavra sobre o artigo que ia escrever para o jornal.

- Não dei palavra alguma porque não escrevi. Nem o farei – replicou Rin, furiosa, enquanto se punha de pé - E eu não tinha pensado em oferecer nenhum curso; vocês tinham pensado por mim. Como planejaram toda minha vida até agora. Não quero estudar, não quero dar aulas, não quero nenhum estímulo intelectual que não seja eu mesma. Já disse a você e também disse aos meus pais; mas vocês se negam a escutar.

Kohaku piscou, surpreendido por aquela súbita mudança.

-É porque nos preocupamos com você, Rin - Kohaku se levantou e empregou um tom de voz conciliatório. Sabia que Rin não costumava irritar-se, mas também sabia que não tinha forma de fazê-la compreender enquanto não se acalmasse. Não tinha outro remédio além esperar.

- Eu sei que vocês se preocupam muito por mim - disse ela, frustrada - Por isso quero que me ouça e que me compreenda. Ou, se não pode compreender-me, que ao menos aceite minhas decisões. Estou fazendo o que preciso fazer. E não vou voltar, Kohaku - sentenciou, olhando-o nos olhos.

Este ficou sério, como quando expunha um argumento filosófico e ela não concordava.

-Esperava que a esta altura você estivesse cansada desta tolice e voltasse comigo esta mesma noite; mas estou disposto a encontrar um hotel pela região e esperar uns poucos dias.

-Não, Kohaku, você não me entendeu. Estou dizendo que não vou voltar para Quioto. Nunca. Nem agora nem mais adiante.

Por fim tinha dito! Rin sentiu que se liberava de um grande peso, por mais do que pressentisse a irritação de Kohaku.

- Isso é uma tolice. É sua casa, com certeza que vai voltar.

- É sua casa e a casa de meus pais. Mas isso não significa que seja a minha -Rin lhe agarrou as mãos.

Estava tão contente com seus planos que queria compartilhá-los com ele.

- Por favor, tente compreender. Aqui sou feliz. Sinto-me à vontade, é meu lugar. Nunca me tinha sentido assim nunca. Até consegui um trabalho. Vou desenhar os gráficos de um jogo de computador. É divertidíssimo, Kohaku-kun. E vou comprar uma casa pelos arredores. Minha própria casa, perto do mar. Vou ter um jardim e vou aprender a cozinhar e...

-Ficou louca? – atalhou Kohaku. Agora foi este quem agarrou e apertou as mãos de Rin. Não tinha captado o tom alegre de suas palavras; só seu sentido, ainda que para ele fosse tudo uma loucura - Jogos de computador? Jardins? Está ouvindo o que disse?

- Sim, pela primeira vez em minha vida é o que estou fazendo. Está me machucando, Kohaku.

- Estou te machucando? –replicou este, quase gritando, agarrando-a agora pelos ombros - E o que acontece com meus sentimentos? Com o que eu quero? Maldita seja, Rin, tive muita paciência com você. E de repente, não se sabe por que, decidiu mudar nossa relação. Um dia somos noivos e no dia seguinte já não o somos. Não te pressionei, não te forcei para que nos casássemos imediatamente.

Rin sabia que tinha parte de culpa. Tinha-o ferido de modo desnecessário por não ter se expressado bem.

- Kohaku, eu sinto. Sinto muito. Não era uma questão de tempo. Era...

- Permiti esta fuga incompreensível - prosseguiu ele, encolerizado – Te dei liberdade, pensando que era isso o que queria antes que nos casássemos. E agora me vem com jogos de computador? Com casas no bosque?

-Sim, Kohaku...

Estava a ponto de chorar, tinha posto uma mão sobre o peito dele, não para empurrá-lo, apenas para acalmá-lo. De repente, o cão entrou pela janela, feito uma fúria, mostrando os caninos e grunhindo.

Lançou-se sobre Kohaku e o derrubou. A som da mesa se quebrando soou quando os dois caíram por cima dela.

Antes que Rin pudesse fazer alguma coisa, Kohaku estava no chão, totalmente pálido, com o cão enorme em cima de seu pescoço.

- Não, não! -gritou ela. O terror lhe deu energia e decisão. Atirou-se em cima deles e abraçou o pescoço do animal com ambos braços - Não o machuque. Ele não estava me machucando -disse.

Notava a tensão do cão, ouvia seus rosnados, ameaçantes como trovões tormentosos. Começou a imaginar as mordidas, o sangue, os gritos e, sem pensá-lo duas vezes, interpôs a cabeça entre ambos e olhou ao cão demônio aos olhos.

- Não estava me machucando - repetiu com voz calma - É um amigo. Está irritado, mas nunca me machucaria. Deixe-o, por favor.

O cão grunhiu de novo, algo brilhou em seus olhos, quase humano. Ron apoiou uma bochecha contra a dele e lhe acariciou o lombo.

- Calma, não aconteceu nada -disse ao mesmo tempo em que lhe dava um beijo - Já passou. O animal saiu de cima dele mas continuava entre os dois. – Sinto muito, Kohaku - desculpou Rin enquanto se punha de pé, sem deixar de acariciar ao cão - Está bem?

- Deus! - exclamou histérico, ainda aterrorizado. Mal podia respirar. Faltava-lhe ar e tinha o peito dolorido pela investida do bicho - Afaste-se disso, Rin. Afaste-se. Vá pra cima - adicionou. Ainda que tremessem as mãos, agarrou um lustre para atacar o cão.

- Não se atreva a tocá-lo! – gritou ela, indignada, ao mesmo tempo em que lhe tirava o lustre – Ele só estava me protegendo. Pensava que você estava me atacando.

- Te protegendo? Por Deus, Rin é um cão que parece com o demônio!

Jogou-se para trás quando Kohaku tentou agarrá-la, depois se deixou levar pelo instinto e disse a primeira mentira de sua vida:

- Como pode achar que é um demônio? Não seja ridículo! É um cachorrinho - assegurou Rin, a qual teve impressão de notar um certo desagrado na expressão do animal - Meu cachorro. E fez justo o que se espera de um cachorro bem adestrado. Acreditava que estava em perigo e me protegeu - insistiu.

- Um cachorro? - repetiu Kohaku, pouco convicto – Tem um cachorro, isso é um cachorro? -perguntou, olhando-a nos olhos.

-Sim - disse Rin, incômoda com a mentira - E... como vê, é impossível estar mais segura do que com ele a meu lado.

- De que raça é?

- Não sei bem - contestou ela - Mas é um companheiro maravilhoso e é evidente que não corro nenhum perigo ainda que esteja sozinha. Se não tivesse intervindo para acalmá-lo, teria te mordido.

- Parece um lobo - insistiu ele.

- Vamos, Kohaku - Rin se obrigou a jogar uma risada - Alguma vez ouviste que os lobos entrem saltando pela janela e obedeçam as ordens de uma mulher? É maravilhoso, e fiel como um labrador -adicionou enquanto seguia acariciando-o.

O cão lhe lançou um olhar de desagrado e depois se afastou, até sentar-se junto à lareira.

- Viu? -adicionou Rin, aliviada.

- Nunca disse que queria ter um cachorro. Acho que sou alérgico - comentou Kohaku enquanto preparava um lenço para o primeiro espirro.

- Nunca te disse várias coisas - replicou ela, cruzando os braços - e o sinto. Sinto não saber o que dizer nem como dizê-lo até agora.

- Importa-se em deixá-lo fora? - perguntou Kohaku, que não podia deixar de olhar de lado para cão.

Colocar ele para fora? Tinha vontade de rir, mas se conteve. O cão demônio entrava e saía como lhe agradava.

- Ele não fará nada, prometo. Venha, sente-se. Ainda não passou o seu susto.

- Elementar -murmurou Kohaku.

Teria pedido um copo de brandy, mas supôs que Rin teria que abandonar o salão para servir, e não queria arriscar-se a ficar a sós com aquela besta dos olhos que lhe arrepiavam os cabelos da nuca.

Como se pretendesse confirmar o acertado de tal decisão, o cão lhe ensinou os dentes.

- Kohaku-kun, sinto muito - repetiu Rin enquanto se sentava frente a ele - Sinto não ter sabido antes o que queria, sinto não ser o que você esperava de mim. Mas não posso fazer nada ao respeito, não posso voltar a ser a que era.

- Rin-chan, seja sensata - pediu ele, ao mesmo tempo em que alisava o cabelo.

- Estou sendo sensata. Gosto muito de você, Kohaku. Foi um amigo maravilhoso para mim. Mas seja sincero: não está apaixonado de mim.

- Claro que te amo, Rin.

- Se estivesse apaixonado por mim de verdade, não teria aceitado que parássemos de dormir juntos –respondeu ela, esboçando um sorriso afetuoso - Kohaku, fomos bons amigos, mas como amantes fomos medíocres. Não teve paixão entre nós.

Discutir esse assunto tão abertamente o incomodava. Estava nervoso, teria se levantado para passear pelo salão, mas a presença do animal o intimidava.

- Por que tem que ter?

- Não sei por que, mas sei que é necessária - contestou Rin enquanto lhe ajustava o nó da gravata - Você é o filho que meus pais sempre desejaram. É amável, inteligente, me proporcionaria estabilidade. Sempre quiseram que nos casássemos, acreditavam que era o melhor para nós dois... e te convenceram do mesmo. Mas, é isso o que quer? Para valer, Kohaku?

- Não posso imaginar que não faça parte de minha vida - respondeu ele depois de uns segundos de reflexão.

- Sempre farei parte da sua vida- assegurou Rin. Depois aproximou a face e lhe deu um beijo nos lábios.

O cão prateado se levantou no mesmo instante e rosnou. Rin se afastou e olhou Kohaku nos olhos. - Sentiu o sangue ferver ou o coração te bater descompassado? Não, Kohaku. Não o sentiu porque não me deseja como deseja um homem apaixonado. É questão de paixão – adicionou depois de beijá-lo, sem deixar-lhe responder.

- Se voltar, poderíamos tentar - propôs Kohaku - Não quero te perder, Rin. Você é importante para mim – adicionou quando ela de negou com a cabeça.

- Então...deixe-me ser feliz. Mostre que se importa comigo e aceite o que quero fazer.

- Não posso te impedir– respondeu Kohaku, resignado - Você mudou Rin. Em três semanas mudou muito. Talvez seja feliz, ou esteja se julgando estar feliz. Seja como for, seguiremos a diante caso mude de idéia.

- Sei.

- Preciso ir. O aeroporto está longe.

- Posso... posso te oferecer um jantar. Se quiser, pode passar a noite aqui e voltar amanhã.

-É melhor que eu vá agora - Kohaku se pôs de pé depois de olhar com precaução ao cão - Não sei que pensar, Rin, e não sei que vou dizer aos seus pais. Tinham certeza de que voltaria comigo.

-Diga a eles que os amo. E que estou feliz.

-Direi... e tentarei convencê-los. Mas tendo em conta que nem eu mesmo acredito em tudo... – Kohaku voltou a espirrar - Não se levante, eu saio sozinho... E coloque uma corrente nessa besta, se assegure de que não perca a cabeça e...

Espirrou de novo e teve a impressão de que o cachorro estava rindo dele. O que era ridículo.

- Te ligarei - conseguiu dizer, pouco antes de sair do refúgio.

- Eu o magoei - disse Rin ao cão depois de suspirar. Depois apoiou uma bochecha sobre a cabeça do animal enquanto ouvia afastar o carro de Kohaku - Mas era inevitável. Como era inevitável que rompêssemos... Você foi muito valente. E deste ao pobre um susto de morte. A mim também, sabe? Entrou como uma fera, mostrando os dentes... Quero você junto de mim, é todo tão simples... -adicionou, enroscando-se contra o cão.

E assim permaneceram muito, muito tempo, olhando as chamas da lareira, o cão escutando a respiração de Rin.

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Sesshoumaru a manteve perto e ocupada durante as três semanas seguintes. Rin adorava o trabalho, o qual facilitava retê-la a seu lado. Era verdade que podia ter feito quase todos o desenhos por sua conta, na choupana de Kagome, mas não tinha negado a ir à de Sesshoumaru quando este o tinha pedido.

Só queria... tê-la sob vigilância, disse-se. Observá-la, para decidir o que fazer a seguir. E quando fazê-lo. Não é que desejasse sua companhia Sempre tinha preferido trabalhar só e, com certeza, não precisava tê-la diante para que o distraísse com seu aroma e sua delicadeza. Nem sua conversa, interessante e agradável. E também não precisava para nada as bolachas e os docinhos que lhe levava com freqüência.

Na metade das vezes estavam um pouco queimados, mas incrivelmente doces. Não é que não pudesse passar sem ela, dizia-se todos os dias enquanto esperava ansioso sua chegada. Se ia vê-la pela noite, em forma de cão, só era porque sabia que estava sozinha e que ela gostava dessas visitas. Pode ser que ele gostasse de deitar-se ao seu lado na cama, escutando-a ler em voz alta qualquer um de seus livros, vendo como dormia com os óculos postos e a luz acesa e ficava olhando-a enquanto dormia, não era porque ela fosse tão preciosa e frágil. Era porque Rin era um enigma que precisava resolver. Seu coração; tratava de convencer-se, estava bem protegido. Sabia que o seguinte passo estava próximo; o momento em que deixaria nas mãos dela a decisão sobre o futuro entre ambos.

Mas antes, Rin tinha que saber quem era. Podia ter-se deitado com ela sem revelar sua identidade. Tinha feito antes com outras mulheres. Mas não tinha visto razão alguma para abrir-se a elas. Seus poderes, seu legado, sua vida eram coisa dele. No entanto, talvez não sucedesse o mesmo com Rin. Ela também tinha poderes, um legado que desconhecia. Também teria que lhe dizer isso chegado o momento; teria que a convencer do que corria por seu sangue.

O que depois fizesse a respeito, dependia só dela. A decisão de informá-la, da mudança, sim era dele. Mas seguia protegendo o coração. Uma coisa era desejá-la e outra muito mais arriscada era amá-la. A noite do solstício, mágica entre todas as noites, preparou o círculo. No coração do bosque, situou-se no centro do círculo de pedras. O ar cantava a seu arredor. Era o doce canto dos antepassados, da melodia da juventude e da tensão com a qual o olhavam e esperavam...

O canto da esperança. As velas eram brancas, delgadas, igual que as flores que jaziam entre médias. Levava uma túnica da cor da lua, cingida com uma fita com jóias. O vento espalhou o cabelo quando ergueu a cabeça para receber o último raio de sol, que se refletiu nas árvores, em todos seus ramos, brilhantes como espadas ardentes. Sesshoumaru viu o vôo de uma águia branca, que acabou posando-se sobre a pedra mais alta.

- Pai, eu conheço teus desejos, mas se eles me governam, poderei eu substituir-te e governar com sabedoria? – perguntou-lhe Sesshoumaru, saudando-o com formalidade, com uma reverência. Depois ergueu o rosto e os braços, e exclamou - Chamo ao fogo, chamo ao vento!, clamo aos dois elementos!

Ato seguido, o vento começou a soprar com força, em espiral, e duas colunas de fogo gelado brotaram do solo. Os olhos começaram a iluminar-se, como duas chamas gêmeas.

-Pelo sangue dos meus!, Pelo poder de minha mão! Ela é minha e a reclamo! - adicionou.

Depois virou e acendeu cada uma das velas chasqueando os dedos, até que as chamas se converteram em arcos. O vento soprou ainda mais forte, uivando como uma matilha de lobos, carregado a fragrância das flores e do mar. Colou-se sob sua túnica, saboreou nele o poder da noite.

- Lua cheia, lua branca, ilumine o caminho! Guia-a e trá-la a meu lado! Que conheça seu destino! - proclamou.

Baixou os braços e olhou, através da noite e das árvores do bosque, para a cama na que ela dormia intranqüila.

- Rin -a chamou Sesshoumaru com um suspiro - É a hora. Não te farei mal. É a única coisa que te prometo. Não precisa acordar. Siga sonhando, estou te esperando.

oOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOooOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOo

Algo... chamava-a. Podia ouvi-lo: um sussurro na cabeça, uma pergunta. Girou-se sobre o colchão em procura da resposta, esticou os braços e se levantou da cama. Levava um camisão de seda que lhe acariciava as coxas. Depois se pôs uma bata azul, e se calçou as sapatilhas. Começou a andar.

Envolta em um sonho real, desceu as escadas, passeando os dedos pelo balaústre. Brilhavam-lhe os olhos, seus lábios sorriam, ia encontrar-se com o homem a que amava. Pensou nele, em Sesshoumaru, enquanto saía da choupana e se adentrava no nevoeiro. Não via as árvores, nem o caminho do bosque. O ar parecia suspirar, depois dividir-se. Avançou entre moitas sem medo, para essa cortina branca, conduzida pela lua cheia, que presidia a noite no céu, e pelas estrelas, brilhantes como pequenos cristais.

As árvores tremiam com o vento. Ouviu o canto de um águia e encaminhou-se sem pensar para o som. Até que a viu, grande e prateada como o nevoeiro, com um medalhão dourado no peito e um brilho de seus olhos também dourados. Era como andar por um conto de fadas. Parte dela era consciente do que sucedia, abraçava a magia da situação, enquanto outra parte seguia adormecida, ainda não estava preparada para ver e saber. Mas o coração batia com força e constância e seus passos eram ligeiros e velozes. Via olhos que a olhavam entre os ramos, ouvia risos alegres procedentes das samambaias.

O nevoeiro se desvanecia passo a passo, metro a metro, guiando-a. E a água cantava com tranqüilidade.

Viu as luzes brilhando, chamas que acendiam a noite. Cheirou a mar, a cera, a flores. Seu sorriso se alargava à medida que se aproximava ao círculo de pedras. O nevoeiro tremia ao redor, mas não se aproximava das velas e das flores. Então o viu no centro, de pé, com uma bata branca como o luar, com o brilho das jóias reluzindo.

O coração deu um pulo ao vê-lo, estremeceu-se mais do que tinha pensado, mas Sesshoumaru seguiu adiante:

- Quer entrar, Rin? – pediu-lhe, estendendo-lhe uma mão. Uma parte dela o desejava, outra vacilava.

Mas seguia sorrindo.

- Com certeza -decidiu finalmente. E entrou no círculo, entre as pedras.

Algo vibrou no ar, por sua pele, dentro de seu coração. Ouviu sussurrar às pedras. As luzes das velas se tremularam, depois cresceram de novo. Roçou os dedos nos de Sesshoumaru, olhou-o totalmente confiante.

- Sonho com você cada noite - lhe disse suspirando - e te desejo cada dia- adicionou.

- Não compreende as vantagens nem os inconvenientes - Sesshoumaru lhe pôs uma mão no ombro - E deve compreender.

- Sei que te desejo. Já me seduziu, Sesshoumaru.

- Eu também tenho necessidades -respondeu este, com certa sensação de culpabilidade.

- E a mim? Não precisa de mim? - Rin lhe fez uma carícia, suave como sua própria voz.

- Te desejo - reconheceu ele. Confessar que precisava dela era demasiado arriscado.

- Estou aqui -o olhou aos olhos - Não vai me beijar?

- Sim - Sesshoumaru se inclinou, sem deixar de olhá-la aos olhos – Lembre-se disto, Lembre-se disso se puder - adicionou.

Depois lhe roçou os lábios com a boca, uma vez, e outra. Saboreou-a. Depois a mordiscou.

Quando suspirou de prazer, Sesshoumaru a abraçou com força, desfrutou da magia, do momento, do corpo que estava estreitando. Suas línguas se uniram, esquentaram-lhe o sangue, aceleraram-lhe o coração.

As duas colunas de fogo gelado ardiam adornando-o por ambos lados.

- Toque-me, Sesshoumaru. Tenho te esperado por muito tempo.

Possuí-la ali, nesse instante. A primitiva necessidade de penetrá-la sem esperar mais batalhava com seu sentido do dever. E daí se ela soubesse? O que importava o que ele pudesse ganhar ou perder?

Só existia esse presente ardoroso no que a estava abraçando.

- Faça amor comigo- insistiu Rin depois de separar a boca e deslizar-se para seu pescoço. Já sabia que seria um ato fabuloso, veloz, potente. E o desejava desesperadamente. Sesshoumaru lhe tirou a bata de um brusco movimento e lhe fincou os dentes sobre a pele nua dos ombros.

- Sabe quem sou? - lhe perguntou.

- Sesshoumaru - respondeu ela.

- Sabe o que eu sou? - adicionou ele depois de dar um passo atrás, olhando-a aos olhos, alucinados pela paixão.

- Sei que é diferente - foi tudo quanto pôde contestar.

- Você tem medo de descobrir -lhe disse Sesshoumaru. E se isso lhe dava medo, quanto se assustaria ao conhecer o sangue que corria por suas veias? - Ainda não está preparada para entregar-se a mim. Nem para aceitar-me.

- Por que não é suficiente ainda? - perguntou Rin, tremendo.

- A magia implica responsabilidade. Esta noite, a noite mais curta do ano, ela dança por todo o bosque, canta nas colinas das Terras do Oeste, cavalga nos mares e corta o céu. A noite está em festa e tudo é possível. Mas é o amanhã que importa - Sesshoumaru acariciou o cabelo e deu um beijo em ambas as faces- Amanhã, Rin Murray dos O'Meara, lembrará do que quiser recordar. E a decisão será sua.

Sessshoumaru deu um passo atrás e abriu os braços.

- A noite passará rapidamente. Brilhante. Depois chegará aurora, fiel amante - recitou sem deixar de olhá-la aos olhos - Que seu sangue e meu sangue sejam um só, que a magia desta noite nos reúna... Que durmas bem, Rin - finalizou depois de agachar-se para agarrar um ramo de flores e entregar-lhe. E com um estalo do polegar provocou um relâmpago que a devolveu à cama.


Bom pessoal, postei dois cap no mesmo dia pq amanha eu to viajando p passar o ano novo em outra cidade!

descupem parar logo ai, mais garanto que a espera valerá a pena!

se der tempo, amanha eu posto mais um (não garanto nada!!!)

UM ÓTIMO FIM DE ANO A TODOS!

SE DER COMENTEM (QUERO COMEÇAR 2009 RESPONDENDO MUITAS REVIEWS!)!

QUE SEJA UM ANO GLORIOSO E DE MUITO TRABALHO E FELICIDADES!

BJOS A TODOS

FELIZ 2009!!!!