Que mais ele poderia dizer para surpreendê-la? Se perguntava Rin. Tinha lhe dito que era um Yokai, o tinha demonstrado e, de algum modo, tinha conseguido que o aceitasse. Depois tinha revelado que também ela era uma Yokai, depois de vinte e sete anos sem sequer suspeitar. Ele tinha demonstrado. E não só tinha aceito, como também lhe tinha parecido algo maravilhoso.
Que mais podia haver? Estava desejando que Sesshoumaru falasse, mas este não disse nada enquanto caminhavam sob o luar, da choupana dela à dele. Conhecia-o o suficiente para saber que quando guardava silêncio dessa maneira era porque não queria lhe dizer nada até que estivesse preparada.
Quando chegaram ao refúgio de Sesshoumaru e entraram, tinha os nervos a flor da pele. Não queria pensar, negava-se a considerar sequer que Sesshoumaru tivesse assumido aquele silêncio logo depois que ela confessara seu amor.
-É tão importante assim? –perguntou Rin num tom tão alegre como forçado.
- Para mim é. Você decidirá se o é para você.
Entrou no dormitório, tocou a parede da lareira com os dedos e uma porta se abriu dando lugar a um cômodo iluminada com uma luz tênue, suave e fria como raios de lua.
- Um compartimento secreto,?
- Nada de segredos - corrigiu Sesshoumaru - Particular. Entre, Rin.
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O fato de que ingressasse naquele lugar era uma prova da confiança que tinha nela. O chão era de pedra, liso como um espelho, as paredes e o teto, de madeira, muito envernizada. A luz se refletia em todas essas superfícies, tremulando como o água.
Tinha uma mesa com uma cumbuca de cristal azul, uma xícara de porcelana, um espelho pequeno e prateada com um asa de ametista. Também tinha uma cumbuca com cristais de diversas cores e uma bola de quartzo se apoiava sobre as filas de um trio de dragões alados.
Que veria Sesshoumaru ao analisar a bola? Perguntou-se Rin. Que veria ela? Virou-se e viu que Sesshoumaru tinha aceso algumas velas, cujas chamas ascenderam no ar, carregado com um perfume indefinido.
Então viu a outra mesa, uma pequena superfície redonda sobre um pedestal. Sesshoumaru abriu a caixa que tinha sobre ela e tirou uma corrente com um amuleto de prata, sustentou-a um segundo, como se estivesse pesando-a, e depois a soltou.
-É uma cerimônia?
Sesshoumaru a olhou distraído, como se tivesse esquecido dela. Mas não a tinha esquecido. Não tinha esquecido nada.
-Não. Está descobrindo muitas coisas, não é verdade, Rin? Me pediu para que não entrasse em sua mente, de maneira que não sei que há dentro dela, que pensa sobretudo disto - respondeu ele enquanto lhe acariciava face - Ainda que posso ver em seus olhos.
- Já lhe falei sobre o que penso e o que sinto.
-Sim.
-Então, quer me explicar o que é isso tudo? –perguntou Rin enquanto tocava o espelho.
- Ferramentas. Só ferramentas -contestou Sesshoumaru - Você também precisará ter as suas.
- Vê coisas na bola?
-Sim.
- E não te dá medo olhar? - perguntou Rin, esboçando um sorriso nervoso - Acredito que eu ficaria com medo.
-O que vemos é somente algo que poderá acontecer.
Rin dava voltas pelo cômodo. Notava que ia ter mudanças. Seu instinto feminino lhe dizia isso, ou o poder mágico que acabava de descobrir nela. Numa caixa de cristal havia mais pedras, minerais, cristais compridos.
- Sabia que viria – comentou Sesshoumaru por fim.
Não se referia ao local que estavam, em sim ao bosque. E Rin o entendeu assim.
-Sabia... o que ia acontecer? - perguntou esta.
-O que podia acontecer. Sempre se pode decidir ao contrário. Ambos tomamos nossas decisões, e temos que tomar mais uma. Você sabe um pouco de seu legado e do meu, mas não tudo. Em meu país, em minha família, há uma tradição. Não é uma questão de casta, ainda que pudesse parecê-lo. O verdadeiro é que cada verdadeiro tempo alguém tem que assumir a direção da família. Para guiar e aconselhar. Para ajudar a resolver confrontos, quando surgem.
Sesshoumaru agarrou a corrente com o amuleto, depois a devolveu ao seu lugar.
- Seu pai leva um amuleto parecido: um medalhão de ouro.
-Sim.
- Porque é o chefe da família?
Era rápida, pensou Sesshoumaru. E ele era tolo por tê-lo esquecido.
- Sim é, até que eleja a um sucessor.
- Você.
- A tradição diz que o amuleto tem de entregue ao filho maior. Mas sempre há uma escolha, e há... condições. Para assumir esse cargo há que ser digno dele.
- Seguro que você é.
- E deve-se desejá-lo.
-Você não o deseja? –perguntou Rin, surpresa.
- Ainda não decidi – Sesshoumaru meteu as mãos no bolso para não voltar a agarrar o amuleto - Vim aqui para ter algum tempo, para pensar e meditar. Quero que seja minha decisão. Nego-me que o destino se imponha.
-Não será uma imposição –Rin sorriu pelo tom solene com que ele tinha falado. Aproximou-se de Sesshoumaru, mas este ergueu uma mão.
- Há mais condições. Se me caso, deve ser com uma mulher com sangue de Yokai, e o casamento deve ser por amor, não por uma questão de obrigação. As duas partes devem casar-se livremente.
-Parece justo -disse Rin - Eu tenho sangue de Yokai e já te disse que te amo.
- Mas se a aceito, minha capacidade de decisão diminui - replicou Sesshoumaru com um tom frio que atravessou o coração de Rin como se fosse uma espada gelada.
- Tua capacidade de decisão, entendo - Rin assentiu com a cabeça enquanto tratava de recompor os pedaços de seu coração, seu orgulho magoado - E sua capacidade de decisão inclui aceitar-me como parte de seu destino ou repudiar-me para reforçar sua idéia de que atua com liberdade, não? Digamos que sou um peso na balança e tem que decidir em que prato colocar-me para ver para onde se inclina.
-Não é tão simples -replicou Sesshoumaru, desconcertado pelo tom displicente que ela tinha empregado - Trata-se de minha vida.
- E da minha - apontou Rin - Disse que sabia que eu viria, mas eu não sabia nada sobre você. Assim eu não pude fazer a minha escolha. Apaixonei-me por você , mas você estava de sobreaviso; estava preparado e tinhas seus próprios planos. Sabia que eu ia amá-lo e-o acusou com amargura.
- Está enganada.
-Sim? Quantas vezes leu meus pensamentos? Quantas veio a minha casa em forma de cão e me escutou falar sobre você? E a mim não me deste a oportunidade de decidir se queria que me espionasse. Sabia que eu cumpria com os requisitos e se dedicou a estudar-me, a examinar-me e valorizar-me.
- Não sabia! - gritou Sesshoumaru, irritado pelo modo que ela analisava seu comportamento - Eu não sabia que cumpria os requisitos até que me contou sobre sua bisavô.
- Para mim é a mesma coisa. Então, até esse momento esteve brincando comigo, ou decidindo se podia me usar como escapatória, em caso de decidir recusar o cargo e o que o destino tinha anunciado.
- Isso é ridículo.
- E de repente se inteirou de que estava lidando com uma Yokai. Me desejava... não me cabe a menor dúvida de que me desejava, e eu não opus a menor resistência. Aceitei tudo o que você decidiu me oferecer, sentido-me agradecida.
Sentia-se humilhada ao pensar nisso agora, recordar como tinha se lançado em seus braços, confiando-lhe o coração, confiando nele.
- Eu me importava com você, Rin. Me importo.
-Sabe o quão insultante isso é? -perguntou esta, pálida, mas com os olhos cheios de ira escura - Sabe o humilhante que é descobrir que sabia que eu estava apaixonada por você enquanto você pesava os prós e contras e tomava duas decisões? Que podia decidir eu? Que me deixaste decidir?
- Tudo o que quiser.
-Não, tudo o que você quis –replicou Rin com firmeza - Sabia perfeitamente o quanto eu era vulnerável quando cheguei aqui, quanto perdida eu estava.
-Eu sabia. Por isso...
-Por isso me ofereceu o trabalho - o interrompeu - E sabendo que eu estava apaixonada de você, sabendo do muito que eu precisava mudar de vida. Depois, quando lhe pareceu um bom momento, me falou sobre quem é e sobre quem eu sou. Ao seu ritmo, Sesshoumaru, sempre ao seu ritmo. E todos meus movimentos eram tal e como você os tinhas previsto. Para você foi um jogo a mais.
-Não é verdade -protestou Sesshoumaru com fervor, enquanto agarrava seus braços - Estava pensando em você. Fiz o que acreditava que era o melhor.
A chacoalhada o lançou três passos trás. Sesshoumaru ficou boquiaberto pelo inesperado empurrão que Rin tinha lhe dado com a mente.
- Maldição, Rin! – prosseguiu ele.
- Eu também não quero o que o destino me imponha -as pernas tremiam ao perceber que empurrara Sesshoumaru com o poder da mente - Isto não é o que você esperava, uma de suas malditas possibilidades. Imaginou que eu ia vir aqui esta noite, que ia escutá-lo e depois cruzaria os braços, inclinaria a cabeça e o deixaria tudo em tuas mãos.
Os olhos brilhavam e a face, não estavam mais pálidas, e sim rubras pela cólera.
- Não exatamente - respondeu Sesshoumaru com dignidade - Mas depende de mim.
- Você que acha! Você terá que decidir o que quer, certamente; mas não espere que eu me sente mansamente enquanto você elege se me aceita ou me recusa. Sempre, toda a vida, a pessoas tomaram as decisões importantes por mim, escolheram o tipo de vida que eu deveria levar. E você fez o mesmo.
- Eu não sou seus pais – replicou Sesshoumaru - Nem Kohaku. As circunstâncias são totalmente diferentes.
- Sejam qualquer sejam as circunstâncias, você tinha o controle e esteve me manejando. Não vou tolerar que siga fazendo isso. Fui comum - reconheceu Rin a seu pesar -Você não pode entender, porque nunca foi. Mas eu fui uma mulher comum e submissa durante toda a minha vida. E não voltarei a ser.
- Rin - Sesshoumaru optou pela calma, tratou de raciocinar - O que eu queria para você é o que você mesma queria.
- O que eu mais queria era que me amasse. A mim, Sesshoumaru, fosse quem fosse e como fosse - respondeu ela enquanto os olhos se enchiam de lágrimas.
-Não chore, Rin - pediu ele, desarmado - Nunca quis lhe fazer mal - assegurou.
Sesshoumaru segurou uma de suas mãos e ela deixou esta ali como um peso morto.
- Agora tenho certeza que não me ama -respondeu com calma. A fúria tinha passado, só se sentia cansada – E isso, porém, é o mais triste. E faz de mim mais patética. Eu lhe disse que te amava e você ...sabe que é verdade. Mas você não pode dizer o mesmo, porque não decidiu... se encaixo em seus planos. A partir de agora decidirei meu próprio destino. E você decidirá o seu – sentenciou com a voz trêmula, mas engolindo as lágrimas para preservar um pouco de orgulho.
-Aonde vai? - perguntou Sesshoumaru, aterrorizado, quando viu que Rin se dirigia à saída.
- Aonde eu quiser – contestou esta, girando-se para encará-lo - Fui sua amante, Sesshoumaru, mas você nunca chegou a considerar-me sua mulher, seu igual. E não penso em me conformar com menos. Nem sequer por você. Tinha meu coração em suas mãos e não soube o que fazer com ele. Pois posso dizer, sem necessidade de boas mágicas nem de poderes sobrenaturais, que nunca terá outro igual.
Enquanto ia embora, Sesshoumaru soube que não só era uma profecia, como também que era a verdade.
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Demorou uma semana para arrumar as questões práticas. Fukushima não tinha mudado nos meses que tinha passado fora, nem nos dias que levava ali. Mas ela sim.
Agora podia olhar pela janela e compreender que não era a cidade o que a tinha feito infeliz, e sim o lugar que ela ocupava ali. Não acreditava que fosse ficar, mas pensou que poderia dar uma olhada para atrás e recordar... coisas boas e ruins. A vida era a soma de ambas.
- Está certa de que está fazendo o correto, Rin? - perguntou Kagome. Era uma mulher elegante, de cabelo castanho, baixinha e de olhos verdes.
- Não, mas vou fazer de todos os modos - disse ela enquanto olhava o rosto preocupado de sua amiga. Rin tinha mudado, pensou Kagome. Não cabia dúvida de que estava muito mais forte, nem de que estava muito magoada.
- Me sinto responsável.
-Não – assegurou-a Rin com firmeza enquanto metia uma malha na mala - Não tem nenhuma culpa.
Kagome se aproximou da janela. O dormitório estava quase vazio. Sabia que Rin tinha presenteado muitas de suas coisas e empacotado outras muitas. Ao dia seguinte já não estaria.
-Eu a mandei para lá.
-Não, fui eu que se perguntei se podia ir a sua choupana.
- Podia ter lhe falado de certas coisas.
-Não era você quem devia ter falado.
- Devia ter imaginado que Sesshoumaru ia ser tão burro... - Kagome franziu o cenho -Deveria saber. Conheço-o a vida toda. E não acredito que tenha pessoa mais renitente sobre a superfície da terra... Ainda que grande parte de sua teimosia se deva ao muito que se preocupa.
- Não tem que me explicar como é Sesshoumaru. Se tivesse confiado em mim, se tivesse acreditado em mim, as coisas talvez fossem de outro modo – respondeu Rin enquanto tirava a última peça do armário - Se me amasse, tudo seria diferente.
-Tem certeza de que não te ama?
- Decidi que a única coisa que posso ter certeza é de mim mesma. É a coisa mais valiosa e dura que aprendi enquanto estava fora. Quer esta blusa? Nunca ficou bem em mim.
- Vai mais com meu estilo - Kagome se aproximou de Rin e colocou uma mão sobre seu ombro - Falou com seus pais?
- Sim. Bem, tentei-respondeu Rin enquanto dobrava algumas calças - Num sentido foi melhor do que tinha esperado. Ao princípio estavam irritados e assustados por minha viagem, por deixar de dar aulas. Como é lógico, mostraram todos os perigos e as conseqüências.
- Lógico - repetiu Kagome com secura.
- Não podem evitar. Mas conversamos por muito tempo. Acredito que nunca tínhamos falado assim antes. Expliquei por que ia, que queria fazer e por que... bom, não todo o porquê.
-Sua mãe não quis saber sobre tudo?
-Ao final não pude explicar. Mencionei minha avó, falei do legado e do por que me chamou com o mesmo nome dela. Minha mãe não mordeu o isca –disse Rin - Não quis tocar no tema. É como se nunca soubesse e nem suspeitado. O que corre por meu sangue, e pela seu, não existe para ela.
-Assim deixou as coisas como eram?
- Por que ia pressioná-la com algo que a faz sentir incômoda ou infeliz? - Rin levantou as mãos - Eu estou contente, e isso já basta. Para que serviria eu ter tentado derrubar todas as barreiras que ela se impôs?
- De nada. Fez o que era correto, para você e para sua mãe.
- O que importa é que, ao final, meus pais compreenderam, dentro do que cabe, as decisões que tomei. Porque, no fundo, a única que querem é que eu seja feliz.
- Amam você.
- Sim, mais do que eu tinha pensando - Rin sorriu - Fico feliz em saber que Kohaku esteja saindo com uma professora de Matemática. Minha mãe acabou me confessando que tinham jantado com eles algumas vezes e que fazem um casal estupendo.
- Talvez tudo dê certo – disse Kagome.
- É meu desejo de coração. É um bom homem e se merece ser feliz.
- Você também.
- Sim, é verdade - Rin olhou ao redor pela última vez antes de fechar a mala - E vou tentar de verdade. Estou emocionada, Kagome. Nervosa, mas emocionada. Ir para as Terras do Oeste assim, sem passagem de volta, sem saber se ficarei nem aonde irei nem o que farei. É excitante.
- Irá primeiro ao Castelo dos Taisho, em Clare? Para ver os pais de Kanna, Suikotsu e Kikyou?
- Sim. Agradeço-a por ter me posto em contato com eles.
- Eles gostarão de você, e você gostará deles.
- Eu espero que sim. E quero aprender mais - disse Rin - Quero aprender muito mais.
-Então aprenderá... Vou sentir sua falta, prima - Kagome lhe deu um abraço e depois correu para a saída – Vou embora antes que comece a chorar. Chama-me, escreve-me, assobia. Faça o que quiser, mas mantém o contato.
- O farei - Rin a acompanhou até a porta e lhe deu um último e forte abraço - Deseje-me sorte.
- Isso e mais. Amo você, Rin – se despediu Kagome, quase chorando.
Rin fechou a porta, também comovida, deu meia volta e olhou. Não ficava nada, pensou. Nada que fazer. No dia seguinte partiria. Tinha família nas Terras do Oeste, raízes. E já era hora de explorá-las e de explorar-se a si mesma.
O que tinha aprendido lhe serviria de base para seguir crescendo e ainda que se lembrasse de Sesshoumaru e sentisse sua falta, sabia que tinha tomado a decisão correta. Podia viver magoada, mas não conviver com alguém que não tinha confiado nela.
Então chamaram à porta. Ao princípio se sobressaltou, mas depois supôs que seria Kagome outra vez.
No entanto, a mulher que se encontrou ao abrir a porta era uma desconhecida, bela e elegante.
- Oi, Rin. Espero não incomodá-la -disse com acento irlandês.
-Não, em absoluto -respondeu -Passe, por favor, senhora Taisho.
-Não estava certa se seria bem recebida -contestou a mulher, sorridente - Tendo em conta a tolice que meu filho fez.
- Fico feliz em conhecê-la. Sinto... não posso lhe oferecer uma cadeira.
- Já estou saindo. Bem, darei isso a você como um presente de despedida - a mulher lhe entrego uma caixa de madeira - E em agradecimento pelo desenho de Sesshoumaru. É o material que queria para testar em suas pinturas.
- Obrigada - Rin tomou a caixa - Me surpreende que queira ver-me, tendo em conta que Sesshoumaru e eu... discutimos.
-Ah - a mulher fez um gesto com a mão, como se aquilo não fosse muito importante - Já discuti com ele o suficiente para saber que é impossível não faze-lo. É muito cabeça-dura. Mas seu coração não é tão duro... Perdão, não pretendia faze-la se sentir incômoda - adicionou ao ver que Rin desviava o olhar.
-Tudo bem - Rin deixou a caixa sobre a mesa da cozinha americana - É seu filho e o ama.
- Sim, amo-o muito. Com todos seus defeitos - a mulher colocou uma mão sobre o braço de Rin, delicadamente - Sei que a magoou e sinto muito por isso. Deveria dar-lhe uma boa bofetada! – exclamou de repente, com uma mudança de humor que fez sorrir a Rin.
- Lhe deu alguma?
-Alguma bofetada? -desta vez foi Izayoi que riu - Com Sesshoumaru não há mais concerto. Nunca foi um garoto fácil. Saiu a seu pai, ainda que Inutaisho diz que tem meu gênio.. Mas se uma mulher não tem caráter, os homens passam por cima delas... Oh, ainda o ama! Não quis olhar para não a ofender, mas se em sua expressão - acrescentou com os olhos povoados de lágrimas depois de ver a expressão de Rin.
- Não importa.
Mas antes de que pudesse das as costas, Izayoi agarrou suas mãos e lhes deu um aperto carinhoso.
- O amor é a única coisa que importa, e é o suficientemente inteligente para saber. Só vim como mãe, sem mais direitos do que os de uma mãe, com o coração de uma mãe. E Sesshoumaru está sofrendo.
- Senhora Taisho...
- Izayoi. A decisão é sua, mas deve saber. Também está sofrendo e sente sua falta.
- Sesshoumaru não me quer.
- Se não a quisesse não teria cometido tantos erros estúpidos. Conheço seu coração, Rin – disse Izayoi com singeleza - E é seu se o aceitar. Não digo porque queira que ocupe o lugar de seu pai. Teria dado as boas vindas a qualquer pessoa a quem ele amasse. Não dê as costas a sua própria felicidade só por uma questão de orgulho. Sempre sentiram frio longe um do outro.
- Está pedindo para voltar para ele.
- Estou lhe pedindo que escute seu coração. Nem mais nem menos.
Rin cruzou os braços e esfregou os cotovelos enquanto dava voltadas pelo apartamento.
- Ainda o amo. Sempre o amarei. Parte de mim o reconheceu assim que o vi. E lhe entregue meu coração.
- E ele não o apreciou como deveria, porque tinha medo.
- Não confiava em mim.
- Não, Rin, não confiava nele mesmo.
- Se me ama... - só pensar nisso a fazia se sentir vulnerável, desse modo balançou a cabeça e deu-lhe as costas - Terá que me dizer. E terá que me aceitar de igual a igual. Não me conformarei com menos.
Izayoi esboçou um doce sorriso.
-Mas voltará a vê-lo? - lhe perguntou esperançosa.
-Sim -Rn suspirou - Me ajudará?
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O cão corria pelo bosque, como tentando vencer à noite. A lua crescente mal iluminava, mas seus olhos viam na escuridão. Seu coração estava pesado. Tentava dormir o menos possível, pois sempre sonhava com ela, por mais do que tentasse impedir.
Quando chegou aos alcantilados, jogou a cabeça para atrás e uivou. Enquanto o uivo ressoava no silêncio, o cão prateado lamentava o que tinha perdido por sua própria culpa. Tentava culpá-la. E o conseguia. Com freqüência.
Como homem e como cão, sua mente trabalhava para encontrar modos de jogar a culpa sobre ela.
Tinha sido impulsiva demais, tinha se precipitado. Tinha lançado seus argumentos de volta a ele. Tinha se negado a ver a lógica de tudo que ele tinha feito.
Mas essa noite não conseguia se enganar. Afastou dos alcantilados, martirizado por não poder deixar de almejá-la. Ouviu em sua cabeça que o amor se aproximava, mas não prestou atenção, rosnou e seguiu correndo.
Conquistou as sombras. Cheirou o ar, voltou a rosnar. Sentia o cheiro de Rin. Sua mente estava fazendo brincadeiras com ele, pensou furioso por sua fraqueza. Rin o tinha abandonado, ponto final.
Então viu a luz, um brilho dourado através das árvores. O cão se aproximou ao círculo de pedras, entrou... e a viu de pé, no centro. E ficou imóvel. Usava um vestido longo, prateado, que lhe dançava em torno dos tornozelos. Os cabelos caíam soltos sobre seus ombros, enfeitado com jóias da cor da lua. Também tinha prata em seus pulsos, e em suas orelhas e um medalhão pendurado no pescoço sobre o vestido. Um medalhão ovalado, de ouro, com o borda de prata.
Estava frente ao fogo que tinha feito. Então lhe sorriu.
- Está esperando que te dê uma bofetada, Sesshoumaru? - perguntou ela enquanto os olhos do cão se inflamavam.
Este adotou forma humana e se aproximou dela.
- Foi embora sem dizer uma palavra.
-Pensei que tínhamos falado o suficiente.
-Mas voltou.
-Isso parece -Rin ergueu uma sobrancelha com frieza estudada, apesar dos nervos revirassem seu estômago – Usa o amuleto. Então decidiu.
- Sim. Assumirei minha obrigação quando chegar o momento. E você leva o seu.
- O herdei de minha bisavô - Rin fechou os dedos em tomo da pedra e sentiu que seus nervos se apaziguavam - Aceitei-o, como aceitei a mim mesma.
-Vou voltar para as Terras do Oeste – disse Sesshoumaru, e fechou as mãos em punho para conter a vontade de acariciá-la.
-Verdade? -perguntou Rin com rapidez, como se não significasse nada para ela - Eu estava pensando em ir para lá também esta manhã. Por isso pensei que devia voltar e terminar com isto antes.
- Ia para as Terras do Oeste? - repetiu Sesshoumaru com o cenho franzido. Quem era essa mulher tão fria? Perguntou-se.
- Quero ver de onde venho. É um país pequeno - Rin deu os ombros - Mas o suficientemente grande para que não tenhamos que cruzarmos. Se isso é o que quer.
-Quero que volte –respondeu Sesshoumaru sem poder deter as palavras. Amaldiçoou e meteu as mãos nos bolsos. Tinha falado. Tinha se humilhado, mas não o importava mais - Quero que volte - repetiu.
-Para que?
-Para... - Sesshoumaru alisou o cabelo - Por que acha? Assumirei a direção da família e quero você ao meu lado.
- Não é tão simples.
Sesshoumaru esteve tentado a responder no mesmo instante, mas compreendeu que sua contestação teria sido acalorada demais e se conteve.
- Certo, a magoei. Desculpe-me. Nunca foi minha intenção e peço perdão.
- Ótimo então!. Já posso me lançar aos seus braços.
- Que quer que eu diga? - perguntou ele, surpreendido pela mordacidade de Rin - Cometi um erro... mais de um. Ainda que não goste de reconhecê-lo.
-Pois vai ter que o fazer. Ficou tempo demais decidindo se eu serviria para seus propósitos... depois de ter decidido o que queria. Quando não sabia sobre minha herança, se propôs a aceitar-me e assim se esquivar de uma responsabilidade que não sabia com segurança se queria. Depois decidiu se me aceitava ou não.
- As coisas não são brancas ou negras - contestou Sesshoumaru. Depois suspirou, sabedor de que em certas ocasiões as zonas cinzas não importavam - Ainda que sim, mais ou menos. Teria sido um passo muito grande em qualquer caso.
- Para mim também - replicou ela, enfezada - Mas parou para pensar em isso?
- Não vai embora - pediu Sesshouaru quando girou o corpo dando-lhe as costas. Rin não tinha tido intenção de fazê-lo.
Só se tinha girado para andar um pouco e relaxar. Mas o tom desesperado de Sesshoumaru a amaciou.
- Por Deus, Rin, não me deixe outra vez! Sabe como me senti quando fui procurá-la na manhã seguinte e vi que te tinha ido embora? Sem mais? A casa estava vazia, mas cheia de você. Quis procurá-la, procurá-la e traze-la ainda que fora à força.
- Mas não o fez.
- Não - Sesshoumaru a encarou - Porque tinha razão. Eu tinha tomado todas as decisões. Você escolheu ir embora e eu não tinha mais remédio a não ser aceitar isso. Agora a peço que não volte a me deixar, que não me faça viver com isso. Você é importante para mim.
- Sou? - Rin ergueu ambas sobrancelhas - É muito pouco para o muito que me pede.
- Me preocupo com você.
- E eu me preocupo com o cachorro de minha vizinha. Não é o bastante, assim se isso é tudo...
- Te amo. Maldição! Sabe perfeitamente que te amo - Sesshoumaru agarrou uma de suas mãos. Nem o gesto nem o tom de voz tinham sido amorosos em absoluto.
- Decidimos que eu não tinha o poder de ler os pensamentos dos outros, sendo assim, por que ia saber o que você não diz?
- Estou dizendo agora. Droga você também não escuta? - replicou Sesshoumaru descontrolado - Quis lhe dizer desde do princípio. Dizia a mim mesmo que não... que não podia amá-la até que tomasse a decisão. Cheguei a enganar-me e a acreditar na minha própria mentira, mas sempre a amei.
Aquelas palavras apaixonadas a fizeram resplandecer como um arco íris. Quando foi falar, em resposta, Sesshoumaru a soltou e começou a dar voltas como o cão em que costumava transformar-se.
-E não gosto -prosseguiu ele - Não tenho obrigação de amá-la.
-Não - Rin se perguntou por que se sentia mais lisonjeada do que insultada. E lhe ocorreu que isso lhe dava um grande poder sobre ele - Não está sendo forçado a nada. E eu também não.
- Antes de conhece-la estava contente com minha vida.
- Não, não estava – contestou Rin - Estava inquieto, insatisfeito e um pouco aborrecedor. Igual a mim.
- Você era infeliz e, pelo que disse, é como se pensasse que deveria ter me aproveitado disso; que deveria ter me deitado com você à primeira mudança, ter dito coisas para as quais não estava preparada e tê-la levado para as Terras do Oeste. Mas não fiz e não me arrependo disso. Ainda que eu possa tê-la enganado, tanto você como eu precisávamos de tempo. Quando eu ai até você em forma de cão era para fazer-te companhia, como um amigo. É verdade, a vi nua, mas, por que não ia tê-lo feito? E quando fazíamos amor em sonhos, não era eu o único que desfrutava.
- Não me lembro de ter dito o contrário - contestou Rin em tom desafiante, erguendo o queixo - Ainda assim, você tomou a decisão de entrar em meus sonhos.
- Sim, e voltaria a tomá-la para tocá-la outra vez, ainda que só seja com a mente. Para mim não é fácil reconhecer que a desejo tanto. Dizer que sofri estando sem você. Nem pedir que me perdoe por fazer o que acreditava que era correto.
- Ainda tem que me dizer o que espera de mim agora.
- Acredito que fui bastante claro -respondeu Sesshoumaru, frustrado - Quer que suplique?
- Sim - respondeu depois de pensar um segundo, com suma frieza.
Os olhos de Sesshoumaru brilharam, primeiro de assombro e depois de raiva. Quando se aproximou dela, Rin sentiu as pernas trêmulas. Mas, de repente, ele se ajoelhou.
-Então o farei - Sesshoumaru agarrou suas mãos - Suplico que fique comigo, Rin.
- Sesshoumaru...
- Se tenho que me humilhar, ao menos não me interrompa -murmurou ele - Não acredito que tenha sido sem graça. Nem acredito que tenha podido ser fraca em sua vida. O que vejo ao olhar para você é uma mulher com um coração terno e generoso... . generoso demais para pensar em você em certas ocasiões. É a mulher que necessito. Já quis antes, outras, mas nunca precisei de nenhuma. Preciso de você. Apreciei outras mulheres, mas nunca as amei. E eu te amo. Espero que isso seja suficiente, Rin.
Esta ficou muda.
- Por que não falou antes? -perguntou quando por fim encontrou a voz.
- Porque é difícil para mim declarar-me. Se é arrogância, é assim que sou. Mas te peço que me aceite como sou. Você me ama. E sei.
Já tinha suplicado o suficiente, pensou Rin, que teve que se conter para não sorrir: apesar de estar de joelhos, Sesshoumaru continuava parecendo arrogante e feroz.
- Nunca disse que não. Me pede algo mais?
- Te peço tudo. Peço que aceite o que sou e o que vou fazer. Que seja minha esposa, deixe sua casa pela minha e que entenda que será para sempre. Para sempre, Rin - repetiu Sesshoumaru com um sorriso singelo - Porque os cães se emparelham de por vida, e eu também. Estou pedindo a você que compartilhe essa vida, que me deixe compartilhar a sua. Estou pedindo aqui, no coração deste círculo sagrado, que me pertença.
Beijou suas mãos e não separou os lábios até que Rin sentiu que as palavras se transformavam em sentimentos e os sentimentos a invadiam magicamente.
- Não terei outra que não seja você - prosseguiu Sesshoumaru - Disse que tinha seu coração em minhas mãos e que nunca teria outro igual. Agora digo que você tem o meu nas suas, e juro a você que nunca terá outro igual. Ninguém te amará mais, nunca. Você decide, Rin.
Esta o olhou, viu como Sesshoumaru levantava a cabeça para ela, como a fogo que ele tinha ensinado a acender se iluminava. Não precisava ler seus pensamentos para nada. Tudo o que queria , refletia em seus olhos. E tomou a decisão. Rin se pôs de joelhos para estar a sua altura e falou:
- Te aceito, Sesshoumaru, como você aceita a mim. E não me conformarei com menos nunca. Compartilharemos a vida que juntos façamos . Te pertencerei como você me pertencerá. Essa é minha decisão, e minha promessa.
- Deus! Senti sua falta a cada hora do dia. Sem você não tenho magia, não sinto o coração - disse Sesshoumaru, embargado de emoção, apoiando sua testa sobre a dela. Rin o beijou e o abraçou, respondendo com seu amor a todas as suas perguntas.
Sesshoumaru se pôs de pé, levantou-a em seus braços, e ela se começou a rir alegremente. Ergueu as mãos e viu uma estrela fugaz sulcando o céu.
-Volta a dizer-me! -lhe pediu - Agora!
- Te amo -disse ele - Agora... e sempre.
Rin o abraçou até notar o coração de Sesshoumaru contra o seu.
- Sesshoumaru Taisho, me concede um desejo? - lhe perguntou sorridente.
-Rin Murray de O'Meara, pode pedir-me o que quiser.
- Leve-me para as Terras do Oeste. Leve-me para casa.
- Agora, meu amor? - disse Sesshoumaru, cheio de felicidade.
- Pela manhã - Rin o abraçou ainda mais forte - Ainda é cedo. - e quando se beijaram frente ao fogo, sob o brilho do céu constelado, as fadas dançaram no bosque. Nas colinas longínquas, as gaitas soaram para celebrar a união, e a magia ressoou no coração do bosque.
O amor já não tinha que se aproximar, tinha chegado a seu destino.
