A/N: Olá ! Faz muito tempo que eu não posto nada novo aqui ! desculpas a todos os meus leitores ! Eu não abandonei meus 100 temas, é que infelizmente eu não tive tempo de escrever e postar ! Espero que vocês gostem deste capitulo, ele levou quase 10 meses para ser escrito. Espero que vocês gostem ! Spoilers esse capitulo é pós-Ishbal e pré-mangá, portanto vão haver spoilers do volume 15 (30/31 aqui no Brasil). Essa fic foi escrita alternando o ponto de vista do Breda e uma narrativa em 3ª pessoa ! ela foi inspirada na fanfic "After the Rain" da Zauberer Sirin.

Disclaimer: Nopes...eu só gosto de pegá-los emprestado ! todo o crédito para a Arakawa-sensei !


# 14 – Covered Eyes

Ser um subordinado de Roy Mustang é um função para poucos, pois exige a única coisa que a academia militar não é capaz de ensinar.

Lealdade

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Tudo começara como uma discussão aparentemente sem grandes motivos entre duas famílias rivais que viviam há séculos comandando uma pequena vila no interior de Amestris. Um sistema bem primitivo para os tempos atuais, e que, cedo ou tarde iria acabar em confusão.

Uma discussão que não demorou a tornar-se uma disputa física, que por sua vez, acabou em um conflito armado que poderia fazer inveja as pequenas facções rebeldes espalhadas pelo país.

Foi nessa situação que o segundo tenente Heymans Breda e mais 20 soldados de diferentes patentes comandados por um Tenente-Coronel e um Major encontraram-se a caminho de tal cidade, na esperança de colocar um fim a situação e impedir que uma guerra civil estoura-se por lá.

Quase toda a unidade de Mustang encontrava-se a bordo do caminhão que transportava os soldados, armamentos e outras necessidades. Somente Fuery fora deixado no Quartel; sua especialidade não era combate físico ou estratégia, e como a missão provavelmente iria se resumir somente a isso não havia necessidade de expor o cadete a um risco desnecessário.

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Tornar-se um subordinado de Roy Mustang era muito mais do que pertencer a uma equipe e trabalhar todos os dias com as mesmas pessoas. Era como ser convidado a participar de uma família. Por mais estranha e disfuncional que fosse, todos eram encarados como membros igualmente importantes e tratados como tal.

Como todas as outras familias, esta havia começado pequena, com apenas dois membros, o responsável-mor, o Tenente Coronel Roy Mustang, e talvez um dos melhores soldados que Breda encontrara durante seus anos no exército, a Primeira Tenente Riza Hawkeye.

(Você pode questionar, por que "um dos melhores"e não "O melhor" ? A resposta é simples, porque Riza Hawkeye tem todo o necessário para ser um soldado excelente, exceto o mais importante. Sua lealdade pertence a um só Homem, e este homem não é o Führer.)

Depois vieram Havoc, Falman, Fuery e Eu. Todos vindos de partes diferentes do exército, cada um com sua especialidade e mania. Todos jogados ao mesmo tempo em um escritório apertado sob o comando de um homem com ambições irreais para alguém de tão baixa patente, ambições que foram dividas conosco e deixaram de ser dele apenas, passaram a ser as nossas.

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O conflito não demorou a ser resolvido, a fama pós Ishbal foi suficiente para acalmar os rebeldes menores; o medo de que algo semelhante aos rumores daquela terra árida acontecessem amedrontava os moradores e aos poucos, os culpados foram presos, armas confiscadas e os estragos começaram a ser reparados. A missão tinha tudo para se tornar um sucesso, sem feridos graves, sem mortes, tudo indicava que em menos de uma semana ambas as unidades poderiam partir e deixar o resto a cargo da policia e dos próprios moradores.

Os vilarejos e cidades localizados ao leste de Amestris, por sua proximidade com o campo de batalha, foram os locais mais afetados pela guerra, mesmo com um deserto no meio, as noticias sobre a guerra que se tornaria um genocídio chegavam a uma velocidade espantadora, e a cada dia os jovens do leste deixavam as academias antes de todos os outros para talvez não voltar. As cidades sofriam com as invasões de soldados famintos e doentes, e o aumento nos casos de roubos, assédios, e abuso de poder atingiram o status de emergência.

Esses vilarejos sabiam, como nenhum outro em todo o país, do que o exercito era capaz, as falsas noticias e os mitos heróicos não conseguiam abafar o que o povo via. Consequentemente a esses fatos, o Leste registrava a maior taxa de incidentes envolvendo ataques ao exército. Facções proliferavam e ao menor sinal de atividade militar, como era o caso deste vilarejo em questão, seria uma questão de horas até que um atentado acontecesse.

A minha análise sobre a situação não demorou a tornar-se real.

Quinze ...ou talvez Vinte pessoas, cercaram o alojamento utilizado por nós naquela noite, eles conseguiram invadir um dos lados do prédio durante a folga noturna; como eles sabiam onde invadir, ou o horário que estaríamos mais vulneráveis indicava que estávamos sendo observados ou que os rebeldes tiveram uma ajuda do próprio vilarejo. A segunda opção era a suspeita mais provável.

Toda a ação levou minutos, Os guardas foram rendidos e feitos reféns, o barulho alertou o resto do prédio, onde após se retirarem. alguns dormiam, outros jantavam, mas a maioria jogava cartas, bebia e esperava a hora de voltar para casa. Não era o melhor lugar para preparar uma emboscada, e os invasores perceberam isso quando em questão de minutos Vinte soldados armados cercaram o salão invadido, com armas melhores, estratégias melhores e a vantagem de terreno. O Tenente-Coronel Mustang já assumia seu lugar entre o líder da facção e seus próprios soldados, com uma expressão séria, mas desarmado, ele silenciou o salão em um só gesto.

Tanto nós, quanto os reféns e principalmente os rebeldes já sabiam que não restava mais nada a fazer, qualquer ação contra os reféns ia acabar em carnificina.

" A situação neste salão pode terminar de duas maneiras" Mustang dirigiu-se ao líder dos rebeldes " Sem mortes, e o culpados presos e a vila em paz" - o ódio nas faces dos atacantes e o sons de armas sendo apontadas e carregadas pôde ser ouvido por todo o salão - " Ou com a morte de quase todos aqui presentes, pois no momento em que um soldado sob meu comando for ferido, todas as armas e homens vão se voltar contra vocês, e um pandemônio vai se estabelecer ! Mas não posso deixar de avisar que nós, temos melhores armamentos, esconderijos e técnicas, as perdas vão ser quase proporcionais, mas nós ainda temos a vantagem, um tiro contra meus homens e a vila inteira vai virar um inferno" - ele disse, encarando um por um os homens presentes no salão.

" A escolha é de vocês"

E então ele deu um passo para atrás e ordenou com um aceno que a guarda fosse retirada.

Todos, alguns imediatamente, outros meio contrariados acabaram por ceder. A tensão criada pelas palavras do Coronel tiveram o efeito pretendido pois nos próximos minutos, que pareceram mais como horas agonizantes para nós, o líder da facção ordenou que os reféns fossem libertos.

Um alivio consumiu as fileiras de homens fardados, prontos a render os atacantes e acabar de vez com a situação, mas foi ingenuidade nossa pensar que uma invasão tão mal planejada pudesse dispor de um líder que conseguisse manter a ordem sobre os outros, e inevitavelmente eles se dividiram no que, aos nossos olhos, parecia uma luta interna e uma tentativa de fuga que acabou em um disparo contra o ex-líder, que agora encontrava-se morto.

Nós, por instinto corremos para segurança dos andares superiores e atrás de pilastras e mesas. Os Rebeldes atiravam-se uns contra os outros tentando sair pela única entrada existente. Enquanto eram atacados pelos próprios companheiros, ou imobilizados por nós.

Um jovem, pois eles são sempre jovens e ingênuos e tão seguros de si, atirou-se contra Mustang, o perfeito esteriótipo de mártir juvenil, que nós, jovens como eles, sentiamos na própria pele, pois já fora nosso o desejo de salvar o mundo, o auto-sacrifico, o bem maior. E ainda era, para aqueles muitos que, como eu, não faziam idéia dos significados profundos dessas palavras.

Ele morreu com um único tiro. E levou com ele mais um fiapo da alma da única mulher presente no salão.

Mais de dez pessoas o seguiram, todas querendo aquele destino, ou simplesmente sendo empurradas contra ele. Dois de nós também.

Morrer pelo bem maior é a honra maior nas histórias e lendas. É o sonho dos jovens, é o orgulho do país. Mas somente quando não acontece ali, diante dos nossos olhos despreparados para tanta tristeza.

E nós não estávamos preparados para aquele tipo de tristeza.

Não estávamos preparados para aquele tipo de sacrifício.

Eu não estava, Havoc não estava, Falman não estava.

Mas a segunda tenente sim.

Quando ela deliberadamente serviu de escudo para o Coronel.

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Ser um subordinado de Roy Mustang é aprender a enxergar a verdade entre as mentiras que são contadas. É também aprender a mentir aos próprios olhos, e assim não enxergar aquilo que está ao alcance das mãos.

Ele soube no momento em que se apresentou pela primeira vez diante do Tenente Coronel Mustang.

Apesar do que sua imagem aparentava, Breda possuía uma mente fascinante para certos aspectos, graduado com destaque na academia, suas habilidades em estratégia eram excepcionais, assim como sua capacidade de analise, Roy Mustang não hesitou ao pedir que ele fosse designado à sua unidade, e antes mesmo que o serviço de inteligência pudesse requisita-lo, ele já estava sentado em uma mesa no quartel general do leste.

Além de suas habilidades acadêmicas, Breda considerava-se muito bom em outro aspecto, sem gabar-se (ou talvez somente um pouco) ele tinha a certeza que era bom em uma coisa : Ler pessoas.

Ele era um observador, os gestos, os olhos, a pose, o tom de voz. Tudo para ele era como um livro que ele sabia como decifrar.

Era como uma benção e ao mesmo tempo uma maldição. Breda enxergava os olhares, o tom de voz, tudo que se passava naquele escritório. Ele não poderia dizer com certeza se existiam laços além daqueles de subordinado e comandante, mas ele sabia que lá existia um sentimento muito forte , uma tensão, algo que ia além dos laços de amizade, respeito, admiração.

Dizem que a primeira impressão é sempre que fica. Se a situação fosse outra, e ao invés de um quartel, existisse um bar, ao invés de ser requisitado por um tenente coronel, o chamado teria vindo de homem chamado Roy, ele teria decifrado em matéria de minutos, o que anos servindo ainda tinham sido suficientes..

um jogo de damas versus um jogo de xadrez.

Uma moça, um rapaz, a intimidade daqueles que passaram muito tempo juntos quando jovens...ele ouviria com prazer o homem contar-lhe sobre a garota, e em troca dividiria estorias românticas, que infelizmente não chegariam nem aos pés daquela ouvida. Eles beberiam e dariam risada e iriam torna-se amigos e no dia seguinte ele encontraria a moça e ela seria alegre, inteligente, uma feminista talvez. E a vida seria bem mais simples por que ele jogaria damas e somente quando o homem chamado Roy precisa-se, ai sim, eles jogariam xadrez.

Roy Mustang e Heymans Breda nunca jogaram damas. Mas o xadrez é um compromisso. Desde o dia em que fora recrutado, quando durante uma partida, Mustang informava tudo sobre os outros membros de sua unidade e historias sobre como soubera da existência de cada um deles. Breda falou pouco, mas dividiu seus tempos de academia, mesmo que essas narrativas não chegassem aos pés de um aprendiz de alquimia. Eles beberam café e assinaram contratos e com os anos tornaram-se amigos. Ele encontraria o braço direito do coronel na manhã seguinte, séria, inteligente, profissional. E demoraria muito mais para perceber que existia muito mais além de Ishbal entre os dois.

A primeira impressão seria a mesma daquela de anos de observação. Roy Mustang era tão apaixonado por sua primeira tenente como ela por ele.

Não que fosse fácil perceber...não podemos esquecer que Breda é muito bom em ler pessoas.

Além do que, desde aquela primeira vez, ambos melhoraram muito. Pode-se dizer que amadureceram um pouco. A tenente mais do que o coronel, que continua, durante as partidas de xadrez a soltar pensamentos em forma de metáforas, muito arriscados para seu próprio disfarce.

Breda, as vezes deseja não poder ver tudo isso.

Breda, as vezes agradece por poder ver, pois ser um subordinado de Roy Mustang é ter intimidade para dizer "cuidado" quando o disfarce está falhando.

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Anos mais tarde, muitos outros incidentes mais tarde, se perguntado, o segundo-tenente diria que está foi a única situação em que ele presenciou seu superior perder completamente a razão. Um cheque mate.

O homem que até agora tinha lidado com a situação de forma exemplar parecia ter entrado em choque. Andando de um lado ao outro em frente ao quarto, onde a segunda tenente recebia o atendimento necessário.

Sentado em frente a porta, Eu aguardava pelas mesmas noticias, enquanto olhava diretamente para as manchas de sangue que estampavam os punhos e frente da minha camisa.

Os passos de Mustang eram errantes e sem um padrão fixo, mas graças a Deus, bem mais calmos.

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algumas horas depois, a única pessoa no quarto da tenente era o coronel. Todos os outros subordinados e conhecidos já tinham retomado suas atividades para arrumar o que sobrou da confusão.

Eu e Havoc eramos as únicas pessoas que ainda estavam em volta do quarto.

O coronel estava parado ao lado da cama, como uma estátua, a tenente havia voltado a si a poucos instantes e finalmente parecia entender o acontecido após uma breve explicação, que não fora nem de longe o que eu esperava. De um lado, eu esperava uma gritaria, um sermão e muitos palavrões e até algumas lágrimas (de qual dos lados ? Eu não faço a menor idéia ), mas o tom sóbrio e sucinto do coronel de certa maneira trouxeram um certo desapontamento. Assistir aquela conversa era como fingir que as últimas cinco horas não tivessem acontecido.

sem contar os 100 centz que eu tinha perdido para o Havoc.

Como dois vouyers, nós assistíamos a cena que se desenrolava.

O lado esquerdo da cama afundar com o peso do coronel. O tom tímido com o qual ele pronunciava "Riza", como se fosse algo profano de se dizer. A força extraordinária que um simples ato de dar as mãos irradiava. Era o tipo de felicidade angustiante onde nunca se tem certeza se se é realmente feliz, no sentido pragmático da palavra.

Eu me levantei, quase no mesmo instante que Havoc. Os meus dedos soltaram a maçaneta no mesmo instante que o tenente trazia duas cadeiras e as colocava em frente a porta. O barulho da porta se fechando foi inaudível.

O resto da noite foi gasto no silencio tépido da fumaça de alguns cigarros.

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Ser um subordinado de Roy Mustang é saber, que antes de soldado, herói de guerra, alquimista, comandante... ele é, acima de tudo, apenas Humano.

Ser um subordinado de Roy Mustang é saber reconhecer esta humanidade.

Obrigado: Makika, Pami, Joyce, Dóris Bennington, Lady Ephedrine, Fabi Washu, Riza Potter, Srta Hawkeye, Luh Norton, Lika Nightmare, MiLuka Alchemist e a todos que leram !!

Criticas, comentários, sugestões, e cia são muito bem vindos !!

Próximo tema: #15 - The Scent of Blood . (e sem o tempo de espera deste capitulo ! )