Capítulo 2:

Entre luzinhas de leitura e festas em família


"Fofoca não é escândalo e não é algo simplesmente malicioso.

Não passa de conversa sobre a raça humana, praticada por aqueles que a amam."

- Phyllis McGinley (1905-1978), poeta e escritora norte-americana.


História da Moda

MONOGRAFIA DE GINEVRA WEASLEY

O primeiro tecido de que se tem notícia era feito de fibras naturais como casca de árvore, algodão e cânhamo. Fibras animais só começaram a ser empregados no final do período neolítico, por culturas que (diferentemente de seus ancestrais nômades) foram capazes de estabelecer comunidades estáveis, perto das quais ovelhas podiam pastar, e onde era possível montar teares.

Ainda assim, os antigos egípcios se recusaram a usar lã até depois da conquista de Alexandre, obviamente devido ao fato de que este tecido pinica em climas mais quentes.


Dois dias antes, em Ann Arbor (ou talvez sejam três dias... espere, que horas são nos Estados Unidos?).


- Você vai comprometer seus princípios feministas – é o que Hermione não para de dizer.

- Pare com isso – eu digo.

- Falando sério. Não tem nada a ver com você. Desde que você conheceu esse cara...

- Mione, eu o amo. Qual o problema de eu querer estar com a pessoa que eu amo?

- Não tem nada de errado em querer estar com essa pessoa – Mione responde. – O que é errado é você colocar toda a sua carreira em modo de espera enquanto ele termina os estudos.

- E que carreira é essa, Mione? – Não dá para acreditar que estou tendo essa conversa. De novo.

Isso sem contar que ela resolveu estacionar bem ao lado dos salgadinhos e dos molhinhos, quando sabe muito bem que eu ainda estou querendo perder mais dois quilos.

Ah, tanto faz. Pelo menos Hermione está usando a saia rodada mexicana branca e preta que escolhi para ela na loja, apesar de ela ter dito que o modelo deixava o bumbum dela grande demais. Não deixa. A não ser, talvez, de um jeito bom.

- Você sabe – Mione diz. – A carreira que você poderia ter se simplesmente se mudasse para Nova York comigo quando voltasse da Inglaterra, em vez de...

- Eu já disse que não vou discutir esse assunto com você hoje – respondo. – Esta é a minha festa de formatura, Mione. Será que você não pode me deixar aproveitar?

- Não – Mione responde. – Porque você está sendo uma idiota e sabe muito bem disso.

Ron, meu irmão e namorado de Hermione, aproxima-se e enfia uma batatinha sabor barbecue em um molhinho de cebola.

Hummm... Batatinha com sabor barbecue. Talvez, se eu comer só uma...

- Qual a idiotice que Ginny está aprontando agora? – ele pergunta, mastigando.

Mas nunca dá para comer só uma batatinha sabor barbecue. Nunca.

Ron é alto e magrelo. Nunca precisou perder mais que dois quilos na vida toda. Ele até precisa usar um cinto para a calça Levi's não cair. É um modelo de couro de dragão trançado. Mas, para ele, couro trançado funciona.

O que não funciona, é claro, é o boné de Quadribol da Universidade de Michigan. Mas eu nunca consegui convencê-lo de que bonés de Quadribol, usados como acessório, ficam errados em todo mundo. Tirando crianças e jogadores de Quadribol de verdade.

- Ela continua querendo ficar aqui depois que voltar da Inglaterra – Hermione explica, pegando uma batatinha e enfiando no ketchup –, em vez de se mudar para Nova York conosco e dar início à vida de verdade.

Hermione também não precisa prestar atenção ao que come. Sempre teve um metabolismo naturalmente rápido. Quando estudávamos juntas, ela comia de tudo no almoço e nunca engordou uma grama. O meu almoço? Um ovo cozido, uma única laranja e uma coxa de frango. E eu era a gorducha. Ah, era sim.

- Mione – eu digo. – Tenho uma vida de verdade aqui. Tenho um lugar para morar...

- Na casa de seus pais!

- ...e um emprego que eu adoro...

- Como subgerente de um brechó! Isso não é carreira!

- Eu já disse – afirmo, pelo que deve ser a milésima vez – que vou ficar morando aqui para economizar dinheiro. Depois Dean e eu vamos nos mudar para Londres, quando ele terminar o mestrado. Só falta mais um semestre.

- Quem é Dean mesmo? – Ron quer saber. E Hermione dá um soco no ombro dele.

- Ai – Ron diz.

- Você se lembra – Mione diz. – Aquele aluno de pós-graduação que era assistente dos residentes do alojamento estudantil McCracken. Aquele sobre o qual Ginny não parou de falar o verão todo.

- Ah, certo, o Di. Aquele que organizava partidas ilegais de pôquer no sétimo andar.

Caio na gargalhada.

- Aquele não é Dean! Ele não joga. Está estudando para ser professor de jovens bruxos, para que possa preservar nosso recurso mais precioso... a próxima geração.

- O cara que mandou para você a foto do bumbum dele pelado?

Engulo em seco.

- Hermione falou sobre isso para você?

- Eu queria ouvir uma opinião masculina – Hermione diz e dá de ombros. – Sabe como é, para ver se ele tinha alguma ideia de que tipo de indivíduo faria algo assim.

Vindo de Hermione, que é a garota mais inteligente que eu conheço do mundo inteiro, realmente parecia uma explicação bastante razoável. Olho para Ron com ar questionador. Ele realmente sabe muita coisa.

Mas Ron também dá de ombros.

- Não pude ajudar nem um pouco. Afinal, nunca tirei uma foto do meu próprio bumbum.

- Dean não tirou uma foto do próprio bumbum – corrijo. – Foram os amigos dele que tiraram.

- Que coisa mais homoerótica – Ron comenta. – Por que você o chama de Dean se tomo mundo o chama de Di?

- Porque Di é nome de esportista – respondo. – E Dean não é esportista. Ele está fazendo mestrado em Feitiços. Algum dia, vai ensinar crianças em Hogwarts. Por acaso pode haver algum trabalho mais importante do que esse? E ele não é gay. Dessa vez eu conferi.

As sobrancelhas de Ron se erguem.

- Você checou? Como? Espere... não quero saber.

- Ela só gosta de fingir que ele é o príncipe Dean – Mione diz. – Bem, então, onde mesmo eu estava?

- Ginny estava fazendo alguma idiotice – Ron se lembra, ajudando Hermione. – Então, espere. Quanto tempo faz que você não vê o sujeito? Três meses?

- Mais ou menos isso – respondo.

- Merlin – Ron sacode a cabeça. – O cara vai pular total em cima de você quando descer daquele avião.

- Dean não é assim – digo, cheia de ternura. – Ele é romântico. Provavelmente vai querer que eu me acostume e me recupere da diferença de fuso horário na cama king size dele com lençóis de algodão com fios incontáveis. Ele vai me levar café-da-manhã na cama... um café-da-manhã inglês fofo com... coisas inglesas.

- Tipo abóbora fervida? – Mione pergunta com inocência fingida.

- Bela tentativa – digo. – Mas Dean sabe que não gosto de abóbora. Ele perguntou na última carta se tem alguma comida de que eu não goste, e já o informei a respeito da coisa da abóbora.

- É melhor você torcer para que o café-da-manhã não seja a única coisa que ele vai levar para você na cama – Ron tem um ar sombrio. – Se não, de que adianta viajar meio mundo para se encontrar com ele?

Esse é o problema de Ron. Ele não é nada romântico. Fico mesmo surpresa de ver que ele e Mione estão juntos há tanto tempo. Deve ser aquela coisa de opostos se atraem ou coisa do tipo. Ainda bem que Hermione também é muito prática.

- Ainda assim não consegui entender por que você vai voltar à Inglaterra para se encontrar com ele – Ron diz. – Quer dizer, um cara com quem você nem foi para a cama, que obviamente não conhece você muito bem, já que nem sabe sobre a sua aversão por abóboras, e acha que você ia gostar de ver a foto do bumbum pelado de alguém.

- Você sabe muito bem o por quê – Hermione responde. – É que Ginny está na seca.

- Hermione! – exclamo.

- Ah, certo – Mione diz, revirando os olhos. – E ele salvou a vida dela.

- Quem salvou a vida de quem? – Angelina, minha cunhada, aparece e se intromete, porque descobriu os molhinhos que estavam ali.

- O novo namorado de Ginny – diz Mione.

- Ginny tem um novo namorado? – Angel, dá para ver, está tentando cortar os carboidratos. Só está colocando talos de salsão no molhinho. Ou quem sabe seja algo que o curandeiro disse a ela para comer. Afinal, ela está grávida de três meses. – Como é que eu não fiquei sabendo? O SGC deve estar com problemas.

- SGC? – Ron repete, com as sobrancelhas ruivas arqueadas.

- O Sistema Ginny de Comunicação – Mione explica a ele. – Por onde você tem andado?

- Ah, tudo bem – Ron vira sua cerveja amanteigada.

- Eu contei tudo para o George – digo e olho com ódio para os três. Algum dia eu pego meu irmão George por causa desse negócio de Sistema Ginny de Comunicação. Era engraçado quando éramos pequenos, mas agora estou com 22 anos!

- Ele não contou para você, Angel?

Angel parece confusa.

- Contou o quê?

Suspiro.

- Uma caloura do segundo andar deixou sua poção ferver em cima da chapa do grill que ela tinha no quarto, o que é proibido, e o corredor ficou cheio de fumaça e tiveram que evacuar o prédio – explico.

Eu sempre adoro contar a história de como Dean e eu nos conhecemos. Porque é a coisa mais romântica do mundo. Algum dia, quando Dean e eu estivermos casados e morarmos em uma casa vitoriana caindo aos pedaços, em Londres, em um povoado bruxo, com a nossa coruja das torres, Sky, e nossos quatro filhos, Dean Jr., Virgínia, Maya e Luke, e eu for famosa (fazendo sei-lá-o-quê que vou fazer), e Dean for diretor de Hogwarts, ensinando crianças a arte da magia, e eu for entrevistada pela Vogue bruxa, vou poder contar esta história (e estarei moderníssima, vestida de Chanel vintage da cabeça aos pés), enquanto dou risada e sirvo uma xícara perfeita de chá francês para a repórter no terraço dos fundos, que será decorado inteiramente de palha branca e chintz, tudo de muito bom gosto.

- Bom, eu estava no banho – prossigo –, por isso não senti o cheiro da fumaça, nem ouvi o alarme disparar, nem nada. Até que Dean entrou no banheiro feminino e gritou "Fogo!" e...

- É verdade que os banheiros femininos do alojamento McCracken têm chuveiros coletivos? – Ron quer saber.

- É verdade – Angelina informa, em tom ameno. Ela também estudou na mesma faculdade que a gente. – Tomávamos banho juntas. Às vezes, ensaboávamos as costas uma das outras enquanto ficávamos fofocando sobre o que aprontávamos na noite anterior.

Ron fica olhando Angel com os olhos arregalados.

- Você está zoando comigo?

- Não vê que ela está brincando com você, Ron? – Mione diz, e pega mais uma batatinha. – Ela está inventando.

- Isso acontece o tempo todo naquele seriado, Beverly Hills Bordello - Ron se defende.

- Nós não tomávamos banhos todas juntas – digo. – Quer dizer, eu e Mione às vezes tomávamos...

- Fale mais sobre o assunto, por favor – Ron abre uma nova cerveja amanteigada.

- Não fale – disse Hermione. – Você só vai incentivá-lo.

- Que parte você estava lavando quando ele entrou? – o tom de voz de Angel ia do abismado ao interessado. – Tinha outra garota com você na hora? Que parte ela estava lavando? Ou estava ajudando você a se lavar?

- Não – respondo. – Era só eu. E, naturalmente, quando vi um cara no banheiro das garotas, eu berrei.

- Fez bem – Ron disse. – E pegou uma toalha, espero.

- Sim. Então, peguei uma toalha e o cara... não dava para ver direito com aquele monte de vapor, fumaça e tudo mais... aí, ele disse, com a voz mais linda que já se ouviu: "Senhorita, o prédio está pegando fogo. Acho que você precisa sair".

- Então, espere – Ron diz. – O cara viu você pelada?

- Sem nadinha – Angelina confirma.

- Então, àquela altura, os corredores estavam todos cheios e eu não enxergava nada, por isso ele pegou na minha mão e me guiou para fora com toda segurança, e daí a gente começou a conversar... eu de toalha e tudo o mais. E foi quando percebi que ele era o amor da minha vida.

- Com base em uma única conversa – Mione parece bem cética. Mas, bem, como ela esperou sete anos para começar a namorar meu irmão, não dá para esperar que ela entenda o que eu sinto em relação à Dean.

- Bem – eu digo –, nós ficamos nos agarrando o resto da noite também. E é por isso que eu sei que ele não é gay. Quer dizer, aquilo ficou bem duro.

Ron engasgou com sua cerveja amanteigada.

- Então, bem – tento pôr a conversa nos eixos novamente –, ficamos nos agarrando a noite toda. Mas daí ele teve que voltar para a Inglaterra no dia seguinte, porque era o fim do semestre...

- ...E agora que Ginny finalmente se formou, ela vai para Londres para passar o resto do verão com ele – Hermione termina para mim. – Depois vai ficar lá para apodrecer, igualzinho à...

- Vamos lá, Mione – interrompo rapidinho. – Você prometeu.

Ela só fez uma careta para mim.

- Escute, Ginny – Ron pega outra cerveja. – Eu sei que esse cara é o amor da sua vida e tudo o mais. Mas você tem o próximo semestre inteiro para ficar com ele. Tem certeza de que não quer passar o resto do verão conosco na França?

- Nem se dê ao trabalho, Ron – Hermione diz. – Eu já perguntei a ela oito milhões de vezes.

- Você mencionou que nós vamos ficar em um château francês do século XVII com vinhedo próprio, empoleirado no topo de uma colina, com vista para um vale verdejante, cortado por um rio comprido e preguiçoso?

- Hermione me contou – eu digo. – E é muito gentil da sua parte me convidar. Apesar de você não estar exatamente em condição de convidar os outros, porque, por acaso, o château pertence a um dos seus amigos de Hogwarts, e não a você.

- Este é um detalhe ínfimo – retruca Ron. – Podemos convidar mais alguém para nos ajudar.

- Ah, mas é claro! – diz Hermione irônica. – Mais mão-de-obra escrava para a empresa de casamentos amadora dele. – E diante da expressão confusa de Angel, explica: - É um amigo de Hogwarts de Ron. Tem um castelo antigo na França num povoado bruxo que foi do padrinho dele e agora aluga algumas vezes durante o verão para a realização de casamentos. Nós partimos amanhã para passar um mês inteiro no château, de graça, em troca de ajudar nos casamentos.

- Um lugar para a realização de casamentos? – Angel repete. – Quer dizer, tipo Las Vegas?

- É isso mesmo – eu respondo. – Só que é de bom gosto. E a passagem é bem mais cara. E não tem bufê de café-da-manhã.

Alguém puxa a barra do meu vestido e eu olho para baixo. A filha mais velha de meu irmão Bill, Victoire, está me estendendo um colar feito de macarrão.

- Tia Ginny – ela diz. – Pra você. Eu que fiz. Para sua formatura.

- Ah, muito obrigada, Victoire. – Eu me ajoelho, para que Vicky possa passar o colar por cima da minha cabeça.

- A tinta ainda não secou. – Victoire aponta para as manchas de tinta azul e vermelha que agora foram transferidas do macarrão para a parte da frente do meu vestido de festa cor-de-rosa Suzy Perette de 1954 (que não foi nada barato, apesar de meu desconto para funcionária).

- Tudo bem, Vicky – digo. Porque, afinal de contas, ela só tem quatro anos. – É lindo.

- Ah, você está aqui! – Tia-avó Muriel vem cambaleando na nossa direção, apontando para mim. – Procurei você em todo lugar, Molly. Está na hora da Doutora Quinn.

- Tia. – Aprumo o corpo para pegar o braço fininho como um graveto dela, antes que perca o equilíbrio. Vejo que ela já conseguiu derrubar alguma coisa por cima da túnica verde de crepe de chine de 1960 que eu peguei para ela na loja. Por sorte, as manchas de tinta do colar de macarrão que Victoire fez para ela escondem um pouco da sujeira. – Eu sou Ginny. Não Molly. Mamãe está ali, perto das mesas de sobremesas. E o que a senhora andou bebendo?

Pego a garrafa na mão de titia e cheiro o conteúdo. De acordo com a combinação que fizemos em família, seria preenchida de cerveja sem álcool, depois fechada novamente, devido à incapacidade de tia Muriel de controlar a bebida, o que já resultou no que mamãe gosta de chamar de "incidentes". Mamãe tinha esperança de evitar qualquer "incidente" na minha festa de formatura, dando só cerveja sem álcool para ela (mas sem informar a ela a respeito desse pequeno detalhe, é claro). Porque senão ela teria feito a maior confusão, iria dizer que nós estávamos tentando acabar com a diversão de uma senhora de mais de cem anos e tudo o mais.

Mas não sei dizer se a cerveja dentro da garrafa é mesmo sem álcool. Colocamos as cervejas falsificadas em um cantinho especial da geladeira. Mas ela pode ter conseguido arrumar a coisa de verdade em algum lugar. Ela é espertinha assim.

Ou vai ver que ela só ACHA que tomou a coisa certa e, por consequência, pensa que está bêbada.

- Ginny? – tia Muriel parece desconfiada. – O que está fazendo aqui? Não devia estar na faculdade?

- Eu me formei na faculdade em maio, titia – respondo. Bem, mais ou menos. Isso sem contar os dois meses que passei em recuperação, para conseguir a nota que eu precisava em língua estrangeira para poder me formar. – Esta é a minha festa de formatura. Bem, minha festa de formatura-barra-despedida.

- Despedida? – a desconfiança de titia se transforma em indignação. – Para onde você acha que vai?

- Para a Inglaterra, titia, depois de amanhã – respondo. – Para visitar meu namorado. Está lembrada? Nós falamos sobre isto.

- Namorado? – tia Muriel fica olhando para Ron, estupefata. – Não é aquele ali?

- Não, titia – respondo. – Aquele é meu irmão, Ron, namorado de Hermione. A senhora se lembra de Hermione Granger, certo, tia Muriel? Ela vinha aqui nas férias, sempre.

- Ah, a filha dos trouxas – tia Muriel aperta os olhos na direção de Hermione. – Agora me lembrei de você. Achei mesmo que tinha visto seus pais perto da churrasqueira. Você e Ginny vão cantar aquela musiquinha que sempre cantam quando estão juntas?

Hermione e eu tocamos olhares de pavor. Ron comemora.

- Hey, é isso aí! – Angelina diz. – Qual era mesmo a música que vocês costumavam cantar? Tipo no show de talentos ou qualquer coisa dessas?

Lanço um olhar de alerta a Angel, já que Victoire continua por perto, e respondo:

- Little pitchers.

Pela cara dela, é óbvio que não faz a menor ideia do que eu estou falando. Suspiro e começo a conduzir tia Muriel na direção da casa.

- É melhor entrar, tia Muriel – eu digo. – Ou vai perder seu programa.

- Mas e a música? – ela quer saber.

- Vamos cantar a música mais tarde, senhora Weasley – Mione garante a ela.

- Eu vou cobrar – Ron lança uma piscadela.

Hermione diz "nos seus sonhos" para ele, só movendo os lábios. Ron manda um beijo para ela por cima do gargalo da garrafa.

Os dois são tão fofos juntos... Não posso esperar para chegar a Londres para que Dean e eu possamos ser fofos juntos também.

- Vamos, tia Muriel – eu digo. – A Doutora Quinn está começando agora.

- Ah, que bom – diz tia Muriel. Para Hermione, confidencia: - Eu não ligo nem um pouco para aquela boba da Doutora Quinn. É aquele gostosão que está sempre com ela... dele, eu nunca me canso!

- Certo, tia Muriel – eu me apresso em dizer, quando Hermione cospe toda a cerveja amanteigada que tinha acabado de colocar na boca. – Vamos entrar logo, antes que perca seu programa...

Mal avançamos alguns metros no pátio, no entanto, e logo somos paradas por Kingsley Shacklebolt, o Ministro da Magia, com a namorada bonita dele, Madame Rosmerta, radiante em um sári cor-de-rosa, ao lado. Não sei como meu pai conseguiu fazer o Ministro da Magia vir até a América do Norte só para minha festa de formatura. Talvez falando que Comensais da Morte poderiam invadir Ann Arbor. Tanto faz.

- Meus parabéns pela sua formatura – Shacklebolt me cumprimenta.

- Sim – Madame Rosmerta concorda. – E, se nos permite dizer, você está muito magra e adorável.

- Ah, obrigada – respondo. – Muito obrigada mesmo!

- E o que vai fazer agora que se formou em... No que mesmo? – o Ministro quer saber. É uma pena ele estar usando um protetor de bolso, mas se eu não consegui fazer nem com que meu próprio pai desistisse desse troço, então é bem improvável que eu consiga fazer algum avanço nesse sentido com o Ministro da Magia.

- História da moda – respondo.

- História da moda? Eu não sabia que a sua faculdade oferecia cursos nessa área – diz o Ministro.

- Ah, não oferece. O meu programa de graduação foi individualizado. Sabe como é, quando você decide por conta própria as cadeiras que vai cursar?

- Mas história da moda? – Shacklebolt parece preocupado. – Há muitas oportunidades disponíveis nessa área no Mundo Bruxo?

- Ah, toneladas – respondo, tentando não me lembrar de como, no fim de semana passado mesmo, peguei um exemplar do Profeta Dominical e vi que todos os empregos ligados à moda (e a promoção de vendas) dos classificados ou não exigiam exatamente diploma de bacharel ou exigiam anos de experiência no ramo, algo que não tenho. – Posso conseguir um emprego no Instituto do Vestuário no Museu Metropolitano. – Como faxineira, é claro. – Ou figurinista da Broadway. – Sabe como é, se todos os figurinistas do mundo morrerem ao mesmo tempo. – Ou posso até ser compradora de uma loja refinada como a Saks Fifty Avenue. – Isso se eu tivesse escutado a minha mãe, que insistiu para que eu trabalhasse no Gringotes.

- Como assim, compradora? – tia Muriel parece escandalizada. – Você vai ser estilista, não compradora! Ah, esta menina rasga e costura as roupas dela de um jeito todo esquisito desde que tinha idade suficiente para segurar uma varinha – ela explica ao Ministro e à Madame Rosmerta, que olham para mim como se tia Muriel tivesse acabado de informar que eu gosto de ficar dançando as músicas d'As Esquisitonas pelada no meu tempo livre.

- Ahn – digo, com uma risada nervosa. – Era só um passatempo. – Não menciono, é claro, que eu só fazia isso (reinventava minhas roupas) porque nós não tínhamos dinheiro para comprar roupas novas, então eu tinha que, de algum modo, transformar as roupas velhas de mamãe em algo interessante e jovem.

E é por isso, claro, que gosto tanto das roupas vintage. Elas são muito bem-feitas e podem ser renovadas com simples ajustes.

- Passatempo o caramba. Está vendo essa blusa aqui? – tia Muriel aponta para sua túnica manchada. – Ela tingiu pessoalmente. Era cor de laranja, e agora, olhe só para ela! E ela cortou as mangas para ficar mais sexy, bem como eu pedi!

- É uma blusa muito bonita mesmo – diz Madame Rosmerta gentilmente. – Tenho certeza de que Ginny irá longe com tanto talento.

- Ah. – Sinto que meu rosto ficou da cor de uma beterraba. – Quer dizer, eu nunca poderia... sabe como é. Viver disso. É só um passatempo.

- Ah, que bom – o Ministro parece aliviado. – Ninguém deve passar quatro anos em uma boa faculdade para depois ganhar a vida costurando!

- Seria mesmo o maior desperdício! – concordo, preferindo não comentar com ele que passarei o primeiro semestre depois da formatura com o mesmo emprego de subgerente de loja enquanto espero meu namorado se formar.

Tia Muriel parece inconformada.

- Por que o senhor se preocupa? – ela me dá uma cotovelada. – Os quatro anos foram de graça mesmo. Não importa o que vai fazer com o que aprendeu lá.

Shacklebolt e Madame Rosmerta e eu trocamos sorrisos, todos igualmente acanhados com a explosão de tia Muriel.

- Os seus pais devem ter muito orgulho de você – continuou Madame Rosmerta, ainda com um agradável sorriso nos lábios. – Quer dizer, por ter tanta segurança a ponto de estudar uma coisa tão... obscura, quando tantos jovens qualificados não conseguem nem arrumar emprego no Mundo Bruxo nos dias de hoje. É muito corajoso da sua parte.

- Ah – engulo a ânsia de vômito que sempre me parece subir à garganta quando penso sobre meu futuro. É melhor não pensar sobre o assunto agora. É melhor pensar em como vou me divertir com Dean. – Bem, sou corajosa mesmo.

- Vou dizer, é corajosa mesmo – tia Muriel apoia. – Ela vai para Inglaterra depois de amanhã para transar com algum fulano que mal conhece.

- Bom, agora precisamos entrar – agarro a mão de titia, puxando-a. – Muito obrigada por virem, Shacklebolt e Madame Rosmerta!

- Ah, espere. Isto aqui é para você, Ginny. – Madame Rosmerta coloca uma caixa embrulhada com papel de presente na minha mão.

- Ah, muito obrigada – exclamo. – Não precisava!

- Não é nada mesmo – ela diz com uma risada. – É só uma luzinha de leitura. Seus pais disseram que você iria viajar, então pensei que, se você for ler no trem ou algo assim...

- Bem, muito obrigada mesmo – repito. – Vai ser mesmo muito útil. Tchauzinho, então.

- Luzinha de leitura – tia Muriel resmunga enquanto a afasto, apressada, de perto do Ministro e de sua namorada. – Pra ser o Ministro ele bem que poderia dar uma coisinha melhor! Quem diabos vai querer uma luzinha de leitura?

- Muita gente – respondo. – É muito útil ter uma.

Tia Muriel diz uma palavra muito feia. Ficarei feliz quando ela estiver bem acomodada e segura na frente da reprise de Doutora Quinn.

Mas, antes que eu possa fazer isso, há muitos obstáculos que precisamos transpor, inclusive Percy.

- Minha irmãzinha! – Percy exclama, tirando os olhos da criancinha que ele colocou em um caldeirão ao lado da mesa de piquenique, em cuja boca enfia colheradas de purê de batata. – Não acredito que está se formando na faculdade! Fico me sentindo tão velho!

- Você é velho – titia observa.

Mas Percy apenas a ignora, como costuma fazer quando se trata de tia Muriel.

- Audrey e eu estamos tão orgulhosos de você. – Os olhos por detrás das grossas lentes que ele usa se enchem de lágrimas. Foi uma pena ele não ter me escutado quando falei sobre usar calças na altura das canelas. Não sei como os homens podem achar isso legal. – Não só pela coisa de se formar, mas por... bem, você sabe. A perda de peso. Mesmo. Você está simplesmente fantástica. E... bem, nós compramos uma coisinha para você. – Ele coloca um pacotinho embrulhado para presente na minha mão. – Não é nada de mais... sabe como é, comigo sem emprego e Molly ocupando todo o tempo de Audrey e tudo o mais. Mas achei que uma luzinha de leitura seria útil para você. Sei como você adora ler.

- Uau – digo, mesmo sem gostar realmente de ler. – Muito obrigada, Percy. Foi mesmo muita consideração da sua parte.

Tia Muriel começa a dizer alguma coisa, mas aperto a mão dela com muita força.

- Ai – ela reclama. – Da próxima vez por que não me azara?

- Bem, preciso levar tia Muriel para dentro – explico. – Está na hora da Doutora Quinn.

Percy olha para titia.

- Ela não falou para todo mundo que tem tesão por Byron Sully, falou?

- Pelo menos ele tem emprego... – tia Muriel começa.

- Certo – digo, puxando tia Muriel e entrando pelas portas de correr. – Vamos, tia. Sully não pode ficar esperando.

- Isto não é maneira de falar comigo, tia Muriel! – ouço Percy dizer atrás de nós. – Eu poderia ter qualquer emprego que eu quisesse!

- Acredito – titia retruca. Então, enquanto a arrasto para longe, ela reclama: - Esse seu irmão. Como conseguiu aguentá-lo todos estes anos?

Antes de conseguir formular uma resposta (o que não foi nada fácil numa situação daquelas), ouço meu irmão, George, chamar o meu nome. Viro e vejo se aproximar de nós aos tropeções, com uma travessa de comida flutuando ao seu lado. Infelizmente, ele está usando calças verdes apertadas demais para ele.

Será que meus irmãos nunca vão aprender? Algumas coisas precisam continuar sendo um mistério.

Mas acho que, como foi esse visual que conquistou a mulher de George, Angelina, ele resolveu mantê-lo.

- Ah, oi – George diz, com a fala meio enrolada. Fica claro que ele também andou virando alguns copos. – Preparei seu prato preferido, em homenagem ao seu grande dia.

Ele tira a tampa de plástico da travessa e passa embaixo do meu nariz. Uma onda de náusea toma conta de mim.

-Ratatouille de abóbora! – George berra, com gargalhadas estridentes. – Lembra aquela vez que tia Karen fez aquela ratatouille e mamãe disse que você tinha que comer tudo para ser educada, e você vomitou tudo no jardim?

- Lembro – respondo, sentindo-me como se estivesse pronta para vomitar tudo de novo.

- Não foi engraçado? Então, preparei este prato para lembrarmos o passado. Hey, qual é o problema? – Parece que ele pela primeira vez reparou na minha expressão. – Ah, fala sério. Não vá me dizer que você ainda odeia abóbora! Achei que você tivesse esquecido disso depois que cresceu!

- Por que ela esqueceria? – tia Muriel quer saber. – Eu nunca esqueci. Porque você não pega esse troço e enfia no...

- Certo, titia – eu me apresso em dizer. – Vamos. Doutora Quinn está esperando.

Apresso titia, antes que os dois comecem a trocar azarações. Do outro lado da porta de correr estão meus pais.

- Aqui está ela – papai fica todo alegre ao me ver. – A primeira pessoa da família que realmente termina a faculdade depois de Charlie!

Espero que George, Percy e Ron não o escutem. Apesar de, tecnicamente, ser verdade.

- Oi, pai – eu o cumprimento. – Oi, mãe. A festa está oti... – Daí reparo na mulher parada ao lado deles. – Doutora Sprague! – exclamo. – Você veio!

- Claro que vim. – A doutora Sprague, minha conselheira universitária, me dá um abraço e um beijo. – Eu não teria perdido por nada no mundo. Olhe só para você, tão magrinha agora! Aquela coisa de maneirar nos carboidratos realmente funcionou.

- Obrigada.

- Ah, e olhe aqui, até trouxe um presentinho de despedida para você. Desculpe, mas não deu tempo de embrulhar. – A doutora Sprague coloca uma coisa na minha mão.

- Ah, uma luzinha de leitura! – meu pai diz. – Olhe só para isso, Ginny! Aposto que vai usar bastante.

- Com toda a certeza – mamãe concorda. – No trem que você vai pegar em Londres. Uma luzinha de leitura é sempre útil.

- Em nome de Merlin – tia Muriel se intromete. – Isso estava em liquidação em algum lugar?

- Muito obrigada, doutora Sprague – eu me apresso em dizer. – Foi muito atencioso da sua parte. Mas, de verdade, não precisava.

- Eu sei – a doutora Sprague parece, como sempre, muito profissional e alinhada com um tailleur de linho vermelho. Mas não tenho bem certeza se esse tom de vermelho específico é o mais adequado para ela. – Eu estava aqui pensando se podemos conversar em particular um instante, Ginevra?

- Claro que sim – respondo. – Mamãe, papai, se nos dão licença... Quem sabe um de vocês não pode levar titia e colocar a televisão no canal Hallmark? O programa dela está começando.

- Ai, Merlin – minha mãe diz, com um gemido. – Não é...

- Sabe – diz tia Muriel –, você poderia aprender muito com Doutora Quinn, Molly. Ela sabe fazer sabão com um intestino de ovelha. E teve gêmeos aos cinquenta anos. Cinquenta! – Ouço titia berrar enquanto mamãe a leva para o escritório. – Eu queria ver você tendo gêmeos de novo aos cinquenta anos.

- Há algo errado? – pergunto à doutora Sprague, conduzindo-a para a sala de visitas da casa de meus pais, que mudou muito pouco desde quando nos mudamos d'A Toca para os Estados Unidos quando terminei os estudos em Hogwarts. O par de poltronas velhas em que meu pai e minha mãe lêem toda noite (ele, histórias de trouxas; ela, livros de culinária) continua coberto com plástico para protegê-las das penas de nossas corujas. Nossas fotografias de infância (eu cada vez mais gorda nas imagens consecutivas, meus irmãos cada vez mais altos e magros) de todos os ruivos ainda forram cada centímetro disponível de parede. É um lugar aconchegante, surrado e simples, e eu não trocaria aquela sala por nenhuma outra no mundo.

Com a possível exceção de um cômodo na casa de praia de Pam Anderson, em Malibu, que eu vi na semana passada no MTV Cribs. Era surpreendentemente fofo. Levando tudo em conta.

- Você recebeu meus recados? – a doutora Sprague quer saber. – Passei a manhã toda ligando para o seu celular.

- Não – respondo. Quer dizer, na minha casa há sempre muita magia para manter meu celular ligado o tempo todo, por isso o deixo desligado a maior parte do tempo. E fiquei ocupada correndo de um lado para o outro, ajudando minha mãe a organizar a festa. – Por quê? Qual o problema?

- Não há uma maneira fácil de dizer isto – a doutora Sprague fala, com um suspiro. – Então, simplesmente vou dizer. Quando você se inscreveu no programa individualizado, Ginny, você se deu conta de que uma das exigências para se formar era uma monografia, não?

Fico olhando para ela sem entender nada.

- Uma o quê?

- Uma monografia. – A doutora Sprague, aparentemente percebendo, pela minha expressão, que eu não faço a menor ideia do que ela está falando, afunda-se com um gemido na poltrona do meu pai. – Ai, Merlin. Eu sabia. Ginny, você não leu nenhum dos materiais do departamento?

- Claro que li – respondo na defensiva. – Quer dizer, li a maioria deles, pelo menos. – Era tudo a maior chatice.

- Você não ficou se perguntando por que, ontem, na cerimônia de entrega das varinhas de ouro, a sua varinha veio vazia?

- Bom, claro que sim. Mas achei que tinha sido porque eu não tinha terminado a cadeira relativa a língua estrangeira. E foi por isso que eu fiz dois cursos durante o verão...

- Mas você também tinha que redigir uma monografia – explica a doutora Sprague. – Com um resumo, basicamente, do que você aprendeu no seu campo de estudo. Ginny, você só vai estar formada oficialmente quando entregar sua monografia.

- Mas – meus lábios pareceram entorpecidos –, vou viajar para a Inglaterra depois de amanhã e ficar lá um mês. Vou visitar meu namorado.

- Bem – a doutora Sprague diz, com um suspiro –, então vai ter que escrever quando voltar.

Agora é minha vez de afundar na poltrona que ela acabou de vagar.

- Não dá para acreditar – balbucio, deixando todas as minhas luzinhas de leitura caírem do colo. – Meus pais fizeram esta festa... deve ter uns duzentos bruxos ali fora. Alguns dos meus professores da escola vêm. E a senhora está dizendo que eu nem me formei na faculdade de verdade?

- Não enquanto não entregar sua monografia – diz a doutora Sprague. – Sinto muito, Ginny. Mas vão exigir pelo menos cinco metros de pergaminho.

- Cinco metros??? – ela podia ter dito cinquenta que não faria diferença. Como é que vou poder saborear o meu café-da-manhã inglês na cama king size de Dean sabendo que tenho CINCO metros de pergaminho pairando em cima da minha cabeça? – Ai, Merlin. – Agora me dou conta de algo ainda pior. Não sou mais a primeira garota Weasley a terminar a faculdade. – Por favor, não comente sobre isso com meus pais, doutora Sprague. Por favor.

- Não vou comentar. Eu sinto muito mesmo – lamenta a doutora Sprague. – Não faço ideia de como isso aconteceu.

- Eu faço – respondo, cheia de tristeza. – Eu deveria ter ido estudar em uma faculdade particular pequena. Em uma faculdade pública gigantesca, é muito fácil se perder no meio da multidão e acabar descobrindo que, na verdade, não me formei.

- Mas estudar em uma faculdade particular pequena teria custado milhares de galeões, e agora você estaria preocupada com como ia pagar a conta. Ao frequentar uma universidade pública gigantesca, você recebeu educação superior sem pagar absolutamente nada, e agora, em vez de ter que arrumar um emprego logo de cara, você pode se dar ao luxo de ir para a Inglaterra passar um tempo com... como é mesmo o nome dele?

- Dean – respondo em tom desanimado.

- Certo. Dean. Bem – a doutora Sprague coloca no ombro sua cara bolsa de couro de dragão –, acho que é melhor eu ir. Só quis dar uma passada por aqui para lhe dar a notícia. Se lhe serve de consolo, Ginny, tenho certeza absoluta de que a sua tese irá ser ótima.

- Eu nem sei sobre o que escrever – choramingo.

- Uma breve história da moda já basta. Para mostrar que você aprendeu alguma coisa enquanto esteve aqui. E – ela completa, toda contente – você pode até fazer um pouco de pesquisa enquanto estiver na Inglaterra.

- Posso mesmo, não é?

Estou começando a me sentir um pouco melhor. Eu amo moda. E a doutora Sprague tem razão: a Inglaterra seria o lugar perfeito para fazer pesquisa. Lá tem tudo o que é tipo de museu. E posso ir à casa de Jane Austen! Pode ser até que tenham algumas roupas dela lá. Roupas iguais às que usavam em Orgulho e Preconceito no canal A&E! Eu amei aquelas roupas!

Merlin. Pode até ser que isto se transforme em algo divertido.

Não faço ideia se Dean vai querer ir visitar a casa de Jane Austen. Mas por que não quereria? Seus pais são trouxas. E ela também. Naturalmente, vai se interessar pela história de uma escritora trouxa.

Claro. Claro, vai ser maravilhoso!

- Obrigada por ter vindo aqui pessoalmente me dar a notícia, doutora Sprague – digo, levantando-me e a acompanhando até a porta. – E muito obrigada pela luzinha de leitura também.

- Ah, não foi nada. Claro que eu não devia dizer isto, mas vou sentir falta de você no departamento. Você sempre causava tanta sensação quando aparecia por lá com uma das suas, bem... – percebo que o olhar dela vai do meu colar de macarrão para o vestido manchado de tinta – roupas incomuns.

- Bom, muito obrigada, doutora Sprague. Se algum dia quiser que eu arrume uma roupa incomum para a senhora, é só dar uma passada na Vintage to Witches, sabe onde é, aqui mesmo no povoado bruxo...

É bem aí que meu irmão George irrompe na sala, aparentemente já esquecido da raiva dele por causa da ratatouille de abóbora, já que está dando risadas quase histéricas. Ele é guiado por Angel, meu outro irmão Percy, a mulher dele Audrey, Charlie, Bill, Fleur, Shacklebolt e Madame Rosmerta, diversos outros ruivos da festa, Mione e Ron.

- Ela está aqui, ela está aqui – George berra.

Dá para ver na hora que ele está mais bêbado do que nunca. George agarra meu braço e começa a me arrastar para o patamar da escada, aquele que costumávamos usar como palco quando éramos pequenos, para representar peças para os nossos pais. Bom, para onde meus irmãos costumavam ME empurrar para representar peças para nossos pais. E para eles.

- Vamos lá, formanda – George diz, com um pouco de dificuldade com as palavras. – Cante! Todos nós queremos ver você e Hermione cantando aquela musiquinha!

Na verdade, George fala algo como: "Cantche! Todosh nósh queremosh vê vochê esh Shermione cantchando aquel mushiquinha!".

- Bem... – digo, ao reparar que Percy agarra Hermione com tanta força quanto George me agarra. – Não.

- Ah, vamos lá – Percy exclama. – Queremos ver a nossa irmãzinha e a amiguinha dela cantarem a musiquinha! – E joga Mione para cima de mim, de modo que nós duas tropeçamos e quase nos estatelamos no patamar.

- Esses seus irmãos sofrem do pior caso de inveja fraterna que já vi na vida – Hermione sussurra no meu ouvido. – Não acredito em como eles se ressentem porque você, diferentemente deles, não engravidou alguma idiota no meio do ano de faculdade e foi obrigada a ficar em casa o dia inteiro com um pirralho babão.

- Mione! – fico chocada de ouvir esse resumo sobre a vida de meus irmãos. Apesar de ser tecnicamente exato.

- Todas as bonitinhas que se formaram na faculdadezinha – George diz, sem se dar conta de que está se dirigindo a adultos com voz de bebê – têm que cantar sua musiquinha!

- George – digo. – Não. De verdade. Quem sabe mais tarde. Não estou a fim.

- Todas que se formaram na faculdade – George repete, desta vez apertando os olhos, com uma expressão perigosa – precisam cantar.

- Neste caso, você vai ter que me deixar de fora desta.

E então me viro e dou de cara com mais de cem expressões embasbacadas.

E percebo que acabei de cometer um deslize.

- Brincadeirinha – digo rápido.

E todo mundo dá risada. Menos tia Muriel, que acaba de sair do escritório.

- Sully nem está nesse episódio – ela anuncia. – Caramba. Quem vai pegar uma bebida para uma senhora de mais de cem anos de idade?

Então ela cai em cima do tapete e começa a roncar de leve.

- Eu amo esta mulher – Hermione diz para mim quando todo mundo corre para tentar reanimar minha avó e esquece completamente de Mione e de mim.

- Eu também – concordo. – Você nem faz ideia do quanto.


N/A: Olá, leitores!

Capítulo um pouco maior. Ok, bem maior. Até agora esse capítulo de flashback foi o maior que já fiz. E é o único flashback da fic, então no próximo capítulo voltamos para a data do começo da fic (sim, Ginny terá que enfrentar as consequências de seu engano com Dean!).

Tenho que pedir desculpas pela fic estar meio confusa, pois mantive algumas coisas que estão no livro (como os personagens e seus filhos, modo como se conheceram, a guerra, etc.) e mudei total outras (como as datas, a mudança de Ginny da Inglaterra à Ann Arbor, as faculdades bruxas, a ausência de Harry por enquanto).

Aos fãs do Harry, aguardem! Ele surge de uma maneira bem inesperada. Mas isso só se continuarem lendo e, por favor, comentando! Prometo responder tudo!

Um beijo enorme para todos e para Padma Ravenclaw, a minha autora e leitora preferida! Te adoro! :)

Até mais, pessoal! ^^

Afetuosamente,

Lucy Lovering.