Capítulo 9:

Quando a sorte dá uma reviravolta


"Só se encontram bons conversadores em Paris."

- François Vilion (1431-1463), poeta francês.


História da Moda

MONOGRAFIA DE GINEVRA WEASLEY

A Revolução Francesa, no final do século XVIII, não foi apenas um levante de pessoas comuns tentando derrubar a monarquia em favor da democracia e do republicanismo. Não! Também tinha a ver com moda: os abastados (que davam preferência a perucas empoladas, pintas falsas no rosto e saias armadas, às vezes com até quatro metros e meio de diâmetro) contra os depauperados (que usavam botas grosseiras, saias estreitas e tecidos simples). Neste levante específico, como a história mostra, os camponeses venceram.

Mas a moda saiu perdendo.


Estou puxando minha mala de rodinhas pelos corredores do trem Paris-Souillac, e tento não chorar.

Não por causa da mala. Bem, mais ou menos por causa da mala. Quer dizer, o corredor é muito estreito, e estou com a bolsa de mão pendurada no ombro, e meio que preciso andar de lado, igual a um caranguejo, para não bater na cabeça das pessoas com ela enquanto procuro (aparentemente sem sucesso) um assento virado para frente na primeira classe do vagão de não-fumantes de um trem.

Se eu fumasse e não me importasse em ficar virada para trás, tudo estaria ótimo. Só que não fumo e tenho medo de vomitar se viajar virada para trás. Na verdade, tenho certeza que vou vomitar, porque estou com ânsia de vômito desde que acordei em Paris, depois de apagar no meu assento confortável no trem de Londres, como acontece com tia Muriel depois que toma muito fire whisky que usamos para cozinhar, e me dei conta do que tinha feito.

O que é, em resumo, sair viajando pela Europa por conta própria, sem fazer a menor ideia se de fato vou encontrar o lugar, e muito menos a pessoa, que procuro. Principalmente porque Mione continua sem atender o telefone e sem me ligar de volta.

Claro que parte da razão por que estou com tanta ânsia de vômito pode ser porque também estou morrendo de fome e mal consigo enxergar. Tudo o que comi desde o café-da-manhã foi uma maçã que comprei na estação de Waterloo, já que foi o único alimento nutritivo sem abóbora que consegui encontrar à venda ali. Se eu quisesse uma barra de chocolate Cadbury ou uma torta de abóbora, estaria feita.

Mas como não queria, estava com azar.

Espero que haja um vagão-restaurante neste trem. Mas, antes que eu possa procurá-lo, preciso encontrar um lugar decente para deixar minha bagagem.

E isto está se comprovando muito difícil. Minha mala é tão larga e desajeitada que fica batendo nos joelhos das pessoas quando passo e, apesar de eu estar pedindo desculpas feito uma louca ("Pardonnez-moi", digo, quando não é "Excuzez-moi" que estou falando), parece que ninguém aprecia muito minhas desculpas. Talvez seja porque todo mundo é francês e sou americana, e parece que ninguém aqui gosta de americanos. Pelo menos, a julgar pela maneira como o garoto ao meu lado no assento virado para trás de um vagão de fumante que eu encontrei (mas que por consequência precisei abandonar) perguntou, com a voz cheia de nojo, quando me ouviu deixando mais um recado para Mione no celular.

- Êtes-vous américaine?

- Eh... – respondi. - Oui?

E ele fez uma careta e pegou um iPod, enfiou os fones no ouvido e virou para a janela, para não ter que olhar de novo para mim.

Vamos a la playa, gritava a música que eu escutava claramente saindo do fone dele. Vamos a la playa.

Sei que essa música vai ficar grudada na minha cabeça o resto do dia. Ou da noite, devo dizer, porque já é de tarde e o meu trem ainda demora seis horas para chegar a Souillac.

Há ainda outra razão para que eu vá em busca de um novo assento. Como é que conseguirei passar seis horas ao lado de um garoto de dezessete anos com o nariz cheio de meleca e com uma camiseta dos Monsters, que escuta europop, odeia americanos e fuma?

Claro que agora parece que aquele era o único assento vago no trem inteiro.

Será que vou aguentar durante seis horas? Porque, se aguentar, vai ser uma beleza. Tem lugar de sobra para mim e minha bagagem gigantesca nos espaços entre os vagões.

Como é que isso pode estar acontecendo comigo? Tudo pareceu tão simples quando Jamal, na livraria, explicou o que eu teria que fazer para chegar à França. Ele pareceu tão sabido e gentil, parecia que ir de Londres ao lugar onde Mione estava seria superfácil.

Mas é claro que ele não comentou que, no minuto em que se abre a boca para falar com qualquer pessoa neste país e a pessoa percebe que você é americana por causa do seu sotaque, simplesmente também respondem em inglês.

E geralmente também não são muito simpáticas.

Mas, mesmo assim. Consegui seguir a maior parte das indicações na Gare du Nord. O bastante para conseguir minha passagem, pelo menos (que eu reservei pelo telefone), em uma das máquinas. O bastante para encontrar meu trem. O suficiente para entrar aos tropeções no primeiro vagão que encontrei e me largar na primeira poltrona livre.

Pena que não reparei na fumaça de cigarro (nem no fato de que eu estava virada para o lado errado) até que o trem realmente começou a se movimentar.

É difícil não ficar achando que essa coisa toda foi uma péssima ideia. Não o negócio de estar me mudando para um outro assento... ISSO já sei que foi má ideia. Mas o fato de vir para a França. Quer dizer, e se eu nunca conseguir encontrar Mione? E se o celular dela tiver caído na privada de novo, como aconteceu no alojamento, e ela não tiver dinheiro para comprar outro ou se não houver loja de celular por perto e ela simplesmente ficar sem telefone durante o restante da viagem? Como vou encontrá-la?

Acho que devo perguntar às pessoas, quando chegar a Souillac, se sabem onde fica o Château Mirac. Mas e se ninguém nunca tiver ouvido falar do Château Mirac? Mione não disse se o château fica longe da estação de trem. E se for muito, muito longe?

E, inclusive, até parece que eu posso ligar para os pais de Mione e perguntar se eles sabem onde ela está e como eu posso entrar em contato com ela. Porque então eles vão contar para a minha mãe e para o meu pai, e eles vão saber que as coisas não deram certo com Dean (quer dizer, Di) e vão contar para os meus irmãos.

E então eles não vão parar de falar nisso nunca mais.

Ai, Merlin, como é que eu fui me meter nisto? Talvez eu devesse simplesmente ter ficado na casa de Di. Qual é a pior coisa que poderia ter acontecido? Eu poderia ir visitar a casa de Jane Austen sozinha e só usar a casa de Di como uma espécie de base. Eu não precisava sair de lá. Poderia simplesmente ter dito algo como: "Ouça, Di, não está dando certo entre nós, porque você não é quem eu pensava que fosse. Tenho uma monografia para escrever, então vamos simplesmente concordar em ignorar um ao outro durante todo o tempo que eu passar aqui; assim, faço as minhas coisas e você faz as suas".

Poderia simplesmente ter tido isso a ele. Claro que agora já é tarde demais. Não posso voltar. Não depois do bilhete que deixei para ele quando peguei aquele táxi até a casa dele (os melhores quinze nuques que já gastei) para pegar minhas coisas. Graças a MERLIN que não tinha ninguém em casa...

...e graças a Merlin Dean teve a ideia de me dar uma chave pela manhã, antes de sairmos, que coloquei na caixa de correio dos Thomas quando fui embora.

Ai, Merlin. Uma poltrona! Uma poltrona vazia! Virada para o lado certo! Em um vagão de não-fumantes! E ao lado de uma janela!

Certo, tenha calma. Pode estar ocupada e a pessoa só levantou para usar o banheiro ou algo assim... ai, Merlin, bati na cabeça daquela senhora com a minha mala...

- Je suis désolée, madame – digo.

Isso significa "desculpe", certo? Ah, quem se importa? Uma poltrona! Uma poltrona!

Ai, Merlin. Uma poltrona ao lado de um cara que parece ter mais ou menos a minha idade, com cabelo escuro meio grande, grandes olhos verdes e camiseta social enfiada na calça Levi's desbotada nos lugares certos. Que ele usa com um cinto de couro de dragão trançado.

É possível que eu tenha morrido. Que desmaiei no corredor do trem e morri de fome, desidratação e desgosto.

E que isto é o céu.

- Pardonnez-moi - digo para o cara totalmente gostoso. - Mais est-ce que... est-ce que...

O que quero perguntar é: "A poltrona ao seu lado está vazia?". Só que em francês, é óbvio. Só que não consigo me lembrar da palavra para poltrona. Nem para ocupada. Aliás, acho que nunca estudei essa frase nas aulas de francês dos cursos de verão da faculdade. Talvez tenha estudado, mas talvez eu estivesse tão ocupada sonhando acordada com Dean (quer dizer, Di) que não prestei atenção no dia.

Ou talvez seja só que este cara é tão lindo que eu não consigo pensar em mais nada.

- Quer sentar aqui?

É o que o cara na poltrona do lado do corredor pergunta, apontando para o assento vazio.

Em inglês perfeito. Em inglês AMERICANO perfeito.

- Ai, Merlin! – solto. – Você é americano? A poltrona realmente não está ocupada? Posso sentar aí?

- A resposta é sim. – O americano abre um sorriso que revela dentes brancos perfeitos. Dentes brancos, perfeitos e AMERICANOS – para as três perguntas.

E ele se levanta para me deixar passar para o assento da janela.

Não só isso, mas ele também se inclina, pega minha mala gigantesca com rodinhas que acabou de estragar mil joelhos franceses durante sua longa trajetória arrastada por diversos vagões de trem e oferece:

- Deixe que eu ajudo.

E, aparentemente sem esforço, ergue a mala e coloca no maleiro acima das nossas cabeças.

Certo. Agora estou chorando.

Porque isto não é alucinação. Não estou morta. Isto realmente está acontecendo. Eu sei porque acabei de tirar minha bolsa de mão do ombro e coloquei embaixo do assento à minha frente, e todo o lado direito do meu corpo ficou dormente por causa do peso que não está mais lá. Se eu estivesse morta, por acaso ia sentir o ombro dormente?

Não.

Eu me afundo no assento (no assento macio e acolchoado) e simplesmente fico lá sentada, olhando fixamente para os prédios que passam a toda velocidade pela janela, completamente incapaz de acreditar na minha sorte. Como é que a minha sorte, que anda totalmente podre, deu uma reviravolta assim tão incrível para melhor? Isto não pode estar certo. Tem que haver uma pegadinha. Simplesmente, tem que haver.

- Quer água? – o cara ao meu lado pergunta, oferecendo uma garrafa plástica de Evian.

Mal consigo enxergá-lo por entre as lágrimas.

- Você... você está me dando a sua água?

- Bem... – ele diz. – Não. Vem uma garrafinha em cada poltrona, isto aqui na primeira classe. Todo mundo ganha uma.

- Ah – respondo, sentindo-me uma idiota (e qual é a novidade?). Não tinha reparado na água na minha última poltrona. Aquele garoto francês provavelmente tinha pegado a minha. Ele tinha cara de quem roubaria a água de qualquer pessoa.

Pego a água do meu novo (e imensamente aprimorado) companheiro de poltrona.

- Obrigada – agradeço. – Sinto muito. É só que... este dia foi bem longo.

- Estou vendo. A menos que você sempre chore em trens.

- Não choro – balanço a cabeça e dou uma fungada. – De verdade.

- Bom, fico feliz em saber. Claro que já ouvi falar de medo de avião. Mas nunca soube que existia medo de trem.

- O meu dia foi péssimo. – Abro a água. – De verdade. Você não faz ideia. É tão bom ouvir um sotaque americano... Não dá para acreditar como todo mundo por aqui nos odeia.

- Ah – ele exibe mais uma vez os dentes perfeitos –, eles não são assim tão ruins. Se você visse como o turista americano típico age, você também se sentiria da mesma maneira que os franceses.

Engulo a maior parte da minha água. Estou começando a me sentir um pouco melhor... já não parece mais que estou morta, apesar de ter certeza de que a minha aparência deve estar igual à de um cadáver. O que é ótimo, já que agora posso ver ainda de mais perto o rosto de meu companheiro de poltrona, e percebo que ele não é apenas lindo. As feições dele são cheias de gentileza, inteligência e bom humor também. Algo de familiar...

A menos que isto seja apenas uma miragem causada pela fome.

Ah, certo. Agora estou pensando que ele poderia ser o Harry. Deixe de ser idiota, Ginny. Só porque um cara foi bondoso com você não significa que ele seja o Harry. Apesar de ele continuar me parecendo familiar. Alguém do alojamento McCracken? Hogwarts? Tenho que perguntar o nome dele assim que parar de chorar.

- Bem. – Ergo a mão para enxugar os olhos com o pulso. Fico imaginando se o meu rímel não está escorrendo pelas bochechas, deixando marcas escuras. Será que passei o que é à prova d'água? Nem consigo lembrar. – Vou acreditar no que você diz.

- É a sua primeira viagem a França? – ele pergunta, cheio de simpatia.

Até a voz dele é gostosa. Soa familiar, meio profunda e muito compreensiva.

- Sim, mas nasci em Londres, onde eu estava hoje de manhã.

E então, como uma represa que se rompe, começo a chorar de novo.

Tento não chorar alto. Sabe como é, sem soluçar nem nada.

Simplesmente não posso pensar em Londres (nem consegui ir à Top Shop) sem que meus olhos se encham de lágrimas.

O meu companheiro de poltrona cutuca o meu cotovelo com o dele. Quando abro meus olhos marejados, vejo que ele segura um saco plástico à minha frente.

- Quer sapos de chocolate? – ele pergunta.

Eu enlouquecida de fome. Sem dizer nada, enfio a mão no saquinho e tiro um punhado de sapos de chocolate, que desembrulho e coloco na boca. Não ligo que sejam de chocolate e lotados de carboidratos. Estou faminta.

- Eles... também vêm em todas as poltronas? – pergunto entre fungadas.

- Não – ele responde. – São meus. Pode se servir de mais, se quiser.

Eu quero. Esta é a melhor coisa que já comi. E não é só porque faz um tempão que não como açúcar.

- Obrigada – digo. – Eu... eu sinto muito.

- Por quê? – meu companheiro de poltrona pergunta.

- Por f-ficar aqui sentada chorando deste jeito. Geralmente não sou assim. Juro.

- Viagens podem ser muito estressantes. Principalmente hoje em dia.

- É verdade – pego mais alguns sapos. – Nunca dá para saber. Quer dizer, a gente conhece pessoas que parecem perfeitamente ótimas. E então descobre que elas só ficaram mentindo para você o tempo todo, para que você pagasse a taxa de matrícula delas porque perderam todo o dinheiro em uma partida de Texas Hold'em.

- Na verdade, eu estava me referindo aos alertas terroristas – meu companheiro de poltrona diz, um tanto seco. – Mas acho que, eh... isso que você mencionou também pode ser bem chato.

- Ah, é sim – garanto a ele por entre lágrimas. – Você nem faz ideia. Quer dizer, ele simplesmente mentiu para mim... dizendo que me amava e tudo mais... quando na verdade só queria me usar. Quer dizer, Di, que é o nome do cara que eu abandonei lá em Londres, parecia ser tão legal, sabe? Ele ia ser professor. Disse que ia dedicar a vida a ensinar jovens bruxos a fazer feitiços. Já ouviu falar em alguma coisa mais nobre?

- Eh... – meu companheiro de poltrona responde. – Não?

- Não. Porque, quem é que faz uma coisa dessas hoje em dia? Os bruxos da nossa idade... Quantos anos você tem?

- Vinte e três – meu companheiro de poltrona responde, com um sorrisinho nos lábios.

- Certo. – Abro a bolsa e remexo lá dentro, em busca de lenços de papel. – Bem, você já reparou que o pessoal da nossa idade... parece que todo mundo só pensa em ganhar dinheiro? Tudo bem, nem todo mundo, mas muita gente. Ninguém mais quer ser professor, nem mesmo curandeiro... não com essa coisa de médicos trouxas e tudo o mais. Ninguém mais ganha tanto dinheiro nesta área. Todo mundo quer ser Auror, ou jogador de Quadribol ou cantor de uma banda famosa, porque é assim que se ganha dinheiro. Eles não ligam se não fazem nada positivo para a humanidade. Só querem ter uma McMansão e um BMW. É sério.

- Ou pagar os empréstimos que fizeram para financiar a faculdade – acrescenta meu companheiro de poltrona.

- Pois é. Mas, por exemplo, você não precisa estudar na faculdade mais cara do mundo para ter uma boa educação. –Consegui localizar um pedaço amassado de lenço de papel no funda da minha bolsa. Uso-o para absorver minhas lágrimas. – A educação é o que você faz dela.

- Realmente nunca pensei na questão dessa maneira – comenta meu companheiro de poltrona. – Mas pode ser que você tenha razão.

- Acho que tenho – digo. Os prédios que passavam a toda pela minha janela se transformaram em campos abertos. O céu é de um vermelho dourado e o sol começa a se afundar no horizonte a oeste. – Quer dizer, sei do que estou falando. Vi isso pessoalmente. Se você estuda algo trouxa como... sei lá. História da Moda ou algo assim... as pessoas acham que você é louca. Ninguém mais quer ter nenhuma carreira criativa, porque é arriscado demais. Pode até ser que não recebam o retorno do investimento financeiro que fizeram na educação, que acreditam que deveriam receber. Então todo mundo vai ser Auror ou jogador de Quadribol ou... procuram alguma garota americana para casar e poderem ser sustentados por ela.

- Parece mesmo que você está falando a partir de experiência pessoal – meu companheiro de poltrona observa.

- Bem, e o que mais posso pensar? – Estou falando sem parar. Sei que estou divagando, mas parece que não consigo me conter. Da mesma maneira que não consigo parar as lágrimas que escorrem pelas minhas bochechas. – Quer dizer, que tipo de pessoa... sabe como é, que quer ser professor... trabalha como garçom e TAMBÉM recebe seguro-desemprego?

Meu companheiro de poltrona parece refletir sobre o assunto.

- Alguém que está precisando de dinheiro?

- É o que pensaríamos – respondo, fungando no lenço de papel. – Mas e se eu dissesse a você que essa mesma pessoa perdeu todo o dinheiro que tinha jogando Texas Hold'em, e depois pediu à namorada que pagasse sua taxa de matrícula, e depois, como se não fosse o bastante, disse para a família inteira que... ela... quer dizer, que eu sou... uma gordinha?

- Você? – Meu companheiro de poltrona parece adequadamente surpreso. – Mas você não é. Gorda, quer dizer.

- Não sou mais – solto um pequeno soluço. – Mas eu era. Quando nós nos conhecemos. Mas perdi quinze quilos desde a última vez que nos vimos. Mas, apesar de eu ter sido gorda... ele não tinha nada que andar por aí dizendo isso às pessoas! Não se ele me amava de verdade. Certo? Se ele realmente me amasse, não ia ter reparado que eu era gorda. Ou até teria reparado, mas não faria diferença. Não tanto a ponto de contar para a família dele.

- É verdade – meu companheiro de poltrona concorda.

- Mas ele contou. Disse para todo mundo que eu era gorda. – Novas lágrimas jorram. – E quando cheguei lá, todo mundo ficou, tipo: "Você não é gorda!". E foi por isso que eu soube que ele tinha feito o comentário. E então ele perde no jogo o dinheiro que os pais dele, que trabalham tanto, lhe deram para pagar a universidade! Quer dizer, a mãe dele... a coitada da mãe dele! Você tinha que ver. Ela é assistente social, e ela fez um café-da-manhã gigantesco para mim e tudo o mais. Apesar de eu não gostar de abóbora, e tudo que ela fez tinha abóbora. O que é sinal que Di nunca me amou nem um pouco... eu disse especificamente a ele que não gostava de abóbora, e ele não prestou a mínima atenção. Era como se não me conhecesse nem um pouco. Quer dizer, ele me mandou uma carta com a foto do bumbum dele pelado. O que faria um cara pensar que uma garota ia QUERER ver a foto do bumbum pelado dele? Quer dizer, falando sério? Por que ele acharia que isso é algo normal de se fazer?

- Realmente, não sei dizer – meu companheiro de poltrona responde.

Assoo o nariz.

- Mas, sabe, isso é típico do jeito sem noção do Di. E o mais assustador de tudo é que tenho pena dele. Sério. Não sabia que ele fraudava o seguro-desemprego nem que andava por aí me chamando de gorda nem que só queria me usar para pagar as dívidas de jogo dele. E o pior de tudo é que... Ai, Merlin, isso não pode ter só acontecido comigo, não é mesmo? Quer dizer, você algum dia já achou que amava alguém e fez coisas de que se arrependeu com aquela pessoa? E gostaria de poder voltar atrás mas não pode? Quer dizer, isso já não aconteceu com você?

- De que tipo de coisa estamos falando? – meu companheiro de poltrona quer saber.

- Ah!

É surpreendente, mas estou começando a me sentir um pouco melhor. Talvez seja o assento confortável, ou o brilho dourado que invade o vagão do trem enquanto a paisagem interiorana tranquila passa lá fora. Talvez seja o fato de que finalmente ingeri um pouco de líquido. Ou açúcar dos sapos de chocolate.

Ou talvez, apenas talvez, seja o fato de que dizer tudo isso em voz alta esteja servindo para recuperar minha autoconfiança. Quer dizer, qualquer um poderia ter sido enganado por um bruxo sorrateiro quanto Dean... quer dizer, Di. QUALQUER BRUXO. Talvez não meu companheiro de poltrona, já que ele é homem. Mas qualquer bruxa. QUALQUER bruxa.

- Você sabe de que tipo de coisa estou falando – respondo.

Olho ao redor, para me assegurar de que ninguém está escutando. Todos os outros passageiros parecem estar cochilando ou ouvindo coisas em fones de ouvido, ou são franceses demais para me entender, de todo modo. Mesmo assim, abaixo a voz.

- Uma chupada – digo, sem emitir som nenhum, só movimentando os lábios.

- Ah – meu companheiro de poltrona ergue as duas sobrancelhas –, esse tipo de coisa.

O negócio é que ele é americano. E tem a minha idade. E é tão legal. Eu me sinto completamente à vontade para falar sobre isso com ele, porque sei que não vai me julgar.

Além do mais, nunca mais vou vê-lo.

- Falando sério – digo. – Os caras não fazem a menor ideia. Ah, espere. Talvez você faça. Você é gay?

Ele quase engasga com a água que está bebendo.

- Não! Eu pareço gay?

- Não. Mas, bem, o meu gayzômetro não é dos melhores. Meu último relacionamento antes de Dean foi com um cara que me trocou pelo colega de quarto dele. O colega de quarto HOMEM dele.

- Bom, eu não sou gay.

- Ah. Bem, o negócio é que, a menos que você tenha dado uma, não pode saber. É uma coisa e tanto.

- O que é uma coisa e tanto?

- Dar uma chupada – sussurro de novo.

- Ah – ele responde –, certo.

- Quer dizer, sei que vocês, homens, sempre querem uma, mas não é nada fácil. E o negócio é o seguinte: por acaso ele tentou me dar alguma coisa em troca? Não! Claro que não! Não que eu não tenha dado conta do recado, sabe como é. Eu me assegurei de que aproveitei bem. Mas, mesmo assim. Simplesmente é falta de educação, em especial porque só fiz aquilo por pena dele.

- Uma... chupada por pena? – Meu companheiro de poltrona está com a expressão mais estranha do mundo no rosto. Mais ou menos como se estivesse tentando não dar risada. Ou como se não estivesse acreditando que está tendo esta conversa. Ou talvez uma combinação das duas hipóteses.

Ah, beleza. Agora ele vai ter uma história engraçada para contar à família quando voltar para casa. Se é que a família dele é daquelas que não veem problema em ficar falando de chupadas. O que não é o caso da minha família, de jeito nenhum. Bem, talvez à exceção de tia Muriel.

- Pois é, fiz por pena dele, porque ele não conseguiu gozar. Mas agora percebo que foi tudo fingimento. Que ele apenas fingiu que não estava conseguindo gozar. Estava fingindo! Para eu dar uma chupada nele. Eu me sinto tão usada. Vou dizer... quero isso de volta.

- A... chupada? – ele pergunta.

- Exatamente. Se pelo menos existisse uma maneira de eu tê-la de volta...

- Bem – diz meu companheiro de poltrona –, parece que você conseguiu. Você foi embora. Se isso não é tomar uma chupada de volta, não sei o que pode ser.

- Não é a mesma coisa – retruco em tom de desprezo.

- Billets. – Vejo um bruxo de uniforme parado no corredor. – Billets, s'il vous plaît.

- Você está com sua passagem? – meu companheiro de poltrona pergunta.

Concordo com a cabeça e abro a bolsa. Consigo localizar minha passagem, e o bruxo ao lado a pega. Um segundo depois, o condutor avança e meu companheiro de poltrona diz:

- Vi que você está indo para Souillac. Tem algum motivo especial? Conhece alguém lá?

- A minha melhor amiga, Hermione. Ela supostamente vai me encontrar lá. Na estação. Se receber meu recado. Que nem sei se ela recebeu, já que parece que ela não está atendendo o telefone. Que ela provavelmente derrubou dentro da privada de novo. Porque ela sempre faz coisas assim.

- Então... Hermione nem sabe que você está chegando?

- Não. Quer dizer, ela me convidou. Mas eu disse que não. Porque na época achei que ia dar tudo certo com Di. Mas acontece que não deu.

- Bem, mas a culpa não foi nem um pouco sua.

É então que eu olho para ele. O sol, que desliza para dentro do vagão, tingiu de dourado o perfil dele. Reparo que ele realmente tem cílios compridos. Mais ou menos como uma garota. E também que os lábios dele são bem cheios e têm aparência macia. Parecem deliciosos.

- Você é realmente muito simpático. – Agora minhas lágrimas secaram totalmente. É surpreendente como é terapêutico contar todos os meus problemas para um completo desconhecido. Não é de se estranhar que tanta gente que conheço faça terapia. – Obrigada por me ouvir. Mas devo ter parecido uma psicótica completa para você. Aposto que está aí pensando o que fez para merecer uma louca como eu sentada ao seu lado.

- Acho que você simplesmente passou por um momento muito difícil – meu companheiro de poltrona abre um sorriso. – E tem todo o direito de parecer psicótica. Mas não acho que você seja louca. Pelo menos, não totalmente.

- É mesmo?

Além dos cílios e dos lábios adoráveis, as mãos deles também são muito bonitas. Fortes e limpas, e também bronzeadas, com só um pouquinho de pelos escuros na parte de cima.

- Só não quero que você fique pensando que saio por aí chupando todos os caras de quem sinto pena. Realmente, não faço isso. Foi minha primeira vez. Na vida.

- Não sai? Que pena. Eu ia contar como fui criado em um orfanato na Romênia.

Fico olhando para ele sem entender nada.

- Você é romeno?

- Foi uma piada. Para você ficar com pena de mim. Para você...

- Entendi. Engraçado.

- Não muito – ele suspira. – Sou péssimo para fazer piada. Sempre fui. Hey, escute. Está com fome? Quer ir até o vagão-restaurante? Ainda falta muito para chegar a Souillac, e você comeu todos os meus sapos de chocolate.

Olho para o saquinho de plástico vazio no meu colo.

- Ai, Merlin. Desculpe! Sinto muito mesmo! Eu estava morrendo de fome... É, vamos até o vagão-restaurante. Eu pago o jantar para você. Para recompensar os sapos de chocolate. E o choro. E o negócio da chupada. Sinto muito mesmo por tudo isso.

- Eu a convido para jantar – ele diz, todo galante. – Para recompensar suas recentes desventuras nas mãos do meu gênero sexual. Que tal?

- Eh... Tudo bem. Mas... nem sei o seu nome. O meu é Ginny Weasley.

Ele vacila um pouquinho ao ouvir meu nome, mas estende a mão direita logo depois.

- O meu é James Villiers. E acho que você precisa saber que sou um Auror. Mas não tenho nenhuma McMansão nem nenhuma BMW. Juro.

Pego a mão dele automaticamente mas, em vez de apertá-la, só fico olhando para ele, momentaneamente aturdida.

- Ah, sinto muito. Não foi minha intenção... Tenho certeza que nem todos os Aurores querem fama e dinheiro...

- Tudo bem – James aperta minha mão. – A maior parte só quer isso. Só que eu não quero. Agora, venha. Vamos comer.

Ah, que pena. Apesar de familiar, não conheço nenhum James Villiers, nem no alojamento nem em outro qualquer lugar. Os dedos dele são quentes e só um pouquinho ásperos. Fico olhando para ele, perguntando a mim mesma se o brilho rosado ao seu redor é apenas causado pelo sol poente ou se ele é, de algum modo, um anjo enviado para me salvar.

Hey. Nunca se sabe. Até mesmo uma pessoa que trabalha como Auror pode ser um anjo. Merlin escreve certo por linhas tortas.


N/A: Olá, gente!

Parece que as coisas estão melhorando para nossa petite Ginny! ^^

Quem gostou manda um review! Êêêêêê!!! :P

E como estou num momento meio de odiar o reply to review, vou responder aqui quem me enviou review:

Danda Jabur: Nossa, eu que "capotei" com teu coments! (risos) Amei! Mas será que é o Harry mesmo??? Bom, pelo menos sabemos que ele não é gay... Espero que tenha gostado desse capítulo! ;)

oOLivia McCartneyOo: Olá, querida! Obrigada por comentar! Mas é o que eu falei para a Danda: será que é o Harry? Pelo menos não é gay... Espero que com esse capítulo eu esteja longe de tua lixa de unhas... (risos) Beijos!

Paddy: Hey, querida! Obrigada por me dar toda essa força! Ah, e parabéns pelo resultado do Challenge! EBA!!!

Continuem comentando porque o próximo capítulo só sai com TRÊS reviews... Então, contem-me o que vocês acharam! ;)

Beijos, muitos beijos e aguardem o próximo capítulo, em que Ginny conhece melhor seu novo e aprimorado companheiro de poltrona. See you!

Afetuosamente,

Lucy Lovering.