Capítulo 11:

Surpresas da França


"Nós nos sentimos mais seguros com um louco que fala do que com um que não consegue abrir a boca".

- E. M. Cioran (1911-1995), filósofo francês de origem romena.


História da Moda

MONOGRAFIA DE GINEVRA WEASLEY

Os chamados vestidos império, usados pelas mulheres no início do século XIX, com frequência eram tão transparentes quanto as camisolas de hoje em dia. Para se aquecer, as mulheres usavam espécies de ceroulas da cor da pele, feitas de algodão com a trama bem fechada, que podiam ir até os tornozelos ou só até abaixo dos joelhos. É por isso que, ao vermos pinturas da época, as mulheres de vestido império geralmente parecem não estar usando roupas de baixo – a ideia de sair assim, ao natural, só iria ocorrer às pessoas cerca de dois séculos mais tarde.


Acordo com alguém dizendo meu nome e me sacudindo com delicadeza.

- Ginny. Ginny, acorde. Chegamos à nossa estação.

Abro meus olhos, sobressaltada. Estava sonhando com Nova York: eu e Mione tínhamos nos mudado para lá e não tínhamos encontrado nenhum lugar melhor para morar a não ser uma caixa de papelão de geladeira em algum tipo de pista expressa, e tive que arrumar emprego dobrando camisetas (quilômetros e quilômetros de camisetas com mangas soltinhas) na Gap.

Fico assustada ao perceber que não estou em Nova York, mas sim em um trem. Na França. Que parou na minha estação. Pelo menos se a placa o lado de fora da janela, que se delineia contra o céu noturno (quando é que ficou tão escuro lá fora?), em que se lê Souillac, servir de indicação.

- Ai, não – exclamo, apressando-me para levantar. – Ai. Não.

- Está tudo certo. – James diz com a voz suave. – Já peguei as suas malas.

E pegou mesmo. Minha mala de rodinhas já está abaixada do maleiro suspenso e ele me entrega a alça, junto com minha bagagem de mão e minha bolsa.

- Está tudo certo – ele dá uma risada por causa do meu pânico. – Não vão deixar você a bordo.

- Ah – minha boca está com um gosto horrível, por causa do vinho. Não acredito que caí no sono. Será que fiquei respirando em cima dele? Será que ele sentiu meu bafo horrível de vinho? – Sinto muito. Foi muito bom conhecer você. Muito obrigada por tudo. Você é tão legal. Espero vê-lo de novo algum dia. Obrigada de novo...

Então saio apressada do trem, dizendo "Pardon, pardon", com meu melhor sotaque francês possível para todo mundo em que esbarro a caminho da saída.

E daí estou lá parada na plataforma. Que parece ser no meio do nada. No meio da noite.

A única coisa que escuto são os grilos. Há um leve cheiro de lenha queimada no ar.

Ao meu redor, outros passageiros que desceram ao mesmo tempo que eu estão sendo cumprimentados por parentes animados que vão aparatar com eles logo depois. Vejo alguns carros roncando e algumas vassouras esperando os donos acompanhados embarcarem neles. Há algumas Chaves de Portal espalhadas em lugares estratégicos, onde alguns bruxos se dirigem rapidamente para não perder a hora. A plaquinha de uma delas diz Sarlat.

Não faço ideia do que é Sarlat. Só sei que a cidade de Souillac não é bem uma cidade. Parece, aliás, ser apenas uma estação de trem.

Que no momento está fechada, se a porta trancada e as janelas escuras servirem de indicação.

Isto não é bom. Porque, apesar das diversas mensagens que deixei informando-a a respeito do meu horário de chegada, Mione não está aqui para me pegar. Estou encalhada em uma plataforma de trem no meio do interior da França.

Completamente sozinha. Completamente sozinha, a não ser por... Alguém ao meu lado limpa a garganta. Viro para trás e dou de cara (quase literalmente) com James. Que está parado atrás de mim. Com um enorme sorriso no rosto.

- Oi de novo – ele diz.

- O quê... – fico olhando para ele. Será que é uma fantasia da minha mente? Será que meu vinho estava envenenado com uma poção alucinógena que embaralhou meu cérebro? Tenho quase certeza que não. Eu já estaria morta agora se isto acontecesse, certo?

Então, ele realmente está aqui. Parado na minha frente. Com um porta-roupa cinza e extremamente comprido nas mãos. Enquanto o trem se afasta.

- O que você está fazendo aqui? – solto um berro estridente. – Esta aqui não é a sua estação!

- Como é que você sabe? Você nem perguntou pra onde eu ia.

Isso é bem verdade, percebo, estupefata.

- Mas... mas... – gaguejo. – Você viu minha passagem. Sabia que eu desceria em Souillac. E não disse que você também ia descer aqui.

- Não – James responde. – Não disse.

- Mas... por quê? – De repente sou tomada por um pensamento terrível. E se o encantador e belíssimo James for algum tipo de serial killer? Que caça americanas vulneráveis em trens estrangeiros, transmite a elas uma falsa noção de segurança e então as mata quando chegam a seu destino? E se ele tiver algum corpo escondido dentro daquele porta-roupa? Pode ter, totalmente. O troço parece terrivelmente volumoso. Volumoso demais para conter um terno formal ou uma calça social.

Olho ao redor e percebo que o último carro do estacionamento está se afastando, junto com as pessoas da Chave do Portal de Sarlat, e assim ficamos sozinhos na plataforma. Totalmente sozinhos.

- Eu queria dizer a você que eu desembarcaria em Souillac – James está dizendo quando consigo me concentrar nele, e não no fato de que, se ele pegar a varinha para me matar, não vou poder me defender, pois a minha está no meio da minha bolsa de mão –, mas achei que daí você poderia ficar envergonhada.

- Envergonhada com o quê? – pergunto.

- Bem – James está começando a parecer um pouco acanhado sob a luz forte que vem do candeeiro do poste, ao redor da qual mariposas se lançam, fazendo tanto barulho quanto os grilos que cricrilam. Porque percebeu que precisa me matar agora e que isso não vai ser nada agradável? – Na verdade, não fui muito sincero com você... Quer dizer, você simplesmente achou que eu era um desconhecido qualquer em um trem, para quem você podia contar todos os seus problemas...

- Realmente, sinto muito por isso – digo. Merlin, que tipo de pessoa mataria outra só porque ela contou a história de sua vida em um trem? Isto é totalmente impensável. Ele só precisava pegar um livro e fingir que estava lendo ou algo assim, e eu teria ficado quieta. Provavelmente. – Eu estava muito aborrecida...

- Mas foi muito interessante – James dá de ombros. – Preciso dizer uma coisa. Nunca aconteceu de uma garota se sentar ao meu lado e começar a falar sobre... bem, sobre o que você falou. Nunca.

Isto não pode estar acontecendo. Por que eu fui contar tanto a respeito da minha vida pessoal a um desconhecido completo? Até mesmo para um cara assim tão fofo, com camiseta Hugo?

- Acho que você está enganado ao meu respeito – afasto-me lentamente na direção da escada da plataforma do trem. – Não sou esse tipo de garota. Quer dizer, de jeito nenhum.

- Ginny – James dá um passo na minha direção. Ele não vai me deixar recuar na direção da escada. – A razão pelo qual não contei a você que eu desembarcaria em Souillac... além do fato de você não ter perguntado... é porque não sou um desconhecido qualquer que você conheceu em um trem.

Ah, maravilha. Esta é a parte em que ele começa a me contra alguma história psicótica a respeito de como nos conhecemos em outra vida. É igual a uma repetição exata de Michael Córner, do meu sétimo ano em Hogwarts. Por que sou um imã de esquisitões? POR QUÊ?

E ele parecia tão maravilhoso no trem! Mesmo! Ele disse que eu era bastante corajosa! Ele restaurou totalmente a minha fé nos homens! Por que ele tinha que se revelar um psicopata assassino? POR QUÊ?

- Falando sério – digo. Isto é tudo culpa de Mione, é claro. Se ela atendesse a porcaria do celular de vez em quando, nada disso estaria acontecendo. – O que você quer dizer?

- Quero dizer que eu sou o Harry. Harry Potter.

Paro de recuar. Paro de olhar para o porta-roupa. Paro de pensar sobre minha morte iminente. Ele disse Harry. Harry Potter.

- Harry? Como assim, Harry? – sou obrigada a parar por alguns segundos para absorver a informação. – Eu não vejo o Harry há seis anos!

- Fico espantado de que você não tenha reparado ainda, Ginny. Sabe, quando você entrou na minha cabine e tudo, eu juro que não sabia quem você era. Mas depois, com o que você foi me falando, eu a reconheci. Não era minha intenção mentir à você, mas você não tinha me reconhecido e àquela altura você já tinha falado... sabe como é – ele parece mais envergonhado do que acanhado. – E eu sabia que você só fez aquilo porque achava que nunca mais me veria...

- Que ideia então foi essa de James de Villiers? Como você pôde? – desabafo, atônita.

- Eu sei que deveria ter dito antes quem eu era, Ginny, mil desculpas. Mas você teria acreditado se eu tivesse falado, quando você estava chorando, que eu era Harry e que estava vindo para França para ajudar no divórcio do Hagrid e que, pelo destino, fomos parar no mesmo trem depois de seis anos?

Paro um segundo para pensar.

- Não.

Harry continua a olhar para mim como se quisesse continuar, mas antes que ele diga alguma coisa, eu digo:

- Mas isso não significa que você fez bem em ficar de boca fechada. Eu queria que você tivesse me dito desde o começo. As coisas seriam mais simples.

- Desculpe, Ginny – e continuou me fitando com seus olhos extremamente verdes. – Por favor.

- O que aconteceu com a sua cicatriz? – pergunto, ignorando seu pedido de desculpas e me lembrando que não vi a cicatriz uma vez sequer. Se ele estivesse com a cicatriz, eu o reconheceria na hora.

- Feitiço de Desilusão direcionado, que esconde marcas por um determinado tempo. Eu não queria que ninguém conhecido me visse enquanto ia à Paris, para pegar o vestido de casamento da sobrinha de Madame Maxime. Ela não confiava na loja para mandar para cá e chegar inteiro. Está vendo?

Ele abre um pouco o zíper do porta-roupa e uma enormidade de renda branca volumosa (indubitavelmente de um vestido de noiva) aparece. Ele coloca o tecido para dentro de novo e fecha o zíper.

- Viu? Desculpe-me, Ginny. Eu sei que errei. Mas como eu poderia dizer quem eu era depois que você me contou... tudo aquilo?

- Ah – meu estômago de repente parece revirado. Já que agora eu me dou conta que contei tudo para meu ex-namorado. TUDO MESMO – Por. Merlin.

- Sinto muito por isso. Eu sabia que você não acharia engraçado quando soubesse. Foi por isso que não contei quem era.

- Mas o que me deixa mais irada é que você sabia, o tempo todo, que eu era a Ginny. E nem tentou me fazer parar de falar. Simplesmente me deixou matraquear daquela maneira. Como uma imbecil.

- Não, não como uma imbecil – ele diz, preocupado. – Não é nada disso. Fiquei feliz de tê-la encontrado. Foi por isso que não tentei fazer com que parasse. Quer dizer, em primeiro lugar, não sabia se, depois que terminamos, você gostaria de falar comigo. E só tinha certeza absoluta de quem você era até já ter quase terminado o seu... eh... desabafo. Simplesmente vi que você precisava desabafar, então deixei, porque, na verdade, gostei. Você continua um doce.

- Merlin! – estou com vontade de jogar o porta-mala em cima da minha cabeça para me esconder. E antes de pensar qualquer coisa, disparo: – Um doce? Falando sobre como dei uma chupada no meu namorado?

- Você falou de um jeito muito doce – Harry me assegura.

- Vou me matar – digo entre os dedos, já que enfio o rosto nas mãos.

- Hey.

Ouço passos, então sinto mãos pegando nos meus pulsos. Ergo os olhos, assustada, e descubro que Harry colocou o porta-roupa por cima da minha mala e está parado muito, mas muito perto de mim mesmo, olhando para o meu rosto enquanto afasta minhas mãos da frente dos olhos com gentileza.

- Hey – ele diz novamente. A voz dele é tão suave quanto seu toque. – Desculpe. Eu não estava pensando direito. Eu não... não sabia o que fazer. Queria contar para você, mas daí, pensei... bem, pensei que seria uma piada engraçada. Mas, como eu já disse... não sou bom de piada.

Estou intensamente ciente de quão verdes os olhos deles tão... tão verdes quanto os galhos da árvore cujo contorno de destaca contra o céu azul-marinho... e como seus lábios são beijáveis. Principalmente porque estão apenas a alguns centímetros de distância dos meus.

- Se você contar para alguém – ouço a mim mesma dizer, em uma voz que ficou estranhamente rouca – o que falei para você no trem... principalmente a Ron... mato você. Sobre eu não ter terminado a minha monografia. E a outra coisa. Você sabe do que estou falando. Não pode contar a ninguém. Entendeu? Eu mato você se contar.

- Compreendo totalmente – Harry segura meus pulsos ainda com mais firmeza, já que tirei as mãos da frente do rosto. Ele essencialmente as segura com suas mãos grandes e quentes. E é gostoso. Bem gostoso. – Dou a minha palavra completa e total. Não vou dizer nada. Sua chupada está totalmente segura comigo.

- Caramba! – exclamo. – Estou falando sério! Nunca mais mencione essa palavra!

- Que palavra? – ele pergunta. Agora os olhos verdes estão iluminados como o monte de estrelas que vejo piscando para nós, como lantejoulas em um twin-set de cashmere. – Chupada?

- Pare – deixo meu corpo se aproximar do dele.

Só para o caso, sabe como é, de ele querer me beijar.

Porque estou começando a perceber que o fato de Harry ser James Villiers não é, nem de longe, o que se pode classificar como má notícia. Levando em conta o fato de que agora não preciso me preocupar sobre falar com Hermione. Nem sobre onde vou passar a noite.

Isso sem comentar que ele é o cara mais legal e mais gostoso (sim, tenho que admitir) que conheci depois de muito tempo. Que não é viciado em Texas Hold'em... não que eu saiba, pelo menos.

E, mesmo sendo meu ex-namorado, continua gostando de mim.

E eu vou passar o resto do verão com ele.

E que ele está segurando as minhas mãos.

De repente, as perspectivas são otimistas. Muito otimistas.

Então, por que não dar um voto de confiança para ele?

- Então – Harry diz –, estou perdoado?

- Está perdoado. – Não posso evitar de sorrir para ele como a imbecil que ele afirma que não sou. Ele é sempre tão... fofo.

E, também, não é apenas fofo. Também é legal. Quer dizer, ele me convidou para jantar.

E foi totalmente solidário quando eu estava chorando como uma maníaca e ele nem sabia que eu era a Ginny naquela hora.

Além do mais, trabalha como Auror. Está trabalhando duro para... proteger os bruxos. Mesmo que, depois do fim de Voldemort, não se tenha muito o que se proteger.

E ele me fez rir ao invés de chorar depois que terminei de falar ao telefone com Di.

E vou ficar na companhia dele. O verão todo. Inteiro...

- Que bom – Harry diz. – Porque eu detestaria que você pensasse que estava errada. Sabe como é, em relação à avaliação de caráter que fez de mim. Aquela, com base nas minhas roupas.

- Não acho que eu esteja errada – abaixo o olhar para o lugar onde a camisa dele se abre um pouco, deixando a visão maravilhosa de seu peito malhado.

- Que bom – ele repete. – Acho que você vai realmente gostar de Mirac.

Eu sei que vou gostar, penso... mas, pelo menos desta vez, me seguro e não digo em voz alta... já que você vai estar lá, Harry.

- Obrigada – eu digo. E fico imaginando se existe alguma possibilidade de ele me beijar agora.

Então nós dois ouvimos um carro chegando e Harry diz:

- Que ótimo, é a nossa carona.

E larga meus pulsos de maneira abrupta.

E um Mercedes conversível antigo de cor amarelo-manteiga entra no estacionamento, dirigido por uma loira de cabelos cor de mel que diz, com sotaque francês:

- Desculpe por ter me atrasado, chérie!

E mesmo antes de ele se apressar para dar um beijo nela, já percebo quem é.

A namorada dele.

Óbvio.


N/A:

Okay, podem me matar. XO

Sim, eu sei que de repente transformei a fic num episódio mal feito de Mutantes - Caminhos do Coração e que se somente surgisse Voldemort no meio da cena, a confusão da Ginny com o Harry ia ficar menos ridícula.

Mas não vão me dizer que vocês não queriam que ele surgisse... ;)

Explico: Ginny não viu Harry por seis anos. Existe mudança maior do que a que temos na adolescência? Ele estava sem cicatriz. Ela estava chorando e desorientada. Ele queria manter o segredo para não magoá-la. Eles haviam terminado.

Convenci?

Reviews pra eu saber! o//

Agora vai começar a 2ª parte da fic, quando Ginny chega à França, prometendo muitas novidades...

Continuem comentando, pois só assim vou continuar com ânimo para continuar atualizando. E obrigada as fofas que leem a fic: Danda Jabur, oOLivia McCartneyOo e Myahnni Black. ^^

Amo vocês todos. [alt+3]

Afetuosamente,

LL.