O dia raiava quando Hana chegou à Vila das Termas. A neblina da manhã juntava-se ao vapor das fontes termais que estavam por todo lado, tornando o ar denso e úmido. Era estranho o fato de que a vila era vizinha à Konoha, mas fazia anos que não ia até lá. A moça sorriu. Há quanto tempo apenas seguia ordens e abdicava de fazer o que queria, quando queria?
Gostava de ser shinobi. E amava animais, cuidar deles, tratá-los, treiná-los. Mas como nada nesta vida é de graça, precisou abrir mão de muitas coisas. Não que não fosse feliz com a vida que levava, mas a proximidade da morte, pelo jeito, a estava fazendo questionar tudo o que fizera até ali. Estava fazendo com que voltasse os olhos aos seus assuntos inacabados e àquelas vontades que sempre deixava para depois em favor das suas obrigações e pela falta de tempo, de modo que agora pareciam ganhar uma importância gritante.
Agora deveria ser o quê? Seis e meia da manhã? Seriam dois dias de viagem – contando a caminhada dali até a Vila dos Templos e o trem de lá até Iwa. Chegaria à Vila da Pedra em duas manhãs. Kamiya teria de acordar cedo para buscá-la na estação ferroviária. Hana sorriu novamente, pensando em como seria quando a amiga a encontrasse. Kamiya iria aparecer de moletom e com o cabelão prateado preso em uma trança – mas só por ser de manhã. E, com certeza, chegaria esfregando os olhos e reclamando de que teve de acordar cedo, com a voz mal-humorada que sempre usava quando tinha de levantar antes das dez da manhã. Mas em trinta segundos ela lhe daria um sorriso luminoso, enquanto gritaria "Hana-chan!" e daria seu característico "abraço de urso". Pensando na amiga assim, percebeu que sentia mais falta dela do que havia se dado conta.
À sua volta, o comércio matutino começava a abrir suas portas. Bancas de frutas e verduras, alguns quiosques, mercados, padarias. E o cheiro de comida no ar a fez lembrar que caminhara a madrugada toda, e que não havia comido nada desde que acordara no hospital na tarde anterior. Entrou em um dos quiosques e pediu chá e anko. Apesar da fome que sentia Hana comia calmamente, observando as pessoas que passavam na rua em direção ao trabalho ou qualquer afazer matinal. Ficou imaginando que agora Konoha contava com menos uma veterinária. Mas sua mãe estava lá, e ela era ótima. Pensou na ninhada de filhotes de lobo nascida na semana anterior. Com certeza seriam bem cuidados por Tsume. Hana pensava ainda que faltaria uma jounin em Konoha. Se bem que não era enviada para missões há muito tempo – a não ser quando estritamente necessário. E pela primeira vez desde que saíra de casa passou pela sua cabeça um fato importante. Ninjas que fugiam da vila eram considerados renegados. E deviam ser caçados. Assim como foi com...
Afastou da mente aquele pensamento. Afinal, era uma moribunda! Tá, nem tanto...
Ou não.
Passou quase uma hora ali, sentada. Pagou sua conta e continuou seu caminho. A Vila das Termas não era muito extensa. Logo cruzou seu limite e alcançou a trilha que a levaria até a Vila dos Templos.
O caminho à sua frente era de terra batida, ladeado por gramado e árvores. Mais à frente, a estrada passava por plantações de grãos, pomares, hortas, fazendas de gado, ovelha e cavalo. Vez ou outra algumas pessoas das propriedades por quais passava lhe dirigiam cumprimentos, aos quais respondia simpaticamente.
Depois de cerca de quatro horas de caminhada Hana começou a sentir os efeitos do exercício e do sol já alto. Tirou o moletom e o pendurou na alça da mochila, e deu um grande gole da garrafa de água que trazia consigo. Soltou o rabo-de-cavalo e prendeu o cabelo em um nó no alto da cabeça, formando um coque. Estava muito quente, mesmo ainda faltando algumas semanas para o verão. Mas logo sairia daquele sol, pois já podia ver a Vila dos Templos do alto da ladeira onde estava. Era uma descida e mais um trecho de estrada de chão batido que levariam cerca de quinze minutos para serem vencidos até a entrada da vila.
Chegando lá, Hana olhava fascinada para os prédios ao seu redor. Admirava principalmente a bela construção no alto de uma colina, que ficava no centro da vila. Nas entradas do labirinto que levava até lá ficavam barraquinhas de souvenires. Um bonito chaveirinho que imitava um portal de templo chamou a atenção de Hana. Kamiya adorava essas bobeirinhas. Comprou o chaveiro para ela, além de uma daquelas camisetas absolutamente constrangedoras, cheia de desenhos e escrito em letras multicoloridas "alguém que me ama muito trouxe esta camiseta da Vila dos Templos". Esta seria para retribuir a que ganhara de Kamiya há um tempo atrás, e Hana usava única e estritamente para dormir – e sozinha, por favor!!! A camiseta dizia: "Manjubinha-kun – Aqui a ostra é sempre fresca". É claro que ainda não estava à altura, mas um dia encontraria uma camiseta tão vergonhosa quanto.
Já era hora do almoço quando Hana deixou o complexo de templos e seguia para a estação ferroviária. Como a vila era essencialmente turística – além de um centro religioso – o caminho até a estação estava repleto de visitantes que se encaminhavam para os restaurantes e quiosques de comida. O estômago de Hana roncou, exigindo atenção.
Chegou até a grande estação. Estivera ali há cerca de um ano, também a caminho de Iwa. A Vila dos Templos estava em época de matsuri, e lugar estava lotado, sendo quase impossível de se mexer lá dentro e mais difícil ainda de se conseguir uma passagem. Hoje o movimento era bem menor. Hana alcançou rapidamente o guichê de venda de passagens e conseguiu uma para dali a duas horas. Passagem garantida, tratou de ir cuidar do seu estômago. Aproveitou um farto almoço e passou o restante do tempo passeando.
Faltavam vinte minutos para a partida quando se deu conta de que havia esquecido de ligar para Kamiya, avisando que chegaria dali a dois dias. Foi até um dos telefones públicos da estação ferroviária, torcendo para que a amiga não estivesse em missão. Ligou e esperou, ouvindo a linha chamar uma, duas, três vezes. Na quarta, atenderam.
- Alô? – disse uma voz feminina particularmente forte e levemente ofegante, entregando que a moça deveria ter corrido para atender o telefone.
- Kami-chan?
- ... – a garota do outro lado da linha ficou muda por alguns segundos, até que gritou com verdadeira alegria e empolgação – HANA-CHAN!!! QUE SAUDADES!!!
- Oi, linda! Tudo bem?
- Tudo... Nossa! Eu tava conversando ontem com a minha mãe sobre você... Não morre tão cedo!
Hana não conseguiu conter um sorriso irônico, pensando na última frase de Kamiya.
- Nee... Então, tá muito ocupada essa semana?
- Não! A gente tá num momento meio que em hiato... Por quê?
- Tem lugar aí pra mim?
- HANA-CHAAAAN! VOCÊ VAI VIR MESMO PRA CÁ??? NYAAAH! Você vem quando?!?
- Eu tô na estação ferroviária da Vila dos Templos, meu trem sai daqui a pouco! Chego aí depois de amanhã, mais ou menos às oito da manhã.
- Nyah, Hana-chan vai me fazer acordar cedo, chata... – o tom de Kamiya era de indignação fingida, e depois voltou ao seu tom animado normal – Te pego lá às oito, então!
- Certo, linda. Agora eu tenho de ir, ou perco o trem!
- Tá, flor! Corre lá, então. Té mais!
Hana desligou o telefone e correu até a plataforma de embarque, e quando chegou a última chamada para os passageiros já estava sendo feita. Foi só o tempo de pular para dentro do trem que a máquina começou a se mover.
Ajeitando o estojo do violão no ombro, sacolas nas mãos e o casaco no braço, Hana ia seguindo pelo vagão e conferindo a passagem para encontrar sua cabine. Enquanto ajeitava seus pertences o nó que prendia seu cabelo desatou, fazendo a cascata castanha cair sobre seus ombros.
Quando finalmente venceu a luta com a bagagem, desistiu de tentar ajeitar o cabelo com as mãos já ocupadas por sacolas e encontrou a cabine. Ao entrar, viu que já havia alguém ali. Bufou levemente. Queria poder tocar violão durante a viagem sem ser incomodada ou incomodar alguém.
A moça entrou e mal deu atenção ao homem que lia compenetradamente em um dos bancos. Jogou o mochilão no bagageiro acima do banco vazio, e junto colocou as sacolas que carregava. E nesse momento em que ajeitava distraidamente seus pertences ouviu um:
- Yo!
Estacou onde estava. Sentiu algo frio se remexer em sua barriga.
Desceu do banco e virou-se na direção da voz. Seu companheiro de cabine agora abaixara o livro e lhe sorria.
Por baixo de uma máscara.
- K-kakashi?!?
(N/A) - capítulo curtinho, esse n.n
Só um momento de transição. Deixei pequeno assim porque o próximo já vai ser mais comprido, e com um tico de ação.
Dude, eu AMO a Hana!
E agradeço a quem tá acompanhando a CDC, viu? Obrigada a quem deixa review, e também a quem lê e não deixa (mas, por favor, manda um só pra dizer que está lendo, assim posso ter uma idéia do que estão achando e de quantas pessoas lêem).
Por enquanto é só, pessoal!
ja nee o/
