Cpítulo 2. O primeiro beijo

O primeiro beijo... Sempre o início das fugas

Marlene observava o sol se por sem conter um sorriso. "O outono só não é mais belo que a primavera", pensava consigo. Passara os últimos vinte minutos observando aquele lado do castelo. Viera despachar uma carta para seus pais e não resistiu à vista do Corujal.

Mas passou pouco tempo a apreciando. Perdeu-se em seus devaneios de lembranças dos dias anteriores.

Remo era realmente especial. "Ele é o cara mais perfeito que conheço…". E sempre que chegava a essa conclusão, o que acontecia muito em seus pensamentos, Marlene era perseguida e "encurralada", como geralmente citava para si mesmo, pela visão de um par de olhos negros e inquisidores presentes tanto no mundo doce de seus devaneios, esvaindo-os, quanto nesse mundo maluco e real que ela tinha que enfrentar todo dia. "Os olhos dele não são negros… Não são como os cabelos… Eles são um pouco acinzentados." Ela sempre mantinha uma feição de quem fazia uma importante observação quando pensava nisto. Mas seu semblante mudava logo… ela mordia os lábios e expressava raiva nos olhos. "Ah, por favor, Marlene. Está parecendo uma daquelas fanzinhas dele! Nem mesmo elas devem ter reparado nisto! Idiota!".

Mas os olhos dele não eram negros… eram mais que isso. A impressão que sempre tivera era que eles eram tão negros que ficaram cinzas, discretamente cinzas. Eles eram mais que negros. O cabelo. O cabelo era negro… "Como podia ser tão negro?" Brilhava caído em contraste com a pele alva. A pele alva que no verão bronzeava-se como se fosse feita para isso. "Ficava tão bem"… E ela sorria ao vê-lo com os olhos estreitados, olhando para o jogo de cima da vassoura, ajeitando para que os cabelos deixassem de insistir em tapar sua visão, com as mãos tão bonitas pelo rosto meio corado, meio bronzeado, o sol brilhando… "E ele sempre sorri pra mim". Sim, quando ele percebia seu olhar ele sempre sorria. Os dentes… Os lábios desalinhados a postar-se perfeitamente para abrir espaço para os dentes perfeitos. "Os dentes são a única coisa perfeita em Sirius." O resto não era perfeito… Era irregular… "Bagunçado. Talvez de propósito…".

Mas os dentes eram perfeitos… "E o nariz". Era longo e bonito… e não era perfeito como o de Remo. "Remo!" Seu coração disparou e ela teve que respirar fundo. Talvez fosse um pouco de culpa. Remo lhe parecia tão dado à ela. "Sirius nunca será assim… nunca me fará sentir segura como Remo o faz.. Ele é perfeito…" Ele tinha os olhos do mesmo castanho claro do cabelo… naquele corte arrumado, num penteado rebelde… sem penteado… às vezes por cima dos olhos que olhavam mais lindo… Os olhos pequenos sombreados por sobrancelhas castanhas baixas… O ar doce em feições que quase deixavam de ser de um garoto… "Ele é um homem".

E ela não era boa o suficiente para Remo.

Uma coruja piou. Marlene virou-se e deu de cara com algumas segundanistas que a olhavam curiosas. "Idiotas." Marlene nunca tivera paciência com essas garotinhas que davam risadinhas pelo castelo. Muito menos agora, em seu sétimo ano. Parecia que tudo era ainda mais ridículo… Parecia que ela jamais encontraria amigos além dos que tinha, porque só eles não davam risadinhas… "Isso. Garotos não dão risadinhas. As garotas são vislumbradas demais… Pensam pouco nas coisas importantes."

Ela saiu do Corujal para o corredor, deixando-as livres para as fofocas. Marlene sempre fora conhecida pelo castelo. Todos a sabiam uma grande bruxa e, claro, grande amiga dos Marotos, a palavra mágica em Hogwarts dos anos 70. Mas popular não era… Era impaciente demais pra isso… Crua demais… "Concentrada nas coisas importantes" como dizia em sua própria defesa sempre que alguém lhe falava para ser mais amigável. "Amigável! Sou amigável! Só não sou falsa e nem fresca…".

Desceu as escadas para o jantar, uma lembrança doce invadindo-lhe os pensamentos…

- Não acredito que isso seja importante nestes tempos – Disse a garota em seu costumeiro tom decidido.

Sirius riu.

- E o que você acredita ser importante nestes tempos? – Disse-lhe com um sorriso irônico e divertido… adorava aquelas conversas com Marlene.

- Isso – Disse a menina que começava a alcançar o tamanho do maroto e por isso seu olhar pomposo, com a cabeça voltada para trás, adquiria ainda mais charme enquanto olhava e apontava a situação.

- Isso? Se esconder num armário de vassouras para que o Filch não nos pegue?

A garota riu. Hoje seu sorriso pareceu ainda mais atraente para Sirius.

Ambos estavam em seu terceiro ano em Hogwarts e conservavam com cumplicidade desde o primeiro ano a inimizade e a perseguição do zelador, não sem merecê-las.

- Idiota. Estou falando de não se deixar reprimir pelas regras institucionais. De fazer o que queremos, desde que seja ético. E desafiar esse sistema antiquado que tenta abafar nossos desejos só por que não nos quer agentes e pensantes!

Sirius sorria já meio acostumado com o vislumbre que Marlene causava em seus discursos com aquele leve tom sarcástico. Conhecia-a há três anos e sempre divertia-se quando a amiga achava explicações quase que heróicas para tudo que fazia de errado, inclusive quando assaltavam a sala de Filch em busca de algo que lhe fora confiscado.

- Ei, companheiro! Diz o que pensa!

- Ah, sim, claro! – Sirius empertigou-se – São indivíduos como o que nos persegue agora que fazem da nossa sociedade tão insatisfeita consigo, o que a leva a acomodar-se. É a liberdade que queremos! E é por isso que realizamos mais uma vez esta façanha, em nome da REVOLUÇÃO! – Sirius não perdia o charme em nenhuma das palavras… Sua beleza estava cada dia mais acentuada… e Marlene não deixara de notar isso.

Os dois riam.

Ultimamente passavam mais tempo juntos do que com qualquer outra pessoa, sem nem notar este fato e a curiosidade que ele causava à legião de fãs que começava a se formar neste fim do terceiro ano dos Marotos.

Ainda rindo os dois olhavam-se sem piscar. O riso transformou-se em largos sorrisos. E o silêncio predominou acompanhando as faces que brincavam entre o infantil e o adolescente, olhando-se sem falhar, sem deixar de corresponderem-se por um só instante naquele infinito momento. Aquilo andava acontecendo bastante.

Parecia tanto tempo, e ainda assim ele não parecia passar… Mas que importava? Eles gostavam daquela nova brincadeira. A nova sensação… aquilo que lhes dizia o quão juntos estavam, o quão amigos eram…

Quando os olhares se "notaram" e então se desviaram vagarosamente (não, não havia timidez entre os dois), Marlene abaixou a cabeça e uma mexa de seu cabelo que variava do mel ao ouro fora parar no meio de seu rosto ainda um pouco corado da correria de minutos atrás.

Sirius aproximou-se num impulso, e calmamente tirou os fios que cortavam o rosto da amiga. Ela mudara, viu agora. Estava mais bonita. Olhava-o meio impressionada, talvez sentindo o que ele sentia, talvez vendo a beleza que tornava-se cada vez mais intensa em seu amigo. Ele mudara. Apesar do rosto de menino, Sirius era dono de uma beleza provocante, que quase a irritava. Sem se conter a garota levou a mão até o rosto do amigo e desenhou com os dedos o seu contorno.

Sirius aproximou-se ainda mais, mantendo a mão no rosto da amiga. As peles macias, por pouco não eram infantis.Estavam tão perto agora… e sentiram-se. Os lábios quentes, um pouco trêmulos. Estavam a segundos de sentir o hálito um do outro…

- Eu nunca tinha feito isso.

Sirius estranhou a separação repentina… ainda tentava associar a voz fina de Marlene àquele toque que ardeu em seus lábios.

- É…

- Você também, certo? – A garota estava com as sobrancelhas arqueadas.

E a nitidez, mesmo sem muito entendimento, voltou à cabeça de Sirius não a tempo de preparar-se muito bem:

- Hum, já. – Mentiu parcamente.

- Ah! Qualé! Eu sou sua melhor amiga!

- E você fala demais, sabia?

- Quê?

- Não importa se eu já beijei ou não. Você nem deixou eu te beijar!

- Como não? – A garota arregalou os olhos.

- A gente não tinha que abrir a boca?

Marlene abriu e fechou a boca indignada. Nem mesmo sabia o que dizer, alguma coisa começa a ferver dentro de si.

- Pra mim ISSO é importante nestes tempos. – Disse Sirius. E aquela não era a primeira frase que saía gritada durante este diálogo.

- E pra mim também! – Adiantou-se nervosamente a garota.

O garoto olhava-a de olhos estreitados, a boca comprimida. "Ela só sabe pensar e falar", pensou ele. "Eu quero mais".

E saiu escancarando a porta do armário. Queria distância de Marlene agora.

Mas antes mesmo de terminar este pensamento, Sirius deu de cara com um Filch muito satisfeito.

- Vocês me pouparam o trabalho até mesmo de abrir a porta, muito abrigado. – Ele mostrava os dentes amarelos no esboço de um sorriso, maliciosamente.

Adentrou o armário para segurar Marlene assim como já segurava Sirius pelo colarinho.

Marlene lembrou-se que aquela foi sua pior detenção. E chegou à mesa da Grifinória rindo.