Capítulo 3. O começo do que sempre seria…
Eles tinham quinze anos. Riam subindo pela pequena colina verde, em seu topo uma árvore… aquela árvore. Seus nomes ainda estavam ali. Escreveram no tempo em que rebeldia era tomar a sobremesa dos primos mais novos de Sirius. Hoje eles afrontavam toda aquela família… Diziam sua idéias e brigavam como "gente grande". Cedo demais. Pararam cansados sob as folhas fartas… uma sombra fresca. E sentaram-se.
--Sua mãe nunca mais me deixará te acompanhar nas festas da família Black – Disse a garota sorrindo e acenando com a cabeça negativamente, um pouco ofegante.
--Se tudo der certo eu não terei que voltar aqui e nem ir para nenhuma outra reunião familiar. – Sirius tinha ficado sério de repente.
--O que você tem em mente? – Marlene olhava-o desconfiada.
O garoto desviou o olhar. Olhava para o campo… Viu-se e a ela correndo ali, porque tinham roubado romãs da sua avó. Suspirou.
--Eu não agüento mais, Lene. – Ele havia abaixado a cabeça.
Marlene não sabia o que dizer ou fazer… nem mesmo sabia o que Sirius iria fazer, mas de certa forma o entendia.
--Sua família é a gente, Sirius. Eu, você, Tiago, Remo, Pedro… e quem sabe um dia a Lílian, hein? – Ela terminou a frase descontraída. Os dois sorriram. Mas Sirius permanecia sério demais.
Marlene forçava-se a pensar no que fazer para mostrar que estava ali… Que sempre estaria com ele… Que nem mesmo se quisesse conseguiria deixá-lo sozinho.
Então ela virou-se para o amigo, os dois ainda sentados. Ele nem se mexeu, olhava fixamente para as mãos que se entrelaçavam meio nervosas. Ela se ajoelhou.
--Ei, levante-se.
O garoto a olhou surpreso.
--Quê?
--Quero dizer… Ajoelhe-se. Fique como estou.
--Quê? Por quê?
Ela o segurou pelo braço e o "ajudou" a ajoelhar-se.
--Marlene… - Ele acenava a cabeça em incompreensão.
Ela o olhou, examinando. Então o abraçou. O garoto demorou um pouco para corresponder o gesto… piscava os olhos com o cenho franzido.
--Não sei como dizer que estou com você.
O garoto soltou-se dos braços de Marlene e sorriu para ela.
--Acabou de dizer, sua idiota.
Ela riu.
--É que era pra significar de verdade…
--Diz "pra sempre" e eu fico satisfeito.
--Ahn? "Pra sempre"?
--É… que estará comigo pra sempre.
--Você sabe que sim. – Ela sorria entre o divertido e o encantado.
--É legal dizer… Você não consegue? – Sirius arqueou as sobrancelhas.
--Ai, que idiota! – Disse revirando os olhos.
Ele a abraçou.
--Você nunca diz o que sente… Fala o que pensa pelos cotovelos. Mas não dá pra ter certeza do que você sente…
--Que papo de menina, Sirius! Não era pra eu ser a garota aqui? – Sirius gargalhou um pouco rouco.
Eles ainda estavam abraçados. Sirius desceu sua mão do meio das costas da amiga para sua cintura, apertando um pouco mais.
Marlene não pôde conter um suspiro… Inspirou o aroma da grama verde, o perfume das margaridas que sabia que estavam ao pé da colina, e o cheiro de Sirius. "Tem algo de silvestre nele…"
A garota foi surpreendida por um beijo em seu pescoço, e também pelos que se seguiram, projetando um caminho até seus lábios. Sirius os apertou contra os dele, suspirando como ela o fizera… como se para sentir e gravar o perfume… "Ela tem cheiro de maçãs… Mas não é assim tão doce… É… é também… que palavra seria? 'Acre'". Lembrou de sua mãe preparando ponche com aquele vinho doce… e ela dizia "tem de estar perfeitamente acre". Mas Marlene também era doce… Doce o suficiente para que a voz amarga e de más lembranças da mãe de Sirius não soasse para destruir aquele perfume que sentia.
Ele sentiu os lábios da garota abrirem-se. O toque queimava como daquela vez no armário de vassouras… "Com as outras garotas não queima desse jeito"…
Logo sentiram-se as línguas… o bolo de morango que haviam comido como sobremesa. As mãos nas costas apertando os corpos gentilmente… As mãos nas nucas acariciando os cabelos, negros e castanhos. Negros como o céu sem estrelas e castanhos como um arco-íris que se esquecera de marcar tons que não fossem do mel ao dourado e do marrom ao queimado. Ele era tão homogêneo… Ela era tão "mista". E os dois tão intensos um para o outro.
Os lábios se separaram. Os olhos correspondiam-se.
--Por que você fez isso? – Marlene olhava-o como quem examina.
--Isso?
--Por que me beijou?
--Você é louca… - Sirius desviou o olhar.
--Você é quem me deixa louca! Da última vez que fez isso passamos uma semana só nos cumprimentando de longe e só voltamos a nos falar normalmente por causa da detenção que tivemos de cumprir durante dois meses! – Ela estava irritada. – Vai ficar sem falar comigo de novo?
--Eu? Foi você quem ficou com vergonha!
--Vergonha! Francamente! Você me beija, diz que não beijou, me ofende dizendo que falo demais, sai pela porta (ou tenta sair, né)… e eu fiquei com vergonha? – A garota enumerara os fatos nos dedos da mão - Sirius, é sempre sua a culpa!
Ele revirou os olhos e desviou o rosto.
--Foi só um beijo. Eu não vou namorar com você.
A garota arregalou os olhos incrédula.
--E POR QUE VOCÊ ACHA QUE QUERO NAMORAR UM IDIOTA FEITO VOCÊ!
--Ei! Não grita!
A garota bufou encolerizada, ergue-se e saiu descendo a colina, pisando firme.
Sirius precisou de três segundos para desistir de seu orgulho e segui-la.
--Lene! Lene! Espera! – Ele a alcançou e segurou seu braço para que ficassem frente a frente.
--Você é muito egoísta. – Marlene não o encarava.
--E você fala demais.
--Eu não quero namorar você.
--Eu sei.
--Então por que disse aquilo!
--Pra te ver nervosinha assim. – O garoto riu.
--Que grande idiota arrumei como amigo! – A garota ainda não encarava Sirius. Olhava atentamente a colina que estava agora ao seu lado.
--Melhor amigo.
Ela olhou-o.
--Pára com isso, ok?
--Isso?
Eles riram. Sempre era assim.
--Você sabe. – Disse a garota.
--Isso… te beijar? Ou isso… te chatear?
--Me chatear, besta! – Ela deu-lhe um tapinha na testa.
--Então posso te beijar?
--Não! – Disse Marlene como que pega de surpresa.
Os dois riram.
E a sra. Black os chamou para ir para casa.
--Marlene? Mckinnon? Marlene? Você está bem?
Marlene abriu os olhos. Sonhara com lembranças reais novamente… Aquilo a fazia sentir-se cansada.
E agora um par de olhos verdes muito vivos a encarava.
--Tudo ok, Lílian. Ok. – Murmurou sonolenta.
--Você vai se atrasar… Todas desceram. Eu tenho o primeiro tempo vago hoje, por isso não sei o horário. Mas são quase dez horas.
--Ai, não… Eu tinha aula com a Sprout… Ela disse que a aula seria realmente empolgante hoje.
Marlene gostava muito de Herbologia. Mas com os treinos, a nova detenção de ontem, as provas e deveres acumulados por causa do horror que passara no mês passado e mais essas lembranças estúpidas que não a deixavam em paz desde então, não conseguira descansar de verdade. Ela queria parar. Mas não podia agora. Não com os N.I.E.M.s pela frente ou com uma taça de Quadribol a ser disputada. Se ao menos não tivesse sido pega fora da cama após o toque de recolher novamente… Mas sempre perdia a hora em seus passeios noturnos com sua vassoura. E ontem ainda perdera-se numa passagem secreta, o que lhe consumiu vinte minutos a mais. E agora a detenção.
Ficou na cama até Lílian descer. Depois vestiu-se, escondeu o diário em seu casaco e foi dar uma volta pelo castelo. "Ao menos investirei em mim esse tempo perdido em Herbologia." Precisava descarregar. Porque aqueles lábios nunca deixaram de queimar… "E só eles queimam…"
O sonho lhe veio à cabeça. "Há quanto tempo…". Ele ainda tinha o perfume silvestre. E aquilo foi o começo de como tudo seria… "De como é até hoje. Eu acho". E era pra ser pra sempre.
Mas com Remo Marlene não podia fazer o mesmo que com os outros. Sempre que saía com alguém a garota não deixara de trocar seus beijos ocasionais com Sirius. Mesmo por que ela nunca sabia quando, onde ou por que eles aconteciam. E ela passava agora menos tempo com seu melhor amigo para evitar.
Mais lembranças lhe acometeram.
--Não posso magoar Remo.
O garoto ainda olhava-a meio perplexo, tentando entender, ainda com o corpo projetado sobre o dela.
--Sirius… - Ela tentava sair da armadilha que era estar entre o amigo e aquela parede.
--Você… não… Marlene… o que… Você… Você gosta dele? – Sirius balbuciou até encontrar o que queria dizer, e então o fez aflito.
Ela arregalou os grandes olhos castanho-esverdeados para o garoto.
--Eu… não… não é isso, Sirius. É que ele eu respeito. E não entendo como você consegue não respeitar.
--Eu respeito… É que… com você é diferente. – O garoto encarou o chão, ainda mantinha a garota entre ele e a parede, os rostos perigosamente próximos. Voltou seus olhos aos dela. – Mas é isso? Você gosta dele?
--Eu… não… Não, eu não gosto dele. Quero dizer. Gosto! Eu amo como amo você ou Tiago ou…
O garoto bufou. Não era nada daquilo.
--Você já me perguntou isso! A resposta ainda é a mesma! – Explodiu a garota.
Sirius afastou-se dela. Olhou-a com desapontamento.
--Isso 'tá acabando com a nossa amizade.
--Que bom que beijos na boca influenciam nossa amizade!
O garoto fechou os olhos e suspirou.
--A gente não é só amigo… Não como são os outros amigos. E você sabe disso muito bem.
--Hum… - Murmurou a garota num tom irônico, que prevaleceu: - E só é assim quando você quer. Já reparou? Enquanto você está saindo com alguém nada acaba com a nossa amizade. Quando você quer nós somos amigos convencionais.
--Não é verdade… Eu nunca te disse não.
--Disse, Sirius! Você disse… Me negou sempre que quis tentar alguma coisa a mais com alguma garota qualquer. Mesmo quando eu disse que não era só pra me dar uns beijos…que era pra ser meu amigo… amigo do tipo que eu quero agora. Eu nem sempre fui sua prioridade, e eu te mantive assim esse tempo todo. Agora eu não consigo…
--Eu só te dizia não pra poder resistir… - Sirius respondeu, mas sua voz rouca saiu fraca. Ele sabia que seus argumentos eram válidos, mas também eram de seu interesse. Resistira aquelas vezes à Marlene para fazer bonito para outras garotas. E só. O garoto estava desarmado.
E o tom da garota mudou para cansado:
--Eu 'tô fraca agora, Sirius. Entende? O Remo me faz bem…
Foi direto para a cozinha, sabia que o café da manhã já não estava posto. E lá poderia também escrever em seu diário…
