Capítulo 4. Difícil demais pra se sentir
Sirius estava novamente andando entre os corredores do castelo. Aquelas paredes tão conhecidas… Os quadros que já o olhavam com familiaridade… E os mesmos pensamentos.
"O que está acontecendo, afinal?". O garoto virou mais uma vez pelos corredores vazios, passou por um pátio e viu que a lua não aparecia no céu esta noite. "Por que o Remo?". Mas as estrelas estavam todas lá… "Ela desistiu de mim?"
Ouviu um barulho se aproximando e decidiu apressar a chegada a seu objetivo. Ela já estivera ali com ele… "Acho que foi no Natal do ano passado…"
A garota ria parecendo muito feliz. Tinham corrido até aquela passagem secreta, fugido de todos do baile… de toda aquela exibição inútil.
--Se nos pegarem… - Ela quase derramou o uísque de fogo que segurava quando entrou num impulso e cambaleou pela passagem.
--Se você fizesse menos escândalo quando ri as nossas chances de sermos descobertos diminuiriam… - O garoto tentava manter o tom de quem diz algo óbvio, arqueando as sobrancelhas num semblante zombeteiro, mas o sorriso bobo e admirado o denunciavam.
--Olha quem fala! Você ri feito cachorro quando vê o dono com comida.
--Cachorros riem?
--Ah! Você me entendeu! Eu quis dizer que você faz tanto barulho quanto um…
--Bêbada…
A garota o olhou indignada. Calou-se por um instante.
--Sirius, às vezes você quase me faz pensar que rouba esses uísques de fogo pra TENTAR me embebedar e poder zombar de mim com menos motivos que o normal… - Marlene falou como quem diz algo muito preocupante, mas não conseguia parar de rir.
Sirius gargalhou gostosamente.
--Você errou em dois pontos…
Ela olhou para a garrafa em sua mão, parecendo não se importar com aquela conversa.
--Eu nunca simplesmente TENTEI embebedar você… Porque isso sempre foi muito fácil… e eu sempre consegui… - Ele riu ainda mais alto. – E eu não faço isso pra zombar de você. - Ele se aproximou da garota, que estava recostada à parede, olhando-o de lado enquanto entornava a garrafa que tinha nas mãos.
Ela largou a garrafa e também foi de encontro a ele sorrindo maliciosamente.
--Acho que entendi… Cafajeste…
Sirius piscou, a garota suspirou sem notar.
--Bêbada você fica menos burrinha… - Ele sorria olhando para o vestido da garota, meio vislumbrado. Ela ria muito.
--Você me ama muito mesmo, não é?
--Eu nunca disse isso… - Ele sussurrou roucamente enquanto desfazia os nós do espartilho que a garota tinha na parte da frente do vestido preto e branco.
--Nem precisa… é óbvio… - Ela desabotoava a camisa de Sirius, que logo caiu por cima da gravata no chão.
--Você 'tá mesmo bêbada… 'Tá falando besteira…
Os lábios estavam quase colados.
--Confissões de bêbado pra bêbado também são válidas…
--E por acaso eu já te disse que te amo enquanto 'tava bêbado?
--Acabou de dizer, besta…
Ele separou os lábios dos dela e gargalhou.
--Você se acha muito esperta… - Ele terminou de tirar o vestido da garota e voltou seus olhos para o corpo dela.
--Admite…
--Nunca.
Era a primeira vez que via Marlene assim… tão intimamente. Nunca havia tocado seu corpo nu. Nunca havia sentido seu toque nu.
--Então você admite que existe o que admitir… - Ela empurrou o queixo do rapaz para que ele a olhasse em seus olhos. Ela sorria.
--Você é linda… - Ele disse naquela voz rouca que a garota sabia ser perigosa. – Linda demais… Eu…
A garota arregalou e piscou os olhos. "Ele vai dizer?". Sirius a olhava sem piscar.
--Eu não vou admitir. – Sua respiração era audível… inchava e esvaziava o peito alvo e agora nu.
A garota sorriu. O álcool não deixava que as coisas fossem muito sérias.
--Tudo bem… A gente é só amigo mesmo. – Ela soltou uma gargalhada gostosa, ainda sem tirar os olhos do garoto.
Mas em nenhum momento ele riu. Ele mantinha os olhos nos dela, como que conversando diretamente com seus pensamentos… num adiantamento às palavras que não vieram.
Eles se beijaram. Os corpos nus naquela noite gélida se tocaram e se sentiram. E não havia frio. Tudo queimava…
Os beijos dele na barriga delicada da garota… Os beijos dela no peito forte dele… No peito que se sabia fraco quando o assunto era a dona daquelas mãos que lhe puxavam o cabelo gentilmente… Na barriga daquela que tentava ser forte quando percebia a dor de um dia pensar que não poderia resistir àquele garoto que tocava seu rosto, aproximando seus lábios.
Nada queima mais do que saber que a perda é possível…
"Merda!" O garoto pôs-se a procurar algum cigarro em seu bolso. Fora ali para pensar no porquê do fim… e não no quanto era tudo tão bom. "Eu não a entendo mais… eu sempre entendia… É culpa dela."
Ele acendeu o cigarro com a varinha e passou a procurar a causa de seus problemas em seus próprios pensamentos… Procurou o mapa do maroto no casaco e avistou Filch e madame Nora longe de seu caminho. O garoto levantou-se e abriu a passagem. De um ano para o outro ele já tinha que se abaixar para não bater a cabeça na entrada. De um ano para o outro ele mesmo havia mudado muito. "Talvez ela tenha mudado…"
Foi pelo mesmo caminho que viera e parou no pátio descoberto e raramente usado pelos alunos. Aqueles corredores guardavam poucas salas usadas. Sentou-se nas grades de pedra, puxou o casaco mais junto ao corpo. "O inverno não vai demorar".
Ele lembrou-se do dia chuvoso em que ele descobriu que poderia tê-la perdido… do dia de outono em que percebeu como a queria… e isso tinha sido só há algumas semanas.
Ela escapara de mais de três balaços nesses últimos 10 minutos de jogo. Com um dos batedores, Augusto Wood, sendo substituídoneste último ano por uma quartanista desajeitada, o jogo durava muito mais que o normal. Vencer a Sonserina nunca fora tão difícil. Sirius rebatia tudo o que podia, mas jamais vira James ser tão perseguido e demorar tanto para pegar o pomo.
--Isso aqui 'tá um inferno, cara! A Lene vai ter um troço, olha lá! – Disse James apontando para a garota que estava entre os aros do gol e que berrava ordens para os ventos barulhentos do começo de março.
Marlene sempre jogara muito bem, mas estava particularmente nervosa hoje. Não gostava de jogar quando uma tempestade decidia tentar derrubar um castelo de pedra e arrancar seus alunos de onde estivessem, não gostava daqueles novos e gigantes batedores da Sonserina, não gostava que os novos e gigantes batedores da Sonserina perseguissem ferrenhamente seu apanhador e odiava pensar que poderia perder o seu primeiro campeonato como capitã do time. Por isso e por causa dos balaços que vinham em sua direção quase como se fossem carregados pelo vento, a garota perdera a chance de marcar os dois últimos gols, o que fazia bastante diferença num jogo em que mal via-se qualquer uma das bolas pelo campo e uma hora depois do início do jogo o número de gols era de 2 para a Grifinória e 3 para a Sonserina.
--Dorcas! Artilheiros fazem gols! Faça um por mim, só pra variar, ok? James, você tem certeza de que usou o feitiço certo para que sua visão não fique embaçada? Por Merlin, Sirius, ajude aquela criança a bater os balaços na direção do adversário! James…
--Lene, ninguém está exatamente prestando atenção em você, ok? Pára de berrar aí e relaxa que a gente vai ganhar esse jogo. – James tentou fazer a garota ouvir, mas para ela ele estava calmo demais, o que só a irritava mais.
--A diferença precisa ser grande, poxa! Nós precisamos vencer a Sonserina por muitos pontos e só assim nós…
--Eu sei, merda! Todo mundo aqui sabe! Até o Salgueiro Lutador já ouviu seus gritos! Relaxa! – James sabia que aquilo de nada adiantaria para acalmar a amiga, mas precisava mantê-la quieta o suficiente para que os outros jogadores não enlouquecessem.
A garota abriu a boca indignada, mas logo teve que preparar-se para receber mais uma goles. Ela acabou fazendo um gol e enfim contentou-se em gritar para Sirius uma narração de cada erro que ele cometia, que na verdade eram justificáveis por causa do vento e da chuva, mas que eram incompreendidos pela necessidade de Marlene de incomodar alguém para manter-se cômoda.
As reações de Sirius variavam entre risos e sorrisos. O garoto não conseguira ficar nervoso com a perseguição da amiga dessa vez. Havia tempo que queria sua atenção. Ali, voando, não havia Remo, pensou, e seu cenho se franziu. "Ciúmes, não…" Não. Era só uma pequena falta daqueles discussões com Lene… de ouvir os gritos dela às vezes, de olhar os olhos castanho esverdeados da garota se arregalarem surpresos diante de algo que ele lhe falava e irem se estreitando como que seguindo o seu raciocínio e formulando a explosão que se seguia. Ele queria tê-la como antes… e logo. Queria que o jogo acabasse logo…
Quarenta minutos depois a Grifinória estava 10 pontos à frente e James por fim resgatou o pomo.
O grito da torcida da Grifinória sobressaiu-se até mesmo aos urros que o vento passara a dar e quando o time pousou as vassouras, os alunos invadiram aos pulos o campo.
--Foi um ótimo jogo! – Disse Remo para seus amigos entre as tantas cabeças. Chegou bem perto de Marlene e encostou seus lábios aos dela rapidamente. – Você foi genial!
A garota sorriu radiante.
--Foi um jogo difícil. Quero ir logo para dentro… - Disse a garota um pouco cansada. – Mas tenho que pegar minhas coisas… Vá andando com os garotos. Te encontro em dez minutos.
--Ok. Até.
Sirius ficou parado enquanto Marlene ia para o lado oposto a que iam seus amigos, unindo-se a um Pedro falante que comentava animado o jogo.
--Ei, Snufles! Vamos, cara! – James lhe gritou. – Está chovendo, percebeu?
O amigo pareceu voltar em parte do transe.
--Esqueci umas coisas no vestiário. Já os alcanço. – E seguiu atrás de Marlene.
Só conseguiu chegar até à garota já dentro do vestiário. Ela estava segurando a barra da blusa num movimento para tirá-la quando o viu e soltou uma exclamação.
--Você 'tá louco? Merlin… achei que não havia ninguém aqui!
--Quem manda não se trocar atrás daquelas portinhas ali? – Disse Sirius com um sorriso brincando nos lábios enquanto apontava para os banheiros, mas não tirava os olhos da direção da barriga da garota.
--Dá pra parar de olhar?
Sirius se aproximou, andando devagar, os olhos nos olhos dela.
--Você que mesmo que eu pare de olhar pra você, Lene?
A garota pegou-se num suspiro. Ele estava bem perto agora... tão perto...
--Se eu pedir, você pára de olhar?
--Se você parar de olhar pra mim...
--Não olho pra você. – disse Marlene sorrindo de lado. A mais pura mentira. Enquanto seus olhos gritavam para Sirius que eles lhe pertenciam, somente a ele...
Ele ouviu os gritos...
Sirius sorriu maliciosamente, enquanto passava as mãos pela cintura da garota. Mas Marlene o impediu.
--Não, Sirius… - Ela ainda segurava as duas mãos do garoto na sua frente e havia abaixado o rosto rápido… como se lembrasse de algo… como se conseguisse sair de um devaneio.
--O que você tem, Lene? – Sirius soltou-se da garota bruscamente, quase rudemente. – Você 'tá gostando dele, não 'tá? Você nunca foi assim… nunca me disse não… Eu não entendo…
--Sirius, é o Remus! Pára com essa de "eu não entendo"! É o seu amigo. – Marlene o olhava indignada. E sua última palavra surtiu efeito em Sirius. Ele engoliu em seco, abaixou o rosto.
--Por que você 'tá com ele?
--Ora, por que se fica com alguém?
--Você ama ele? – sussurrou Sirius, como se tivesse medo de falar alto,olhando de novo em seus olhos.
Marlene encarou as portas que antes Sirius apontara.
--Amo. Eu o amo como amo você, James ou Peter.
--Eu não 'tô falando disso e você sabe… - Ele a ouviu respirar fundo.
--Estou com ele pelo mesmo motivo que fico com os outros garotos.
--Então por que dessa vez você me disse não? Nem quando você chegou a namorar o idiota do Wood você me disse não!
A garota sorria quando voltou a olhá-lo, mas com um semblante de desaprovação.
--Agora ele é idiota, é? Achei que fosse seu amigo…
--E é… saiu sem querer. Mas não é disso que falamos, Marlene! Me explica! Qual a diferença?
--O Remo é a diferença… Ah, por favor, Sirius! Você o conhece! Ele é um de seus melhores amigos! Você SABE que ele não é como os outros!
--Então você se apaixonou?
--Deixa de ser idiota… Eu nem mesmo acredito nessas besteiras e você sabe disso!
Sirius a segurou pelos dois braços, num gesto que mostrava o quanto ele queria que ela o compreendesse.
--Eu amo você. – Ele olhava no fundo dos olhos dela, sem deixar que ela virasse o rosto, procurando a verdade, a resposta da garota…
Ela bufou impaciente.
--Eu também te amo! Você sabe! Já falei! Amo vocês todos e…
--Não 'tô falando disso! – Ele falou grosso… a voz rouca e descontraída agora dura. A garota desviou o olhar.
--Eu não acredito nessas besteiras… É igual…
--Não, não é. Com você é diferente. Olha pra mim, Lene… - Sirius abaixou a voz na última frase… ele a fitava incansavelmente. – Eu te amo mesmo.
--Sirius! Isso é besteira inventada! Não existe, ok? – Mas a garota não falava mais com impaciência, ela usava um tom baixo, estranhamente cansado, pensou Sirius.
--Lene? Você 'tá aí? – Era a voz de Remo
A garota rapidamente soltou seus braços de Sirius e olhou para Remo um pouco preocupada.
--Oi! 'Tô aqui, Remo!
--Ah… Sirius? Aqui ainda? Achei que tivesse achado alguma garota no caminho… e que Lene tinha caído de cansaço aqui mesmo… - Ele dizia palavras descontraídas, mas falava tudo lentamente, olhando para os dois com algumas rugas na testa.
--Vamos para dentro, Remo… - Marlene aproximou-se e o foi puxando para fora. Remo olhou para Sirius, que ia ficando para trás.
--Ei, cara… Vamos. – Ele falou quase que tristemente.
--Ah… certo. – Sirius o olhava assustado desde que ele entrara. Olhar o amigo assim… em seus olhos e ver o quanto ele confiava nele… Isso era horrível… Ele tinha que falar com ele...
--Os três caminharam para o Castelo em silêncio. A chuva cessara, mas o vento ainda os ensurdecia. Dentro do castelo permaneceram quietos. De certa forma, os três sabia o que tinha acontecido… o que tinha deixado de acontecer.
O Salão Comunal estava cheio. Ofereceram-lhes cervejas amanteigadas, mas Sirius andou reto em direção ao dormitório e, por algum motivo, Remo o seguiu, o que fez Marlene os acompanhar.
--Ah… Vou descansar… Jogo difícil… - Sirius virara-se antes de começar a subir as escadas.
--Acho que também vou. – disse Remus olhando significativamente para Sirius.
Era a hora, os dois pensaram.
--Certo. – confirmou Sirius. Sério demais.
--Ei! Esperem! E eu? Eu… eu… eu quero conversar… eu… me esperem! – Mas Marlene fora deixada para trás.
E ali, ao lado da escadaria, sem nem mesmo notar toda a festa, ela permaneceu como estava, esperando… Mantinha os olhos bem abertos e fixos no sofá a sua frente. Será que agora as verdades não soariam como segredos? "Eu não 'tô pronta pra admitir…"
Sirius levantou-se. "Eu sou um idiota… Mas não pode ser minha culpa."
O garoto apagou o cigarro e jogou-o nos jardins "um presentinho, Filch". Andou em direção ao dormitório. Seus olhos fraquejaram por um instante. Mas ouviu uma voz familiar.
--Ei, cara! Que bom te achar… Você não vai acreditar!
--Então não me conta, Prongs… - Sirius sorria marotamente.
--A Evans, Sirius! Aceitou sair comigo! – Tiago sorria abobalhado.
Sirius riu.
--Eu sabia!
Os dois entraram pelo retrato. A Mulher Gorda contentou-se com um "a essa hora" resmungado. Sabia que aqueles dois eram casos perdidos.
