Capítulo 9. Não diga isso

Ele sempre jogou tão bem… Sequer parecia estar fazendo esforço quando rebatia o balaço, mesmo que ele tivesse força para derrubar os três aros do gol num só lance. Sempre tão concentrado no jogo… nem reparava que aqueles fios de breu que caiam em sua testa às vezes incomodavam seus olhos, quando estava parado no ar.

Como agora. Ali, voando pouco mais alto que ela, sem sair do lugar mesmo que a chuva torrencial tentasse deslocá-lo, olhando provavelmente os dois balaços ao mesmo tempo, impecável jogador que era.

Com a confusão que ela vinha enfrentando, era de se esperar que esquecesse algumas coisas, ou que deixasse de lembrá-las… como o quanto ele era bonito. Mas isso ela não parou de lembrar, ela não esqueceu. Era impossível. Não dava tempo, não havia espaço para tanto. Sirius era bonito demais…

E ela era a pior capitã de time de Quadribol do mundo, porque não estava prestando atenção ao próprio treino, ela nem estava olhando o jogo. Não estava nem pensando nele. "Que capitã horrível".

E que infernal beleza, a daquele batedor.

Ele se virou e mirou exatamente os olhos dela. Por velhos costumes, ou por puro magnetismo, ela não desviou imediatamente. Teve que fechar os olhos, e dizer fim de treino, porque ela simplesmente não conseguia enxergar outra coisa…

Ela teve que gritar alto "pessoal, chega por hoje!", porque havia muito vento e chuva, mas todos fizeram questão de ouvir, pois o fim do outono estava mais para começo de Era Glacial.

Logo estavam todos no vestiário, organizando o que quer que tentariam levar na jornada para atravessar os jardins da escola naquela tempestade.

-- Jim, você guarda as bolas, por favor? – Marlene pediu a James, analisando nele a intensidade da chuva, porque seus cabelos milagrosamente estavam achatados sobre a cabeça.

-- Cl-… - ele ia dizendo, mas o olhar que Sirius lhe lançou foi tão intenso que poderia tê-lo atingido de verdade. – Ah… Não. – ele disse confuso, arrepiando os cabelos com as mãos e molhando dois jogadores no percurso. – Não, Lene. Não posso. Sinto muito. Tenho que… ver a Lily, sabe como é.

A garota o olhou desconfiada.

-- Ok. – disse dando de ombros e se virando para uma estante em que deixara sua velha mochila de couro, tão desgastado que mais parecia algodão. – Marry? Você pode? – fez mais um pedido, dessa vez para a batedora.

-- Sim! Sim! – ela respondeu animada, como sempre.

Sirius acotovelou a garota de tal forma que os jogadores decidiram logo esvaziar o vestiário.

Exceto pelos dois, Sirius e Marlene.

A garota pareceu perceber o repentino silêncio. Virou-se.

Seus olhos, como sempre, encontraram-se como se nunca tivessem se desencontrado.

Então ela olhou em volta, só os dois, de fato, estavam ali. Suspirou.

-- Você poderia… - ela fez um gesto vago com a mão, aquela nova atmosfera triste dela.

-- Claro. – ele respondeu. E se pos a fechar as bolas.

Terminou e ficou olhando o que ela tanto fazia. Ajeitava uns papéis em sua mochila, tocando-os com a varinha, um a um. Provavelmente impermeabilizando-os por causa da chuva que pegaria.

-- Não seria melhor impermeabilizar a mochila? – ele perguntou.

Ela não o olhou. Tampouco respondeu.

-- Você não vai mesmo falar comigo? – ele insistiu, depois de tempo, cansado de se sentir vazio.

-- Não.

-- Por quê?

-- Porque não tenho vontade, sinceramente.

Ele riu pelo nariz, sem achar graça nenhuma.

-- Então você faz o que tem vontade e eu não posso fazer o que eu tenho vontade?

Ela o olhou irritadiça, quase conseguiu encobrir a tristeza dos olhos.

-- Pode, Sirius. Desde que a sua vontade não atrapalhe a minha vontade.

Ele respirou fundo, lembrou da noite em que acordou no dormitório pensando sobre a ordem das coisas.

-- Minha vontade é fazer você entender que a gente tem que ficar juntos.

Ela virou o rosto rápido, como quem ouve uma blasfêmia. Firmou os pés no chão. E o seu tom foi mascaradamente gélido:

-- Essa sua vontade atrapalha a minha de não falar com você.

-- E a sua atrapalha a minha de falar com você! – ele tinha se aproximado, num passo grande e pesado, o tom de voz saíra alto.

Ela suspirou nervosa. E o olhou. Os cabelos muito escorridos, porque estavam encharcados, destacam seus olhos grandes, e os cílios longos, escurecidos porque também estavam molhados, intensificavam o efeito. E era como se o ar de tristeza, e tudo o mais que ela expressava com os olhos, algo como dor ou dúvida, recaísse sobre ele, acusando-o.

-- Sabe, Sirius, – ela falou, e seu tom também tinha algo de tristeza por trás da firmeza. – quem olha de longe o que anda acontecendo, ou quem ouve você pode até pensar que você é o tipo de cara que corre atrás da garota que ama – ela enfatizou essa palavra com sarcasmo -, como você mesmo disse. Só que eu me lembro da verdade, Sirius. Eu conheço você e sei o que aconteceu de verdade. E a verdade não é essa que você 'tá pintando.

Ele passou a mão pelos cabelos molhados, mas não disse nada.

Ela sorriu de lado, mas mais pareceu que estava sentindo um gosto ruim.

-- Lembra as coisas que você me falava? – ela colocou as mãos no bolso da calça velha que usava para treinar, e inclinou um pouco o tronco para trás, numa perceptível imitação de Sirius. – "Quando o estoque de garota em Hogwarts acabar" – falou em voz grossa -, foi o que você me disse quando eu perguntei quando você assumiria que eu era mais do que sua melhor amiga.

-- Ora, você mal se importava!

-- E adiantaria eu me importar?

-- Mas eu voltei atrás no que disse!

-- O estoque de garotas acabou, foi? – o tom dela agora ardia em ironia.

Ele pareceu se irritar. Onde ela queria chegar?

-- Lene, nós até namoramos depois daquilo. É passado. – ele disse fazendo um gesto com os braços como se quisesse mostrar que aquilo era óbvio.

Mas ela deu um riso ainda mais irônico, e ele notou que ela estava pálida, coisa extremamente rara.

-- Ah, sim. O namoro. Aquele que suas fãs chamavam de "duelo particularmente sangrento". – ela cruzou os braços e o olhou séria. – Se eu fosse contar as maiores provas de que você sentia por mim mais do que amizade, aquilo não entraria nas contas, Sirius. Fui sempre eu que arranquei as coisas de você. E aquilo foi mais uma coisa arrancada. Não que eu quisesse namorar você, fosse como fosse. Mas eu sabia que você 'tava namorando comigo por motivos que não eram, de jeito nenhum, seus sentimentos interiores.

Ele franziu o cenho para ela, o rosto retorcido em confusão.

-- Você sabe muito bem por que namorou comigo! – ela alteou a voz, e agora apontava um dedo para o peito dele.

Ele se irritou e segurou o dedo dela, jogando-o para o lado.

-- Não sei do que você 'tá falando. – ele mentiu, os dentes cerrados.

-- Mas eu aceitei namorar com você, mesmo que fosse pelo que foi, porque eu pensei que pudesse arrancar mais de você. Pensei que no fim, você veria ouras coisas, outros motivos pra namorar comigo.

-- Você faz parecer que fui frio com você. – a mandíbula dele ainda estava cerrada.

Ela se acalmou por um momento.

-- Sei que você não é frio, Sirius. Sempre soube, sou uma das poucas pessoas que sabe. Você é infantil e egoísta, mas não tem um só pingo de frieza.

O rosto dele desanuviou por um momento. Talvez fosse a hora de dizer, de repetir.

-- Eu só não sabia antes. Mas eu amo você, Lene.

A tristeza finalmente deixou de ser coadjuvante nas expressões da garota. Tomou conta de seu rosto como o véu pálido do luar cobre as flores, fazendo-as parecer fora do lugar. Continuava linda, mesmo pálida, mais branca pelo frio, e ele a tocaria se não fosse a tristeza de seus olhos afastando-o como se ele fosse o culpado pelo sol se pôr.

-- Eu não acredito, Sirius. – a voz dela, mesmo fraca, era firme. – Sinceramente, não acredito. Eu conheço você como ninguém, e você não me ama.

-- Você não sabe…

-- Já fiz tudo por você. E esperei você fazer por mim. E você não fez.

-- Quando? Quando eu não fiz?

Ela baixou os olhos.

-- São coisas pequenas. Você sempre… ignorava.

-- O quê, Lene? O que eu ignorei?

Ela o olhou, pareceu, estranhamente, envergonhada.

-- Me diz, Lene. – ele insistiu, um pouco agressivo.

A voz dela saiu ainda mais fraca:

-- Você… me deixou. Algumas vezes, por causa de outras garotas, você me deixava.

Ele franziu o cenho.

-- Não é verdade. Não deixava você. E você saía com outros caras também.

-- Você deixava, Sirius. – ela afirmou agora mais dura, mais inquisitiva – E eu largava qualquer cara com quem 'tava saindo se você pedisse. Como naquela reunião do Slughorn do sexto ano, você lembra?

-- Eu também fazia… esse tipo de coisa. – Ele estava confuso. Realmente não prestava muita atenção no que certas coisas do passado significavam.

-- Não era como eu sentia. – disse ela, colocando de volta no rosto sua máscara fria.

-- Lene, - ele tocou o braço dela. – tudo mudou agora. Tudo isso.

A máscara se desfez no olhar de desespero que ela lhe lançou.

-- Por quê, Sirius? Por que tudo mudou? Porque agora eu tenho um namorado que pela primeira vez levo a sério? – ela se desvencilhou do braço dele – Porque você perdeu a garota? Porque, pela primeira vez na sua vida, você não 'tá por cima da situação? – sua voz ia alteando a cada palavra, em tons agudos meio vacilantes. Ele virou o rosto para não perder o controle e gritar com ela – Porque o seu orgulho 'tá ferido? – ela parou de falar porque sabia se assim o fizesse, ele a olharia. Quando ele o fez, ela gritou: - OU PORQUE TE DEU UMA SÚBITA VONTADE DE SAIR POR AÍ DIZENDO QUE AMA ALGUÉM?!

-- CALA A BOCA, MARLENE!

-- NÃO SE BRINCA COM ISSO, SIRIUS! VOCÊ NÃO ME AMA!

Ele a segurou pelos dois braços.

-- Você não sabe. – falou entre os dentes, estremeceu de raiva.

Ela virou o rosto.

-- Você 'tá me machucando.

-- Por que você é assim, Lene? Por que não acredita?

Ela o olhou, o castanho-esverdeado brilhava mais do que o normal.

-- Porque conheço você. – era incrível a rapidez com que a voz dela, a que gritara estridentemente segundos atrás, ficara falha outra vez. - E não acredito nesse amor.

-- Por quê?

Ela se debateu com força, e ele a soltou. Ela o olhou, parecendo extremamente cansada.

-- Não existe, Sirius. Já disse a você. Há anos atrás. Não acredito nesse tipo de amor. E nem quero ele pra mim. E quando você diz que me ama, é só capricho seu. Porque você sente minha falta, sente falta de me ter. É isso, é como os dementadores, lembra?

O negro dos olhos dele tentaram absorver alguma razão no que ela dizia. E ele se lembrou, claro, lembrou da história que lhes contaram na infância sobre os dementadores. E ouviu, ouviu o que ela disse sobre capricho. E talvez até tivesse entendido o medo dela. Mas o medo que ele mesmo sentia, o susto, era outro.

-- Então não fica dizendo essas coisas. – Ela continuou numa voz baixinha, num pedido quase infantil. – Não diz que me ama, Sirius. Não é verdade. Essas coisas nem combinam com você.

Ele a abraçou. Fosse qual fosse o significado do que ela dizia, era muito triste. Ele a abraçou para tentar protegê-la de suas próprias palavras, do mundo feio que ela descreveu, que ela acabou enxergando sabe-se lá o porquê, mas que não era para ela.

Ela mal correspondeu o abraço, só se encaixou ali, entre os braços e as mangas molhadas da camiseta dele. Sentindo toda a saudade que sofrera durante os últimos meses voltar de uma vez.

Só porque ela sabia que aquilo ia acabar em poucos segundos, ela deitou a cabeça no ombro dele, e fechou os olhos.

-- O que fizeram com você, Lene? – ela o ouviu perguntar, sua voz rouca entre preocupação e raiva. – Quem fez isso pra você?

Ele a segurou pelos braços de novo, mas dessa vez com carinho, e a separou de seu abraço, pra olhar em seus olhos. Ela suspirou, sabia mesmo que não duraria para sempre.

-- O que fizeram pra você? – ele perguntou de novo, sério. – E onde eu tava?

O rosto, mais cansado do que nunca, só contemplou as feições dele, antes de responder em tom baixo, mas claro:

-- Também queria saber. Você sumiu.

De repente ele era incapaz de tocá-la. Incapaz porque talvez fosse ele quem a machucava tanto, quem a fez ficar assim, tão cansada, meio pálida. De repente ele lembrou de uma verdade, esquecida por causa dos tumultuosos acontecimentos dos últimos meses, que ela fez emergir: o cachorro ali sempre fora ele. Ele não foi capaz de estar com ela sempre. Simplesmente não foi capaz.

-- Sinto sua falta. – ele deixou escapar.

-- Eu também.

Incapaz de tocá-la de novo, apesar da vontade monstruosa que tomava conta de seu corpo.

-- Será que você vai me perdoar? – falou, em quase agonia.

Ela fechou os olhos, inesperadamente sorrindo, e ele pensou ter visto o vestiário ficar mais claro.

Ela abriu os olhos e o olhou como antigamente, como sempre, como se ele fosse um idiota, um idiota que ela adorava.

-- Sirius, você é automaticamente perdoado das suas cachorradas. Sempre foi assim. Você é meu melhor amigo. – e ela deu de ombros do jeito mais bonito do mundo.

Ele sorriu. E mais uma vez ele foi obrigada a ver como ele era bonito…

Mas tinha que voltar. Remus, Remus a esperava.

-- Tenho que ir. – ela falou, segurando a mochila que puxou da estante às suas costas.

O sorriso dele sumiu. Pareceu confuso de novo.

-- Então… Então 'tá tudo bem agora? – ele quis saber.

Ela o olhou assustada. Estava tudo bem? O que estava tudo bem? A vida dela? As coisas entre eles? "Acho que não"…

-- 'Tá.

Ela fez menção de sair, porque não sabia mais nada, e se ele perguntasse de novo, ela teria que dizer que não estava nada bem, porque ela nem mesmo sabia ao que é que ele se referia. Mais um pouco de insistência, e ela ia acabar fazendo besteira…

-- Espera, Lene. O que 'tá tudo bem?

Ela o olhou, aflita. Negou com a cabeça.

-- Eu não sei. Vamos pro castelo?

Ele suspirou.

-- Não vejo a hora disso acabar.

-- Disso o quê?

Ele passou as duas mãos pela cabeça.

-- Sei lá.

Ela baixou os olhos.

-- Vamos? – perguntou.

-- Não. Vai você. Vou dar uma volta.

Ela contemplou uma última vez o rosto dele. Tão conhecido, tão explorado por ela, por todos os seus sentidos, por tantos dias, por todo o sempre. Como parte dela. Era esquisito, mas a visão do nariz dele, comprido, fino, com uma pequena curvatura no osso que dava aquele ar viril, lhe fez falta.

Ela saiu para a chuva gélida porque, afinal, não era como se ela não se sentisse louca para se jogar em seus braços. Não era como se ela não o quisesse mais. Parecia ser só… um buraco. Um vazio, um buraco-negro que Sirius cavou em seu coração. E que doía.

E a dor era um espaço de tempo em que ela o olhava e não o iria beijar, por puro traumatismo cardíaco.

Um tempo em que ela tentava não querer beijá-lo.

Mesmo porque, agora havia Remus… Remus, seu Remus.

E que confusão! O que era isso? Quem foi o ser maldito a permitir tal atrocidade? Seu coração repartido, ferido em cortes de divisão. Dois amigos. Ela não sabia dizer como foi que aconteceu.

Não sabia, simplesmente não sabia arrancar Sirius de si.

E Remus… "Céus". O que dizer? O que era aquilo? Tão… bom. Impossível, impossível não querer tê-lo.

Como naquele dia… Ah, sim, ela lembrava tão bem…

((continua))

N.A.: meeeuuu Deus! Muitas provas… daí, vejam bem, não quis deixar você esperando muito, e escrevi meio capítulo. A outra metade vem, se tudo correr bem, ainda essa semana. E então, finalmente, a ultima parte daquela lembrança que começou há três capítulos.

Pleeeease, reviews!! As vezes dá uma trsiteza de saber q ngm comenta...

Pq vcs não me deixam recados?? Eu tava pensando nisso... talvez seja pq abandonei vcs por dois anos (não quero acreditar q a fic é tão horrível assim)... é um bom motivo!! Fui má, eu sei... mas eu juro, juro pra vcs q tive razões fortes! Razões sérias... me desculpem... não vou mais fazer... se tiver q me afasta de novo, eu aviso, e volto!!

Não vou parar de escrever! Tem capítulos aqui q esperam há dois anos na minha gaveta de estorinhas pra serem publicadas!! E, sei lá, mesmo q eu não receba reviews... gosto mesmo de escrever... assim, por nada...

Ah, eu tava pensando em publicar no 3 vassouras... mas nossa! Tem muita coisa pra fazer!! Quando eu tiver tempo, acho q vou tentar... daí faço uma capa... pedi pra uma menina do potterish tentar fazer uma pra mim, mas não sei... fui meio exigente eu acho... ôô

Eu tento ser regular, tipo postar com uma certa freqüência, mas é complicado...

Então é isso! Ah, sim, esse cap é todo no presente, e a cont é a lembrança q vem no próximo. Espero de todo o meu coração (sofrido pq vcs não me deixam reviews) q vcs gostem!

bjus