Capítulo 10. Impossível

Ela abriu os olhos de repente, a imagem de um rosto ainda fixa na mente, como se não tivesse dado tempo de o sonho terminar. E o teto da Sala Comunal da Grifinória foi entrando em foco devagar, porque girava em semicírculos para os dois lados. Estava, ela se lembrou ao mesmo tempo em que seu estômago enjoou, deitada no sofá em frente à lareira, os pés estendidos sobre um dos braços do móvel. E no outro, sua cabeça pendeu para o lado, avistando uma lareira sem chamas. Era primavera. E o baile fora ontem.

E ela pensou que acordaria aos braços de um amigo, sentindo cheiro de colônia antiga, com o Sol os avisando do dia. Seu coração deu um solavanco.

Mas antes que pudesse se lembrar de tudo, um gato berrou em pura agonia, e ela se sentou num pulo, olhando para trás de si, de onde viera o miado, de onde vinham as escadas do dormitório masculino.

E seus olhos não encontraram gato, mas os olhos acinzentados de um garoto alto e bonito.

Desviaram os olhares, ele para o chão, ela em busca do pobre gato.

-- Foi mal, era a Afrodite. Pisei nela sem querer. – disse a voz muito rouca de Sirius.

Afrodite era sua gatinha, e ela se ergueu ao pronunciar do nome, mas teve que se jogar de volta ao sofá, deitada, porque sua cabeça deu dois ou três giros.

-- Ai… - ela gemeu.

-- Tudo bem? – ela o ouviu perguntar. Não respondeu, preferiu fechar os olhos. Quando os abriu, o garoto havia se sentado na poltrona à direita e à frente, bem a vista dela. E talvez ele também não se sentisse bem, porque estava mais pálido que o normal.

Ele estava com aquela camiseta vermelha que ela gostava, e uns jeans velhos.

-- Você ainda 'tá com os trajes de festa. – ele observou. A voz estava mesmo mais rouca.

-- Eu sei. – ela falou mal humorada, porque algo lhe dizia que não estava "de bem" com Sirius.

E seus pensamentos em consonância com os dele:

-- Não sei se lembro tudo, mas tenho quase certeza que te devo desculpas. – ele falou tentando olhar descontraído, mas sua voz saíra desconcertada.

De repente veio à cabeça de Marlene. Fatos vagos… os olhos de Sirius bem perto… os olhos de Remus bem perto… as coisas que Sirius disse a Remus…

-- Cai fora, Sirius. – ela disse afundando o rosto nas mãos enquanto se sentava com os cotovelos apoiados nos joelhos. – Você foi longe demais.

-- Eu 'tava bêbado. – respondeu sério.

-- Disse o que pensa. E não é coisa boa. – Ela o olhou entre as mãos, o rosto bonito dele expressava certo desgosto.

-- Desculpa, Lene.

-- Pede desculpas ao Remus.

Sirius franziu o cenho.

-- Vocês sumiram da festa.

-- Não deu muita vontade de festejar depois do que você disse. – ela agulhou.

Sirius fez um gesto impaciente com o rosto.

-- Não foi nada tão sério assim.

Marlene estreitou os olhos.

-- Você não presta, Sirius. Por que disse aquilo?

Ele suspirou, pareceu se sentir mal ou coisa assim. E as palavras que ele disse logo depois, ele não soube por que foram sinceras, simplesmente sinceras. Talvez porque se sentisse cansado, talvez por causa do pesadelo que teve com sua mãe e que sempre o deixava meio sensibilizado, talvez porque sua cabeça doía, talvez porque não tenha conseguido pensar em nada mais. O fato é que disse a verdade:

-- Pra que você não ficasse do lado dele a noite toda.

E Marlene pareceu meio estática, seus grandes olhos castanhos passearam pelo rosto dele como se não o visse há muito tempo.

-- Você costuma ser tão previsível, Sirius Black. – e arrumou os fios que desciam do que restou de sua trança atrás das orelhas, do jeito delicado com que ela sempre fazia isso. – Por que você disse isso? – acrescentou em tom incrédulo, quase assustado.

Não adiantava. Ele não ia em frente, ela não esperava que ele fosse. E a verdade é que ele nunca pretendeu ir. Simplesmente disse a verdade. E ela sabia, sabia tanto quanto ele, o que aquilo significava, e o porquê ele dissera. E mesmo que fosse pouco o que se entendia sobre isso, ela não podia tratar uma resposta sincera assim desse jeito. Não quando sua cabeça doía e depois de um pesadelo dos piores com sua mãe. Não depois de ter saído da festa com alguém que não fosse ele.

-- Não vou repetir. Não vou dizer nada. Entenda o que quiser entender. – disse grosseiro. E se levantou. – Só que você não tem direito nenhum de dizer que eu não presto.

E depois de mais uma troca de olhares que significava mais ou menos o pouco que fora dito, coberto com um pouco de ameaça e desafio, Sirius atravessou a Sala e saiu pelo retrato da Mulher Gorda. Seu jeito de andar… o reflexo dos cabelos negros dele faiscarem uma última vez antes do retrato se fechar.

E não, não foi nada agradável assisti-lo no trajeto. Algo mais que seu estômago doeu.

-- Acho que pisaram no seu gato.

Ela virou o rosto rápido, e sua visão embaçou um pouco. Era Lílian Evans, ao último degrau das escadas circulares.

-- Oi, Lílian. Si-Sirius pisou nela. – respondeu meio fora de ar, antes de se afundar no sofá. E quis mesmo sumir ali, porque sentiu uma tristeza profunda.

-- 'Tá tudo bem?

-- 'Tá sim. 'Tá tudo bem… Eu acho. – e fechou os olhos como quem sente dor.

-- Aconteceu alguma coisa? – Lílian perguntou enquanto se aproximava. Ela sempre foi assim, gentil.

Marlene a olhou desesperada.

-- Eu não sei o que aconteceu. – e se sentiu vazia. – O Sirius… ele 'tá estranho. Eu to estranha. E o Rem… - Marlene ofegou. Lembrou-se, pela primeira vez nitidamente, de um certo beijo.

-- Que tem o Remus? – Lílian perguntou meio preocupada.

-- Nos beijamos. – ela respondeu num fôlego. E logo espalmou a mão sobre os lábios, porque falou demais.

O queixo de Lílian Evans caiu.

-- Meu Merlin! Você e Remus Lupin? Caramba! E o Sirius?

-- Que tem ele? – Marlene a olhou ainda pensando no dia anterior.

-- Bom, vocês não… - ela disse devagar. – Acho q entendi errado. – completou analisando o olhar estreitado que Marlene lhe dera.

-- Entendeu errado o quê?

Lílian pareceu apreensiva.

-- Vocês nunca… tiveram nada? Quero dizer… Talvez seja por isso que 'tá estranho.

Marlene franziu a testa.

-- Nah… O que ele mais ressalta é justamente isso.

-- O quê?

-- Que somos só amigos. – respondeu encarando o chão. E depois olhou os olhos verdes. – O que de fato é verdade.

A garota a sua frente ergueu uma sobrancelha.

-- Ele é meio possessivo com você.

Marlene riu com vontade.

-- Possessivo?! – repetiu em tom hilário.

-- É, bom… Os marotos – ela revirou os olhos quando disse a palavra "marotos". – no geral meio que protegem você.

-- Sério?

-- É. Isso quase me faz pensar que são eles pessoas decentes.

-- Eles são decentes, Lily. – disse Marlene meneando o rosto.

-- Só com você, ao que me parece.

-- O Jim fala tanto de você…

Lílian olhou feio.

-- Mas o que a gente dizia… - começou e não pôde continuar, foi interrompida.

-- Ei, garotas.

Elas viraram seus pescoços num gesto rápido. Era Remus, seus cabelos molhados penteados para trás, as mãos espremidas nos bolsos de uma jeans.

-- Remus… - Marlene deixou escapar num sussurro. Olhou a lareira.

Lílian deu uma desculpa muitíssimo esfarrapada e saiu

-- Vamos tomar café? – convidou o garoto, se aproximando. E quando Marlene voltou a olhá-lo e viu seu sorriso sereno, seu semblante bondoso, como se seus olhos não expressassem a tristeza que ela notou, ela enxergou uma escultura em pedra, forte, grande, impenetrável.

-- Vamos. Eu só… - ela se levantou devagar dessa vez – Só vou me trocar e já volto.

-- Ok. – e ele se sentou para esperá-la.

Tomou um banho rápido e se surpreendeu pela eficiência com que esse simples fato curou quase toda sua ressaca. Vestiu umas calças velhas e a primeira bermuda que encontrou, e desceu as escadas com pressa.

E na poltrona avistou Remus sentado, a cabeça apoiada no encosto e o corpo espaçosamente largado ali, mas no rosto uma expressão que dizia não estar nada confortável.

Quando ele a viu, sorriu de novo, e postou-se a seu lado durante o caminho com seu jeito plácido de sempre. Como se nada incrivelmente estranho tivesse acontecido.

Marlene franzia e desfranzia o cenho, pensava e tentava parar de pensar sobre o dia anterior. Mas quando passaram, maldita foi a hora, bem em frente àquele pátio, o pátio de ontem, ela não se conteve.

-- Moony?

-- Hum. – ele não virou o rosto em sua direção.

-- Eu… ah… Obrigada por me levar até o sofá. – ela sentiu o rosto esquentar.

-- Tudo bem. Você dormiu no pátio, depois de a gente beber. – E ele falou como quem conta um fato, como se pensasse que ela não se lembraria. E tudo isso de um jeito firme e controlado que Marlene jamais conseguiria usar numa situação dessas.

-- Eu sei, Rem. – ela disse e esperou que ele a olhasse para então continuar: - Eu lembro. Lembro de tudo…

-- É? – os olhos dele ela não conseguiu ler, mas o canto de seus lábios tremeram.

-- Claro…

E ela sorriu para ele, mas Remus desviou o olhar para frente, e continuou o caminho. Era mesmo feito de pedra.

E que coisa horrível. Ela era a única a se sentir feliz por ter a companhia que tinha no momento? Ele estava fugindo dela? Por que a beijou se depois ia querer… esquecer?

Quando ela falou foi em tom quase irritado:

-- Você quer que eu esqueça, é isso? – e parou de andar.

Ele deu mais dois passos e parou também, olhando para ela com aquele semblante esculpido em pedra fria.

-- Se você quiser esquecer… - se a voz dele não tivesse falhado, era caso de Marlene se chatear. Mas o tom dele fora desprevenido. E ela percebeu que havia uma sombra em seus pensamentos.

-- Eu não quero. – ela disse com o olhar quase assustado. E se aproximou em passos pequenos.

E o rosto dele pareceu mais claro depois do que ela disse. Ele sorriu um sorriso diferente, e seus olhos brilharam um segundo.

-- Eu também não quero. E acho que não esqueceria nem se eu quisesse, nem de jeito nenhum.

Marlene sorriu radiante.

Mas uma sombra encobriu os olhos do garoto, e ele desviou o olhar para o lado, a cabeça um pouco baixa.

-- Escuta, Lene… A gente não pode… não dá… - ele suspirou. – A gente tem que esquecer.

E de novo ela ficou esperando que ele a olhasse, mordendo o lábio inferior com força. Quando ele finalmente o fez, a olhou quase nervoso e fechou os olhos rápido, como se tivesse sido queimado, e voltou a mirar o mesmo canto de antes.

É que vê-la fazer aquilo, e ainda olhá-lo daquele jeito tão bonito, já o havia feito errar. Ele não podia se dar ao luxo de cometer o mesmo erro… por mais que desejasse beijá-la, tinha que se conter.

-- Então você acha que a gente tem que esquecer? – perguntou a garota, e seu tom foi triste. Mas ele conseguiu não olhá-la.

-- Acho.

Ele suspirou e guardou as mãos nos bolsos, o nariz perfeitamente reto apontando uma linha para o chão. Marlene o achou bonito demais… Admirou o modo como as sobrancelhas franziam-se suavemente lhe dando aquele ar preocupado, seus olhos cor de mel visivelmente lutavam para não mirar os seus.

Ela quis abraçá-lo; e se sentiu vazia por não poder.

-- Mas você disse que não ia esquecer de jeito nenhum. – ela disse triste.

Um sorriso acabou por vencê-lo, e ele a olhou finalmente.

-- Não vou esquecer. Vou só fingir que esqueci.

Ela sorriu, quase riu.

-- Também tenho que fingir que esqueci?

-- Tem. – ele sussurrou grave, em tom fatídico.

E por algum magnetismo misterioso, eles se aproximaram mais, e Marlene se deixou encaixar entre os braços fortes dele, e o envolveu pelas costelas, deitando o rosto em seu ombro.

Ele respirou fundo, para sentir melhor o cheiro dela, acariciou seus cabelos e os apertou, como se quisesse gravar a textura. Tocou seu rosto e ela se afastou e olhou. E por um segundo Remus Lupin não foi misterioso, ela sabia exatamente o que ele estava pensando.

Puxou-o pela blusa, à altura das costelas, e seus lábios se encaixaram como se isso estivesse escrito há milhões de anos, como se fosse o único caminho a se tomar. Ele segurou muito forte sua cintura, porque sabia que ia acabar.

E quando ele pressionou seus lábios contra os dela pela última vez, com força e dor, ela pensou que o mundo era triste, e assim sempre seria.

E ele a acolheu de novo em seus braços, para que ela deitasse mais uma vez a cabeça em seu ombro, e ele pudesse se sentir forte.

-- É pra esquecer esse também? – ela sussurrou enquanto absorvia o cheiro dele como se fosse o ultimo ar a respirar antes de um mergulho profundo.

-- Fingir que esqueceu. – ele suspirou triste. – Só fingir.

-- 'Tá.

O mundo real os esperava com um café da manhã. E eles foram andando não como se nada tivesse acontecido, mas com a dor de quem cresce e sabe que nem tudo é possível. Uma dor que Remus sentiu cedo demais. E que agora Marlene também sentia. Cedo demais.

Mas se você quiser alguém
Prá ser só seu
É só não
se esquecer
Estarei aqui...

Ela sorriu. Riu da época em que não podia tê-lo. E hoje… hoje ela o tinha. E havia momentos em que isso era tudo o que importava.

"Coração de dragão", a senha.

E quando ela o viu sentado perto da janela, na Sala Comunal, esperando-a desde que saíra para o treino; e quando, bem na hora, ele a olhou, e os dois sorriram, ela não teve dúvidas de que o queria só para ela.

Ele se levantou e ela correu a abraçá-lo.

-- Lene… - ele disse num suspiro.

E ela o beijou como naquele dia, como quando era impossível estarem juntos…

Impossível também significa incrível, extraordinário.


N.A.: ah, como eu tô feliz!! Mil vezes obrigada Marauders'C!! Dá tanto inspiração receber review! nem lembrava mais como é bom! Me vieram mais idéias na cabeça, acredita? Acho q eu tava mesmo precisando!! E segui seu conselho, claro! rs

espero que vc goste desse cap, de coração!

o trechinho de música, de novo, é da Legião Urbana, "Eu era um lobisomen juvenil".

cap q vem tem coisa sobre a primeira vez q o Sirius viu a Lene na vida!! ÔÔ

bjus da autora de fic q tá boba de tão feliz!