De longe se viam as figurinhas, o Beco Diagonal não estava muito cheio. A cabeleira vermelha de quatro deles, e uma menininha por volta dos seis anos de idade com seus cabelos castanhos a brilharem dourados com o Sol daquela primavera.

As mães deixaram-nos brincar em frente à sorveteria do Sr. Fortescue, enquanto iam à Madame Malkin. A recomendação, como sempre, era de que permanecessem onde elas os haviam deixado, e juntos. Mas, como sempre, assim que avistaram os cabelos louros da mãe de Marlene e o coque ruivo da Sra. Bones sumirem para dentro da loja de roupas, a discussão começou:

-- Certo, - disse Edgar, o mais velho ali, e para Marlene, o mais admirável. – eu e Jo vamos à loja de animais, não contem às nossas mães, ou azaro vocês. – Ele entrara para Hogwarts há um ano, e Marlene quase o idolatrava por isso.

-- Podemos ir junto? – perguntou ela, sorrindo esperançosa para Edgar mirando seus olhos azuis.

Ele sorriu de volta. Parecia que aceitaria levá-la…

-- Não, Lenny! – reclamou Amélia, que vivia encrencando com Edgar – Deixa eles irem, vamos brincar de esconder!

-- Eu vou com vocês, Ed! – Arnold olhava o irmão mais velho um pouco tenso, era o mais novo, o único ali da idade de Marlene, e por isso quase sempre acabava tendo que brincar com as meninas. Mas hoje ele queria mesmo passear com os irmãos.

-- Ora, Melly – começou Marlene, na tentativa de convencer sua amiga, ainda que ela também fosse um pouco mais velha. – vamos olhar os bichos, só hoje…

-- Vem com a gente e larga ela aí, Lene, essa chatinha… - disse Joseph beliscando a irmã um ano mais velha.

-- Idiota! – xingou a garota ruiva, que devia ter uns 9 anos. – A Lenny vai brincar comigo, não é, Lene?

Marlene olhou meio desanimada para os garotos, as brincadeiras deles costumavam ser mais legais. Mas ela era uma amiga fiel, e se Melly pedia para ela brincar de esconder porque os irmãos não queriam levá-la a se aventurar pelo Beco, então ela brincava.

-- Claro! – disse ela e olhou em desafio para Joseph, com quem quase sempre brigava.

-- Você é boba que nem a Melly. – Ele disse espremendo seus olhos azuis ao franzir o cenho para ela. Ele era a cópia de Edgar, mas Marlene o achava muito chato para ser bonito como o irmão.

Ela mostrou a língua para eles quando foram embora.

-- Vou me esconder primeiro! – gritou Amélia enquanto já corria pela multidão. – Conte até cinqüenta! – gritou ainda mais alto porque já estava longe, espremendo-se entre uma pequena multidão que observava a vitrina da loja de vassouras.

Depois que contou cinqüenta, Marlene deu alguns passos na direção em que Amélia correra, mas parou assim que viu a amiga andando na sua direção, o rosto comprimido de raiva e voltado para o chão.

-- Que foi, Melly? – perguntou se aproximando e olhando o rostinho bonito da amiga com apreensão.

-- Um garoto idiota me empurrou! – disse ela zangada, quando pararam em frente a uma loja de enfeites para casa. – E me xingou! – completou ela olhando para trás, os olhos com rancor, como se procurasse o tal menino.

-- Você se machucou? – quis saber solícita.

-- Só ralei aqui e aqui. – disse ela apontando os cotovelos e erguendo o vestido florido para mostrar um dos joelhos. – Mas 'tá tudo o.k. – E ela olhou Marlene meneando o rosto, confirmando que estava bem. Mas Marlene vira os olhos azuis da amiga úmidos, e isso a deixou nervosa.

-- E onde 'tá o menino? – perguntou brava.

-- Não sei! Aquele idiota saiu correndo! Ele bem merecia um socos! Vou contar tudo ao Ed! – o rosto dela comprimia-se de raiva, mas então, de repente, ela arregalou os olhos e abriu a boca, apontando um lugar atrás de Marlene. – É ELE! – ela deu um salto de aflição.

-- Onde? – perguntou Marlene ainda mais aflita, virando-se e indo para o lado da amiga.

-- Lá! Olha lá! – disse Amélia apontando um garoto comprido de cabelos muito negros que corria desenfreado do outro lado da rua.

-- Eu pego ele! – gritou Marlene já correndo a atravessar a rua.

-- Não! Espera, Lene! – gritou Amélia, tentando acompanhá-la. – É melhor chamarmos o Eddy! – Mas perdeu a amiga de vista quando um grupo de adultos cortou seu caminho.

E Marlene seguiu o garoto, ele era tão bom corredor quanto ela. Logo ele entrou numa loja, ela atrás. Lá dentro era repleto de estantes com milhões de livros. "Deve ser a tal Floreios e Borrões".

Perdeu-o de vista por um instante, procurou-o entre as prateleiras abarrotadas. E lá, lá no último, mais estreito e escondido corredor cujo topo ela mal podia enxergar, ela o viu. Ele olhava entre as fendas fininhas que se formavam entre um grupo de livros e outro, parecendo tenso e ao mesmo tempo valente, com seu cenho franzido, os olhos cinzentos espremidos em desafio. Talvez achasse que estava sendo seguido… Mas não a vira ainda.

-- 'Tá com medo de alguém seguir você, seu covarde? – Uma menina apareceu de repente a uma esquina daquele corredor estreito, as mãozinhas na cintura, mostrando desafio. Tinha cabelos castanho-claros pelos ombros, uma franja basta e olhos grandes e brilhantes estreitados de raiva, sabe-se lá por que. Era bonita, mas parecia ser meio maluca.

-- Quem é você? – perguntou o garoto em tom mal humorado.

-- Você bateu na minha amiga. – ela disse se aproximando. Viu que ele tinha um ar de quem não dá importância para as coisas, e isso a assustava, mas ela tinha que ser valente agora.

-- Não sei quem é sua amiga. E não bati em ninguém. – ele era sério.

-- A menina que você empurrou.

O rosto dele se desanuviou, mas ao invés de parecer mais simpático, pareceu entediado.

-- Ah, sei. A dos cabelos vermelhos. Não bati nela.

-- Ora, seu! Além de covarde, - ela se aproximou mais, ficando muito perto. – é mentiroso! – e, com as mãos espalmadas no peito dele, o empurrou.

Ele não caiu, só cambaleou um pouco. E o semblante entediado de repente ficou curioso.

-- Conheço você… - ele disse devagar, quase sorrindo e se aproximando da garotinha. Lembrou de uma certa quedo por um pequenino morro, e dos olhos zangados de uma menininha de mãos sujas.

Marlene desfranziu o cenho e mirou os olhos negros cinzentos dele. Aquele garoto era meio esquisito… Era bonito, é verdade, mesmo sendo meio maluco. Ele tinha os cabelos da cor das noites que ela mais gostava…

E então ela se lembrou.

-- Você é… - ela começou lenta.

-- Não sei o seu nome.

-- Nem eu o seu. – E de novo, de repente, ela franziu a testa. – E nem quero saber! – disse irritada. – Por que você bateu na Melly?!

-- Não bati na sua amiga. – disse sério, o garotinho entediado. – 'Tava correndo e trombei com ela. Só.

Ela o olhou desconfiada.

-- Você xingou ela.

-- Não xinguei ela. 'Tava reclamando porque me viram fugir.

-- E você 'tava fugindo do quê? – Marlene ainda estava um pouco desconfiada.

-- Meus pais. – ele disse e mirou seus sapatos pretos. Viu que ela usava tênis brancos, meio sujos.

A garotinha pareceu se assustar.

-- Dos seus pais!? Por quê?

Mas o garoto deu de ombros e de repente sorriu para ela.

-- Vamos brincar? – ele convidou.

Ela concordou.

-- Sou o cavaleiro que vai salvar você do dragão! – disse ele em tom heróico, golpeando o ar com uma espada imaginária.

-- Me salvar? – ela disse um pouco irônica.

-- É. Você é a princesa.

-- Não sou princesa. – disse mal humorada. – Sou uma cavaleira, como você! – e golpeou o ar, imitando-o.

-- E quem eu vou salvar?

-- Sei lá… Posso chamar meus amigos.

-- Não. – de repente ele pareceu tenso. Era muita sorte ter achado aquela garotinha de novo, não queria que ela saísse dali. – Não chama, não. Já ta bom só eu e você.

-- Mas eles são legais.

-- Vamos brincar de auror, aí só precisamos de dois, eu e você.

-- Se chamarmos a Melly, ela pode ser sua princesa.

-- Não preciso de princesa. E você é mais bonita.

Ela sorriu radiante.

-- Você é tão bonito que poderia ser o próprio Godric.

-- Quem é Godric?

-- Godric Gryffindor, o cavaleiro mais corajoso de todos!

-- O de Hogwarts?

-- É!

Ele sorriu contente.

-- Você é valente como ele! – disse Marlene, encantada com seu amiguinho.

-- Quando eu for para Hogwarts, serei da Grifinória! E serei o Gryffindor mais corajoso!

Os olhos dela brilharam.

-- Só depois de mim! - ela disse matreira. – Lute comigo, Sir Noite! – ela apontou sua espada imaginária para o peito dele.

Sirius ficou quieto, olhando-a confuso e apreensivo.

-- Que foi? 'Tá com medo? – ela perguntou risonha.

-- Não posso lutar com você. – disse sério, os olhos cinzentos entravam nos dela.

-- Por quê?

-- Você é menina.

Ela revirou os olhos.

-- Ora, e daí?

-- Não devo. Devo ser cavalheiro.

Ela riu. Mesmo que estivesse rindo dele, ele adorou ouvir sua risada.

-- Sou uma cavaleira também! Forte como Griffyndor! Não pense que vai me machucar!

Ele sorriu. Era só de brincadeira mesmo…

Fingiu acertá-la com sua espada.

Brincaram sem noção do tempo que passou. E de repente uma mulher aflita vinha acompanhada de um atendente da loja, procurando entre as estantes uma garotinha fujona.

Brincavam de esconder. Ela ficou de procurá-lo, ele ia se esconder. Saiu do corredor estreito em que ficara para contar até vinte (ele dissera que era rápido) quando viu sua mãe.

-- Oi, mamãe! – disse animada.

-- MEU MERLIM! – a mulher ofegou. – Aí está você! Marlene se você fizer isso comigo de novo, juro que te ponho de castigo por um mês! Ouviu bem? – e ela se aproximou e tomou a filha no colo.

-- Não, mamãe! Espera! Espera! – ela tentou descer dos braços de sua mãe. – Eu tenho um novo amigo, mãe. É meu amigo preferido. Ele 'tá aqui, deixa eu mostrar ele pra você!

Isabelle devolveu a filha ao chão, um pouco irritada.

-- Ok, filha. Onde está seu amiguinho? Qual o nome dele?

-- Eu não sei… eu ia procurar, ele foi se esconder. – e ela olhou por algumas prateleiras. – Ei, menino! Ei! Cadê você?

Mas ele não deu sinal.

Sirius não queria aparecer… Se escondeu numa prateleira ali perto, e observou a garotinha bonita chamá-lo como se tudo o que ela quisesse no mundo fosse vê-lo. Sentiu ímpetos de atendê-la, mas não podia ir. Os adultos costumavam entregar-se uns aos outros, e ela certamente iria querer saber quem eram seus pais, e onde estavam. E tudo que Sirius queria era estar longe deles.

Os olhos da garotinha marejaram, e ela continuava chamando.

Sentiu seus próprios olhinhos escuros umedecerem, mas permaneceu firme ali.

Logo Marlene começou a chorar. Onde estava ele? Agora que ela achou alguém que brincava do jeito que ela gostava, onde ele estava? Seu mais novo e preferido amigo, onde ele estava?

-- Venha, meu bem, outro dia o achamos, temos que ir.

E sua mãe segurou sua mão e a guiou para o ensolarado dia de primavera, que ela enxergou embaçado por trás das lágrimas. Por que será que ele não veio quando ela o chamou?

Porque ele sempre foi assim, com essa mania de fugir. Como ela.

Conheceu Sirius quando ele era só um garotinho fujão. Quando ela mesma era só uma garotinha fujona. Estava tudo muito confuso agora... A infância é boa por isso, é simples. Agora as coisas eram complicadas.

Aula de História da Magia, ela sempre saía delas meio cansada, porque pensava demais. Era impossível prestar atenção e Sirius não sentava mais a seu lado para jogarem forca. Quem estava ali era Remus, fazendo suas anotações.

Caminho absolutamente livre para que seus pensamentos voassem até o passado. E não importava a que ponto do passado eles chegavam, sempre Sirius estava lá. Talvez não incluído na lembrança, mas em algum sentimento que ela teve no momento.

Mirou-o de soslaio, ele se sentara na fileira ao lado, uma carteira para frente. Viu o brilho negro-intenso dos seus cabelos a caírem displicentes pelo rosto enquanto ele escrevia alguma coisa. Provavelmente um bilhete para James. Ela não estava mais incluída nos bilhetes dele, no que ele escrevia ou fazia, com certeza. Como em algumas raras lembranças que ela tinha e ele não estava lá.

Isso doía tanto.

Lembrou-se de uma vez que fugiu. E que mesmo que ele não estivesse presente naquele pequeno pomar, ela desejou tão profundamente que estivesse, que sempre que pensava naquele dia, pensava nele.

((continua))


N/A: tá aí! de novo infância! além dessa, só tem mais uma pré-Hogwarts hehe.

ah o negócio do Sir Night... em inglês fica melhor, mas no meio da estória nao é legal incluir palavra assim, nao sei... mas pensem em Sir Night, tá? é pq o cabelo dele é da cor das noites q ela mais gosta ^^

espero q vcs gostem...

Brigadaaaaa zizi blue!

nao vou demorar pra postar o próximo!!

beijos, beijos, beijos!