Old love, leave me alone

Old love, just go on home

Capítulo 13. Meu velho amor sobre a primeira neve

((continuação))

Por que, afinal, ela tinha que vir a essas reuniões? Sempre dava no mesmo. Ela sempre estragava tudo.

E lá estava ela agora… Caminhando sozinha pelo pomar dos Potter, procurando a mais alta árvore, porque estragara tudo, de novo.

Seu pai mesmo já admitira que não gostava muito das tais "reuniões de antigas famílias", como chamava sua avó. E ela, então, que simplesmente não via sentido naquele monte de bruxo junto, por que, diabos, tinha que vir?

Não que ela não gostasse das outras crianças... Algumas eram legais, e ela quase nunca tinha companhia para brincar em sua casa. Ela quase sempre estava sozinha pelo campo, sobre as árvores ou os cavalos de seu pai. Pricipalmente depois que sua mãe se fora e as visitas quase se extinguiram.

O problema é que sempre, sempre, chegava um momento em que todos a entediavam ou a irritavam. E então, sempre, sempre, ela dava um jeito de estragar tudo. Era mais ou menos como jogar boliche. Seu pai a levara uma vez, e ela tinha se saído um pouco mal. Então fez a relação: era como jogar a bola de um jeito errado e assisti-la cair na vala. Não importa se todo mundo sabe que ela perdeu aquela jogada, não importa se ela mesma sabe perfeitamente que aquela jogada deu errado. Ela tinha que esperar a bola terminar seu percurso, até o fim. Sem solução. Um tédio.

Ela decididamente não gostava de boliche.

Suspirou. "Foi o que aconteceu hoje".

Frank sugeriu bricarem de galhos. Isso queria dizer que quem conseguisse fazer seu galho se mexer mais - sem usar as mãos, claro - era o vencedor. Fabian ganhou, foi nítido. Mas Ted Macmillian implicou, como de costume. James mandou ele deixar de ser orgulhoso, porque Fab tinha ganhado, sim. Fabian disse uma coisa feia que incluia bosta de dragão e a mãe de Ted. Emme Vance mandou pararem de brigar. Melly ameaçou contar tudo para os pais de Fab. Foi quando as coisas explodiram dentro de Marlene. Ela disse, porque ela não conseguiu segurar: "calem a boca, vocês! É tão simples! Fab ganhou! Pronto! Nenhum pai precisa saber de nada! Deixem de ser covardes, seus idiotas!".

Todo mundo olhou para ela. Alice com um olharzinho triste. Amelia a chamou de "valentona". James quis apostar quem mexia mais o galho de novo. Frank disse para ele calar a boca, sabe-se lá por que. Daí James mandou ele fazer uma coisa bem feia. Alice disse que ia contar isso para a mãe dele. Marlene xingou Alice de florzinha. A garota não entendeu que fora xingada e a olhou quase com gratidão. Fabian riu da cara que Marlene fez, tão irritava que ela estava. Ted disse que ela era mesmo uma valentona. Com sua cabeça entre confusão, irritação, e o olhar risonho de Fab, Marlene deu um soco em Ted.

Pronto. A bola caiu na vala.

Por que, afinal, ela tinha que vir?

Uma árvore bem alta, finalmente. Mirou o galho mais longe e bem escondido e até ele se pôs a subir.

Ela não era para aquilo. Ela não era legal como Jim Potter, ou simpática como Alice, ou controlada como Emme, nem digna como Fab. Ela não era boa com as pessoas.

Ela devia era fazer só isso na vida: subir em árvores, andar a cavalo, brincar de fazer mágica.

Sentou no galho mais alto e o vento livrou sua testa da franja. Pensou se um dia seria uma bruxa poderosa.

"Tomara que sim, porque uma dama eu nunca vou conseguir ser". Era bem possível que nunca se casasse. A conversa das pessoas facilmente a entediava, então era bem possível que as a conversa dela entediasse as pessoas também. Era como se ela não fosse dali. Como se ninguém a entendesse, nem ninguém fosse entendido por ela. Como se todos estivessem longe, fora, e ela, isolada. "Só eu e papai nos entendemos". Agora, sem sua mãe, era mesmo só ela e seu pai as pessoas que habitavam seu mundo.

Tia Amie dissera que ela era... como era mesmo? Arredia. Ela mal sabia o que significava isso. Associou a alguém que foge de coisas que prendem, porque toda vez que ela se sentia fazendo isso, sua tia dizia a tal palavra. E "valentona" já ouvira várias vezes, e não só da boca de Melly ou Ted.

Pois ela achava mesmo é que as outras pessoas eram quietas e calmas demais.

Lembrou-se daquele menino, o dos cabelos mais negros que ela já vira. Às vezes ela pensava que tinha sido um sonho. Fazia tanto tempo... Uns três anos... Mas, não sabia por que, sempre acabava pensando nele. Perguntava-se se ele também estaria sozinho. Ele tinha olhos que entravam nos dela. Como se ele estivesse no mesmo lugar que ela.

Os olhos de seu pai também eram assim, entravam nos dela, sempre que ele ia explicar as coisas da vida.

Mas o menino não explicou nada da vida para ela, ela nem sabia seu nome... Bastou que ele a olhasse... e os olhos negro-acinzentados estavam dentro dos seus. Lembrava direitinho, mesmo que parecesse sonho, os olhos e o jeito. Era corajoso, e parecia forte, no modo como ele cerrou os dentes, como se estivesse bravo.

Ela sabia que ele não estava bravo, aquele dia. Ele só queria fugir... Como ela.

Talvez ele também precisasse se sentar no galho mais alto, às vezes.

Quis saber o que ele diria para ela, agora. Do que eles brincariam e se ele a faria rir.

Desejou que ele não fosse um sonho, e que um dia ele olhasse dentro dos olhos dela outra vez.

-- Vamos, Lene?

Era Remus chamando. O professor Binns dispensara a turma, a aula acabara. Ela olhou para a mesa em que estariam seu livro aberto, alguns pergaminhos recortados e umas penas, se ninguém os tivesse organizado em sua mochila. Remus tinha essa mania… Quando a via distraída, já arrumava os livros e tudo o mais antes de despertá-la. Ela não tinha certeza se gostava dessa atitude.

Ergueu os olhos para o namorado, ele a aguardava com uma mão estendida e um sorriso carinhoso. Ela se levantou bem quando James se aproximou deles.

--Ei, Moony, Lene! – chamou animado, a seu lado estava uma linda garota ruiva, seus lábios desenharam um sorriso para os dois. – Que tal nos encontrarmos no Três Vassouras amanhã, ao meio-dia?

-- Claro. – disse Remus.

-- Bom, sempre estamos lá, não é? – Ouviu-se uma voz rouca e entediada ao outro lado de Remus. Era Sirius.

-- Vai ser a iniciação da Lílian ao Clube dos Marotos? – falou uma matreira e levemente sarcástica Marlene.

Rindo e conversando, eles seguiram para o Salão Principal, o jantar devia estar servido.

Marlene foi dormir cedo aquela noite, estava outra vez cansada demais. Não houve um só dia naquela semana em que não fora dormir muito tarde. Não arrumara detenções, mas teve treinos pesados para a final de Quadribol, que seria na semana seguinte, e os professores estavam passando cada vez mais deveres.

Ela não estava reclamando. Aquilo tudo manteve sua cabeça ocupada… E isso era o que ela precisava.

Jogou-se sobre os lençóis e fechou os olhos, o conforto relaxando músculo por músculo quase fazia doer…

Era de se esperar que ela dormisse imediatamente, mas seus pensamentos pareciam treinados…

I can feel your body

When I'm lying in bed

There's too much confusion

Going around through my head

Meses. Meses e meses. Ele simplesmente não saía de sua cabeça.

And it makes me so angry

To know that the flame still burns

Why can't I get over?

When will I ever learn?

Nem quando dormia.


Quando ouviu o som das conversas cochichadas das suas companheiras de quarto, na manhã seguinte, não esperava por nada. Não esperava que aquele dia fosse melhor, ou que sua mente finalmente se iluminasse. Sentiu a mesma tristeza que agora sempre sentia antes de se levantar, desde que acontecera a pior das coisas em sua vida. Ironicamente tinha se lembrado ontem, durante a aula do prof. Binns, da época em que via seu mundo resumido a ela e a seu pai, já que sua mãe já havia morrido. Uma ironia um tanto cruel. Um desânimo a qual se acostumara, desde que perdera seu pai e se viu na obrigação de aprender a se manter em pé, firme, sozinha.

O pior, o que causava o desânimo, não era estar sozinha. Era ter que lutar para se manter sozinha, mesmo enxergando bem ali, sempre perto, um velho amigo. Aquele amigo.

Por isso, não esperava por muita coisa.

Mas quando abriu os olhos sentiu como se seu coração ficasse quente de repente.

Tocando o vidro com a leveza única, finos flocos de neve caiam. Perfeitos, quase mágicos. A primeira neve.

Levantou-se feliz, porque não conseguia não pensar que aquele dia seria bom. Deu até um "bom dia!" bem sonoro e alegre às garotas, e nem ligou para o olhar assustado que Emme lhe deu ou o "o que deu nela?" de Lílian (normalmente ela só grunhia um "oi").

Tomou o café da manhã sorrindo, mesmo tendo que ignorar o "vocês drogaram ela ou o quê? Nunca a vi de bom humor a essa hora!" de James, e beijou os lábios de Remus com o carinho que ele merecia, porque talvez hoje tudo voltasse a fazer sentido.

Afinal, era o primeiro dia de neve daquele inverno!


O Três Vassouras estava barulhento, como de costume aos sábados de visitas à Hogsmead.

A uma mesa sentavam cinco jovens sem conversar. A garota ruiva olhava os companheiros um a um, um ligeiro tom de susto pintava seus olhos muito verdes. Até que o baque das garrafas contra a madeira da mesa a fez sobressaltar e mirar os olhos cinzentos daquele que trouxera as bebidas.

-- Sabem, é meio surreal estar aqui. Com vocês. – disse ela lenta e analiticamente.

Peter a olhou daquele jeito impressionado, James lhe sorriu meio bobo, os dentes perfeitos fazendo-se mostrar, e Marlene, a garota ao lado da ruiva, ergueu uma sobrancelha.

-- Qual é, Evans. – disse maroto o de olhos cinzentos. – Passamos tantas lindas noites de sábado com você!

-- Sim. – começou Marlene sarcástica. – Eu adorava aquelas na Sala de Troféus, nós com espanadores nas mãos... Não há mesmo por que isso aqui ser surreal. – e mirou Sirius num revirar de olhos. Ele estava sentado bem a sua frente.

Os jovens riram. James largou um sonoro suspiro ao fim das risadas.

-- Bons tempos.

-- O Prongs, sim, pode dizer que gostava das detenções. – disse Remus rindo-se.

Lílian sorriu doce e beijou o rosto do namorado.

-- Você nos deu um bocado de trabalho, sabe. – Marlene apontou, olhando a garota ruiva.

Lílian tinha uma risada bonita.

-- Eu dei trabalho a vocês? Ah, é… - ela meneou o rosto sarcástica. – Se não fosse por vocês, ser monitora seria a coisa mais fácil do mundo! Nunca esqueço a vez que vocês fizeram crescer tulipas em toda a água da tubulação! Merlim, mal dava pra escovar os dentes e a professora Minerva disse que EU era a encarregada de acabar com aquilo!

Ele riram muito, as gargalhadas de Marlene e Sirius sempre se sobressaiam às demais, eram altas e bem características.

-- Coisa da Lene! - falou Sirius.

-- Ah, não acredito que foi você! - Lílian olhou a garota com incredulidade, mas num tom animado.

Marlene sorriu marota.

-- Filch me deu um sermão gigantesco de que eu deveria me portar como uma garota e não como um moleque, e eu achei que deveria deixar ele ver que eu tinha entendido o recado.

Todos riram.

-- A Lene quase deixou todo mundo doido... Eram muitos feitiços que ela não conhecia, por causa da replicação... - James começou a explicar.

-- Lembro do Pads nervoso porque 'tava carregando uns vinte quilos em livros na mochila. - Peter.

-- Eram pra Lene aprender os feitiços... Cara, eram pelo menos cinco livros! Uns dois de Feitiços, um de Transfiguração, e mais outros de Herbologia. - Sirius.

-- O Moony disse: "é pra achar sobre TULIPAS, TU-LI-PAS. Ou a Lene mata você. Ela 'tá de mau humor". - Peter

-- E o Peter - James pigarreou para afinar a voz: - "mas ela sempre tá de mau humor! Parece aquela priminha mimada do Prongs, a Bel".

-- Bem quando a Lene chegou! - disse Remus entre risadas.

Sirius gargalhou alto.

-- Precisava ver a cara que o Warmtail fez! - Disse Sirius entre as risadas roucas.

-- E a expressão assassina da Lene! - lembrou Remus.

-- Bel, na verdade, é a Betty, uma prima minha que na época tinha uns cinco anos e era o demônio. Lene sempre detestou ela... - James explicou à Lílian.

Marlene finalmente conseguiu controlar o acesso de risos para defender-se:

-- Mas eu me controlei!

-- Ah, é. - disse Sirius com ironia. - Por isso você laçou aquele Levicorpus no Warmtail... Total controle. - Sirius.

-- Qual é! Ele merecia um Furunculus!

-- Que você só não mandou porque o Moony controlou você. - James.

-- Isso é fato. O Moony já quebrou muito galho segurando a Lene pra ela não sair por aí matando as pessoas. - Peter olhando Marlene meio assustado.

Marlene e Remus se entreolharam carinhosos, ela selou os lábios nos dele. Sirius virou o rosto para a mesa ao lado em que se sentaram umas cinco garotas que não paravam de enviar olhares para a mesa dos Marotos.

-- Não acredito que 'tô ouvindo isso tudo e não vou fazer um relatório para a monitoria... - desabafou Lílian de repente.

Eles riram.

-- Você tem sorte, Lily. Hoje é um bom dia na mesa dos marotos. - Sirius

-- Mesa dos marotos E da Lene, por favor. - corrigiu a garota.

-- Mesa dos marotos. Você só fica com a gente por caridade. - inisistiu Sirius.

-- Ok, não comecem a discutir. Hoje é um bom dia, certo? - Remus.

-- É. - disse Sirius olhando significativamente para Marlene. - Um bom dia porque Warmtail não trouxe aquela namorada chata dele, Prongs não 'tá agindo feito um idiota, mesmo estando na frente da Lilian e - ele olhou para Remus meio maroto. - Moony não 'tá com aquele discurso furado de "vamos ser bonzinhos com Dumbledore", graças a Merlim.

-- Isso porque vocês não 'tão num dia "vamos destruir Hogwarts em três acenos de varinha". Graças a Merlim, agora Prongs enfiou mais juízo na cabeça, já que é monitor-chefe.

-- Ei, ei... - falou James em falsa modéstia, mostrando as palmas das mãos. - Nada de ciúmes, hein, Moony. Mas vocês já notaram a paz que 'tá na nossa mesa? Nenhum grito agudo até agora... - E ele olhou Marlene como num desafio.

-- É. Parece mesmo que a Lene tá de bom humor! - Exclamou Peter.

Ela revirou os olhos.

-- Será que a conversa pode ser sobre outra pessoa, pra variar? - disse ácida.

-- Quem senta com a gente por caridade, tem que pagar seu preço. - agulhou Sirius.

-- Mas não é caridade? Não seria de graça? - olhando Sirius como se ele fosse um retardado.

-- Ui. 'Tá nervosa, Marlene? - ele rebateu. - O que você vai fazer, jogar tulipas em mim?

-- Sei fazer mais que isso! - a garota já estreitara os olhos para ele, e inclinou um pouco o tronco sobre a mesa, como um gato que se prepara para o ataque.

-- Qual o outro feitiço de mulherzinha? Vai pintar nossas unhas? - ele agora sentara-se ereto sobre a carteira, e não com o corpo jogado displicente sobre o escosto, como costumava ser. Nitidamente apreciava o desafio zombeteiro.

-- Ah, isso o Pads tem razão. - interrompeu James, mais porque Remus parecia incomodado com a discussão do que por qualquer outro motivo. Ultimamente ele vivia tentando apaziguar as coisas. - Foi um feitiço de mulherzinha mesmo!

-- Mas eu não disse que era justamente pra isso? Pro Filch perceber que eu 'tava agindo como uma garota...

-- O Filch é meio maluco... Por que será que ele queria que você agisse como uma garota? Todo mundo sabe que o McKinnon aqui é muito macho! - disse James animado, passando o braço por trás de Lílian para atingir as costas de Marlene com tapas.

Todos riram, incluindo Marlene entre os "ai!" que proferia.

-- Mais macho que o Warmtail! - brincou Sirius naquele tom de voz rouco e alto nada discreto.

-- Corta essa! Nem tanto assim... Ela 'tá namorando o Moony agora, esqueceram? - apontou Peter.

-- Já assumi minha homossexualidade, Pete, não lembra? - Remus olhava tentando parecer sério.

Peter riu com vontade, junto com os outros. Lílian quase caiu da cadeira.

-- Foi uma grande decepção, na época! - falou James em tom dramático - Por anos eu e o Pads tentamos empurrar garotas pro Moony e nunca durava mais que duas semanas. E agora... Merlim! O McKinnon aqui - ele deu tapas fortes nas costa de Marlene outra vez - fisgou seu coração!

Sirius se remexeu na cadeira, o sorriso tão aberto se amarelou um pouco.

-- A Fawcett até hoje me pergunta por você! - disse Peter olhando Remus e meneando o rosto.

-- É... O Moony é assim... - observou James. - Pode até ser que eu e o Pads levantemos um número maior de fãs - e Lílian revirou os olhos - mas quando uma garota beija Remus Lupin, ela não esquece! - concluiu dramático e espalhafatoso. - Ela fica no pé até o fim!

Peter engoliu rápido um gole que tomara de cerveja, porque pareceu lembrar de algo:

-- Já me disseram que é o jeito que ele tem de peg...

-- Quer calar a boca, Warmtail? - interrompeu Marlene irritadiça. Todos riram dela.

-- A Lenny foi a única que conseguiu amarrar o Moony. - disse Peter como quem pede desculpas.

-- Mas pode-se dizer o mesmo do contrário, certo? - falou Lílian, e todos a olharam curiosos. - Quero dizer, já vi Marlene namorar um bocado de caras. A maioria vinha me perguntar, quando o namoro terminava, se eu era amiga dela, e se eu podia fazer alguma coisa para fazê-la mudar de idéia. - Marlene olhou-a impressionada, porque nunca tinha ouvido nada parecido.

Na cadeira a frente, Sirius se inquietou.

-- É. A Lene arrasou quase tantos corações quanto um maroto. - falou James rindo-se, mas de novo tentando mudar o rumo da conversa. Pensou que o incômodo que vira em Sirius talvez fossem essas comparações entre Marlene e Remus.

Mas Peter não colaborou:

-- E não se prendeu a nenhum, como vocês. Só a um maroto de verdade. - disse se empertigando com orgulho ao mesmo tempo que olhava Remus com admiração. - Vocês deviam se casar. - completou animado.

Um baque foi ouvido. Era a garrafa de Sirius sobre a mesa.

-- Por que você não cala a boca de vez, rato? - arremessou Sirius, meio sem pensar. E então olhou em volta e pareceu ainda mais incomodado. - Foi mal, eu vou ao banheiro.

Então ele se ergueu e saiu a passos rápidos em direção ao fundo do bar.

Um silêncio extremamente desagradável se estabeleceu, todos olhando na direção do banheiro masculino.

Lílian procurou os olhos de James, mas ele olhava Remus com apreensão. Depois tentou olhar para Marlene, mas ela olhava fixo para sua cerveja amanteigada, estranhamente pálida.

-- Ahn... - a garota ruiva tentou apaziguar a situação. - Vocês já escolherem suas profissões?

A conversa sobre escolha de profissões havia sido repetida várias vezes durante o ano passado, e todos ali já sabiam sobre as escolhas dos colegas. Mas os cinco jovens sentiram-se tão agradecidos pela mudança de assunto que passaram a falar sobre tudo o que se relacionava a ele, bastante satisfeitos.

E por uns dez minutos os amigos exploraram o futuro, contentes. Quase todos pareciam mesmo satisfeitos. Exceto a garota de longos cabelos castanhos, que não parava de remeter olhares furtivos ao fundo do bar, seus grandes olhos numa mistura de susto e preocupação.

Remus percebeu, é claro. Sentiu-se incomodado e irritado, apesar do semblante calmo e do sorriso que dava ao comentar as falas dos amigos. Apenas olhava de esguelha a namorada, muito mais quieta que o normal e muitíssimo menos sorridente. Até que não aguentou mais. Ciúmes?... Tudo bem, ele tinha ciúmes. Mas não era só isso. Marlene estava, como sempre, sendo óbvia demais, indiscreta demais. Lançava aqueles olhares sem reserva alguma. Aquela imprudência dela o irritava às vezes.

Aproximou o rosto do ouvido dela, tentando disfarçar, e falou o mais baixo que pôde em meio ao barulho:

-- Quer ir atrás dele? - sua voz saiu séria e fria.

-- Quê? - assustou-se a garota.

-- Pode ir. - ele permaneceu frio, por mais que isso o machucasse.

-- Pára com isso, Rem. - os olhos da garota pareceram extremamente tristes.

-- Você não pára de olhar pra lá. - ele disse nervoso, se referindo, é claro, ao caminho que Sirius tomara. - Se quiser vai lá e conversa com ele. - Mais controlado do que ele estava sendo, impossível.

-- Pára com isso... - ela começou a altear o tom de voz.

-- Não vou ficar chateado, pode ir.

Marlene se sentiu muito ameaçada pela frieza do namorado, mas mais do que isso, sentiu a raiva subir rápido por causa do controle que ele tinha numa situação dessas.

-- Você 'tá me irritando. - avisou, sentindo as mãos gelarem e tremerem.

Ele sorriu a contragosto, meio que um esgar. E notou que os amigos que estavam na mesa já começaram a prestar atenção nos dois.

-- E você acha que eu me sinto como? - ele baixou ainda mais o tom de voz, quase sussurrando. E isso a fez tremer de raiva. - Feliz? Minha namorada sente saudades do amigo no instante em que ele deixa a mesa e você quer que eu me sinta feliz?

E ela mirou aqueles olhos da cor do mel que a olhavam explodindo de fúria sob todo o controle que carregava na voz e sentiu ainda mais raiva. Porque ele insistia em se conter. Porque ele era desprezivelmente comedido e sensato demais. Porque ele simplesmente não gritava com ela. Porque ela queria mais é sair correndo e ele estava mais parado do que tudo, naquela armadura de pedra fria que ele montava para ser total e indecorosamente perfeito. E quando ela falou a voz tremida saiu vários tons acima da voz calma daquele que a olhava:

-- Ele parecia chateado!

-- Não grita! - ele disse rouco, tamanho o controle.

-- EU NÃO 'TÔ GRITANDO! - e dessa vez ela, de fato, gritou. E várias pessoas do bar já observavam a discussão. Ela se ergueu da cadeira, quase a derrubando, e com os olhos fixos nos dele, se afastou um só passo. - EU NÃO 'TÔ GRITANDO! - repetiu quase chorando, seus olhos amarelados de fúria - É você que fala baixo demais! É controlado demais! PERFEITO DEMAIS!

E, já aos soluços, a garota se virou. Remus não conseguiu mais. A corda que amarrava seu coração e o impedia de explodir de raiva e gritar se arrebentou, e ele bradou para a garota que já abria a porta:

-- ISSO! VAI ATRÁS DE ALGUÉM IMPERFEITO O SUFICIENTE PRA VOCÊ!

O vento frio cortou seu rosto com quase tanta força quanto as palavras que acabara de ouvir. Ela abraçou o próprio corpo e correu. Correu sem pensar em destino e tentando esquecer a partida. Correu só pelo caminho, desejando que ele durasse o suficiente.

Correu contra si mesma, achando o frio que sentia o melhor remédio para a dor que a entorpecia. Ela não conseguia mais pensar... Não conseguia entender mais nada...

Ela não conseguia odiar Remus, só odiou a si mesma. E ao mesmo tempo, por mais que se esforçasse em pensar no martírio (como se ele fosse limpá-la da culpa), havia um pensamento que flutuava por ali, indo e voltando, sempre deixando-se perceber um pouquinho. Só o suficiente para enlouquecê-la, pouco a pouco. Às vezes esse pensamento sorrateiro que parecia rastejar e ao mesmo tempo flutuar imponente, só trazia pequenas lembranças. Não diálogos ou fatos. Só um olhar, ou um cheiro, ou um toque. Como uma risada alta e rouca ou o hálito dele sobre sua pele...

De lá para cá, o pensamento voava... e não deixava ela concluir nada. Se era ela ou Remus o culpado pela briga... ela não conseguiria saber. Se ela se martirizava tanto pelo que dissera a ele ou pela verdade do ele dissera... ela não poderia dizer. Não com aquele outro pensamento sempre ali, num flutuar rastejante de águia barulhenta.

Já sentia a respiração reclamar pelo esforço, quando enxergou o contraste que alguns flocos de neve sofriam ao recair sobre um manto desleixado de cabelos intensamente negros. Era ele, ele mesmo. A uns três metros a frente dela, naquele caminho solitário, um garoto bonito andava com as mãos nos bolsos, aquele jeito meio gingado de dar passos longos que só ele tinha.

Ela pensou que devia se virar e andar na direção oposta, pois conversar com ele não seria sensato. Não clarearia seus pensamentos. Pelo contrário.

Old love, leave me alone
Old love, just go on home

Mas não conseguiu se mexer. Ficou ali, a mirar o balance dos cabelos negros pelo andar displicente, o bater da capa nos calcanhares que davam passos longos.

E, de repente, ele olhou para trás.

Seus olhos, os cinzentos e os castanhos, mais do que treinados, se encontraram.

Por um tempo ele manteve só o pescoço virado, até virar-se por completo, naquele jeito elegante que ele tinha de girar nos calcanhares.

-- Lenny? - Ele falou. Não como se estivesse incerto, mas como quem está incrédulo, e só.

-- Oi. - De repente gritar era muito difícil. E tudo o que ela conseguiu foi sussurrar.

Ela caminhou na direção dele, afinal, caminhavam para o mesmo destino, e ele estava a frente.

-- O que você 'tá fazendo aqui? - Ela perguntou ao parar de frente para ele.

Ele franziu a testa.

-- 'Tô voltando - disse um pouco cortante. - O que você 'tá fazendo aqui?

Ela virou o rosto para o lado.

-- Ah, eu...

-- Você 'tava chorando?

-- Não. - mentiu e depois o olhou nos olhos.

E ele deu aquele sorriso "ok, não precisa me contar, mas é óbvio que você 'tava chorando". E ela sorriu também, um tênue e triste sorriso.

-- Aconteceu alguma coisa? - Ele perguntou enquanto apontava o caminho à frente dela para que voltassem a andar.

Ela pensou em mentir, mas sabia que era só perda de tempo.

-- Nós brigamos...

-- Você e o Moony?

Ele a olhou. Mantiveram os olhares fixos um no outro por um tempo. O bom em Sirius era isso. Ele não perguntaria o porquê ou como. Ele não diria a ela o que fazer e nem diria se o que ela fez era certo ou errado. Ele simplesmente andaria a seu lado, às vezes a olhando nos olhos e a fazendo se sentir compreendida, às só respirando e isso era o suficiente para fazê-la se sentir normal de novo.

-- Pads?

-- Quê.

-- 'Tá tudo bem? - ela se referia ao sair repentino dele do bar, ele entendeu.

-- 'Tá.

Ela ainda o olhava, era para dizer que ela esperava por uma resposta melhor, mas na verdade ela só observada uns poucos fios da barba que ficara mal aparada.

Ele suspirou como se sentisse incômodo. E deu uma respota melhor:

-- O Peter me irrita às vezes. Só isso.

-- É, eu sei... - ela disse e voltou a olhar o caminho, sem mais desculpas para olhá-lo.

Por um tempo caminharam quietos. Quando Marlene o olhava de esguelha, ele parecia sério e pensativo. Quando ele o fazia, a garota parecia assustada e por vezes seus olhos se encheram de lágrimas.

A neve passou a cair com mais intensidade. E ela sorriu. Pelo canto dos olhos, Sirius viu. E sorriu também.

-- Também gosto da primeira neve. - a voz rouca dele soou pela paisagem fria, os pinheiros armazenado um fino cobertor branco, a estrada a seus pés com pequenos tufos fofos aqui e ali. E Marlene se sentiu num lugar mágico, completamente esquecida da briga de minutos atrás.

Ela o olhou.

-- Acho que essa, na verdade, é a segunda neve. - ela apontou sem razão verbal, só para ele olhá-la de novo, dentro dos olhos como só ele fazia.

E ele mirou aqueles olhos castanho-esverdeados, e estava dentro da alma dela, assim, instantaneamente. Meneou o rosto em negação e voltou a olhar para frente, porque ela devia parar de ser tão travessa. Permitindo que ele enxergasse tudo nela, cada sensação, e, no entanto, afastando-o de sua vida.

Ela pareceu entender.

-- Sirius?

-- Hum.

-- Acho que tenho sido meio... chata com você.

Ele mordeu a boca e pareceu pensar por um instante, tentando não sorrir e virando o rosto para o lado oposto ao que ela estava. "Chata não seria a palavra", pensou. Por vezes tentara ter conversas sérias e refletir com Marlene sobre o que eles eram, sobre o que ele sabia que sentiam um pelo outro. Mas não era assim que funcionava, um dos dois sempre fazia alguma... travessura, e eles não chegavam a lugar algum.

Além disso, ele era um maroto.

-- Marlene, você é chata. - ele respondeu em falso tédio.

Ela riu com vontade. A risada alegre e alta que fazia o coração dele ser capaz de derreter muito mais do que aquela primeira neve.

-- Qua é a de vocês? - ela disse marotamente revoltada. - Eu sou a chata, a briguenta, a machona...

-- Não que seja nossa culpa. - Ele riu aquela risada que parecia um latido, e que fazia Marlene se sentir feliz.

Ela o olhou de olhos estreitados.

-- Vocês são todos uns idiotas. - disse em tom irritado.

-- E você vai fazer o quê? Jogar tulipas na gente?

Marlene riu jogando a cabeça para trás. Sirius perdeu por um segundo a noção de onde estava.

-- Eu odeio você, Sirius Black. - elafalou em tom brincalhão, e o olhou daquele jeitinho matreiro. Os olhos castanhos escancarando a alma dela para ele de um modo quase obsceno.

-- Também odeio você, Marlene McKinnon. - ele falou num tom que nenhum dos dois saberia dizer se foi sério ou maroto.

Eles se olharam por um segundo a mais, e de repente ela meneou o rosto expirando o ar e fazendo-o sair esfumaçado pelo nariz um pouco arrebitado.

-- Isso não acaba nunca. - ela murmurou mais para si mesma.

Ele engoliu em seco e baixou os olhos, virando o pescoço novamente para frente.

-- Eu já aceitei isso. - ele falou baixo e muito rouco.

-- O quê? - ela olhava para as árvores do outro lado, mas ele não respondeu logo. Então de novo os castanhos mergulharam naquela névoa cinzenta muito escura dos olhos dele.

E por um tempo ele a olhou bem fundo. E os olhos dele entravam nos dela. Aqueles olhos cinzentos despiam-na, estavam tão dentro dela como ela estava dentro deles. Era total encontro, como fumaça que sempre se mistura com o ar, inevitavelmente. Era fusão.

-- Já aceitei que não acaba. - Eles atravessavam os grandes portões do castelo, mas não enxergavam nada que não fossem os próprios olhos. - Vou odiar você pra sempre.

Ela ensaiou um olhar repreensor, mas acabou por sorrir. Ela sorriu porque seu coração pareceu derreter tão de repente que chegou a fazer cócegas. Não entendeu exatamente o porquê, mas as palavras "pra sempre" ainda badalavam em sua mente quando subiam as escadas para o Saguão de Entrada.

-- Sirius? - ela pensou em deixar ouvir o que seu coração cantava.

Ele a olhou com aquele sorriso perfeito, provocante até quando não era essa a intenção.

-- Eu sei que você também vai me odiar pra sempre, Lene. - ele disse em seu melhor tom rouco e sedutor, como se estivesse falando de alguma conquista.

Ela riu divertida.

Subiram os numerosos lances de escadas até a Sala Comunal da Grifinória, e antes de dizer a senha ela disse a ele:

-- O dia 'tava tão ruim... Foi você que melhorou ele.

Ele não olhou em seus olhos, porque achou de novo que o que ela estava dizendo era travessura. Falou a senha e esperou que ela entrasse à sua frente pelo retrato. Ela não o fez, então, para não olhá-la, ele entrou na frente.

-- Foi a primeira neve, não eu. - ele disse parando para esperá-la, ao meio da Sala, como que para a despedida.

E ela conseguiu olhar em seus olhos mais uma vez. Tão dentro que era meio impossível... Tão junto e misturado que a confundia... Os olhos dele entravam nos dela.

-- Sinto mesmo a sua falta. - ela disse triste.

-- A gente continua morando no mesmo castelo. - ele estava sério, falou em tom quase de desafio.

Ela engoliu em seco, e quis desviar os olhos. Mas continuou ali.

Ele viu que ela estava triste, e que se a deixasse subir para seu quarto agora, ela choraria. E mesmo que ele soubesse que ela choraria por Remus, pela briga, pelas confusões, ele não conseguiu sentir raiva dela, nesse momento. Mas o que fazer?

Se a segurasse ali, e ele lia em seus olhos a vontade que ela tinha de ficar, não fariam nada do que deveriam.

Old love, leave me alone
Old love, just go on home

-- Bom, eu... eu vou subir. - foi ela quem disse. E ele simplesmente meneou o rosto em afirmação.

Ela finalmente arrancou os olhos dos seus. Virou-se e passou a andar para as escadas circulares do dormitório feminino.

-- Ei , Lene. - ela ouviu, já ao segundo degrau. E seu coração estava inflamado quando virou-se para olhar o dono da voz rouca.

-- Fala, Sirius. - ela disse baixinho, em tom de pedido.

Ele passou as duas mãos pelos cabelos e engoliu em seco. Suspirou.

-- Não chora, não.

E se virou para as escadas do dormitório masculino, uma pressão no peito, um nó na garganta.

Os olhos de Marlene se encheram de lágrimas, mas ele não viu. Ela subiu as escadas, entrou em seu quarto e se jogou na cama, sentindo-se cansada, derrotada, confusa... Mas quente. Ela não chorou, mesmo que tivesse pensado que choraria até adormecer. E isso só fez com que ela pensasse ainda mais nele.

And it makes me so angry

To know that the flame will always burn

I'll never get over

I know now that I'll never learn


N/A: nunca fiz um capitulo tao grande! espero q vcs gostem!

como ele é mto grande, revisei várias vezes, mas talvez ainda assim tenha alguma erro... bom, se tiver, avisem, ou perguntem, ou alguma coisa assim! é só dizer!

por favor, me digam se gostaram ou nao... mandem reviews! POR FAVOR! já escrevi TREZE capitulos...... poxa vida, nao custa deixar uma reviewzinha... pode xingar, é sério!

e, como sempre, devo muitíssima gratidão à zizi blue! minha companheira nesse mar de silêncio dos (supostos) leitores cruéis! brigada!

A música é do grandioso Eric Clapton, e se chama Old Love. ^^ ouçam, vale a pena!

bjoes