Capítulo 18. Casamento

Observou-o tirar os sanduíches da cesta de vime, os cabelos eram tão negros que o faziam parecer muito pálido sob a sombra daquele chorão. Eles, os cabelos mais negros que ela já vira, estavam para trás como ficariam num galã que ela imaginara ao ler algum livro, porque estavam molhados, e o peito nu de garoto agora tinha alguns poucos pelos, tão negros quanto os cabelos. Tão negros que ali, à beira do riacho azul, sobre a relva tão verde, em um dia quente e alaranjado, ou no peito pálido que ela conhecia tão bem, pareciam ser coisa de outro mundo. Como se viesse mesmo do céu, que nem o nome dele.

-- Seu pai que fez tudo isso? - Ele perguntou antes de encher a boca com um pedaço inteiro de torta. Sirius não tinha bons modos às vezes, ela pensou. Tentou reprimir uma expressão de repreensão.

-- Foi. - Ela respondeu esticando o braço para o sanduíche que Sirius lhe oferecia. - Desde que mamãe se foi, papai faz tudo.

-- Quero me casar com alguém que cozinhe muito bem.

Ela se deixou fazer a expressão de repreensão que fazia Sirius sorrir de lado.

-- Ora, e por que você não aprende a cozinhar?

Ele lhe sorriu maroto. Era divertido contrariar Marlene, e talvez tudo que estava dizendo servisse só para isso.

-- Porque enquanto ela cozinha, eu descanso embaixo de uma árvore. - Ele respondeu. Não havia realmente coisas muito melhores que dividir uma sombra com aquela expressão que ela fazia, o nariz feito cera a se contorcer no rosto rosado.

-- Você é um idiota. Ninguém vai ser tão burra a ponto de se casar com um idiota como você, Sirius.

-- Ora, é minha condição. Se ela não souber cozinhar, não caso. - Ele ergueu os ombros magros, e ela se perguntou mais uma vez o que o fazia não ter uma só pintinha por todo o corpo.

-- Certo. - Resmungou em resposta. Às vezes era melhor ignorar as bobagens de Sirius. Ele falava como se pudesse mandar na ordem das coisas.

-- E você? - Perguntou o garoto.

-- Eu o quê?

-- Tem alguma condição?

-- Condição pra quê, besta?

-- Pra casarem com você, idiota.

Ela se esticou por sobre a cesta para alcançar o braço do amigo num beliscão.

-- Ai, Lene!

-- Não me xinga.

-- Só devolvi o xingamento. E aí, e a sua condição?

Marlene franziu o cenho para o amigo. Ele realmente estava falando sério? Não que ele levasse a sério aquela conversa, mas ele esperava mesmo uma resposta, como se aquilo fosse uma conversa e não só simples palavras que tinham que jogar fora enquanto os outros marotos não chegavam?

Ele a viu pestanejar e morder os lábios, como que pensando consigo mesma. Se ele bem a conhecia, poderia dizer que ela nunca havia pensado naquilo.

-- Não vou me casar. - Ouviu-a dizer por fim.

-- Quê? - Sirius a olhou como se não tivesse ouvido.

-- Não vou me casar.

-- Ora, é claro que vai.

-- Não vou.

-- Por quê?

-- Porque não quero. - Ela balançou os ombros magros e abriu os olhos em obviedade, e ele viu que seus cílios ainda estavam molhados, destacando-se na brancura da pele.

-- Você vai se casar, Lene.

-- Ora, se eu não quero me casar, por que tenho que me casar?

-- Mas você vai querer.

-- Não, não vou.

-- Não tem como você saber se vai querer ou não. - Ele insistiu. De onde Marlene tirava aquelas opiniões malucas? Ela falava como se pudesse mandar na ordem das coisas.

-- E muito menos tem como você saber.

Ele riu.

-- Mas é óbvio! Todo mundo se casa. Você vai se casar.

Ela revirou os olhos. Não gostava daquela insistência. Sentia que sua vida não era para aquilo, para casamentos. Ela queria viver outras coisas... Ou talvez não soubesse o que querer, ou tivesse medo... como saber? Sua tia lhe colocara tanta coisa na cabeça, "moças devem ser assim", "para casar bem uma moça deve...". Ela não ia se casar, definitivamente.

-- Não vou passar a vida ao lado de um idiota que me diz o que fazer e como ser.

Sirius ergueu as sobrancelhas. Lembrou de seus pais, e do tom grave de seu pai, sempre mantendo a casa em ordem, até mesmo sobrepondo-se aos gritos agudos de sua mãe. Pensou por um segundo que gostaria, então, que Marlene não se casasse. Mas ignorou isso quando se lembrou que sua família era um caso à parte e distante de tudo que sua amiga viria a conhecer.

-- Lene, você vai amar o cara. Vai querer ficar do lado dele.

-- Não preciso morar com todo mundo que amo. - Ela respondeu, recostando-se ao tronco do chorão e mirando o riacho um pouco reflexiva, os cabelos molhados destacando o rosto e indo cobrir o biquíni azul.

-- Você vai amar de um jeito diferente. - Ele falou, talvez insistisse no assunto só por não ter o que fazer. Ou talvez quisesse saber por que aquilo fazia Marlene olhar menos em seus olhos.

-- Que jeito?

Se olharam. "Que jeito?"

-- Ora, sei lá. É você quem lê aqueles livros idiotas, você deve saber. - Ele fez referência aos livros de romance que ela sempre lera.

-- São estórias. Fantasia. São mentira, Sirius.

-- Não me olhe como se eu fosse idiota. Você não vê por aí? Por que acha que as pessoas se casam? Elas amam de um jeito diferente uma certa pessoa. É óbvio.

-- Não acho tão claro assim. Nunca entendi esse jeito aí. Não vou amar ninguém mais do que amo meu pai, e já amo meus amigos de um jeito diferente. - Ela o olhou um pouco confusa. - Eu teria que amar alguém mais do que amo o papai?

Sirius mirou o riacho impaciente.

-- Acho que só de um jeito diferente.

-- Que jeito? - Ela insistiu. Não acreditava que existissem mais jeitos do que os que já conhecia...

-- Sei lá.

-- Diferente do jeito que amo você?

Ele a olhou. Usou o jeito banal que sempre adquiria para tentar esconder quando seus olhos brilhavam.

-- Como você me ama? - O tom de voz dele era quase displicente.

Ela deu de ombros um pouco sem jeito.

-- Como você me ama, eu acho. - Respondeu. Estava com os olhos grandes bem abertos, e os dele já eram rasgos finos e muito negros, como ficariam os de um cão de caça que avistasse movimento num arbusto.

-- Não sei se é assim, como amo você. - Ele disse.

-- Eu teria que amar alguém como amo você, só que ainda mais?

-- Como você me ama?

Ela pestanejou.

-- Como você me ama? - Ela devolveu a pergunta, em tom de conversa banal. Mas Sirius notava o brilho dos olhos castanhos fazendo-os dourados como o sol que escapava pela copa do chorão e vinha refletir nos fios de cabelo que já haviam secado. - Como a uma irmã, suponho. - Agora ela erguera as sobrancelhas, não era boa em disfarçar interesse, nunca fora.

-- Não sei. - Ele respondeu vago. - Você me ama assim, como um irmão?

Ela estreitou os olhos por um segundo, e então o canto de seus lábios tremeu e um sorriso contido deixou mostrar os dentes brancos.

-- Você não me ama assim. - Ela deixou-se rir. - Você me beijou.

Sirius olhou-a confuso, perdeu a pose por um instante. Não gostava de se lembrar do acontecido naquele armário, no ano passado. E não chegara a entender o porquê, mesmo depois de conversar com James sobre aquilo.

-- Não, não beijei. - Disse num vacilo de voz. Às vezes a puberdade o irritava.

-- Beijou! - O riso de Marlene às também o irritava.

-- Não.

-- Por que você finge que não, Sirius? - Ao menos ela parara de rir. O olhava um pouco receosa.

-- Talvez porque eu queira esquecer.

Ela odiava aquele desintesse na voz dele.

-- Por quê? - Perguntou nervosa.

-- Porque você beija mal. - Ele achou a resposta certeira.

Ela ofegou como uma princesa faria se pisassem em seu vestido branco com um sapato cheio de lama. O canto dos lábios dele tremeu.

-- Não beijo!

-- Beija, sim. - Ele sorriu cínico.

-- Não beijo, Sirius Black!

-- Então prove. - Ele disse dando de ombros enquanto ela arregalava os olhos parecendo completamente perdida. Aquilo era certamente uma das coisas mais divertidas da vida, ele pensou.

Ela engoliu em seco antes de responder:

-- Não tenho que provar nada. - Disse reassumindo a pose desafiante, apesar do frio na barriga que sentia.

-- 'Tá com medo? - Ouviu-o, odiosamente, dizer.

-- Não.

-- Então por que não me beija, Marlene McKinnon?

Ela o olhou fulminante. Sirius chegou a sentir o corpo esquentar.

-- Porque você beija mal. - Ao contrário dele, ela sempre deixava o ódio passar para seu tom de voz.

-- HÁ! - ela exclamou jogando os cabelos para trás, divertido. - Não mesmo!

-- Beija, sim. Você beija mal.

-- Não é verdade, de jeito nenhum. - Ele dizia absolutamente confiante, o que a irritava ainda mais.

-- Então prove! - Ela cuspiu, tentando fazê-lo provar do próprio veneno. Viu o sorriso dele vacilar por um momento, e depois seu rosto magro assumir uma expressão determinada, ainda que displicente.

-- Não vejo que mal há nisso. - Ele falou como se fosse simples.

E ficou de joelhos, empurrou a cesta, antes entre os dois, para o lado. Marlene sentiu o frio subir de seu ventre até suas mãos e pés, e o coração bater forte e descompassado. Não acreditava que ele iria fazer aquilo...

Ele se pôs de quatro e, desta forma, já estava com o rosto a um palmo do dela, e com o corpo por sobre o seu. A garota pressionou as costas contra o tronco da árvore, instintivamente tentando fugir, mas Sirius estava com os braços a prendê-la pelos lados, e com o próprio corpo tão próximo do seu que ela não sabia se conseguiria mesmo sair correndo com as pernas vacilantes assim.

Sirius sentiu aquele calor ao qual achava que ia ter que se acostumar um dia, porque Marlene causava aquilo sempre que estavam perto demais.

-- Morrendo de medo. - Ele sussurou rouco para ela, ignorando as próprias sensações.

Marlene endureceu a feição. Sirius não ganharia aquela fácil assim. Era só seu amigo, era só o garoto que vivia a incomodá-la, era só mais um desafio. Ela ergueu o rosto, fazendo seus lábios estarem a dois dedos finos de distância. E viu Sirius retrair o rosto para trás num impulso de receio.

-- Morrendo de medo. - Ela sussurou num sorriso triunfante, que o fez sentir o cheiro do suco de amoras que beberam.

E ouvir e ver aquela voz e sorriso, como se ela tivesse ganhando mais um desafio, o irritou. A sensação de calor aumentou, e ele segurou a cintura dela, afastando-a do tronco, sentindo a textura fina da pele em contraste com a aspereza da casca do chorão.

-- Não tenho medo de você. - Seu tom grave, como que bravo.

Os lábios quase roçaram antes de o ataque de risos dela começar. Ele riu também, e voltou a se sentar.

-- Você vai casar com o Prongs. - Ela disse risonha.

Ele riu um latido.

-- Quê?

-- Só ele você ama mais do que me ama. - Disse doce, como se tivesse acabado de ganhar a maior barra de chocolate do mundo.

Ele riu de novo.

-- Aposto que você não vai se casar porque vai querer casar comigo.

-- E você já vai 'tá casado com o Prongs.

-- Idiota. - Ele fingiu bater na cabeça dela. - É sério. Eu aposto.

Ela o olhou entre irritação e compenetração. Estranhamente, não contrariou suas palavras.

-- Quer saber - Ela começou reflexiva -, você não vai amar sua esposa mais do que me ama. Isso eu aposto.

Sirius lhe estendeu a mão, Marlene a apertou.

-- Feitas as apostas. - Ele disse grave e num esboço do que um dia seria seu tom sedutor.

-- O que estamos apostando? - Ela perguntou, pouco antes de soltar a mão do amigo.

-- Quem ganhar, escolhe o que quiser. - Ele respondeu, mas o sorriso maroto que ela deu o fez reformular a frase: - Menos o meu canivete.

Ela contorceu o nariz mas por fim deu de ombros, concordando.

-- E se nós dois ganharmos? - Ele perguntou, sorrindo sem perceber, imaginando a aposta.

Marlene olhou para a copa bonita do chorão que os sombreava.

-- Viajamos para o sul! - Ela disse simplesmente.

-- Certo.

Uma boa idéia, Sirius pensou. Viajar para o Sul, praias e sombras com finas nesgas de sol a se refletirem em cabelos castanhos...

Voltaram para a casa de Marlene à cavalo, mais tarde seus outros amigos chegariam. Ela lembrava-se muito bem de pegar-se desejando que ambos ganhassem suas apostas, sem mal pensar no que isso significava, só para que fossem para o Sul. Amava tanto aqueles verões, a água, a sombra, o peito pálido dele bronzeado como ficaria num cavaleiro de seus livros preferidos.

-- Sirius?

-- Fala.

-- Casa com o Prongs. - Ela pediu, riu pouco, concentrada que estava em esperar a resposta.

Ele riu alto.

Mas ela o olhava realmente esperando uma resposta.

-- Quê? - Ele perguntou, confuso.

-- Casa com ele. - Ela ria de si mesma, mas deixou-se expressar aquela vontade.

-- Qual é. - Ele riu de novo.

-- Com ele eu já me acostumei... - Ela murmurou, olhando o amigo de peito aberto para o vento e para o sol. Ia ser mesmo complicado se acostumar com outra pessoa do lado dele.

Mas quando ela fechava os olhos e via o sorriso do amigo como que gravado nas próprias pálpebras, lembrava-se que não tinha esse medo. Só porque era tão secreto que nem eles discutiam, não significava que não era real.

Abriu os olhos, olhou a relva alta se inclinar para o vento do alto de seu cavalo, e olhou Sirius. Ele estava sorrindo para ela, como em grande parte das vezes depois que ela fechava e abria os olhos. Era o segredo mais calado de todos, mas era real.

"Da onda, uma onda e outra
onda,
verde mar, verde frio, ramo
verde,
eu não escolhi senão
uma só onda:
a onda indivisível
de teu corpo."

(Pablo Neruda)


N/A: oi, oi! to sem tempo!! digitei isso semana passada, mas nao tava com tempo nem de colocar aqui!! vê se pode!!! crueldade essa faculdade viu...

bom, me perdoem se tiver algum erro, nao li muitas vezes...

espero q gostem!! deixem recadinho, vai... nao custa!! poorrrr favoorrr!!!

bju grande