N/A: legal ouvir a música com o mesmo nome do cap enquanto lê, é da banda Semisonic.

Capítulo 20. Secret Smile

Acontecera em seu sexto ano, uma semana antes do baile de Natal aqui já descrito.

"Vou com o Wood", dizia o bilhete com escrita redonda e fina, visivelmente feita às pressas. Ela não olhava para ele, batia a pena na carteira, num movimento frenético e sem ruídos, graças ao penal fofo e roxo que amortecia o baque. Olhava para frente, fingindo desinteresse no assunto e atenção à aula. Marlene não sabia mentir, pensou mais uma vez consigo mesmo, e sorriu antes de escrever mais uma tentativa. Fez o pergaminho pousar magicamente à frente dela, que comprimiu os lábios num gesto nervoso antes de ler a letra garranchosa e comprida de Sirius.

"Vou acabar sozinho naquela porcaria, você sabe que não me dou bem com quase ninguém do Clube do Slughorn e o James vai levar a Amy. POR FAVOR, vá comigo… POR FAVOR, LENE".

Ela perguntou-se qual seria o motivo para ele chamá-la dessa vez. Acontecera poucas vezes de seu melhor amigo convidá-la como acompanhante de uma festa ou reunião. Geralmente estava fugindo de alguma garota mais insistente, mas pelo que sabia, Sirius havia terminado com a última já havia algumas semanas. Olhou-o pelo canto dos olhos. Ele encenava seu melhor olhar pidão: as sobrancelhas erguidas e a testa franzida, aquele olhar, exatamente aquele que ele usava para fazer qualquer garota se derreter e aceitar sair com ele.

Exatamente aquele que não surtia efeito em melhores amigas, ele já deveria saber. Ela revirou os olhos e rabiscou nervosa o pergaminho.

"Sirius, ele é meu namorado. O que você acha que ele pensaria? Acha que ia aceitar numa boa?", Sirius leu e em dois segundos o papel pousava novamente a frente dela.

"Você já o convidou?"

Dessa vez Marlene expirou audivelmente, atraindo alguns olhares de alunos entediados pela aula.

"Sirius! Francamente, para de ser tão insistente!"

"Já o convidou?"

"Como assim? É óbvio que nos convidamos automaticamente, somos namorados! É claro que ele sabe que vai comigo! Arranje uma das idiotas do seu fã clube e dê uns amassos nela pra se distrair. E agora me deixe assistir à aula!"

"Não 'tô com paciência praquelas garotas. Vai comigo."

Marlene suspirou irritada. Sirius era egoísta demais, às vezes.

"Me deixe assistir à aula", escreveu mais uma vez.

"Marlene, corta essa, você nunca assistiu uma aula de História da Magia na sua vida. Por favor, vai comigo."

Sirius a observou escrever uma resposta, ela parecia irritada, mas agora também intrigada. Provavelmente já desconfiava que ele tinha um motivo. Queria que ela soubesse que dessa vez ele realmente não queria passar a noite ao lado de uma garota fútil que mal conhecia.

"Não." Era tudo o que o pergaminho lhe trouxe. Ele esperou que ela o olhasse, mas sua amiga mantinha-se firme. Será que ela estava gostando do namorado, dessa vez?

"Olha pra mim", ela leu a escrita do amigo. Deixou escapar uma exclamação, era difícil assimilar a dimensão do egoísmo manhoso de Sirius.

"Ora, francamente!", fez pousar o pergaminho na mesa de Sirius.

"Lene, vai comigo."

"Vou com o meu namorado".

"Termina com o Wood e vai comigo".

Marlene sufocou uma risada e atraiu vários olhares para si. Esperou que todos voltassem a olhar para frente ou dormir para responder.

"Você 'tá louco?"

"Ora, o que custa?"

"Custa um namorado."

"Ele é tão bom assim ou você perdeu o discurso 'eu me basto' da Lene que eu conheço?"

"Ele é tão bom assim. Primeira opção."

"Melhor que eu?"

"Absolutamente."

"Mentira."

"Gosto é gosto."

"Não vem com essa de que prefere ele, sabe que é mentira. Você não viveria sem mim."

"Sem a sua amizade, eu não viveria mesmo. Mas ele é meu namorado, é outra história."

"Pela nossa amizade, vai comigo."

"Pff".

"Sou mais forte que ele, mais bonito…"

"Nunca, Sirius. E se você fosse mais bonito, ainda assim eu não iria namorar você, então não vou terminar com ele só pra passar uma noite naquela reunião chata do seu lado."

"E se eu te pedisse em namoro, você ia comigo?"

"Se você me pedisse em namoro, eu te internaria no St. Mungus."

Ela ouviu a risada que ele conteve enquanto respondia.

"Um namoro relâmpago. Você termina com ele, a gente vai de mãos dadas pra festinha do Slug, e pronto! Fim de namoro."

"Isso se chama 'dar uns amassos no meu melhor amigo'. Não, obrigada. Vou com o Augustus."

"'Tá tão apaixonada assim?"

"Tá com ciúmes?"

"Não".

"Admite, Black."

"Só se você for comigo."

Certo, já era demais. Havia um motivo a mais. Sirius não seria tão insistente se não fosse mais importante que fugir de uma garota. "Por que você quer tanto assim que eu vá com você?", escreveu e ficou a olhá-lo. Ele leu, então apoiou a testa numa das mãos, os cotovelos apoiados na mesa. Seus cabelos negros caíram pelo rosto, ele estava sério, sério de verdade. Ele olhou em seus olhos, havia olheiras sob eles. Mas não era o mesmo cansaço que ela lia em seus traços depois das noites de lua cheia. Era um cansaço deprimido, havia uma sombra desenhando suas feições atraentes.

A expressão que ela fez em seguida foi de compreensão, e Sirius deu um sorriso brando e sincero que ela podia jurar que nunca dera para outra pessoa. Ele sabia que ela havia entendido. Marlene sorriu só com os lábios e meneou o rosto em afirmação, fazendo-o ampliar o sorriso. Ela iria com ele, claro.

A garota virou-se para frente e se lamentou por Wood, ele era realmente legal, seria mesmo uma pena terminar tudo…

Um bilhete surgiu à sua frente.

"Eu não sou nada sem você", dizia. Ela o olhou quase rindo, ele lhe piscou um olho.

Wood era legal… Mas melhores amigos são melhores amigos, afinal. E Sirius era… o Sirius. Ponto final.



Os quadros do corredor olhavam o casal com certo interesse. Os dois poderiam facilmente fazer parte de uma pintura renascentista que expressa algum mito: ele seria um jovem aristocrático e ela, uma ninfa dos bosques.

-- Sabe, Sirius – Era distraído o tom da garota de longos cabelos das cores que o caramelo pode ter -, se eu acreditasse nesse tipo de coisa, diria que desse jeito você vai acabar me fazendo perder o amor da minha vida.

-- Então vocês terminaram. – O rapaz era alto e usava um tom entediado que condizia com seu aspecto de pintura em preto-e-branco.

-- É. Eu até pensei em tentar explicar a situação, mas acho que ele pensaria que estou enganando ele, entende? Ele é meio desconfiado de você…

Sirius riu.

-- E com razão. – Ele disse. A verdade é que, por mais que tentassem, não mantinham relacionamentos fiéis com ninguém.

-- Acho que tenho que tomar jeito. – Ela apontou enquanto admirava um dos quadros, o tom casual. – Quero dizer, posso me arrepender de tratar os caras assim. Um dele pode ser…

-- O amor da sua vida? – Ele a interrompeu com ares marotos.

Ela deu um muxoxo de impaciência.

-- Nah, nisso eu não acredito. Mas vai que descubro tarde demais que o cara é importante pra mim, que quero ficar com ele só depois de ele descobrir… aquilo, e aí ele me dá o fora…

-- Isso é só a escola, Lene. Você não vai achar o cara certo pra você aqui.

Ela o olhou de sobrancelhas erguidas.

-- Diga isso aos casais apaixonados de Hogwarts.

Ele riu. De fato, até mesmo Prongs andava convencido de que achara a pessoa certa para ele.

-- Mas não vai acontecer. - Ele insistiu.

-- Por que só comigo não poderia acontecer? – Ela o olhou esnobe. Andava impaciente com a mania de Sirius de vê-la como um ser a parte, que não se encaixava em regra alguma.

-- Sei lá. Você é diferente.

-- Como assim, Sirius?

-- Acha que eu encontraria a garota certa pra mim aqui?

-- Talvez, oras. – Disse um pouco irritada.

-- Claro que não! Não levo ninguém a sério!

-- Ah, bom, basta você mudar. É o que eu estava dizendo, tenho que mudar.

-- 'Tá querendo casar, é?

Ela cessou o passo um segundo, olhou-o com uma sobrancelha erguida.

-- Você não entende, não é?

-- Nem sei do que você 'tá falando. E acho que é besteira. - Acrescentou em sua sinceridade displicente.

Chegavam à porta da sala onde acontecia a reunião. Podia-se ouvir uma música animada com som de violinos.

-- O-ho! Ora, onde está o Wood, McKinnon? – Alteou a voz o professor Slughorn.

-- Ahn…

-- Está namorando o senhor Black, ahn? – Ele sorriu. – Bom só tenho uma coisa a dizer: tenham um filho e me mandem uma foto! Só Merlin sabe quanta beleza e poder vai sair daí!

-- Somos só amigos, professor. – Corrigiu Sirius rindo sem esconder algum modo esnobe.

Marlene o puxou pelo braço para que entrassem logo.

Havia várias rodas de conversa, olharam ao redor procurando James. Avistaram-no com uma quintanista de cachos castanhos e olhinhos azul-brilhantes, da Hufflepuff. Parecia tremendamente contente por estar onde estava, com quem estava. No entanto James, quando os viu, passou a acenar a mão freneticamente, o rosto em alívio.

-- Ei, cara. - Cumprimentou-o Sirius. – Oi, Amy.

-- Vocês demoraram. – James apontou.

-- Oi, Jim, oi, Amy. – Marlene disse.

-- Olá, McKinnon! – Cumprimentou alegre a garota, e depois a olhou de cima a baixo e franziu o cenho. - Mas você estava namorando aquele batedor do seu time, o Wood.

-- Eu sei. – Marlene respondeu olhando-a como se não soubesse falar sua língua.

-- Você trocou ele pelo Black?! – Perguntou com um sorriso malicioso invadindo seu rosto.

Marlene olhou-a tão friamente que a garota parou de sorrir.

-- Não troquei ninguém. Não estou namorando o Sirius.

A garota sorriu amarelo, como que com medo de Marlene. E logo iniciou um discurso fútil sobre um assunto qualquer.

-- Vou buscar alguma coisa pra beber. – Marlene disse suspirando.

Aproximou-se da mesa de bebidas a passos lentos, olhando ao redor os membros desse Clube tacanho. Perto dela, Slughorn segurava a pança enorme para rir das histórias que os alunos que o rodeavam contavam. Marlene desejou estar em sua cama, o dia não estava sendo nada agradável.

Encheu um copo com hidromel e ia tomar o primeiro gole quando uma garota de brilhantes cabelos acaju e pele pálida apareceu a seu lado.

-- Pelo jeito você 'tá achando isso um saco. – Disse Lily.

-- Hum, é verdade.

A ruiva lhe sorriu divertida.

-- O Slughorn 'tava falando que com seus poderes você deveria gostar mais de publicidade.

Ela ergueu as sobrancelhas enquanto sorvia um gole de sua bebida.

-- Disse também que é raro nascer mulheres em sua família, é verdade?

-- É. Alguma magia antiga que não entendo direito, um feitiço que jogaram no nome McKinnon. Sou a única em cem anos.

-- Caramba!

-- É. E você? Gostando da festinha?

Lily fez uma careta torcendo o nariz e as pintinhas que o cobriam.

-- Dava dez galeões por minha cama. Mas o Slughorn…

-- Você é a preferida dele.

-- Ele insiste muito que eu venha.

Sirius apareceu ao lado de Marlene de repente.

-- Cara, o James 'tá cada vez pior pra escolher garotas. Essa aí é um saco. – Avistou Lily num erguer de sobrancelhas. – E aí, Evans.

-- Oi.

-- Bem que você podia aceitar os convites do Prongs, sabe, Evans. Faria um bem danado a todos nós.

Lily olhou perigosamente para ele, suas sobrancelhas claras franziram-se em ameaça.

Marlene riu.

-- Você não pode falar nada, Pads. As garotas com quem você sai praticamente cacarejam.

Lily riu abertamente.

-- É – Sirius fingiu-se trágico. – Olha só com quem fui sair hoje. – Disse olhando significativamente para ela.

Marlene corou e olhou-o indignada.

-- Você não 'tá saindo comigo.

-- Mas hoje saí, não é?

-- Idiota.

-- Ei, Lily!

-- Ai, não. - Gemeu a garota fazendo careta e rolando os olhos verdes.

James acabara de chegar, Marlene o olhou, ele passava a mão pelos cabelos.

-- Como vai? - Ele perguntou. Seu campo de visão parecia reduzido a um rosto contornado por mechas ruivas.

-- Acabei de ficar bem mal. – Respondeu Lily mal humorada.

-- Como você se livrou daquela maluca, Prongs? – Sirius perguntou sorrindo maroto.

-- Ela foi ao banheiro e eu fugi. – James contou orgulhosamente.

-- Você deveria selecionar melhor suas namoradas, Prongs, 'tá ficando cada vez pior. 'Tô começando a rezar pra Lily sair com você. – Completou o mais alto mirando os olhos de Lily Evans, que o ignorou completamente.

-- Viu, culpem a Lily. Se ela saísse comigo, o mundo inteiro ficaria bem.

-- É Evans, Potter. – Ela disse virando-se num gracioso jogar de cabelos acaju.

James foi atrás.

Sirius ouviu Marlene suspirar.

-- Será que isso que é se apaixonar?

E quando ele olhou os olhos castanhos, entendeu que o suspiro era de compenetração, não de contemplação.

-- Talvez. O James 'tá diferente há muito tempo.

Ela franziu o cenho.

-- Acha isso ruim? – Ele perguntou.

-- E não é?

-- Por que seria? Ele parece feliz.

-- Mas ele não seria mais feliz sem isso?

-- Não sei, Lene. Por quê? - Ele a olhou curioso, não era o primeiro assunto tolo que ela levantava hoje.

-- Sei lá. Talvez… esquece.

-- O quê?

-- Parece besteira, se apaixonar.

Ele ergueu uma sobrancelha para ela, requerendo resposta.

-- Ele age como um idiota às vezes. - Ela respondeu seu olhar.

-- Bom, é… Mas ninguém se importa.

-- Eu não quero agir como idiota.

Ele a olhou por um instante, como se procurasse algo novo na pele do rosto de sua melhor amiga.

-- Você já se apaixonou, Lene?

Ela olhou para o próprio copo.

-- Claro que não. Você saberia, não é?

Ouviu-se um grito abafado e algumas risadas.

Mais a frente, Lily Evans saía enfezada pela porta, com James Potter em seu encalço. Slughorn olhava-os compenetrado.

-- Pads, vamos aproveitar a deixa e ir embora?

-- Fechado.

Saíram sem que o professor os visse, ele ainda fazia um discurso sobre a potência de Lily Evans.

Já a dobrar o longo corredor, o garoto pronunciou-se.

-- Você vai dormir agora?

-- Acho que vou… - Mas o olhou mais uma vez, analisando sua expressão. As olheiras sobre a pele pálida e os lábios finos comprimidos num certo desgosto. – Ou não..

Ele baixou os olhos.

-- Sirius, aconteceu alguma coisa?

-- Você não viu?

-- O quê?

-- O meu irmão.

-- Que tem o Regulus?

-- Ele… 'tá andando com aqueles Slytherin. Aqueles, saca? Nott, Travers…

Marlene se assustou.

-- Merlin, você tem certeza? Eu os vi juntos esses dias, mas achei que era besteira, jogam no time juntos… - Ela cobriu os próprios lábios. - Merlin! Mas Regulus é bem mais novo que eles…

-- É, devem estar fazendo ele de capacho. – Sirius suspirou, sua voz saiu carregada de amargura.

-- Você tem certeza que ele 'tá andando com eles mesmo?

Sirius parou de andar.

-- Eu fui falar com ele. Disse pra ele se afastar, que ele não precisava daquilo e que se ferraria ali no meio. Eles usam os mais novos pro pior, você sabe.

-- E o que ele disse?

-- Nada. Ficou quieto. Aí eu disse pra ele sair lá de casa, vir morar comigo, porque eu sei bem o que os Black dizem, pressionam. Eu o protegeria, Lene, eu o esconderia…

-- Sei que sim, Sirius.

-- Mas ele escondeu o rosto. Ele sabe que eu entendo, mas escondeu o rosto e repetiu as palavras da mãe. Me chamou de traidor do sangue, e aquelas idiotices todas. – Ele segurou o braço dela. – Lene, eu sei que é da boca pra fora. Ele não sabe nem mentir! O que eu faço?

Marlene o olhou aflita e triste. Mordeu os próprios lábios e segurou o punho de Sirius.

-- Ele quer agradar meus pais e aqueles caras idiotas, ele não consegue se livrar do mundo deles, daquela pressão. Antes ele 'tava empolgado, lembra? Quando fugi, ele realmente parecia acreditar no que dizia. Mas agora acho que ele percebeu. Acho que ele 'tá com medo e pensa que é obrigação defender a honra daquela podridão lá de casa. Acho que… - Ele virou o rosto. – Ele acha que tem que fazer aquilo. E... e em parte é culpa minha, eu saí e ele ficou. Ficou com tudo, com toda a pressão

-- Sirius, a culpa não é sua, não vem com essa. Você o chamou...

-- E eu… eu não sei o que fazer. Ele não é assassino, Lene. Você brincava com a gente, você sabe disso. E agora… o que é que eu faço?

Ela suspirou de coração partido e o abraçou forte.

-- Acho que tudo que você pode fazer, Sirius, é tentar outras vezes. Esperar, e tentar falar com ele. Uma hora ele vai mudar de idéia. Ele vai voltar, Sirius. - Ela não queria acreditar. Sentiu o cheiro do cabelo de Sirius e lembrou como o de Regulus era parecido, como os dois eram parecidos. Ele tinha que voltar. - Vai voltar, sim.

-- Só espero que não decida isso tarde demais.

Ela segurou sua a mão e o conduziu para voltarem. No topo de alguma das escadas, ela achou que deveria dizer:

-- Sirius.

-- Hum.

-- Você é um ótimo irmão.

-- Sou um fracasso como irmão, Lene.

-- Não. Não, mesmo. – Ela o olhou sincera no castanho brilhando caramelado. Seu olhar, o modo como ela acreditava que Sirius era bom, fez com que ele acreditasse em suas palavras.

Ele a olhou com gratidão.

-- Valeu, Lene.

Ela sorriu e continuou a caminhar.

-- Valeu por terminar seu namoro só pra isso, também.

Ela deu de ombros e ainda continuou. Percebeu que ele parara e parou também, virando-se um pouco à frente dele.

-- Tudo bem, ele não era o amor da minha vida. - Disse rindo.

-- Ah, não?

-- De forma alguma. - Ela fingiu-se analítica. - Acho que quando a gente troca uns amassos com um batedor charmoso por uma conversa triste com um amigo, e no fim da noite ainda acha que isso valeu a pena… bom, acho que não é caso de "amor verdadeiro". – Disse rindo-se.

Ele riu também.

-- Posso compensar você, se quiser. - Ele se aproximou com a cabeça erguida num gesto sedutor de um jeito elegante. - Também sou batedor e sou muito mais charmoso, sabe.

Ela ergueu uma sobrancelha.

-- Você não 'tava usando a tática do cachorro triste comigo, ou 'tava?

Ele riu.

-- O negócio com o irmão mais novo sempre funciona.

Ela riu divertida.

-- Não, não funcionou. - Apontou um dedo para ele, como que para afatá-lo.

Ele segurou seu braço.

-- Não, mesmo?

-- Não, Sirius. - Ela afastou o rosto. Ele tinha que parar com aquilo.

-- Ah, qual é. – Ele disse rouco enquanto tentava abraçá-la. Conseguiu prendê-la entre seus braços. – Não funcionou nem um pouquinho?

-- Você 'tá particularmente insistente hoje, não é? - Ela disse. Tentava se afastar, mas ele já a empurrara contra a parede. Ele cheirou seu pescoço e ela se arrepiou instantaneamente.

Ela ouvia a respiração dele próxima a seu ouvido. E ele sussurrou:

-- É só você parar de resistir que eu paro de insistir.

Ela riu entre cócegas e deleite.

-- Você devia admitir logo que é louco por mim. – Ficara muito perigoso agora. Ela saiu de braços e voltou a andar.

-- Ora, e por quê? - Ele olhou suas costas.

-- Pra variar – Marlene fez um gesto no ar com a mão, já mais a frente. Ele ficou um tempo parado admirando suas pernas e costas, um jeans velho, botas longas e uma camiseta larga caindo-lhe e delineando o corpo enquanto ela andava.

-- Não 'tô a fim de variar hoje. - Ele disse a segui-la.

-- Não 'tô a fim de você hoje. – Mentiu, por pura brincadeira, vontade de provocá-lo. Mas seu tom fora de pouco caso, e ele não gostou.

Ele parou um momento de andar.

-- Corta essa! – Em três passos a alcançou e a puxou para si, olhou sério, de um jeito inquisidor e diferente, como se exigisse a verdade dela.

Ela caiu na risada.

-- Quando é que você vai admitir que me quer louca e eternamente, hein, Sirius Black?

Às vezes homens têm a resposta na ponta da língua. A resposta verdadeiramente errada.

-- Quando o estoque de garotas de Hogwarts acabar.

O sorriso dela sumiu como num feitiço. Ela franziu o cenho e desvencilhou-se dele com rispidez nos gestos, passando a andar rápido.

-- Lene? Que foi?

-- Você não vai mais me beijar, Sirius.

-- Quê?

-- Isso mesmo que você ouviu.

-- Como?!

-- Você-não-vai-me-beijar-outra-vez-nessa-vida.

Ele a puxou bruscamente pelo braço.

-- Como assim?

-- Você ouviu!

-- Não, não ouvi.

Ela se virou, ele a puxou com força e a prendeu contra seu corpo, ela se agitou, mas não conseguiu se soltar. Ele a empurrava contra uma parede e estava perto demais, a garota parou de tentar sair de seus braços.

-- Repete. – Ele sussurrou, perto demais, mesmo.

Ela virou o rosto.

-- Repete, Lene. O que você disse?

-- Foi só uma conseqüência do que você disse. – Não ia deixar essa passar barata. Baixou o rosto para reduzir o perigo.

-- Eu nem lembro mais o que eu falei. – Admitiu, era verdade.

Ela revirou os olhos. E depois o olhou para dizer.

-- Mas eu lem- Ele lhe roubou um beijo brusco e forçoso. – SIRIUS!

-- Opa. – Ele fingiu sorrindo matreiro.

Ela não conseguiu se conter e riu.

-- Não, isso tem que parar. - Marlene tentou se recompor e se soltou.

-- O quê?!

-- O que? Eu trair meus namorados com você, você trair suas namoradas comigo, a gente se beijar a toa, eu fazer tudo por você e achar que você não faria por mim…

-- Eu faria por você…

-- Acho que não, Sirius. - Ela parou e o olhou sincera. - Você não terminaria com uma garota pra me socorrer de um dia ruim.

Eles se olharam por um tempo.

Sirius suspirou.

-- Onde você quer chegar, Lene?

-- Bom, talvez a gente deva agir como amigos normais.

-- Você já tentou sugerir isso…

-- Há quase dois anos, talvez agora a gente consiga. - A voz dela saiu mais fina, estava nervosa. Ele pensou mais uma vez no que se passava com sua amiga.

-- Você consegue?

-- Acho que sim.

-- Consegue ficar sem me beijar? – Perguntou e a puxou mais uma vez bruscamente, selando os lábios dela.

-- Se você parar com isso - Ela lhe deu um tapa no braço, mas ele a apertou forte contra o próprio peito, seus rostos estavam próximos demais -, eu... consigo.

-- Eu não consigo, então…

-- Se você se controlar, consegue. São só hormônios.

Ele pestanejou para ela com o cenho franzido.

-- Só hormônios. – Repetiu. – Essa conversa já aconteceu.

-- Ah, então você lembra?

-- Claro que sim, Lene. 'Tá ficando doida? O que você quer?

-- Sei lá. Dormir.

-- 'Tá, então vai.

-- Se você me soltar…

-- E se eu não soltar?

-- Sirius, por favor…

-- 'Tá. – Ele largou-a, deixando um espaço mínimo entre seus corpos propositalmente. Ela não resistiria à aproximação.

Ela engoliu em seco. Ele realmente complicava as coisas.

Baixou o rosto e riu.

-- Odeio você, Sirius.

Ele sorriu satisfeito, esperou que ela o olhasse outra vez. Mas antes mesmo que o fizesse, ela o puxou pela gravata e encostou seus lábios. Ele a agarrou e a empurrou contra a parede, mas ela desvencilhou-se e saiu de seus braços às pressas, correu alguns metros. Precisava raciocinar.

-- Lene!?

-- Não vamos mais nos beijar, Sirius. Esse foi o último.

Ele balançou o rosto.

-- Sua maluca!

-- Não. Isso é sanidade! Pode acreditar!

-- Claro que não! É assim que vamos ficar doidos!

-- Boa noite, Sirius.

-- Duvido que isso vá durar, amanhã mesmo você vai me pedir um beijo.

-- Quer apostar isso? – Parou de frente para ele. Ele apressou os passos, as mãos já na direção de sua cintura, mas ela correu outra vez.

-- EI! – Marlene o estava deixando doido.

Ela riu divertida.

-- Vamos apostar quem pede um beijo mais rápido? - Perguntou rindo.

Ele parou e esfregou as mãos no rosto.

-- Quer saber? - Olhou bem para a amiga. - Apostado!

-- E o que eu vou ganhar quando você perder, Sirius?

Ele sorriu sedutor.

-- Quando eu ganhar, vou ter total direito sobre seu corpo.

Ela riu jogando os cabelos para trás. Ele mordeu os lábios quando mirou seu pescoço livre dos cabelos castanhos.

-- Tanto faz, você não vai ganhar. Mas se eu ganhar, você nunca mais vai deixar de fazer nada comigo por causa de outra garota.

Ele ergueu uma sobrancelha. E sorriu daquele jeito que ela sabia ser só para ela.

-- 'Tá. - Disse antes de se precipitar e tentar beijá-la outra vez. Ela correu até o retrato gritando a senha e entrando às pressas. Por mais incrível que parecesse, aquela fora uma das coisas mais sensatas que já fizera na vida. Mas ainda assim, não enchia seu peito do que parecia faltar gritantemente.

Quantos milhares de tratos, apostas, acordos ou pactos eles fariam e quebrariam até as coisas parecerem certas? Quantas vezes ela ainda teria que esconder o aperto no coração, e quando aprenderia a se controlar? Porque quando ela deitava em sua cama, algo vazio tomava seu peito, por mais cheio e completo que ele se mantivesse durante o dia. Até quando? Quanto tempo ainda teria de fingir que aquele sorriso que ele dava não era único e exclusivamente dela?

Nobody knows it but you've got a secret smile
(Ninguém sabe mas você tem um sorriso secreto)
And you use it only for me
(E você usa só pra mim)
Nobody knows it but you've got a secret smile
(Ninguém sabe mas você tem um sorriso secreto)
And you use it only for me
(E você usa só pra mim)

So use it and prove it
(Então use e prove)
Remove this whirling sadness
(Tire essa tristeza)
I'm losing, I'm bluesing
(Estou perdendo, estou entristecendo)
But you can save me from madness
(Mas você pode me salvar da loucura)

(Secret Smile - Semisonic)


N/A: crueldade essa coisa de as pessoas serem obrigadas a cursar alguma coisa na universidade!! eu seria dez milhoes de vezes mais feliz se ficasse o dia inteiro em casa lendo e escrevendo minhas bobeirinhas! por isso, me perdoem a demora. se demoro é realmente por falta de tempo, porque isso aqui é a coisa que mais gosto de fazer!

o chap tá grande, vcs gostam qnd é grande? as vezes acho q tenho q resumir meus textos... essa fanfic é realmente longa e é estranho começar a escrever uma história aos 15, voltar aos 17 e já ter 18 e continuar escrevendo....... tem mta coisa q começo a achar boba, mas é assim mesmo, né. eu nao tenho experiencia nenhuma entao me perdoo rs.

ai, e essa nova gramática, vou tentar me adequar pra vcs... nao estudo nada disso, meu curso nao tem NADA a ver com textos e estorinhas, eu q sou maluca mesmo....

bom, me digam se tá legal ou não! REVIEWS!!!

bjoconas