O caminho de volta foi feito em velocidade recorde. O tempo foi suficiente para ajeitar mais ou menos a cozinha, passar uma vassoura na casa e tomar um banho. Por sorte a srª Lyan estava ocupada... dormindo.

Dei uma última olhada no espelho. Até que não estava tão ruim: usava uma blusa de moletom, meu jeans favorito e um tênis preto e gasto. Os cabelos estavam soltos para esconder do frio, a pele do meu pescoço.

Olhei a janela e lá estava ele apoiando o corpo numa moto muito grande e preta. Vestia uma jaqueta de couro e um jeans justo. Estava sexy.

- Sobe ai. – disse estendendo um capacete para mim.

Nem um "oi", nem "olá" e muito menos "como está?". Eu já falei que não o suporto?

- Aqui? – Perguntei apontando a moto.

- Claro!

- Ah, não! – disse andando para trás. – Eu não vou subir nesta coisa!

Ele olhou para mim com um olhar reprovador que me gelou até os ossos.

- O negócio é o seguinte: eu estou aqui para te ajudar, mas não vou tolerar infantilidades. Você vai ter que ouvir o que eu te falar, aceitar o que eu disser e fazer tudo que eu mandar. Estamos entendidos? Ou então, vou simplesmente desaparecer e você vai ter que se virar sozinha. E não se esqueça que sou o único que acredita em você e sei o que está acontecendo.

Suspirei. Podem me bater, mas homens mandões, estilo machão, com cara de bravo me deixam louca.

- Então?

- É... claro (tudo que você quiser...)

Droga! Estou começando a ficar igual aquelas amebas da escola. Melhor parar logo com isso.

- Está esperando o que então?

- Olha, para falar a verdade e estou um pouco... como posso dizer... com medo. Eu sei que estou sozinha, mas é que se não fosse por isso você nem estaria falando comigo agora e além do mais, nem seu o seu nome... (é claro que eu sabia, mas vamos fingir que não, ok? Eu não daria este gostinho.)

Ele me olhou como se fosse a maior ofensa do mundo não saber o seu nome, mas pelo menos acho que ele me entendeu.

- Sei que é difícil confiar em alguém assim. É verdade que não estaríamos conversando se você não estivesse envolvida nesta confusão, afinal você não faz muito o meu tipo (idiota!). Mas eu preciso que você acredite em mim. A sua vida corre perigo e eu não posso simplesmente fingir que não sei. Então vamos começar do zero.

Olhei para ele surpreendida. Tirando a parte que ele disse que não sou o seu tipo (o que é uma verdade. Além do mais ele também não faz o meu tipo: é bonito demais, gostoso demais, alto demais e forte demais) até que ele foi bem legal.

- Meu nome é Jacob. Muito prazer. – disse estendendo a mão.

- Meu nome é Jeniffer. – o cumprimentei. – Para onde você vai me levar?

- Precisamos de um lugar seguro para conversar. Ele está cada vez mais perto de você.

- Como assim? Como eu não percebi nada? – Perguntei um pouco assustada. Com exceção daquela sensação de estar sendo seguida que eu tive mais cedo, não tinha notado nada de extraordinário.

- Você não vai percebê-lo. A não ser que ele queira.

Um calafrio tomou conta do meu corpo. Suspirando fundo, coloquei o capacete, subi de forma desajeitada na moto e partimos em direção a qualquer lugar.

Segurando no apoio do carona, tentava me equilibrar em vão. Na primeira curva, inverti a inclinação do meu corpo, face à minha inexperiência, forçando o Jacob a diminuir a marcha e tocar o pé no chão para não cairmos. Encostei meu peito nas costas dele, devido ao impulso da redução da marcha.

- Você tem de se inclinar para o mesmo lado da curva, senão vamos cair!

- Me desculpe. É que eu nunca andei de moto.

- Faz o seguinte, segura em mim. – Jacob disse erguendo minhas mãos e colocando-as em volta de sua cintura.

Abracei-o, levemente, sentindo o perfume masculino. Tive receio de cair, mas me mantive firme. Os músculos da sua cintura e das suas pernas estavam retesados devido à sua posição inclinada na moto. Pude sentir isso com as mãos e com as coxas. - É melhor você abraçar mais forte porque vou acelerar.

- Ah não!

- Está com medo de andar na garupa da moto ou de me tocar? Não é pecado não. – disse ele sorrindo e dando nova partida.

- Não é isso. – falei mais do que depressa. – É só que... – não encontrei palavras.

O vento silenciou minha resposta e trouxe alívio para mim. Não precisava responder essa pergunta, mas no fundo eu sabia a resposta: não queria sentir o gosto, não queria provar o impossível. Não queria sentir o que as outras garotas sentiam por ele, porque sabia não ter chance e um coração magoado traz tristeza e revolta. Da mesma maneira que uma pessoa se apaixona por alguém, esse alguém pode não se apaixonar por ela. E eu jamais poderia deixar isto acontecer comigo. Então, estufei o peito, empinei o nariz e olhei para frente. Será que ainda demoraria muito para chegar?

Mas não resisti por muito tempo e logo estava agarrada a ele. Embora eu estivesse nervosa e com medo, pude sentir o calor do seu corpo, colado ao meu. Peito nas costas, rosto no ombro, coxas nas coxas, pernas nas pernas. Ele era quente. Estranhamente quente. Incapaz de me controlar, fechei os olhos para aproveitar melhor aquele momento. Cada pequeno solavanco me fazia apertá-lo mais ainda e por isso, comecei a rezar baixinho para que o tal lugar chegasse logo.

O vento no rosto conseguia afastar os pensamentos mais inconvenientes e eu me vi adorando esta sensação. De repente a velocidade diminuiu e entramos numa estradinha de terra, onde continuamos por uns 10 minutos.

- Chegamos. – Ele disse assim que parou a moto.

O lugar era lindo, com casinhas de madeira mais afastadas e fumaças saindo pelo telhado. Algumas crianças que brincavam se aproximaram de nós e muitos tocaram meus cabelos, provavelmente estranhando a cor vermelha. (lembrete: pintar o cabelo para uma cor mais discreta assim que conseguir dinheiro)

- Esta é a minha aldeia.

- É linda. – falei encantada. No entanto, percebi que ele não estava completamente à vontade por ter de me mostrar onde morava.

- Eu sinto muito por envolver você nesta confusão. – eu disse, sendo sincera.

- Eu já estava envolvido nela muito antes de você. – ele me disse misterioso. – Venha. Poderemos conversar melhor em minha casa.

Caminhamos alguns metros até sua casa e nos preparamos para entrar quando uma menina de uns treze anos apareceu na porta me olhando com descrença.

- Você trouxe uma namorada na aldeia?

- Cala boca pirralha. – Jacob falou com raiva.

- Você trouxe uma namorada na aldeia, Jacob? – a menina repetiu.

Será que ela era surda?

- Já falei pra calar a boca Tammy. E ela não é minha namorada.

Foi bom enquanto durou...

- E ainda por cima de cabelo vermelho? – ela continuou.

Esta menina só podia ter algum problema.

- O que tem meu cabelo? – perguntei chateada.

- Cadê papai? – Ele perguntou como se eu não tivesse falado nada.

- Titio saiu com meu pai. Foram buscar alguma coisa na cidade.

- Então dá licença. Entra Jeniffer.

Até que enfim perceberam que eu estava ali. Que ótimo!

- Não repara minha prima não, viu?

- Não, pode deixar.

- Você vai entrar com ela sem seu pai estar em casa?

Jacob suspirou alto antes de virar a cabeça em direção a garota petulante.

- O que você está fazendo aqui ainda? Chispa! Isso não é da sua conta.

-Vou contar pro titio, viu Jacob? – ela falou aos berros e se afastando finalmente.

- Essa menina está apaixonada por você. – falei sem travas na língua.

- O quê? Você está doida?

- Só um cego que não vê. Além do mais entendo do assunto. – disse como uma expert.

- Entende, é? Tem tanta experiência assim para saber alguma coisa?

- Não. – engasguei.

- Então me explica.- ele pediu.

- É só que adquiri prática em reconhecer uma paixonite aguda após anos de observação. Claro que nunca aconteceu comigo e Deus me livre, mas a escola está cheia de amebas assim.

Ele riu.

- Você não está apaixonada?

- Claro que não! Estou ocupada demais para isso. Escola, casa, srª Lyan, Ruth, as regras (ops!).

- Srª Lyan? – ele perguntou curioso sentando no sofá. Acompanhei seu movimento e sentei na cadeira de frente para ele.

- É a senhora que cuida de mim desde que fui para o orfanato.

- Você vive num orfanato?

- Agora não. Ele fechou e como não fui adotada, porque fui pra lá com 7 anos e ninguém quer adotar uma criança crescida e todo aquele blá blá blá, acabei ficando. Hoje tenho que cuidar da casa enquanto a srª Lyan dorme, quer dizer, faz o serviço dela. – terminei sorrindo.

- E o que você quis dizer com as regras?

Droga!

- Isso não é nada. Regras são... regras. Tipo aquelas coisas que jamais devemos fazer. Entendeu?

Ele fez cara de que não entendeu nada, mas tudo bem. Era essa mesmo a intenção. Hehehe.

- Continuando, esse negócio de se apaixonar não é para mim. Muitas preocupações, entende? Pelo menos assim não me estresso e vivo tranqüila. O incômodo de não ter ninguém talvez seja menor do que o de ter alguém.

- Você nunca se apaixonou. – ele afirmou.

- Já disse que não. – Será que todo mundo aqui era surdo?

- Quando você se apaixonar, vai pensar sobre essa sua decisão.

- Você está apaixonado? – perguntei sem vergonha. Como nossa conversa foi parar neste assunto?

- Já estive. Mas não deu certo.

- Por quê?

- Ela estava apaixonada por outro.

Tadinho... aquela carinha de cão abandonado era de dar pena mesmo.

- Sinto muito. – fui sincera.

- Mas tudo bem. Não me arrependo! Hoje ela é uma grande amiga.

- E o traste? – perguntei.

- Traste?

- É. O fulaninho que te roubou ela.

- Hoje nos aturamos.

- Por isso que eu falo: "2 corpos mais paixão é igual a problema". – falei com meu ar mais solene.

Ele me olhou esquisito.

- Bom, mas não viemos aqui para conversar sobre paixões.

- É claro. Você tem razão. – concordei apoiando meus cotovelos nas pernas e minha cabeça neles. – Então...

- Sinceramente não gostaria de te envolver nisto, mas não tem outro jeito. Você está certa sobre o que viu.

- Como assim? Você quer dizer sobre o vampiro?

- Sim.

Como ele poderia saber? Será que ele já tinha visto um também? Será que vampiro era uma coisa assim tão natural que em qualquer esquina é possível encontrar um?

- Como você pode ter certeza? – perguntei desconfiada.

- Não importa. O problema é que ele está atrás de você.

Será que minha vida não poderia ser mais simples? Quem é que acreditaria se dissesse que tem um vampiro me perseguindo?

- Como assim?

- Ele sentiu seu cheiro e gostou.

Levantei de susto. Um ser vampiresco sentiu meu cheiro e gostou? Bem que eu falei para Ruth não comprar aquele perfume caro da Tiffany. O melhor era ter continuado com o meu via morangão mesmo. Olha a confusão que me meteu.

- Como assim? – perguntei balançando a cabeça para afastar os pensamentos e a vontade louca de tampar o frasco de perfume na Ruth.

- Gostou. Simples assim. E não vai descansar até saborear teu sangue, até sentir o líquido grosso e quente escorrendo pela garganta, saciando sua sede.

- Mentira?! – Ergui o corpo e comecei a caminhar pela sala.

- Temo dizer que não.

- O que eu vou fazer?

- A primeira coisa que tem que fazer é procurar outro lugar para morar.

Paralisei. Outro lugar?

- Mas eu não tenho outro lugar! – falei desesperada.

- Como não? Vai pra casa de um parente longe da cidade. Talvez a gente consiga distraí-lo por aqui.

- Você tem algum problema de audição? Eu já te disse que não tenho família!

O silêncio foi constrangedor. Jacob fechou os olhos e respirou fundo antes de voltar a falar.

- Ficar na casa de alguma amiga é perigoso... – ele disse pensativo. - Droga! O jeito é fazer como meu pai disse mesmo... – ele falou pensativo.

- Como assim? Fazer o quê? – Perguntei curiosa.

- O jeito é morar aqui em casa.

Ops... morar aqui? Quando foi que eu dormi? Isso só pode ser sonho. Belisca Jen... belisca. Ai!

- Aqui você estará mais protegida. Além do mais, a srª Lyan também não está segura.

- Como não?

- Não está. Ele te seguiu, sabe onde você mora e só está esperando o momento mais propício.

Engoli em seco. Propício?

- Já pensamos em tudo. Charlie me ajudará para afastar a srª Lyan da cidade. Provavelmente a esta hora, - disse olhando o relógio na parede – já deve estar na sua casa com Quil. Com ela deixando a cidade, voltaremos, pegaremos suas coisas e você irá morar aqui, precisamente no quarto da minha irmã.

- Espera um pouco. Quem é Charlie? E Quil? E como assim morar no quarto da sua irmã?

- Tudo ao seu tempo Jeniffer. O importante é não deixar este vampiro fazer mais uma vítima. Você fica aqui até darmos um jeito nele.

Meu Deus, onde fui me meter? Estou mais perdida do que cego em tiroteio. Em uma semana eu me envolvi num assassinato, tinha um louco e vampiro me perseguindo, o cara mais popular da escola dizia acreditar em mim e ainda por cima me levava para morar com ele (essa, pelo menos, era a parte boa).

Jacob se levantou e caminhou até um cômodo que parecia ser a cozinha.

- Quer um café?

- Claro!