- Este lugar é muito bonito, sr. Bill.- falei observando a luz do sol desaparecer por detrás das montanhas, deixando tudo em volta com uma cor dourada e brilhante.

O senhor Bill, pai de Jacob, era muito simpático. Tinha uma deficiência nas pernas que o impedia de andar, mas mesmo assim não perdia a postura. Era um líder nato. Conversando com ele, eu começava a imaginar aquelas expressões de alto ajuda, tipo "desafio", "superação", "enfrentar obstáculos". Era até engraçado, mas eu estava estranhamente segura em sua companhia.

- A nossa reserva indígena se chama Quileute e esta comunidade é conhecida como La Push. Não é muito grande, somos no total 371 membros. E queremos que se sinta bem em sua estadia em nossa aldeia, senhorita...

- Jeniffer, mas pode me chamar de Jen. – disse tentando sorrir, mas falhando totalmente. Poderia jurar que ele conseguia ver o medo em meus olhos.

- Não se preocupe Jen. Tudo está controlado. Não deixaremos nada lhe acontecer.

Perguntas surgiram em minha mente, mas as palavras morreram em minha garganta. Ainda não era a hora de questionamentos, mesmo morrendo de curiosidade e tentando descobrir como e por que essas pessoas estavam tão familiarizadas com algo tão surreal como os vampiros.

- A história do nosso povo é muito antiga. – Jacob falou sentando ao meu lado.

Estávamos num pátio improvisado, de terra vermelha socada, localizado bem ao centro da aldeia. Em nossa volta, os aldeões nos observavam em silêncio.

- Que tal ouvir um pouco de nossa história Jen? – Sr. Bil perguntou olhando para mim com olhos entusiasmados.

- Eu adoraria.

Todos sentaram à sua volta e ele começou a falar, fumando, vez ou outra, um cachimbo fedorento. Sentia-me fazendo parte de um mundo mágico e desconhecido.

- Então Jen – ele falou sorrindo. – a história do nosso povo começou há muitos anos atrás, através do primeiro Grande Espírito Guerreiro Chefe, chamado Taha Aki, conhecido por sua sabedoria e por ser um homem de paz. Você já deve ter ouvido falar dele nas histórias da cidade, não?

- O nome não é estranho. – disse constrangida. Na verdade, Taha Aki fazia parte das histórias contadas para assustar as crianças na cidade. Dizia-se tratar de um índio que aparecia nas noites altas, em forma de lobisomem e que comia as crianças teimosas e desobedientes. Histórias preconceituosas e totalmente sem noção. Mas eu não poderia lhe dizer, claro.

Não percebendo minhas divagações, o Sr Bill continuou. Sua voz forte e suave ao mesmo tempo, o transformava num perfeito contador de história.

- Nessa época, os guerreiros podiam deixar os corpos e, em forma, de espírito, vagavam pelas florestas e ouviam os pensamentos uns dos outros. Mas havia também um homem muito ambicioso que queria destruir o Grande Espírito e quando Taha Aki descobriu, o expulsou da tribo, condenando-o a nunca mais usar seu espírito. Utalapa vagou pelas florestas esperando o momento certo para se vingar.

Recordei novamente as histórias contadas na cidade e suspirei frustrada. De onde o povo tinha tirado que Taha Aki era do mal? Não seria o tal de Utapa-alguma-coisa?

- Taha Aki ia para um lugar secreto freqüentemente. – O Sr. Bill continuou. - Sempre deixava seu corpo para trás, andando em espírito pela floresta até o seu lugar de meditação. Utalapa o seguiu e quando Taha Aki saiu do seu corpo, ele tomou o do Grande Espírito, cortando a garganta do seu próprio com as mãos do antigo chefe. Taha aki só pode observar com tristeza, Utalapa usando seu corpo para dar ordens a tribo. Ele proibiu que os guerreiros tomassem a forma de espírito, para que não pudessem se encontrar com Taha Aki. Passou a exigir que lhe servissem, ao contrário do verdadeiro chefe que trabalhava com a sua tribo.

Neste ponto, olhei as pessoas que, atentamente e em sinal de respeito, ouviam a história já conhecida por elas. Era fascinante, principalmente para mim que sempre fui muito chegada na história dos outros. Não que a vida deles me interessasse no sentido sou "vizinha-ombro-amigo", ou então "Maria-frutiqueira". Mas tudo que falasse sobre civilizações, tipo indígena, egípcia, grega, romana, me atraía (se for moderna não se encaixa, tá?). Então não era novidade nenhuma eu estar sentada em volta de uma fogueira, rodeada de pessoas estranhas, ouvindo histórias mais estranhas ainda.

- Um dia, na floresta, Taha Aki avistou um lobo enorme, lindo, como ele nunca vira igual e pediu permissão para compartilhar o corpo com o animal. Quando o lobo aceitou, ele voltou para a sua tribo, e tentou avisá-los de que o outro era um traidor. Muitos aldeões correram, mas alguns guerreiros ficaram para observar e o mais velho, Yut, que conseguiu ver nos olhos daquele lobo que ele era diferente, decidiu desobedecer às ordens de Utalapa e saiu de seu corpo, para falar com o espírito que habitava o lobo. Assim que Taha Aki saiu do corpo do lobo, Yut o reconheceu. Quando Utalapa ficou sabendo o que estava acontecendo, correu para a aldeia para castigar o infrator. Yut pulou de volta ao seu corpo, mas Utalapa já estava com a faca em seu pescoço, e o velho guerreiro não agüentou. A raiva de Taha Aki foi tão grande, por ver o seu povo sofrendo nas mãos do opressor, que não coube dentro do lobo. Foi ai que a mágica aconteceu. O lobo estremeceu, diante de um sentimento tão humano e aos olhos dos guerreiros se transformou em homem. O novo homem não era nada parecido com Taha Aki, mas muito mais glorioso. Os guerreiros o reconheceram e ele conseguiu se vingar de Utalapa, arrancando o espírito de seu corpo antes que pudesse fugir.

- E depois? – perguntei curiosa.

- Taha Aki teve muitos filhos, e alguns deles descobriram que, ao alcançar a maturidade também podiam se transformar em lobos e que só envelheciam quando quisessem. Os que não queriam mais ser lobos voltavam a envelhecer.

"E o povo da cidade distorceu completamente a história", pensei em silêncio com a cabeça baixa. A história era legal, meio fantasiosa, mas bem melhor do que a versão urbana. Mas era lenda, mentiras contadas como se fossem verdades. Todo mundo sabe que fantasmas, papai noel, coelhinho da páscoa, bruxa e lobisomem não existem.

Mas a verdade me atingiu como um tapa: Bom, com exceção de vampiros, claro!

No entanto, assim que ergui os olhos, percebi que todos me olhavam e que eu deveria dizer alguma coisa. Qualquer coisa.

- História legal!

Não tinha uma coisa mais inteligente pra dizer?

- Nossa tribo está envolta em muitos mistérios Jen. Mistérios guardados até o dia de hoje e que se forem revelados, poderão trazer muita dor. - disse ele com os olhos vidrados. – O mundo não está preparado para a verdade porque ela cobra um preço muito caro. Geralmente as pessoas acreditam naquilo que estão vendo e procuram adaptar a realidade conforme a conveniência.- continuou em tom de severidade. – Se for necessário, um dia você saberá a verdade e lhe caberá escolher aceitá-la ou fingir que ela não existe. Mas por enquanto que tal uma xícara de leite quente?

Hein? Como assim? Ele me conta uma história fantástica sobre homens, espíritos e lobo – até ai tudo bem – depois me diz alguma coisa sobre saber a verdade, que o mundo não está preparado, que eu tenho que escolher alguma coisa que não entendi bem e pimba! Me convida para tomar uma xícara de leite quente? Viajou na maionese.

- Venha Jeniffer, vamos para o quarto. – Jacob falou se aproximando de mim.

Depois desse convite, que se danasse o Sr. Bill, a verdade, o mundo, a história, o mistério e a maionese.

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As pessoas foram se afastando lentamente. A noite já ia alta e só àquela hora eu tinha percebido o cansaço do meu corpo. Entramos na casa e Jacob me levou até o fim do corredor.

- Esta porta é do meu quarto. E esta é a do seu. – disse mostrando duas portas, uma do lado da outra. – Qualquer coisa é só me chamar.

- Não sei o que faria sem você, Jacob.

- Não é muito grande, mas espero que goste.

- É bem mais do que eu imaginava. Obrigada mesmo, de verdade. – disse com uma vontade louca de abraçá-lo (para agradecer, claro), mas não tive coragem. Apenas estendi minha mão.

- E não se preocupe com a srª Lyan. Charles inventou uma história esquisita sobre pandemia na cidade e doença contagiosa e ela, rapidinho, arrumou as malas e partiu para a casa da filha, do outro lado do país.

- E ela nem se lembrou de mim? – perguntei ressentida.

- Mandou lembranças. Disse que assim que puder te telefona.

Mas que mulher mais ingrata! Fica sabendo que tem uma doença contagiosa na cidade, junta as coisas e vai embora sem olhar para trás? Nem sequer se preocupa com a minha situação? Nem onde vou ficar?

- Não fica assim não. Talvez tenha sido melhor desse jeito. – Jacob falou percebendo minha tristeza.

Melhor nada. Onde que vou morar depois que esta história acabar? Talvez a srª Lyan volte. Ou então o sr. Bil me aceite e eu fico morando aqui! É! Melhor não pensar nisso agora.

- Você tem razão. E como a gente vai fazer com relação a escola amanhã? – perguntei mudando de assunto.

- Não sei. Vou pensar, mas esteja pronta de manhã.

- Ok então. Boa noite.

- Boa noite Jeniffer.

O quarto era pequeno, mas aconchegante. Tinha uma cama de solteiro e um guarda-roupa pequeno, mas suficiente para minhas roupas, além de uma escrivaninha delicada. Tudo de madeira rústica.

O dia tinha sido bem agitado, meio estranho também e toda aquela confusão acabou com minhas forças. Pensando no que Jacob dissera sobre estar protegida ali na aldeia, acabei desabando na cama e dormindo quase que instantaneamente.

Continua...

Obrigada a todos pelos comentários. Valeu mesmo e desculpem a demora.