Uma batida porta me despertou. Sonolenta, apenas revirei na cama e voltei a me cobrir, não antes de resmungar:
- Só mais 5 minutos, srª Lyan.
A cama estava tão quentinha que só em pensar em levantar me deixava desanimada. Dormir só mais alguns minutinhos não seria problema... Além do mais sempre tive um sério problema para acordar de manhã.
- Jeniffer! – a voz soou do outro lado da porta.
- Por favor... – o pedido saiu preguiçoso.
- Eu já estou atrasado. Depois você vai ter que ir sozinha e não estou nem ai!
Suspirei alto. Mas que coisa!
- Por que é tão difícil ter meu direito de dormir respeitado? Sou uma adolescente, em fase de crescimento. Preciso dormir bem! – disse, tampando o rosto com o travesseiro, mas me fazendo ouvir bem.
- Eu posso perceber que você está em fase de crescimento. Meio atrasado, mas está.
- O que a senhora quis dizer com isto? – Perguntei, ainda com os olhos fechados.
- Por acaso você andou bebendo? – a srª Lyan perguntou. – Melhor ir conferir o estoque de wisky do papai...
- Desde quando o pai da senhora tem estoque de bebida aqui? Ele ainda está vivo? Porque se tiver deve ter uns 150 anos!!! – falei chateada e, na vã tentativa de voltar a dormir, cobri a cabeça com a coberta.
- É melhor se levantar! – disse a voz e em seguida escutei passos se distanciando da porta.
Já que ela foi embora, vou dá mais uma cochiladinha...
- Está tudo normal. Você deve ser louca mesmo! – A senhora Lyan retornou.
Suspirei novamente. Estava quase chegando lá...
- Me desculpa srª Lyan, mas a louca da história só pode ser a senhora. Quer sair de madrugada para fazer não sei o quê, foi conferir o estoque de bebida de seu pai, sendo que só a senhora tem uns 80 anos se não me engano, e além do mais, está com uma voz péssima! Já falei que é melhor tratar essa rouquidão, uma hora dessas e a senhora perde a voz.
- Acho que em vez de te levar para a escola, vou te levar para o hospício!Eu sou o Jacob! J-A-C-O-B! Tá difícil de entender ou quer que eu desenhe?????
Jacob? As lembranças povoaram minha mente como um raio, me fazendo acordar totalmente. Puta que $%#$&*!!!!! Não pode ser...
- Que vergonha! – gemi baixinho. – É você mesmo? – perguntei só para confirmar.
- Claro que sou eu e estou saindo. – ele disse nervoso. – E sem você!!!! – Completou.
- NÃO!!!! – Gritei jogando as cobertas para longe. – Por favor, me espere! Não sei chegar na escola sozinha!!! Jacob?
Não ouve resposta.
- JACOB!!!!!!
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A moto parou cem metros antes do portão da escola. Jacob retirou o capacete, colocando-o entre o braço e me olhou um pouco zangado. Desci da moto e enfrentei sei olhar.
- O que é? – perguntei sem paciência.
- Já que estamos atrasados mesmo, acho melhor decidirmos o que fazer.
Ele tinha razão. Não poderia chegar na escola grudada na garupa da moto dele e seguir para a sala de aula como se fosse a coisa mais normal do mundo. Precisávamos de uma história, e de uma história muito boa, porque popular e ralé normalmente não se misturam. Apenas em casos excepcionais como este.
- Tem alguma idéia? – ele perguntou cortando meus pensamentos.
- Nenhuma – respondi sendo sincera.
- Você sabe que as pessoas vão achar estranho.
- Eu sei. – concordei.
- Até ontem nós nunca tínhamos conversado. Nunca fomos amigos, colegas, você é caloura e eu veterano e de repente aparecemos juntos na escola.
Novamente ele tinha razão.
- Você poderia me deixar aqui e eu simplesmente iria a pé. Entraria sozinha e ninguém desconfiaria de nada. Depois, no fim da aula, a gente se encontrava no mesmo lugar.
Era a única coisa que eu podia pensar. Ele não queria ser visto comigo e isto estava mais do que claro.
- Não acredito que dê certo. – Ele disse observando o movimento na rua. – Até quando poderíamos esconder isso? Logo seríamos descobertos e geraria comentários ainda maiores e maldosos.
- Poderíamos fingir então sermos amigos. O que acha?
- Poderia dar certo... mas só por algum tempo. – ele disse pensativo.
- Como assim?
- Eu não posso te deixar sozinha. Não sei o que ele viu em você. Mas ele está te perseguindo.
- Ele? O... vampiro? Mas eu nunca mais o vi!
- Eu já te falei que você só o verá quando ele quiser. Mas eu posso senti-lo. Sinto seu cheir... quer dizer... sua presença. – Jacob cortou a frase repentinamente.
Estranho... muito estranho... ele ia dizer cheiro?
Eu ia dizer alguma coisa sobre ele conseguir cheirar qualquer coisa relacionada a vampiro, porque se ele achava que eu não percebi o que ele iria dizer, ele estava completamente errado, mas ele simplesmente me cortou.
- Sobe ai! – aquilo era uma ordem e eu mais do que depressa obedeci.
- O que vamos fazer? – perguntei antes de ele dar novamente partida.
- Já que seremos motivos de fofoca de qualquer maneira, nos separando aqui ou fingindo sermos amigos, vamos dar um motivo maior para eles fofocarem.
- Como assim?
Ele não me ouviu ou fingiu não me ouvir. Entramos na escola e fomos direto para o estacionamento. Desci me sentindo um pouco estranha, porque apesar das aulas já terem começado, alguns alunos ainda estavam do lado de fora e nos olharam (mais especificamente me olharam) com olhos totalmente surpresos e esbugalhados.
Apoiando minha mochila no ombro, comecei a caminhar para a sala quando senti uma mão segurar a minha.
- Prepara-se Jeniffer, você será a mais nova garota popular da escola. Pelo menos por um tempo, até resolvermos sua situação. – Jacob sussurrou bem próximo a meu ouvido. – Mas não se acostume não, viu?
- Como assim? – tentei perguntar, mas já estava sendo carregada para os corredores.
Jacob caminhou comigo até à minha sala, se afastando logo em seguida. Constrangida e sem entender o que estava acontecendo, bati na porta e assim que o professor a abriu, pedi licença e procurei sentar o mais rapidamente possível. Ruth já estava em seu lugar concentrada na matéria.
- Oi Jen. Atrasada novamente. – ela falou assim que eu sentei.
Eu sorri.
- Pois é. – concordei. – E como foi o aniversário do seu pai? –Perguntei aos sussurros.
- Legal! Fomos comer pizza. Mamãe na verdade só bebeu água. Você sabe... ela odeia massas ou qualquer coisa que engorde. Mas papai e eu adoramos. Ainda fizemos uma disputa de quem comia mais pedaços e adivinha quem ganhou?
- Você. – respondi revirando os olhos. Ruth ganhava todos os campeonatos de comer pizza. Não que disputasse muitos, mas ela sempre ganhava. O surpreendente é que ela conseguia se manter com o corpo bem em forma. Muito diferente de mim, que tinha que fechar a boca.
- Silêncio, por favor! – o professor nos interrompeu.
- Você acertou. – ela disse antes de olhar pra frente e voltar a prestar atenção na aula. O que não aconteceu comigo. Aula era a última coisa que eu poderia pensar e, sinceramente, o que mais me preocupava no momento era a atitude de Jacob quando entramos na escola. O que será que ele quis dizer?
A resposta veio mais tarde, quando sai para almoçar. (Aula em dois períodos é um saco!)
- Sabe Jen, você deveria ter visto a cara do meu pai quando ele viu o presente que comprei. Ele adorou! Mas também, sem querer me gabar, eu tenho bom gosto, né? A gravata ficou linda! – Ruth continuava narrando sua aventura na pizzaria com a família, mas eu só conseguia olhar o cara que me esperava encostado na parede no corredor. Jacob.
Assim que ele me viu, piscou um olho e caminhou em minha direção. Ruth se calou assim que ele parou na nossa frente.
- Estava te esperando para almoçar. Não vai me apresentar à sua amiga?
Ruth me olhou surpresa e eu fiquei totalmente sem palavras. O que ele estava pensando? O que tinha acontecido com a nossa conversa de manhã? Pensei que ele não gostaria de ser visto em minha companhia... Mas porque então ele segurou minha mão quando entramos na escola? Foi então que alguma coisa me atingiu e eu não estava falando sobre o cutucão que Ruth me deu. "Ele não podia fazer isto!", pensei. Era totalmente contra a natureza, ninguém ia acreditar e eu não queria. Quer dizer, queria, mas não nesta situação. Não! Eu não queria! E em situação nenhuma! Ele não poderia! Eu não poderia fingir ser...
- Já que Jeniffer não nos apresenta – Jacob me interrompeu. – Meu chamo Jacob. Sou o namorado da Jeniffer.
Pensei que Ruth fosse cair dura pra trás. Ela ficou branca, verde, azul... todas as cores do arco-íris, e quando me posicionei atrás dela para lhe segurar quando caísse, ela pareceu recobrar a consciência e me olhou um pouco decepcionada.
- Não fique chateada. – Jacob pareceu perceber o que estava acontecendo. – Jeniffer falou muito bem de você (Mentiroso! Eu nunca falei da Ruth com ele!). Foi tudo muito de repente, conversamos ontem. Fiquei completamente apaixonado pelo seu jeito atrapalhado e engraçado. Amor a primeira vista! (será que só eu tinha percebido a ironia?) Eu tenho certeza que ela iria te contar, mas eu cheguei antes, não é Jeniffer?
Aquilo foi meio que uma ofensa, não? Jeito atrapalhado e engraçado? Aposto que ele estava morrendo de rir, internamente.
Não encontrei palavras, e então só pude balançar a cabeça concordando.
- Eu te perdôo então, Jen. Afinal não tivemos muito tempo hoje não é? Mas depois você vai ter que me contar tudo.
Sorri sem graça.
- Me chamo Ruth. – ela falou olhando para Jacob e estendendo sua mão.
- Muito prazer. – ele respondeu.
- O prazer é completamente meu. – Ruth deu seu melhor sorriso.
Depois das apresentações, Jacob segurou a minha mão e dessa vez pude sentir sua textura, sua força e o contraste dos tons de pele. Minha mão branca, pequena e sem graça; a do Jacob, morena, grande e firme.
- Vamos para o refeitório? – ele perguntou num sorriso forçado.
- Vamos! – Ruth falou, louca para experimentar sua nova fama, (às minhas custas, diga-se de passagem).
- Refeitório não! – gemi desanimada.
Onde eu estava me metendo? Talvez fosse melhor virar suco de vampiro!
