Cap 7
Um dos maiores desafios na vida de uma garota é entender o que se passa na cabeça dos meninos. Dizem por ai que há muitas diferenças entre o sexo masculino e o feminino. Isso é verdade. Já foi comprovado cientificamente. Desde o tempo das cavernas, homem e mulher estão se adaptando e evoluindo de acordo com suas necessidades. O homem desenvolveu seu cérebro para melhor se adaptar as coisas que veem de fora, para melhor se proteger, lutar, e procriar. Resumindo: caçar comida e fazer sexo. Já nós, as mulheres, tinhamos que cuidar dos filhos, cuidar da casa, preparar comida, se preocupar com o ambiente interno, relacionamentos, etc... Resumindo: pensamos pouco em sexo, falamos demais, mas ouvimos melhor, possuímos sexto sentido, visão periférica (permite controlar os Orlando Bloom da vida que passeiam por aí sem que ninguém perceba), enxergamos melhor à noite e fazemos várias coisas ao mesmo tempo. (Não adianta, as mulheres ainda vão dominar o mundo!)
Mas a questão não é esta. Dizem também que nós, mulheres, somos mais complicadas, mas eu tenho muitos motivos para discordar dessa teoria. Garotos, eu realmente não entendo; dizem uma coisa e quando vamos ver, estão fazendo justamente o contrário. Exemplo? Jacob. Desde o princípio, o que não é muito tempo, ele me dizia que eu não fazia o tipo dele, que não queria ser visto comigo, que ele era veterano (leia-se "popular") e eu caloura (leia-se "ralé") e de repente, fingimos estarmos namorando. Sinceramente eu não conseguia entender.
E eu não consegui entender também a sensação de pânico que estava fazendo minhas pernas ficarem trêmulas, enquanto caminhávamos de mãos dadas. O corredor da escola nunca pareceu tão longo para mim. Sabe quando você olha, mas não consegue enxergar? Era o que estava acontecendo comigo. Eu sabia que todo mundo estava nos olhando, mas eu não conseguia ver nada mais que um borrão, as paredes diminuindo e se apertando entre nós e a luz distante do refeitório, onde eu me sentaria a espera da condenação. Eu sabia. Poderia até ser invejada por algumas garotas, mas eu seria, principalmente odiada. Minha vida se tornaria ainda pior do que normalmente era. Ser excluída por não fazer parte da elite da escola era uma coisa, eu já estava acostumada. Agora, ser excluída e odiada por causa de um namoro (lembrem-se, falso) era simplesmente amedrontador e ia completamente contra as minhas regras, principalmente a número 1, a regra básica da básica: Não chamar a atenção. E o que faz mais fama do que ser uma pessoa odiada por todos?
Ruth ainda conversava ao meu lado, mas eu não conseguia ouvir. Eu só podia sentir: o calor da mão morena segurando a minha, uma gota de suor que descia pela minha nuca, minha respiração pesada, o corpo tenso, o sangue correndo rápido pela veia, o coração batendo descontrolado no peito e uma vontade louca de fugir e esconder no num buraco.
A entrada no refeitório foi a experiência mais assustadora já vivida por mim (com exceção do vampiro no parque). Eu conseguia sentir todos os olhos focados em nossa direção. Todas as sensações que eu já sentia, triplicaram e, por um tempo, pensei que meu corpo não fosse agüentar a pesada carga de adrenalina, acompanhado por um sentimento ainda mais avassalador: o medo.
Até àquele momento eu ainda não tinha parado para pensar na reviravolta que minha vida tinha tomado em menos de 24 horas e eu também não conseguia entender o porquê de Jacob está me ajudando. Qual é?!?!?! Não é qualquer pessoa que leva um estranho para morar na sua casa, que te coloca pra dormir no quarto de sua irmã e que, principalmente, fingi namorar você quando está na cara que vocês pertencem a um mundo completamente diferente. Tudo isso para salvar a vida de uma pessoa que não te conhecia?
Eu também ainda não tinha assimilado a idéia de ser perseguida por um vampiro e que Jacob e as pessoas de sua aldeia tinham acreditado em mim. Tudo estava confuso e eu me sentia pronta a entrar em combustão, minha cabeça latejava e eu só pensava... pensava... pensava..
E agora mais essa: ter que fingir um namoro. Ele nem ao menos tinha me contado sobre essa decisão maluca. Será que ele não percebia que as pessoas iriam perguntar? Não tínhamos química, tensão sexual, desejo louco ou qualquer coisa do gênero. E uma pergunta não calava: por quê?
- Vamos sentar ali. – Ruth falou sorridente, apontando a nossa mesa de sempre (perto da lixeira e bem longe da elite da escola).
- Não. Vamos sentar ali. – Jacob disse apontando uma mesa recheada de jogadores de futebol e líderes de torcida.
Ruth arregalou os olhos assustada.
- De jeito nenhum. – ela negou.
- Não, Jacob. Vamos ficar por aqui mesmo. – uni forças com Ruth.
Jacob olhou para mim e seus olhos brilharam com algo que não era bom.
- Vou sentar no mesmo lugar que costumo sentar e você vai comigo. – ele disse, não admitindo ser contrariado.
- Boa sorte.– Ruth falou se afastando.
Ainda tentei seguir minha amiga, mas mãos fortes me imobilizaram e me arrastaram.
- Você não pode fazer isso! – falei indignada. – Jacob! Você está me escutando?
Ele nem olhou para mim.
- Estou falando contigo! Ei? Eu não quero ir. Me solta!
Jacob parou no meio do refeitório e seus olhos cravaram em mim novamente.
- O que foi que eu te falei ontem?
- Sobre o quê? – perguntei. Ontem foi tão confuso e ele falou tanta coisa, que ficava difícil saber sobre o que ele queria dizer.
- Sobre fazer o que eu mandar? Sobre me obedecer sem questionar? Já esqueceu?
- Não me esqueci não. Mas eu odeio isso!
- Eu também odeio o que estou fazendo! Eu poderia muito bem estar sentado lá, com meus amigos, e te deixar virar comida de vampiro, mas não... fui escutar meu pai e agora estou aqui, fingindo namorar você e tendo que te arrastar para todos os lugares e...
Então ele parou de falar, constrangido pelas palavras grosseiras e eu me senti completamente fora do lugar, excluída. Eu sabia que ele não queria estar do meu lado, mas ele nunca tinha dito dessa maneira. Sabe de uma coisa? Doeu. Não que Jacob fosse uma pessoa muito importante para mim. Não. Começamos a nos falar a apenas um dia. Mas doeu porque eu senti vergonha de mim mesma, porque me senti um lixo.
- Você não precisa fazer isso – falei assim que me recuperei. – Eu não te pedi nada. Além do mais não sei por que está aqui comigo, se claramente não se importa. Melhor pararmos com isso. E eu nunca mais vi aquele vampiro... pode ser que ele já tenha me esquecido.
Meus olhos encheram-se de lágrimas, mas eu não queria chorar. Não na frente dele, não na frente de toda a escola.
- Desculpa. –Jacob sussurrou. – Olha, vamos fazer o seguinte: vamos sentar ali, te apresento meus amigos e depois da aula, vamos conversar, ok? Esquece o que eu te falei. Me dê a sua mão. – ele pediu estendendo a sua.
Eu não esqueci, mas estendi minha mão e o segui.
A mesa era a mais bonita do refeitório. Não que fosse diferente das outras. Eram todas cinzas e de 8 lugares, cadeiras também na mesma cor, tudo de um material resistente, sem vida. Mas o que fazia daquele mesa diferente eram as pessoas que a ocupavam. Todos bonitos, altos, arrumados e, em sua maioria, ricos. Mas Jacob não era rico e os rapazes que andavam com ele também não. Eles moravam na aldeia, mas as garotas definitivamente eram, e alguns garotos também. Eu não tinha nada contra as pessoas serem ricas e, na verdade, nem contra as metidas. O que eu não gostava era das pessoas metidas e maldosas, com síndrome do "eu sou o melhor".
Chegando à mesa, Jacob começou com as apresentações.
- Estes são Embry, Seth, Quil, Jared, Collin e Brad. – Jacob disse apontando os rapazes que andavam com ele.
- Oi. – cumprimentei envergonhada.
"Tudo bem? E ai? Beleza?" – estes foram algumas das respostas. Eles até foram simpáticos e eu estava começando a ter de volta minha confiança. Mas aí tudo mudou.
- Estas são: Alyson, Dany, Zoe, Meyre e Claire. – ele continuou e eu voltei a cumprimentar.
Desta vez as respostas não foram simpáticas. Na verdade, não ouve respostas nenhuma. Elas simplesmente me olharam de cima a baixo e balançaram a cabeça.
Eu me senti o patinho feio de uma história bizarra.
Comer foi um desafio, mas pelo menos Jacob não saiu de perto de mim. Não nos comportávamos como um casal, a não ser quando saímos e ele segurou minha mão. Ninguém perguntou. Mas eu ainda notei um olhar de ódio lançado em minha direção pela garota loira chamada Alyson (a mesma garota da danceteria).
As coisas não poderiam ficar piores, mas ficaram.
Ir ao banheiro da escola era pra ser uma coisa fácil, natural, mas não quando você encontra serpentes, cobras peçonhentas te olhando com ódio. Mas estas cobras (em especial uma), não estavam apenas preparadas para dar o bote... elas deram, o bote! E o barulho do soco ecoou pelas paredes azulejadas, seguido de um empurrão que fez com que minhas costas batessem com toda força numa das pias para lavar as mãos. A respiração ficou curta, dolorida, o ar entrava devagar nos pulmões e recuperar o fôlego foi um processo difícil.
- Isto é apenas um aviso. – a voz sibilou venenosa. – Da próxima vez não serei tão piedosa.
Alyson apoiava as mãos na cintura, cercada por suas amigas e eu fiquei ali, encostada na parede, uma mão segurando o rosto machucado.
- Não sei o que ele viu em você. E é melhor terminar logo essa espécie de namoro, se é que se pode chamar disso, ou então reze para não cruzar o meu caminho.
Eu não tive a oportunidade de falar nada e mesmo se tivesse, não teria condições. Estava mais preocupada em segurar as lágrimas para pensar em outra coisa. Alyson deixou o banheiro, acompanhada de suas "amigas" e eu simplesmente deixei o corpo escorregar contra a parede, enquanto olhava minha mãe suja de sangue.
- Droga! – resmunguei.
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