A dor da humilhação é algo que machuca muito, algumas vezes até mais que a dor física. É o eco do orgulho gritando na mente, mais alto do que os sinos de todas as igrejas do mundo. Um sentimento de ser nada, de não significar nada, como um inseto prestes a ser esmagado.
Uma vontade louca de socar alguém, assim como fizeram em mim, tomou conta dos meus sentidos. Como se meus punhos fechados, os dedos contraídos pudessem enfiar em algum estômago, num impacto seco, dolorido, profundo. Como se essa violência pudesse apagar o que eu estava sentindo. Mas eu nunca briguei, provavelmente não sei nem como socar alguém. E saber disso também não era legal, porque além da humilhação, eu também me sentia impotente, frustrada e incapaz. E não foi nada fácil enfrentar as perguntas de Ruth, assim que sai do banheiro, e depois de Jacob, quando nos encontramos ao final da aula.
- Não vai mesmo me contar o que aconteceu?
- Não é da sua conta Jacob. – Respondi. As aulas tinham terminado e caminhávamos juntos na direção do estacionamento. Ruth já tinha ido embora e para ela eu não menti. Não sobre o encontro no banheiro, mas inevitavelmente a conversa foi parar sobre meu mais novo e primeiro relacionamento, e aí eu tive que mentir descaradamente.
- Só estou preocupado.
- Pois não precisa ficar.
Jacob suspirou alto. Eu sei, estava sendo chata e infantil, mas eu não queria falar do assunto e eu acreditava estar sendo bastante clara quanto a isso.
- Bom... se não quer falar não fale... é problema seu mesmo... – Jacob desistiu.
- Isso mesmo, problema meu!
Chutei uma pedra para longe observando ela parar dentro de uma poça d'água. O tempo estava cinza com nuvens carregadas e eu estava seca, seca por dentro, seca de amor próprio, seca de alegria. Adoraria que chovesse uma chuva torrencial, intensa e duradoura, com relâmpagos cortando o céu e trovões assustadores e barulhentos. Eu deixaria cada gota me molhar, batendo com força sobre a minha pele e abafando meus gritos de ódio e de dor. Mas mesmo que meu pedido tenha sido parcialmente atendido, a chuva que começou a cair era mansa, rala, quase uma garoa, formando uma delicada cortina aquosa, translúcida, tocando meu corpo como uma carícia. Não era suficiente, por isso apenas me calei e subi na moto.
Íamos rápido apesar do mau tempo. E isso era bom, o vento chicoteando no meu rosto através da viseira do capacete levantada, molhando minha pele, me tirando o fôlego, amenizando a dor. Tudo passava em um borrão e apesar do frio da chuva, me sentia aquecida pelo calor do corpo de Jacob.
Ao longe distinguimos um vulto na beira da estrada, estava parado e apesar da distância eu sabia que estava olhando para nós. De repente ele começou a correr numa velocidade surpreendente, mas não se afastava, pelo contrário, corria em nossa direção, muito, muito rápido. Jacob freiou. O tempo passou em câmera lenta. Os pneus derraparam, a moto tombou e eu me vi caindo, sentindo o corpo tensionar prevendo a queda no chão duro e escorregadio. Nos poucos segundos que antecederam o contato com o chão ainda consegui imaginar o corpo ralado, talvez alguns ossos quebrados. Era para ser dolorido. Mas alguma coisa aconteceu. Senti um puxão forte na cintura, meu corpo empurrado e abraçado, rodando no ar e caindo em algo quente e macio.
Abri os olhos assustada, sem entender direito o que tinha acontecido. Tirei o capacete e Jacob estava ali, debaixo de mim e me olhando com os olhos destemidos e furiosos. Ele sussurrou algo que me fez aproximar do seu rosto para escutar e aquelas palavras, ditas numa voz baixa e autoritária, fizeram gelar até meus ossos.
- Levanta e corre.
Eu sabia. Por Deus eu sabia. Não era necessário olhar para trás, ninguém precisava me dizer, eu simplesmente sabia que o vulto que correu em nossa direção não era natural, não era humano.
Ergui o corpo rapidamente enquanto procurava a saída mais fácil. Eu poderia gritar por ajuda, pedir por socorro, mas o tempo cinzento fez a noite chegar mais cedo e nas residências tudo era silêncio, nem um sinal de vida, nem o som de uma música tocando, ou de conversas, nem risadas, nem choro de criança, nada.
O extinto de sobrevivência, em sua forma mais crua, veio surgindo, agitando o sangue nas veias, rugindo como um leão. O suor escorria pela minha nuca se misturando com as gotas da chuva, minha visão ia se tornando mais aguçada à medida que os batimentos cardíacos aumentavam, a respiração ficava mais profunda e mais rápida, os músculos das minhas pernas se tensionavam, o corpo se preparando para a fuga. Tudo isso em apenas alguns segundos.
- Corre Jeniffer!
A ordem veio mais uma vez e eu obedeci prontamente. Corri. Corri como jamais fiz em minha vida, mancando, o corpo machucado, o oxigênio faltando em meus pulmões, engolindo ar e água da chuva, o cabelo grudando nos olhos, apavorada.
No meio do caos avistei um beco escuro, sujo e abandonado. Não pensei duas vezes e mergulhei na escuridão, buscando recuperar o fôlego. Meu corpo todo doía, sentia o sangue escorrer pela minha perna direita e através do buraco na calça jeans pude ver o machucado em carne viva, latejando, pulsando.
Rastejei até à entrada para poder ver o que estava acontecendo, onde Jacob estava e se estaria bem. Mas o que vi era terrivelmente assustador: ele estava lá, no mesmo lugar, a poucos metros de sua moto e não estava sozinho. O vampiro estava à sua frente, com a mesma aparência da noite que o vi, apenas mais sujo e parecendo mais faminto. Ambos se encaravam. Tudo era intenso e perigoso.
Então eu vi Jacob de uma forma completamente diferente. Parecia mais velho, mais forte, mais alto, mais poderoso. De onde eu estava ainda conseguia ver os músculos do seu braço se mexer de forma estranha, como se tivessem vida própria, seus olhos mais escuros, negros como a noite e até mesmo seu cabelo parecia estar crescendo, tornando-se mais brilhante. De súbito ele rasgou a camisa como se fosse folha de papel e seu peito forte e moreno também se contraía. As palavras do Sr Bil surgiram num relâmpago em minha mente: "Nossa tribo está envolta em muitos mistérios. Geralmente as pessoas acreditam naquilo que estão vendo e procuram adaptar a realidade conforme a conveniência". Eu sabia que algo estava acontecendo, algo definitivamente sobrenatural, mas o que seria?
Então tudo foi interrompido quando seis vultos surgiram por entre as sombras, aproximando de Jacob, cercando o vampiro. Era os garotos de sua turma e, inacreditavelmente, todos eles exalam confiança e poder. Alguns segundos se passaram antes do vampiro, em desvantagem numérica, desaparecer na escuridão, numa velocidade impossível de se imaginar. Daí tudo terminou e foi quando Jacob se aproximou de onde eu estava que, subitamente, percebi que iria desmaiar.
- Como ela está? – ouvi uma voz preocupada perguntar.
- Eu já não falei que está tudo bem? – outra voz, desta vez conhecida, falava ao meu lado.
Acordei, ainda um pouco sonolenta, mas permaneci de olhos fechados. Decidi, já que tive consciência segundos após acordar. Conseguia distinguir movimentos leves no quarto além das vozes sussurradas. Por estarem próximos à minha cama eu conseguia ouvi-los bem.
- Como você pode saber? Ela está tão branca! – outra voz, não tão grossa, como se pertencesse ao alguém mais jovem.
- Talvez ela esteja branca porque ela é branca! – a voz conhecida respondeu. Só poderia ser Jacob e fiquei tentada a retrucar, mas a curiosidade foi maior e continuei fingindo dormir.
- Será que ela viu?
- Não sei, Seth... Pode ser que não. Acho que estava mais preocupada em não virar comida de vampiro.
As lembranças povoaram minha mente, desde o momento que caímos da moto, o vampiro assustador querendo nos matar e até as atitudes estranhas de Jacob. E isso não era bom.
- Mas não aconteceu nada.
- Por pouco...
- Cara, eu achei que você ia pirar! Devíamos tê-lo pego de uma vez por todas.
- Não ali Collin! Era perigoso demais.
- Tem uma coisa que eu não consigo entender...
- O porquê dele estar atrás dela. – Jacob completou.
- Sim. Talvez seja algo como o que aconteceu entre Edward e Bela.
Aquela conversava estava se tornando bem interessante e eu precisa descobrir quem era Edward e Bela. Para isso precisa continuar a fingir, mas estava ficando difícil e provavelmente não conseguiria suportar por muito mais tempo.
- Acho que sim.
Uma batida na porta os interrompeu e eu quase suspirei de frustração.
- E ai gente? – uma quarta voz acompanhada de passos pesados entrara no quarto.
- Ela ainda não acordou?
- Não. – alguém respondeu.
Eu sabia que deveriam ser os amigos de Jacob, todos reunidos no quarto onde uma garota (eu) estava (aparentemente) dormindo. Precisa falar alguma coisa sobre falta de respeito? Sem contar que aquela conversa estava me dando medo. E isso não era nada bom.
- Ela é bonita. – pela voz, percebi que era Seth. Gostei dele!
- E baixinha. – a mesma voz continuou. (Droga, baixinha era meu carma!)
- Então Jacob, já deu uns pegas nela? – abri um olho discretamente para ver o dono da infeliz pergunta, mas não deu para ver nada porque tinha um corpo na minha frente.
- Estamos apenas fingindo idiotas! – Jacob respondeu. - Além do mais tenho preocupações maiores.
- Eu sei, mas eu não perderia tempo. Ela até que é gostosa!
Diante de tal comentário, engasguei e quase me entreguei. Pelo menos consegui disfarçar, revirando na cama e falando qualquer coisa como se estivesse sonhando.
Ouve alguns segundos de silêncio e eu quase morri de curiosidade. Mas então eles voltaram a conversar normalmente.
- E tem umas pernas... – Jacob falou. Será que eu estava sonhando???
- Malandro! Olhou as pernas dela fingindo que olhava o machucado né?
- Eu olhava o machucado.
- Você não olhou só o machucado.
Que negócio de pernas era isso?
- Vocês são chatos hein? Sou homem não uma barata! Seria um idiota se não olhasse.
- Belas pernas. – ouvi uma risada baixinha.
- Se é! – Jacob respondeu.
- Você colocou as calças de volta?
Cara, eles estavam todos loucos!!! Não consegui mais fingi, sentei na cama e puxei o lençol até o peito.
- Que negócio é esse de tirar as minhas calças? – perguntei exasperada.
Todos me olharam e... caíram na gargalhada.
- Eu não disse! - Jacob falou.
- Cara, como você percebeu? – alguém perguntou, mas não dei a mínima atenção.
- Pequena, mas esperta. – Jacob respondeu olhando pra mim que, percebendo que era uma armadilha e notando que minhas calças estavam no mesmo lugar de sempre, ou seja, no meu corpo, senti uma onda de calor subir pelo meu rosto e tenho certeza de que fiquei completamente vermelha.
- Brincadeira mais sem graça! – Exclamei furiosa. Droga! Quando alguém acha minhas pernas bonitas tudo não passa de uma brincadeira?
- Tudo bem com você? – Jacob me perguntou ainda rindo.
- Não! Não gostei dessa brincadeira ridícula!!! Todos você fora daqui!!!! - gritei exaltada.
- Calma Janiffer, foi apenas uma brincadeira!
- Fora! – Peguei meu sapato no canto da cama e mirei bem na cabeça do idiota.
Ele saiu apressado e fechou a porta, segundos antes do sapato atingir a madeira rústica.
Continua...
Dupla marota: adorei seu comentário. Ri pacas.... rsrsrsrsrs. O Jake é mesmo temperamental né? Que bom que está gostando!
Gabytenorio: sempre fico aguardando seus reviews! Obrigada por estar acompanhando esta fic maluca!
Nessa Clearwater: também fico ansiosa pelos seus reviews. Jen manda dizer que também concorda com você: Patty é um problema sério! Mas lembrem-se garotas, não podemos generalizar!!!
Srt. Black: Que bom que está gostando. Jacob e Jen precisam se entender não é? O jeito é esperar pra ver o que acontece.
BeBeSantos: que bom que está gostando. Não desista da fic viu?
Valetyna Black: obrigada e Jacob está meio doido mesmo!
'Elleeen.: obrigada pelos reviews! Espero que esteja gostando!
karlla cullen: você desistiu da fic? Ou ainda está acompanhando? Mande notícias!
Oraculo: suas fics são perfeitas! Parabéns e obrigada pelo primeiro review!
