Uma coisa que eu sempre odiei era café frio, doce e fraco. Então não podia reclamar do café quente, amargo e forte que queimava minha língua e esquentava minhas mãos durante a madrugada. Ali estava eu, sentada sozinha na cozinha, totalmente sem sono e na completa escuridão, esperando por alguma luz na também escuridão da minha mente.
Tudo estava calmo, num silêncio acolhedor, até que um movimento me assustou e olhei para onde eu sabia ser a porta. Através da claridade que conseguia atravessar a janela de madeira, avistei um vulto caminhando lentamente, passos curtos, cambaleantes. Senti um calafrio subindo pela espinha. Mas quando ele colidiu com uma cadeira, soltou um "ai" e pulou de um pé só, o medo foi embora e eu abafei uma risada.
A luz acendeu me fazendo piscar bobamente. Quando os olhos se acostumaram com a claridade, vi Jacob me olhando com uma raiva fingida enquanto tentava arrumar os cabelos.
- Rindo de mim ou rindo para mim? – sua voz soou sonolenta e engraçada.
- Rindo de você. – respondi sendo sincera.
- Eu já imaginava.
Então ele caminhou até a geladeira, retirou uma garrafa de leite, levando-a a boca.
- Não faça isso! – Reclamei, um pouco alto demais.
- Fazer o quê?
- Isso! - Disse apontando a garrafa. - É nojento! – Completei.
Jacob me olhou confuso por alguns segundos e então bebeu o leite de uma só vez, limpado a boca com o braço.
- Por que não usa o copo?
- Porque não quero. – ele disse puxando uma cadeira e sentado à minha frente, colocando a garrafa na mesa.
- Isso é nojento para quem vai beber depois. Já pensou nisso?
- Então não bebe!
- Bom saber, porco chauvinista! – Xinguei.
- Porco o quê?
- Chauvinista!
- Você sabe o que isso significa?
- Não interessa o que significa, interessa que você é! – respondi birrenta, cruzando os braços no peito.
- Só para conhecimento seu senhorita, chauvinistas são os ditadores, fascistas, políticos extremos ou qualquer nacionalista exagerado. E uma coisa que eu detesto é política. Então...
- Então você não é um porco chauvinista. É só um porco sem educação e nojento mesmo.
- Ai é bem melhor...
Ele sorriu e eu também.
- Acho que estou te devendo uma conversa... – Jacob falou antes que caíssemos no silêncio.
- Sim. - Concordei.
- E um pedido de desculpas.
- Também.
- Você me desculpa pela brincadeira?
Eu já não estava chateada. Na verdade não sou muito boa em guardar ressentimentos. Meu lema sempre foi: perdoar o mais rápido possível para dedicar maior atenção à felicidade. Mas ultimamente perdoar algumas pessoas não acontecia tão rápido. Exemplo? Allyson. Eu ainda tinha uma vontade louca de romper a face dela. (estou tentando ser mais delicada, mas quem não entendeu, é socar as fuças mesmo).
Mas com Jacob era diferente.
- Você sabe que foi muito feio, né? – falei séria.
- Horrível. – ele concordou.
- E de muito mau gosto.
- Péssimo gosto.
- E que você poderia ter me deixado traumatizada pelo resto da vida!
- Nem tanto Jeniffer.
- Claro que sim!
- Seria então tão importante minha opinião?
Ele me pegou. Droga! Acho que seria desnecessário falar que morri de vergonha. Mais uma vez!
- Não... é que... bom...
- Eu não estava mentindo...
- Você sabe Jacob... o ego... – balbuciei sem perceber o que ele tinha dito.
- Jeniffer, eu não menti.
- Como? – perguntei sem acreditar.
- Eu não estava mentindo. Você realmente tem umas pernas... e seu cabelo é... fascinante e sexy, você é engraçada, divertida, atrapalhada e adorável.
- Você está falando sério? – perguntei ainda não acreditando.
- Claro! Pode acreditar. E seu corpo também é muito gosto... quer dizer... nada mal! Eu pelo menos não gosto de garota magricela. Gosto de carne e curvas.
- Eu... eu... nem sei o que dizer.
- Não diga nada. Apenas não se senta diminuída perto da Allyson ou de qualquer outra garota, tudo bem?
- Tudo bem. – sorri com sinceridade. - Você está desculpado!
Jacob pareceu constrangido.
- Mas eu não falei isso para você me desculpar, eu só...
- Eu acredito em você.
- Mesmo?
- Mesmo. Obrigada.
-Não precisa agradecer.
Foi nessa hora que olhei para ele e senti algo muito especial. Acho que poderia considerá-lo meu amigo. E isso era bom. Eu estava começando a quebrar minhas regras e... estava gostando!
- Então vamos voltar para o assunto principal. Por onde você quer começar?
Eu suspirei pensando. Era tanta coisa, tantas perguntas, dúvidas, que demorei alguns segundos para me decidir.
- Que tal sobre quem são Edward e Bella?
Jacob me olhou e eu notei apreensão em seu olhar. Mas durou apenas alguns poucos segundos.
- Tem certeza?
- Sim, mas você jura somente dizer a verdade, nada mais que a verdade?
- Juro. – Jacob falou solene. – Agora pode perguntar.
- Então tá. – falei entusiasmada. – Quem são eles? – fui direta.
Jacob não pensou muito, mas seus olhos encararam o teto antes de responder.
- Bella é a filha do Charlie. Você sabe, o policial daqui da cidade.
- O Sr. Charlie? – Claro que eu o conhecia. Todo mundo conhecia. – Ele tem uma filha?
- Sim. Ela veio morar com ele há dois anos.
- Dois anos? - perguntei espantada. – Como assim dois anos e eu não sei quem é? Preciso rever minha vida social. – pensei alto.
- Resumindo, ela e Edward se apaixonaram. – Jacob continuou sem me dar atenção.
- E o que tem isso a ver comigo? E não minta porque ouvi muito bem alguém falar esses nomes no quarto, durante a mal fadada tentativa de fingir que dormia. Então eu não cairia tão facilmente em uma mentira.
- Edward é um vampiro.
Eu não estava preparada para isto. Demorou alguns segundos para que eu compreendesse o total significado.
- Não! – Respondi, me negando a acreditar. Vampiros estavam surgindo de todos os lugares.
- É sim Jennifer. Mas ele não um cara mal... apenas fedorento.
- Como? – Eu já não estava entendo mais nada.
- Esquece. Concentre-se apenas no fato de que ele é um vampiro que não é mal.
- Você quer dizer um vampiro bonzinho? Tipo boa-pinta, que não mata pessoas e que não chupa sangue?
Isso era diferente para mim. Quer dizer, quem imaginaria um vampiro bom? Espera aí! Quem em sã consciência imaginaria um vampiro de qualquer forma???? Melhor deixar pra lá...
- A família de Edward é vegetariana. – Jacob continuou.
- Quantos vampiros tem nessa cidade? Antes era um, depois passou para dois, agora já é uma família!
Jacob me olhou, não gostando nada do comentário.
- Continuando, eles se alimentam de sangue de ursos, leões da montanha e outros animais. Não de humanos. Isso até Edward conhecer Bella e sentir seu cheiro.
- Como assim? – perguntei curiosa.
- Não sei explicar direito, apenas que ele teve que lutar para conseguir resistir e não sugar o sangue da garota que estava apaixonado. Mas é uma história que eu não gostaria de falar muito. Quando encontrar com eles poderá entender melhor.
Entendi... A tal garota que ele estava apaixonado. Melhor não falarmos disso mesmo...
- Mas o que tem a ver comigo?
- Não precisa se preocupar. É só uma coisa que Seth falou que nos fez pensar.
- Por favor Jacob, eu quero entender. – supliquei. Eu precisava saber, descobrir alguma coisa, qualquer coisa.
- Tudo bem então. Talvez o que tenha acontecido com Edward, tenha também acontecido com esse vampiro nômade. Ele pode ter sentido seu cheiro e gostado, ficado fascinado, louco. E vampiros assim não param até conseguirem o que querem.
Minha garganta arranhou, ficou seca. Levei a xícara até os lábios e, nem ao menos, me importei com o café, que com o tempo, já tinha esfriado. Tomei tudo num gole só.
- Jeniffer, não se preocupe. Estou aqui para protegê-la. Eu, meus amigos e toda a aldeia. Você não está sozinha. – Jacob segurou minhas mãos e entrelaçou nossos dedos.
Surpresa, quase puxei a mão de volta, mas fui esperta o bastante para permanecer no mesmo lugar. Senti uma sensação diferente, boa e até mesmo desconhecida, além de outras coisinhas no estômago. Algo que me fez sorrir.
- Eu não sei o que fazer, Jacob.
- Vamos continuar a agir do mesmo modo que combinamos. É a forma mais fácil de ter você do meu lado, o tempo todo. Para a sua segurança, ok?
- Ok. – Concordei.
Jacob levantou, caminhou até a geladeira, guardando a garrafa de leite.
- E como está a sua perna?
- Bem. Tem mais coisas que eu quero perguntar. – eu não queria perder o foco.
- Tudo ao seu tempo, Jeniffer.
- Mas Jacob, você, seus amigos... Eu não entendo.
- Está quase amanhecendo e amanhã será mais um dia de aula. Vá para seu quarto e tente dormir um pouco. Tudo bem? Depois conversamos mais. Você é corajosa, vai superar isso logo.
- Mas Jacob...
- Boa noite Jeniffer.
Continua...
Valeu gente, vocês estão me dando a maior força! Beijos para todo mundo.
