Se você começar a tomar banho frio, no primeiro impacto pode ser horrível, mas depois você se acostuma, se você tomar um sorvete e depois tomar água gelada, a água não vai parecer tão gelada, se você sofrer um acidente e sobreviver, cair de bicicleta não vai te deixar tão mal. Tudo se resume em diminuir as expectativas. No entanto, isso não funcionou muito bem comigo quando encontrei Alyson e suas amigas no banheiro da escola, dois dias depois dela ter me dado um soco. A vida é estranha e as coisas sempre podem ficar piores!

No princípio, quando percebi o movimento no banheiro feminino (isso mesmo, novamente no banheiro), não me preocupei muito. O lugar tem várias repartições com portas de madeiras para que as alunas possam ficar à vontade sem ter de fazer xixi na frente dos outros. Então, eu estava bem tranqüila, mas frustrada. Lógico que eu não me atreveria a deixar minha proteção e, conformada, sentei na tampa do vaso esperando elas saírem. Ergui as pernas, abraçando os joelhos, de modo que se eles olhassem por debaixo da porta não veriam nada. Apesar do frio e da chuva que caía do lado de fora, eu estava superaquecendo e o suor escorria pelo meu rosto, descia pelas minhas costas, deixando uma sensação incomoda. Mas eu não tinha opção. Não estava preparada psicologicamete para enfrentá-la, principalmente estando num banheiro deserto.

A conversa estava chata, aliás, como tudo nelas são. Enquanto elas discutiam sobre cabelo da moda, maquiagem da moda, roupas da moda, tendências da moda e tudo mais que diz respeito à moda, eu divagava tentando encontrar conversas mais chatas do que a delas: talvez se conversassem sobre o sistema político da Alemanha, ou sobre movimento separatista de Gibraltar, ou sobre o escândalo de corrupção no Chipre, ou quem sabe sobre o a atração gravitacional e os buracos negros.

Após vários minutos sendo torturada com aquelas vozes de desenho animado, um assunto me chamou a atenção: garotos, mas precisamente Jacob.

- Então Alyson, o que você pensa em fazer com relação a Jacob? – uma voz disse curiosa e eu decidi prestar mais atenção à conversa.

- Qualquer coisa. Ele vai ser meu e aquela idiota da namorada dele vai pagar por sua ousadia.

Meu sangue gelou e elas sorriram satisfeitas. Sabe aquelas risadas de filme de terror? Idênticas, como se estivessem incorporando um espírito demoníaco.

- Jacob não vai resistir a mim. Ele é um garoto e que garoto resistiria a um corpo assim como o meu? Logo, logo ele vai esquecer aquele nojentinha.

Outra coisa que eu odeio: meninas que se acham "a gostosa". Fala sério, tem coisa pior do que isso?????? Bom... tem, mas em todos os casos, isso não fica muito atrás.

- Falando nisso, vocês não acham meio estranho esse namoro dos dois? Eles não se beijam ou se abraçam, apenas desfilam de mãos dadas.

- Eu também já tinha reparado! – disse outra voz, que tinha se mantido em silêncio até aquele momento.

Ops!!! O sinal vermelho disparou. Será que elas tinham percebido alguma coisa? E se elas perceberam, a escola toda deve ter percebido!!!

- No princípio eu pensei que ela fosse daquelas puritanas, sem noção e que não sabem aproveitar a vida. Mas agora, sei lá!

Claro que eu não sou tão puritana assim. Se eu estivesse namorando o Jacob de verdade, não ficaria somente de mãos dadas com ele. Que garota de 15 anos perderia a oportunidade de dá uns amassos no garoto mais quente da escola?

- Não, não, não! Tem alguma coisa ali. E vocês sabem que se realmente tiver, eu descubro. E daí Jacob poderá ser meu!

Depois daquele curto diálogo, prestar atenção ao restante da conversa se tornou impossível. É claro que eu não beijava o Jacob, nem ficava abraçada com ele. Estávamos fingindo! Mas deveríamos ter percebido. Era questão de tempo para que as pessoas começassem a ver alguma coisa errada. O que um garoto popular como Jacob teria visto numa garota como eu? Poderia apostar que toda a escola também se perguntava.

Para minha sorte, elas não permaneceram muito tempo depois no banheiro, e assim que percebi o silêncio, abri a porta com cuidado, respirando com dificuldade. Não saberia dizer se eu me sentia com medo ou agradecida de ter escutado aquela conversa. Não poderia ficar parada, precisava urgente conversar com Jacob.

Mas a conversa teria que ser adiada, porque ali, bem na minha frente, estava Alyson e suas amigas, com sorrisos cruéis estampados nos rostos perfeitos.

- Olha quem está aqui! Não foi muita sorte ter esquecido minha bolsa???

Aquela vontade de socar Alyson tinha desaparecido completamente naquele momento, sendo substituída por uma vontade urgente de escapar dali. Você pode pensar que eu sou covarde, mas eu não sou. Jamais fui. Muito pelo contrário. Eu já briguei muito com a vida e tenho conseguido resistir, lutar, encarar e passar por cima. Agora as brigas físicas deixam evidências no corpo e não sei lutar contra o agressor, principalmente 15cm mais alto e acompanhado.

Completamente cercada, permaneci ali, de pé, olhando as patricinhas sorrirem para mim com as mãos na cintura.

- Sabe ratinha, hoje estou de bom humor, e além do mais acabei de fazer as unhas. Não quero estragá-la com você. Vou direto ao ponto.

Ela não me deu tempo para falar qualquer coisa. Para mim tudo bem, quanto mais rápido acabássemos com aquilo, melhor. Pelo menos eu não levaria outro soco. Meu olho ainda tinha aquela cor meio arroxeada dos hematomas, agora indo um pouco para o amarelo e era uma lembrança dolorosa do encontro com ela dois dias atrás.

- Foi bom encontrá-la, porque assim poderei lhe dar o recado!

Recado? Isso era estranho... Talvez fosse recado de algum professor ou da diretora. Nada muito importante. Lembre-se: Não tenha expectativas!

Mas, mais uma vez não ter expectativas não funcionou.

- Encontrei um amiguinho seu hoje e ele falou muito bem de você. Ah, e mandou um recado! Bom... deixa eu me lembrar... – ela falou erguendo a mão com as unhas bem feitas num vermelho sangue, fingindo coçar o queixo, como se buscasse na memória as palavras certas. - Sim, ele disse que vai esperar por você e não vai desistir...

- Quem era ele? – perguntei exaltada.

Percebendo meu desespero, ela simplesmente sorriu.

- Ele me disse seu nome... era... Lúcios. Uma bela espécie masculina, pele muito clara, cabelos desgrenhados, mas muito atraente. Sinceramente não sei o que os caras quentes vêem em você!

Eu sabia quem era. Então seu nome era Lúcios... Provavelmente deveria ter tomado um banho pra aquela louca da Alyson achá-lo bonito... Oh, meu Deus! O que isso tinha a ver? O cara estava atrás de mim para me matar!!!!

- Eu não sirvo para garota de recado sabe... – ela continuou. - Mas ele me disse que você não iria gostar de saber, então... vim correndo te contar.

Alyson caminhou em minha direção e quando eu me preparei para me defender (ela poderia ter mudado de idéia), ela pegou a sua bolsa que estava na pia próxima a mim.

- Tchauzinho ratinha, por hoje não perderei mais tempo com você.

Sabendo terem me deixado completamente sem chão, elas saíram do banheiro gargalhando.

Droga, eu precisava falar com Jacob mais rápido do que eu pensava...

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- Então é isso Jacob. – eu falei duas horas depois, quando o encontrei na saída da escola.

As aulas já tinham terminado e estávamos no estacionamento, ele, encostado na moto, e eu, sentada no meio fio, sob a sombra de um carvalho.

- Você tem certeza? – Ele perguntou preocupado.

- Claro que tenho. – Suspirei soprando um fio de cabelo para longe do meu rosto. – O que vamos fazer?

- Você não pode ficar sozinha. Tenho que falar com os outros sobre este nome. Lúcios... provavelmente é novo, nunca esteve antes por estas redondezas, mas preciso verificar.

- Oh, santo pai... onde foi que me meti!!! – reclamei alto.

- Agora é tarde para isso. E tem também o fato da Alyson ter percebido algo errado no nosso namoro. Não... isto não está dando certo.

- Eu avisei! – Disse me levanto, começando a caminhar a esmo (como sempre faço quando estou nervosa). – Talvez seja melhor sermos amigos.

- Não! Sendo seu suposto namorado, posso ficar de olho em você, ficar contigo durante a maior parte do tempo. Amigos de pouco não se relacionam assim.

- Eu sei, mas não devemos nada para ninguém e ninguém tem nada a ver sobre a forma como levamos nossa amizade. Eles já estão falando de qualquer jeito...

- Eu sei, mas um namoro evita ter que dar muitas justificativas e confesso que não tenho muito paciência com essas garotas da escola. Desse jeito, você acaba me fazendo um favor também.

- Como? – perguntei não querendo acreditar no que ele estava dizendo.

- É isso. Não agüento mais estas meninas atrás de mim como se eu fosse o último garoto da escola... do país... do mundo! Não estou dizendo que elas não são gostosas. Cara, elas são... Mas quando abrem a boca...

Minha vontade era de gargalhar!!! Nunca gostei tanto de estar enganada na minha vida!!!

- Posso te falar uma coisa? – Perguntei depois que consegui me controlar.

- O quê?

- Você me enganou completamente...

Jacob sorriu para mim.

- Eu sei... Agora que tudo está esclarecido, precisamos fazer alguma coisa.

- Mas eu não sei o quê.

- Eu sei! Precisamos ser mais convincentes. – Jacob disse decidido.

- Como?

- Amanhã você verá.

Senti uma queimação no estômago diante da promessa. Será que tudo ficaria pior ou melhor?

Oi gente!!! Desculpas pelo atraso e obrigada pelos comentários.

Oba!!! Comentários de leitores novos!!! Adorei!!!