O medo é uma sensação singular. Segundo o dicionário, significa: sentimento de grande inquietação ante a noção de um perigo real ou imaginário, de uma ameaça. Mas na verdade, não é um sentimento de todo ruim, pois é ele que nos impede de colocar a mão no fogo, de enfiar o dedo na tomada, de acariciar uma cobra e de pular de cima do telhado. Mas quando o medo paralisa nossas ações, se torna um problema e aí nem todas as definições são capazes de nos dizer sobre o que fazer com ele.
Agora vamos supor que você esteja tranqüila, contemplando a lua cheia na madrugada, sozinha no seu quarto, olhando para a janela e, de repente, você vê um lobo de proporções enormes, com pêlo castanho-ferrugem e olhos negros como a noite, provavelmente com uma boca cheia de dentes afiados. Você sentiria medo? Medo de quê? Certamente de ser devorada ou de ter o corpo destroçado antes de morrer. Uma projeção do futuro que ainda não aconteceu, levando-se em conta que isto é apenas uma suposição.
Mas o que você faria se essa situação fosse real??? E se você tivesse tomada não mais pelo medo, mas pelo horror (que é o medo elevado ao cubo)???
Sairia correndo? Gritaria por ajuda? Esconderia debaixo da cama? Cobriria a cabeça com a coberta? Rezaria para todos os Deuses? Eu não fiz nada disso. Simplesmente fiquei ali, completamente assustada para sequer me mover.
O lobo estava a apenas alguns metros da minha janela, olhando diretamente para mim. Como a luz do quarto estava apagada, ainda tive uma pequena esperança de não ser notada, mas quando me lembrei das aulas de biologia, a esperança se desvaneceu. Os lobos enxergam duas vezes mais do que os seres humanos e tão bem de noite quanto de dia. Enxergam até coisas que escapam ao nosso olhar. Então eu sabia, ele me via.
Aquele animal não era normal, tinha algo quase humano na forma como os olhos estavam cravados em mim que não deixava margem para dúvidas. Eles brilhavam e me olhavam com tanta profundidade que era como se eu me afogasse naquela imensidão negra. Era tão intenso que congelou minha coluna.
De forma surpreendente, o medo então começou a diminuir, tornando-se apenas uma sensação incomoda que palpitava com o meu coração, porém quase imperceptível. Outra sensação veio surgindo e não me assustava: o fascínio. Eu estava fascinada pela forma que ele me olhava, fascinada pelo seu tamanho, pela sua cor, louca de vontade de passear os dedos sobre aqueles pêlos grossos, para descobrir se eram tão macios quanto eu imaginava.
Com as patas largas, ele caminhou pela escuridão, os músculos fortes se contraindo, os pêlos grossos dançando no ar com a força do vento, sem jamais desaparecer do meu foco de visão. Depois de alguns instantes e novamente de frente para a janela, ele ergueu a cabeça, cheirou o ar e suas orelhas giraram para trás como se atendesse o chamado silencioso de alguém. Por alguns segundos, ele ainda manteve o olhar fixo em mim, como se não quisesse partir, e desapareceu no meio da mata.
Eu ainda estava atordoada pelo encontro, meu coração pulsava rápido no peito e minha respiração ainda não tinha se controlado quando meu celular tocou. Tentando ganhar tempo e com as mãos trêmulas, demorei mais do que o necessário para atender.
- Alô.
- Oi, Jen. É a Ruth.
- Ruth? Aconteceu alguma coisa?
- Nada Jen, quer dizer... aconteceu mas não precisa se preocupar.
- Você está me assustando. (mais do que eu já estava)
- Não é nada contigo. É só que... vou ter que viajar.
Suspirei aliviada. Lancei um olhar pela janela antes de voltar a me concentrar na ligação.
- Mas Ruth, não querendo ser grossa, mas você me ligou à essa hora só pra dizer que vai viajar?
- Desculpe Jen. Não é bem uma viagem... está mais para mudança... para outra cidade – ela disse com a voz falhando.
Foi aí que a verdade me atingiu como um raio, fazendo-me sentar na cama, quase sufocada pela emoção.
- Como? Você está indo embora? Não! Você não pode me deixar, é minha amiga. Minha única amiga. O que vou fazer sem você? Não, você não vai. Entendeu Ruth? Ruth?
Percebi então que ela chorava, e isso cortou meu coração.
- Oh, Jen... tenho que ir. Eu sinto tanto, mas vovó está muito doente e papai pediu transferência para poder ficar perto.
Minhas lágrimas se juntaram a dela e nós duas ficamos assim, chorando, cada uma agarrada ao celular, mas com os corações bem próximos.
- Porque você não me contou?
- Eu ainda tinha esperanças de tudo melhorar, sabe? Mas não deu...
- Você vai morar onde? Talvez possamos no encontrar nos finais de semana. – Eu disse tentando encontrar uma saída.
- Na Pensilvânia. – Ela disse soluçando.- Oh!
Muito longe. Do outro lado do país. Minha amiga estava partindo.
- Ruth... eu sinto tanto.
- Eu também...
- Mas ainda podemos conversar pelo telefone, não é? - Tentei animá-la. - Vou dá um jeito de conseguir algum dinheiro, comprar um computador, pra gente conversar pela internet. Tem também o laboratório de informática da escola...
- Eu sei. – ela fungou.
- Vamos conseguir, ouviu Ruth? E mesmo distante, ainda vamos ser amigas. As melhores amigas. Te prometo.
- Tudo bem. – Ela concordou. – Agora preciso desligar, Jen. Mamãe está aqui no quarto comigo, estamos terminando de arrumar as coisas. O avião parte às 5hs da manhã...
- Ruth, fica tranqüila, ok? Não se esqueça de mim que eu não me esquecerei de você. Lembre-se sempre que a verdadeira amizade não se perde no tempo e nem na distância.
- Queria tanto de dar um abraço, Jen. Eu sinto tanto por te contar por telefone, ainda mais essa hora, mas não tive coragem de ligar antes.
Um sentimento ruim se apossou de mim. Era eu que deveria sentir culpa, não Ruth. Fui eu que me afastei sem querer, perdida demais na confusão da minha vida. Deveria ter notado algo, ter estado mais perto dela. Agora era tarde, mas apesar da tristeza, eu ainda conseguia me sentir tranqüila, sabendo que Ruth estaria longe do perigo
- Sinto-me abraçada por você querida, e quero que se sinta abraçada por mim também.
- Tchau Jen. – ela se despediu.
- Tchau Ruth. Por favor, me liga quando chegar.
- Ok. Tchau.
Ela desligou e eu fechei os olhos, já chorando de saudade. Mais uma vez sozinha, mas uma vez deixada para trás na caminhada da vida, enquanto todos à minha volta avançavam.
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Deitei-me, mas o sono não vinha. Rolei para todos os lados, cruzei as penas, os braços, cobri a cabeça, contei carneirinhos. Suspirando alto, vesti meu roupão, o amarrei na cintura e não muito certa do que fazer, deixei a proteção da casa. A madrugada já ia alta, a escuridão não me deixava ver nada e mesmo sabendo que naquele mesmo lugar, a pouco menos de 1 hora, um animal parecido com um lobo esteve me encarando, eu decidi sair. Foi um acesso de loucura e somente depois, na segurança da minha cama, é que viria a pensar no tamanho da minha burrice, mas ali, naquela hora, tudo parecia natural, seguro.
A escuridão sempre me fez bem. A noite me atrai, me faz pensar em mim mesma, é o meu refúgio, pois ninguém pode me ver, reparar meus defeitos, não importa quem eu sou ou o que faço e nem o que tenho.
Caminhei pelo assoalho de madeira e decidi permanecer na varanda, sentando num banco de dois lugares. O ar estava frio e o barulho dos animais não me assustava, até que algo no meio das árvores chamou minha atenção. Os galhos dançavam como se algo os estivessem deslocando, mas não ventava. Somente uma brisa fria soprava mansamente. De repente, as vozes da noite silenciaram, tudo ficou mudo, em estado de espera. Uma sombra alta deslizou por entre as árvores e assustada, ergui o corpo rapidamente, deixando meus pés me levarem, a passos lentos, de volta para a porta de entrada.
Quando me preparava para correr, Jacob surgiu, caminhando a passos largos até mim. Estava sem camisa, vestindo apenas uma calça larga de moletom. Gemendo de alívio (ou não), deixei meus olhos percorreram o peito musculoso e a barriga lisa. Estava tão bonito sob a luz da lua, que daria qualquer coisa para tocá-lo naquele momento.
Ele me olhou assustado e aqueles olhos deixaram uma sensação estranha em mim.
- O que você está fazendo do lado de fora? - Ele perguntou sem rodeios.
- Não consegui dormir. – respondi aliviada.
- E por acaso está tentando dormir aqui? Ou está tentando se matar?
Não querendo começar uma briga, acalmei minha respiração antes de responder.
- Não. Além do mais não tem mal nenhum em respirar um pouco de ar puro.
- Você sempre me surpreende. – ele começou. - Sabe que sua vida está em perigo e mesmo assim não sente medo.
- É claro que eu sinto medo, mas aqui eu sei que estou segura. – falei a verdade.
- Não está realmente assustada agora?
- Não.
- Mesmo depois...
Ele se calou antes de completar a frase e se aproximou de mim, colocando os braços sobre meu ombro.
- Venha, vamos para dentro que já está quase amanhecendo.
Eu o deixei me guiar, sentindo o calor do seu corpo. Mas a sensação não durou muito, porque assim que entramos, ele foi para o seu quarto me deixando sozinha na sala e deixando uma pergunta no ar: O que ele estaria fazendo lá fora, no meio da mata, àquela hora?
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Obrigada mesmo gente! Eu estava meio desanimada, mas os reviews me animaram novamente.
Às minhas queridas que sempre comentam: as palavras de você são sempre incentivadoras. Obrigada!!!
Às pessoas que comentaram pela primeira vez:
sweet present of nature: Sério???? Fiquei surpresa e envaidecida. Obrigada!
Bunny93e Nat Black, Biaa e leh lima, Caa3, Veronica D. M.: muito feliz por estarem acompanhado minha fic. Espero que continuem e que gostem! Obrigada também!
Se esqueci de alguém, por favor me perdoe.
Beijos.
