O dia amanheceu melhor e a chuva deu uma trégua. Arrastei-me para fora da cama com muita dificuldade, abandonando o calor do meu edredom e sentindo cada músculo do corpo doer pela noite mal dormida. Erguendo os braços e os alongando, respirei fundo de forma a afastar o sono e girando os olhos para o espelho, quase gritei diante da imagem à minha frente. Eu estava horrível. Observei as olheiras profundas devido a poucas horas de sono, analisando o tom arroxeado contrastando com a pele muito branca. Teria que dar um jeito com as poucas coisas que tinha, mas ficaria para depois. Vesti uma calça jeans, um agasalho de moletom e procurei rapidamente pela escova em cima da penteadeira, dando uma ajeitada nos cabelos antes de deixar o quarto.

Dirigi-me para a cozinha encontrando Jacob sentado à mesa e tomando um copo de leite. Diante da imagem dele segurando um copo, ergui a sobrancelhas em sinal de interrogação.

- Bom dia! – Ele me cumprimentou.

- Bom dia. – Respondi. –O que isso significa? – Perguntei apontando para sua mão, enquanto me servia também.

- Isso? Resolvi ser um pouco mais educado. Então, o que acha?

Sentindo o mau humor ir embora, falei satisfeita:

- Acho perfeito!

- Imaginei...

Após aquelas poucas palavras, ficamos em silêncio, cada um perdido em seus pensamentos, mas não era algo desconfortável. Sentei ao seu lado sorvendo um pouco do leite quente, olhando atentamente pela janela, lembrando a noite passada e o misterioso animal que rondava minha janela. Talvez por curiosidade, não sei bem ao certo, decidi pesquisar sobre os lobos na biblioteca da escola ou durante as aulas de informática, apesar de ter quase certeza que o que eu tinha visto não era um animal comum.

- Quer dar uma volta? – Jacob perguntou me tirando do devaneio.

- Agora? E a escola?

- Ainda está cedo. Prometo que não vamos demorar.

- Tudo bem. – Concordei.

Caminhamos por alguns minutos em direção a praia que estava vazia, com ondas baixas e tranqüilas. A vegetação rasteira seguia por uma trilha, se perdendo na floresta alta que acompanhava a costa. Ao longe, gaivotas voavam e mergulhavam nas águas profundas em busca do seu alimento. Contemplei toda aquela paisagem e a vida que se desenvolvia ali e então, decidida, caminhei até o mar e senti a água gelada com as mãos. Estava tão fria que meu corpo tremeu, mas eu não me movi. O movimento das ondas, o canto dos pássaros, nenhuma voz humana, tudo me deixava mais sensível e justamente naquele momento, minha mente decidiu se lembrar de Ruth, dos momentos que passamos juntas, dos seus loucos conselhos, da sua presença em minha vida desde que me lembro por gente. Eu me sentia entorpecida demais para me mover. Deixei meus olhos vagarem pela beleza do mar e uma lágrima solitária rolou por minha face. Foi então que senti dois braços fortes me erguerem e me abraçarem. Perdida no calor estranhamente confortável daquele corpo, deitei minha cabeça em seu peito e sem me importar se estava molhando sua camisa, outras lágrimas se juntaram à primeira e chorei copiosamente. Ele ficou ali, calado, deixando seus dedos passearem pelo meu cabelo até eu me acalmar.

- Tudo bem? – Assim que me acalmei, Jacob perguntou preocupado.

- Sim...

- Aconteceu alguma coisa?

- A Ruth... ela foi embora. Mudou-se para Pensilvânia. Você sabe... longe demais...

- Eu sei. Mas vocês ainda podem ser amigas.

- Claro sim. É só que... ela é minha única amiga e agora estou sozinha. – Falei sentindo um vazio no peito.

- Você não está sozinha. Eu estou bem aqui.

- E quando tudo isso acabar? E quando você voltar a ser o Jacob de antes e eu ser a Jeniffer de antes?

- Eu sempre fui e serei este Jacob, Jeniffer. Nada disso vai acabar, ok? Não vou te deixar sozinha.

- Sério? – Perguntei aliviada. Ruth sempre faria falta, mas saber que teria alguém para chamar de amigo, era muito importante.

- Sério. Além do mais, muitas vezes não podemos prender as pessoas às nossas vidas. Precisamos deixá-las partir, viver o que elas têm que viver. – Jacob disse enxugando minhas lágrimas e então percebi que nenhum garoto, até hoje, tinha sido tão legal comigo. – E não fique pensando no futuro, ok?

- Ok. - Respondi mais animada.

- Venha, vamos para aula que hoje vai ser um dia daqueles! E ainda temos que passar em casa.

- Vamos. – Concordei deixando um sorriso brotar em meus lábios. – Mas quem chegar por último vai ter que fazer os exercícios da escola do outro!

Ele riu, olhando para cima

- Mas como você vai fazer meus exercícios se está no primeiro ano e eu no terceiro? - Ele perguntou achando graça.

- Isso não importa. Olha! Tem alguém te chamando ali. - disse apontando para trás.

- Quem? - Ele perguntou girando o corpo.

Aproveitando a distração, saí correndo feito louca.

- Quem disse que você vai ganhar? – gritei já uns 5 metros na frente.

- Isto não vale! – ele exclamou e começou a correr.

Senti-me de volta à infância, correndo junto com os meus amigos do orfanato. Tudo era tão simples e bom. Mas ali era bem melhor, porque convenhamos brincar e correr com crianças de 6 anos era bem diferente do que ter um rapaz de quase 18 anos correndo atrás de você.

Já cansada, vislumbrei pelo canto dos olhos que Jacob não demoraria a me alcançar. Pouco tempo depois, senti o corpo masculino se projetando sobre mim. Caímos no chão, rolando na areia molhada e rindo alto. Nossos olhos se encontraram e eu me perdi em sua escuridão, numa sensação estranha de reconhecimento. Mas não tive muito tempo para pensar sobre o que aquilo significava, porque o cheiro do perfume de Jacob mais intenso, o calor do seu corpo mais quente, seu hálito fresco e perfumado davam-me a nítida sensação de estar viva e completamente assustada. Tudo parou, não se podia ouvir mais o barulho das ondas e nem o canto dos pássaros, até mesmo meu coração tinha parado para depois bater descontrolado no peito. Os dedos morenos de Jacob tocaram minha face com carinho e eu deixei meus olhos fecharem desejando mais. A sensação que antecede um beijo cada vez mais real. Mas então os dedos se afastaram e meu corpo sentiu o frio do vento gelado porque Jacob já não estava sobre mim. Estendo-me a mão, ele me ergueu e só então percebi alguns garotos próximos a nós, todos nos olhando com curiosidade. Os amigos de Jacob.

---

Naquele dia fomos para a escola num silêncio total. Eu me sentia mais sozinha do que nunca na sala de aula. Durante o almoço, encontrei Jacob no refeitório, pois sua turma tinha ficado presa com um professor. Novamente não conversamos sobre o que tinha acontecido na praia e após o almoço, caminhamos juntos para os jardins da escola, com seus amigos nos acompanhando.

Jacob sentou num muro baixo sobre a sombra de uma árvore e eu fiquei em pé, ao seu lado. Seus amigos fizeram uma roda, a conversa estava animada e girava em torno de carros, motos, escola, notas e os meninos ainda comentavam sobre garotas. Estava divertido e eu consegui me distrair. Tudo estava bem até que Alyson surgiu com toda sua arrogância e seu visual perfeito. Ela me olhou como um inseto antes de tocar Jacob nos cabelos.

Como namorada, deveria fazer alguma coisa, mas como falsa namorada, fiquei completamente sem ação. E se eu tomasse alguma atitude e ele ficasse com raiva? Foi então que Jacob me puxou pela mão e me colocou entre as suas pernas, afastando Alyson. Ela ainda permaneceu ao seu lado, mas completamente ignorada por ele. Eu estava radiante.

As pessoas voltaram a conversar normalmente e eu me sentia no céu. Estando de costas para Jacob sentia suas coxas pressionarem meu quadril e suas mãos tocarem minha cintura com carinho. Alyson nos lançou um olhar de ódio e ainda teve a ousadia de acariciá-lo, se insinuando, mas Jacob a afastou definitivamente, erguendo seu braço e levando sua mão até meu pescoço, jogando meus cabelos para o lado.

Quando eu imaginava que nada mais poderia acontecer de maravilhoso, senti uma respiração pesada tocando minha orelha e no instante em que os lábios mornos encostaram-se à curva delicada do meu pescoço, fiquei tonta. Eu podia senti-los se abrindo lentamente, a língua inquieta tateando a minha pele, uma mão segurando com firmeza a minha cabeça. Meu coração pulou como louco no peito e uma sensação de derretimento preencheu todo meu ser. Se eu não estivesse segura por Jacob, teria desabado no chão mesmo.

Como se percebendo tudo isso, ele me puxou ainda mais para o seu colo, me colocando quase que sentada sobre suas pernas, sem sequer se afastar da minha pele. Uma mão forte apertou-me na cintura e tive que unir todas as minhas forças para não virar para trás e beijar aquela boca como louca.

- Você está toda arrepiada. – Ele sussurrou ao pé do ouvido.

- Com você fazendo isso quem não ficaria? – Perguntei atrevida e assustada. Ele estava flertando comigo?

- Está gostando? – Ele perguntou e eu fiquei sem palavras.

Percebendo que eu não responderia, ele voltou a beijar meu pescoço, segurando minha mão direita e a tocando, demorando-se em cada dedo, rodeando-os suavemente, contornando as linhas, subindo pelo pulso e descendo novamente até que nossas mãos se uniram. Sua outra mão me prendia, apertava, forçando uma proximidade que eu não imaginava ser possível.

Tudo ao nosso redor tinha desaparecido, como se o mundo se resumisse somente a nós dois. Ondas de prazer atravessavam meu corpo enquanto a boca de Jacob mordia, sugava e escava pequenos túneis na minha nuca.

- Ei vocês! –Alguém disse e eu não consegui descobrir quem era. - Dá para se agarrarem em outro lugar e em outra hora?

O corpo atrás de mim deu um salto súbito, discreto. E só então percebi a loucura que estava acontecendo. Completamente vermelha, sorri acanhada e me afastei um pouco, enquanto Jacob levava as mãos aos cabelos, respondendo irritado.

- Se preocupem com os assuntos de vocês.

---

Espero que gostem!!! Até que enfim um pouco de ação!!