Capítulo seis: Confessar à si mesmo
Por Kami-chan
Os olhos do Uchiha quase não acreditaram no que viam caminhando em sua direção, tudo em Kamui era altamente provocador. Muito além do olhar, até mesmo a atmosfera que a cercava atraía tudo ao seu redor.
Fazia até mesmo ele desejar, pelo menos um dia de conforto rendido aos seus encantos. Mas não faria isso, homens sem futuro e sem destino não deveriam correr o risco de se prenderem à pessoas ou a sentimentos levianos como o desejo por uma bela mulher que poderia derramar-lhe lágrimas após sua já programada morte.
– Isso é roupa para treinar? – Perguntou olhando-a melhor quando chegara em sua frente.
– Não! É roupa pra matar. – Atirou o olhar pesado no Uchiha.
– Epa! A morena saiu daqui empolgada e voltou irritada. O que foi que...
O tronco que ele antes ferira com shurikens havia sido atingido por agulhas muito pequenas e finas. A surpresa o fez calar. Kamui voltara MUITO irritada com algo.
– Eu luto com agulhas embebidas em venenos que apenas eu conheço. Estas são de tamanho e calibre menor que as agulhas ninjas normais, para serem mais difíceis de ver. Alguns antídotos são demorados de se preparar, então é melhor que você não seja pego por elas. Achei que devia saber. – Disse sem se preocupar em esconder toda raiva e frustração, sem contar na indireta dada ao fato dele tentar querer saber o que a havia deixado daquele jeito. – Meus elementos nos jutsus são...
– Meus elementos? – Ele a cortou – Usa mais de um?
– Sim, uso vento e..
– Vamos descobrir na prática Kamui, você não precisa me dizer nada sobre você. Eu vou deixar o treinamento mais difícil à medida que entender bem o seu modo de luta.
– Sim papai. – Disse sem saber de onde tirava o humor repentino.
Itachi com certeza tinha uma energia que entrava completamente em sintonia com a sua. Deu um leve empurrão no ombro do Uchiha sorrindo para o mesmo sem pretensão. Em seguida virou o rosto antes do corpo ao tomar alguma distância e dar inicio ao treinamento.
– Então? – Ela recomeçou a falar quando chegou ao ponto onde queria. – É agora que eu me jogo na tua direção ou espero aqui por vo...cê?
Kamui se viu completamente sozinha no campo verde e claro. O mato alto dançava no ritmo do vento e batia leve em seus joelhos.
– Treino de defesa Kamui. Não se esqueça que você só deve agir em sua defesa. –A voz veio de lugar nenhum e todos os lados ao mesmo tempo.
Kamui tentou desviar a ideia de que aquilo seria muito chato e se concentrou enquanto ajustava uma última vez as luvas nas mãos. Sem aviso dezenas de shurekens vieram em sua direção, ela apenas se esquivou dando saltos para trás.
"Ta, aquecimento." Pensou entediada.
Mas de suas costas o moreno surgiu com uma katana. Kamui teve que ser rápida para girar a tempo de evitar o ferimento mais sério.
Torceu o braço do moreno segurando a lâmina da arma sem se preocupar com o corte em sua própria pele, puxando o oponente para perto de si e ferindo-o com agulhas que saiam ao seu comando através das luvas. É claro que tinha mentido para Itachi, não usaria agulhas envenenadas em um simples treino.
A agulha foi certeira no pescoço, mas o moreno se quer se moveu. Merda. Kamui sacou uma kunai e rasgou o corpo em sua frente de ponta a ponta no abdome e virou para o próximo ataque sem esperar para ver o clone se desfazer.
O ataque seguinte foi corpo a corpo e ali ela viu sua maior dificuldade, Itachi era forte e rápido. Ela não estava conseguindo o alcançar de forma alguma, mesmo sabendo que aquele deveria ser outro clone.
Entre as formas e meios que dava para evitar ser ferida, Kamui conseguiu pular alto e para trás e com um único selo agulhas avançaram contra o Uchiha. Aproveitando a brecha, a morena correu até sumir por trás de uma árvore e encostou-se ao tronco.
– Pra que foi que eu aceitei isso mesmo? – Resmungou baixinho, sentindo os pulmões exigirem mais ar do que o normal enquanto o corpo ainda não aquecia.
Aproveitou do abrigo da árvore para cuidar do corte na própria mão. Pensou no que faria quando saísse dali, ou melhor, quando Itachi cansasse de fingir que não sabia onde ela estava.
Da janela Sasori assistia atento aos movimentos e ao mesmo tempo confuso e frustrado com tudo. Kamui voltara a mesma menina eloquente de que se lembrava, mas a relação dela com Itachi o incomodava.
Principalmente por saber que o Uchiha não era do tipo que fazia amizades com ninguém. Então ele sente ciúme da prima, mas isso era esperado uma vez que não escondia mais de si mesmo que realmente a amava e desejava somente para si.
Mas o que fez? Deixou que a morena o visse com Deidara.
Chegou até ali disposto a mandar Deidara embora de uma vez, admitir ao loiro que nunca houve nada entre eles e que dali para frente aqueles encontros ocasionais não iriam mais acontecer. Mas o ciúme por ver Kamui próxima de Itachi o cegara.
Mas e o que Kamui fizera? Ficou ali em seu ouvido, o enlouquecendo por diversão. Como tudo em sua vida se resumia.
– Danna por que você evita conversar um. Não pode negar que tem um caminhão de coisas que precisam ser ditas.
Sasori viu a prima sumir. Itachi não tinha intenção de machucá-la, então não tinha que se preocupar se ela daria conta ou não.
Voltou sua atenção para dentro do quarto e para o loiro triste que estava sentado em sua cama, tinha que por um fim naquela palhaçada de uma vez por todas. Sentou-se na poltrona para ter certeza que a não se renderia ao impulso de dar mais atenção aos movimentos que aconteciam lá na rua do que os que se passavam diante de si.
– Sobre o que você quer conversar. – Ele viu a cara feia que Deidara fazia em sua direção, indignado como que se seu danna não soubesse sobre o que falariam – Falar primeiro. – Sasori concertou.
– Danna, você nunca diz nada e hoje quando você finalmente disse alguma coisa chamou o nome da tua prima. Eu não entendo un.
– Ah Deidara! – Ele reclamou rabugento e com ar cansado. Aquela "conversa" seria uma chateação a mais em sua cabeça – Ela estava ali caso não tenha percebido.
Tentou justificar, evitando o fato que ela induzira todo o episódio em que a presença de Deidara fora completamente esquecida. O loiro no fim parecia dar bastante importância para aquele assunto, não precisava do constrangimento extra após o fim. Fim daquilo que somente o loiro achava que tinham.
– Pior ainda un. Você pode imaginar como eu me senti? Ela é sua prima.
Sasori olhou por alguns momentos para o Iwa, pensando em que palavras deveria usar. Não queria responder a pergunta do loiro, se o fizesse acabaria entregando o fato de que naquele momento se quer se lembrava de sua presença na cena. Como poderia pensar na forma como ele se sentiria depois.
– Bom, ela não é exatamente minha prima...quero dizer, desculpe Deidara. Está vendo, é por isso que isso não pode mais continuar, eu além de admitir que não sinto nada por você, ainda nem presto atenção em como você pode ou não se sentir com relação a isto..
– Mas danna, eu te amo! E quando se ama uma pessoa de verdade nada mais importa, nem mesmo a forma como essa pessoa recebe esse amor, desde que seja aceito. Desde que haja resposta.
Sasori olhou para Deidara enquanto o mesmo dizia cada palavra, pensando em como se sentia com Kamui. Em como não se importava se era por diversão que a prima permitia cada momento de prazer que já tiveram juntos.
– Isto é humilhação. – Disse sem perceber em como se interessara pela conversa.
– Não danna, é amor. E no amor não há humilhação, apenas a verdade pura e direta. Você já sentiu danna, já sentiu amor por alguém?
– Deidara você não está no lugar certo. Toda essa cena que você está fazendo não condiz com a sua posição nessa organização.
– Em primeiro lugar eu não queria vir, lembra? E em segundo, nada disso é verdade, afinal, ninguém sabe ao certo qual a relação entre o Pain e a Konan. Talvez nem haja nada de sexual entre eles, mas você acha que é algo menor do que amor que mantém a mulher origami aqui? Ou que faz ele querer proteger ela acima de tudo. Então danna, você já amou alguém em sua vida?
– Desde que a conheci. Por isso menti por ela, a tirei da vila e abri mão da promessa de protegê-la, passei esses anos todos tentando encontrá-la, reafirmei a promessa de sempre protegê-la e...
– Chama pelo nome dela enquanto goza na minha boca un.
– Não estamos falando disso. Você me perguntou se havia alguém por quem eu me colocaria em segundo plano. Este alguém é ela.
– Mas é este o caso Danna. Eu não sou tão cego e burro assim un, você não descansou até encontrá-la, trouxe-a para cá e me afastou de você para manter apenas ela por perto. Nunca se quer me tocou, mas quase teve um treco ao ver ela brincando com Pain na sala de reunião. Estava me dispensando até perder a noção das coisas olhando pela janela, onde por um acaso, ela estava com Itachi.
– Isso não tem nada haver uma coisa com a outra. – Disse apenas para omitir a surpresa com o tamanho da percepção de Deidara.
Lembrou-se satisfeito que não deveria subestimar aquele loiro. Ele usava a mesma capa que a sua afinal, e estava ali pelos dons de alto nível que possuía. A habilidade em coletar informações era uma delas.
– Para de se enganar danna, ela está lá com Itachi. Com o Itachi. – Repetiu para dar ênfase ao evento incomum.
– Cala a boca Deidara. – Dessa vez a ordem foi clara – E saia do meu quarto, eu não me interesso nem um pouco em como você se sente ou como vai se sentir, mas se entrar aqui de novo, eu juro, eu mato você. – Levantou-se e saiu do quarto, deixando o loiro para trás.
– Hei, Sasori! – Chamou Kisame quando ruivo recém tinha posto pé para fora. – Vamos assistir o espetáculo lá fora?
– Não estou interess..
– Sasori, Kisame. Por acaso aquilo lá fora é Itachi e Kamui brigando? O que aconteceu com o Uchiha perdeu a razão? – Pain havia recém entrado na sede e gritava da ponta inferior da escada para os dois.
– Na verdade é um treino. – Respondeu Kisame – Até onde eu entendi, Itachi quis treinar Kamui. – Deu de ombros.
– Treino? Com Itachi? Sasori o que a tua prima faz afinal, transforma homens em marionetes? Porque só assim pro Uchiha aceitar treinar alguém.
– Por mais incrível que pareça, ele convenceu Kamui que deveria treinar com ele. – O ruivo se viu obrigado a dizer.
– E o que vocês dois estão fazendo aí em cima, venham ver isso comigo. Se ela se sair bem com Itachi vou mandar a dupla Akasuna em missão. – Disse Pain saindo de novo para fora da casa.
– Por que ninguém acredita que ele é um cara legal? – Perguntou o peixe para o Akasuna quando ambos começaram a descer as escadas para acompanhar o líder.
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– Vai ficar quanto tempo mais escondida Kamui? – Perguntou o moreno saindo de seu esconderijo e se parando de frente à árvore onde ela estava ao ver que a morena não respondia arremessou a katana que quebrou o galho e fez Kamui cair.
– Itai – Ela resmungou caída no chão.
Em um pensamento ousado, resolveu se erguer pelos cotovelos, aparentemente sem dar atenção ao oponente. Manteve os olhos fechados com a expressão de dor.
– Droga, uma pessoa que quisesse me matar e soubesse onde eu estava simplesmente mataria, não precisava me fazer cair assim.
A expressão dela fez Itachi pensar que a luta tinha acabado. Por aquele dia ele suspirou pesado, decepcionado com a fraqueza da morena.
– Tudo bem por hoje. – Disse, mas nesse momento a morena abriu os olhos o pegando de surpresa, encarando diretamente.
– Não vai pelo menos me ajudar a levantar? – Estendeu um dos braços na direção do moreno sem desviar o olhar.
– Eu já disse que isso não funciona comigo Kamui. – Disse o moereno.
Itachi jamais desconfiaria que a sessão anterior tinha sido o bastante para que ela provasse a si mesma que ele não era imune ao poder de seus olhos. Mais do que isso, a sessão anterior fora suficiente para dar a ela dicas sobre como fazê-lo cair em seu truque. Tentar atingi-lo em cheio e permitir que ele percebesse era apenas o primeiro passo.
– Droga! – Disse muito baixinho, mas deixando que o moreno ouvisse, recolheu a mão e girou o olhar para o chão – Tudo bem, eu vou ficar aqui por um tempo. – Resmungou.
– Droga, foi só um tombo e nem foi alto! – Disse rendido estendendo a mão para a menina.
Mas no instante em que sua mão foi tomada pela dela, Kamui lhe engoliu o olhar com a força dos os castanhos avermelhados que o deixou sem reação. Itachi não era tão mais difícil de ser pego que os demais, exigia apenas um plano de sua parte. Enquanto qualquer outro seria pego somente por olhar.
Num combo rápido Kamui o puxou para o chão, onde seu corpo o imobilizou prendendo-lhe as articulações das pernas com as suas próprias e acabando com o cotovelo fortemente posicionado em suas costas. Enquanto outra Kamui vinha trazendo a katana de Itachi, deixou-a gravar o chão em frente a face do moreno e abaixou sustentando o peso de seu corpo nela.
– Eu achei que tinha dito que não caía em meus truques – Disse triunfando às fuças do Uchiha.
– E não caio.
Ela ouviu com espanto a voz que falou atrás de si. Sem mais palavras apenas lhe cravava uma arma no baixo dorso.
– E lute de verdade, quero ver usar jutsus melhores que clones de areia. – Disse ao mesmo tempo, logo em seguida o corpo ferido se desfez em grãos de areia branca e fina.
– Mas como foi que... Droga!
A morena que imobilizava um falso Itachi se livrou do clone e pôs-se a correr rápida. Kamui correu em círculos em volta do Uchiha que cuspia bolas de fogo em todas as direções.
Algumas vezes encontrava brechas entre as esferas e arremessava agulhas, aquilo estava literalmente uma brincadeira de gato e rato. Então Kamui fez vários selos, mas nada aconteceu.
Esperou, fazendo tempo com os ataques dele e quando o tempo certo chegou outra sequencia de selos foi feita. No meio de uma cegante tempestade de areia que unia suas habilidades com vento e terra, fez brotar de toda superfície do chão um tapete de espinhos venenosos.
Itachi pode recuar até uma extremidade segura e alguns minutos depois a tempestade havia cessado. Kamui havia sumido mais uma vez enquanto Itachi sentiu o chão sobre si ceder e abrir, por pouco não caiu na cratera espinhada que Kamui abrira sob o solo.
– Já chega Itachi. – A voz veio de longe e fez o moreno olhar adiante e Kamui subir à superfície.
Os dois apenas olharam para Pain que se aproximava. Alguns metros atrás dele vinham Kisame e Sasori.
– Ha Kamui e você disse que não gostava de lutar! – Kisame disse rindo
– Eu não gosto de matar, mas não é nada que eu não faça caso seja preciso.
– É. Você sabe se defender bem, apesar do Itachi ter pegado muito leve com você. – O azulado completou.
– Estava assistindo? – Ela perguntou olhando para Sasori, mas foi Pain quem lhe respondeu.
– Uma boa parte. Kamui acho que já posso mandar você em missões. Na verdade, você e Sasori podem partir hoje mesmo para a Vila da Cachoeira, Sasori sabe o que eu quero de lá. – Ele se virou e voltou para dentro de casa, deixando os primos se encarando de forma estranha, havia um clima gelado entre os dois devido aos mais recentes incidentes.
– Eu vou tomar um banho. – Ela disse baixo deixando os homens para trás.
– Kisame – Sasori começou, assim que Kamui já estava longe o suficiente para não ouvir – Pode me dar licença eu preciso falar com Itachi.
