"I drew a line for you,
oh what a thing to do.
And it was all yellow.
Your skin, oh yeah, your skin and bones.
Turn into something beautiful.
You know, for you I'll bleed myself dry."
(Eu estabeleci um limite para você,
Oh, que coisa a se fazer.
E era tudo sem graça.
Sua pele, oh sim, sua pele e ossos.
Transformaram-se em algo belo.
E você sabe, por você eu sangraria até secar.)
Yellow (Coldplay)


Parte Dois:
"Dentro da eternidade e a cada instante." ¹

—X—

VIII. 'Estremeço. A resposta ouvida / É tão exata! é tão cabida!'

—X—

O barulho dos meus passos ecoava pelas paredes de pedra enquanto eu corria em direção às masmorras. Eu sabia que não deveria ter feito nada daquilo, que não podia ter me metido. Era um problema seu — somente seu — e eu piorei tudo quando interferi.

Mas quem, em sã consciência, teria ficado de braços cruzados apenas assistindo, sem fazer nada, até o fim? Foi tão... degradante. Mas eu entendi a sua reação. Entendi quando, em vez de me agradecer, você simplesmente deu as costas e foi embora, apressado, sem olhar para trás uma única vez. Eu o envergonhara mais do que o meu próprio irmão e seus amigos juntos, privando-o da oportunidade de se defender sozinho.

Como eu podia saber se você não tinha um truque escondido na manga e deixou de usá-lo porque eu interferi? Eu agira mal e impulsivamente, igualzinho a Sirius...

O salão comunal estava vazio, assim como o seu dormitório. Saí novamente para o corredor, procurando por algum vestígio, algum sinal que indicasse que você estava por perto. Diminui o passo, ouvindo atentamente até parar atrás de uma porta que eu sabia dar em uma sala que Filch guardava materiais de limpeza. Lá de dentro, dava para escutar ruídos que se pareciam com pequenos disparos. Estampidos curtos e rápidos.

Abri a porta, murmurei um lumus e ergui a varinha para tentar enxergar alguma coisa na penumbra. Encontrei você sentado numa cadeira, o rosto voltado para cima, a mão da varinha balançando distraidamente enquanto abatia algumas moscas no ar com acenos rápidos. Então, repentinamente, suas mãos voltaram para o colo e eu o ouvi inspirar fundo, como se estivesse pensando duas, três vezes, antes de fazer qualquer coisa. Muito diferente da maneira como eu agira lá fora, perto do lago.

Eu não sabia o que dizer. Não sabia se deveria esperar seu primeiro movimento, se era melhor pedir desculpas ou se na verdade agira corretamente e agora devesse esperar você me agradecer. Balancei a cabeça e abaixei a varinha, seu rosto novamente envolto pela penumbra.

"Desculpas são para os fracos. Os impulsivos são os que 'sentem muito'. São os primeiros a morrer, os que sofrem antes de todos. Talvez não hoje, nem amanhã, mas tenha certeza de que seu sofrimento é certo. E é eterno. Nobreza e felicidade nem sempre andam de mãos dadas, será que não entende? Não entende que você não é o seu irmão? Que foi escolhido para a Sonserina e não para a Grifinória?"

Abaixei a cabeça, meus olhos fixos na luz da ponta da varinha. Escutei você se mexendo na cadeira, seguido pelo som de outro fundo inspirar de ar.

"Os grifinórios..." Entreouvi o que parecia com uma risadinha, mas me surpreendi em não encontrar desprezo na sua voz. "Eles acham que tudo pode ser resolvido com um gesto heróico. Não pensam muito e não percebem que a sua nobreza até pode funcionar na hora, mas que com o tempo ela causa mais problemas do que soluções. Eles nunca planejam coisa alguma. É tudo na hora, para já, para ontem. Não pensam que a vida não existe apenas no presente. Toda ação do hoje traz conseqüências catastróficas para o futuro. Uma interferência, mesmo que pequena, às vezes pareça a coisa certa a fazer, na hora, não é mesmo?"

Balancei a cabeça, concordando em silêncio. Estava escuro. Eu não sabia se você podia me ver, mas você continuou, como se estivesse vendo.

"Eu deveria lhe agradecer, Regulus." Sua voz soava reticente, quase arrependida. "Deveria, porque confesso não ter pensado em nada que tivesse me livrado daquela situação em especial, mas... se eu lhe agradecer pelo seu heróico gesto, eu estarei insultando o símbolo que você carrega no peito. É isso que você quer?"

"Não." Respondi rápido, mas a palavra me pareceu errada no instante seguinte. Intimamente, eu sabia que teria ficado feliz com um simples e rápido obrigado. "Eu... eu não sei."

"Não há nada de errado em ser um herói, Regulus. Nem em fazer o que você acha certo, se é isso que está te preocupando."

Ergui a cabeça e a varinha. Você continuava sentado, mas agora tinha apoiado as costas na cadeira e me fitava, o rosto dividido entre o divertimento e a exasperação.

"Então...?"

E você pareceu fazer um grande esforço para não rir da minha expressão confusa quando respondeu com simplicidade: "O problema é quando os seus atos em prol do bem-estar alheio te prejudicam de uma forma ou de outra."

Arregalei os olhos e deixei a boca pender.

"Pegou uma detenção por atacar seu irmão e Potter, não estou certo?"

Senti o rosto quente e desviei o olhar, orgulhoso e irritado. Como você podia saber? Já tinha desaparecido na entrada do castelo antes que McGonagall desse as caras...

E eu só percebi que você se levantara quando escutei o trinco sendo aberto e vi um facho de luz fraca escapar do corredor, iluminando sua silhueta junto à porta.

"Nenhuma boa ação permanece impune. O peso de um 'obrigado' não é tão simples assim de se carregar."

—X—

IX. 'Vai-te, não fique no meu casto abrigo / Pluma que lembre essa mentira tua.'

—X—

Foram gritos que me acordaram naquela manhã de natal. Gritos da minha mãe. Abri os olhos sentindo um misto de medo e confusão. Eu não conseguia distinguir as palavras, mas reconheci o tom. Walburga Black só gritava daquele jeito com uma pessoa no mundo todo...

Vesti um roupão por cima do pijama e desci as escadas pulando dois degraus de cada vez, igual quando eu e Sirius éramos crianças e tentávamos ser mais rápidos para surpreender o Papai Noel, enquanto ele colocava nossos presentes debaixo da Árvore de Natal.

Parei derrapando diante da cena que se desenrolava na sala de visitas. A árvore ainda era a mesma, mas este ano Kreacher a decorara com centenas de minúsculas luzes prateadas. Os embrulhos coloridos dos presentes destoavam do óbvio clima sombrio que se instalara no lugar.

Sirius era quem estava mais próximo da porta. Vestia a mesma roupa da véspera, um conjunto de trajes de gala que ganhara de nossos tios e que usara na ceia. Não me admirei em perceber que a frente de suas vestes estavam rasgadas e não demorei para reconhecer o pedaço de tecido azul-escuro que minha mãe segurava com força em sua mão direita. Ele combinava com o restante das vestes de Sirius.

"Mãe, Pai... o quê?"

"Volte para o seu quarto, Regulus." Disse minha mãe naquele tom quase amável que sempre usava comigo. E comigo. "Isso aqui é entre seu irmão e nós."

"Francamente tia," Bellatrix saiu das sombras com Narcissa em seus calcanhares. Procurei por meus tios com os olhos e os encontrei postados atrás das filhas, os ombros empertigados, os olhos alertas. Ambos também usavam roupões por cima dos pijamas. "Como a senhora ainda tem coragem de considerar esse moleque um membro da família? Depois de todas as grosserias que ele disse, depois de tudo que ele fez!"

"O que eu disse foram apenas verdades, Bella." E eu me perguntei como Sirius ainda era capaz de sorrir daquele jeito, como se nada estivesse acontecendo. Como ele era capaz de debochar de Bellatrix daquela forma. Dava para ver as marcas dos dedos finos e compridos se formando na bochecha dele. Ela era muito mais velha que nós dois. E perigosa. Todos sabíamos bem com quem Bellatrix e o marido andavam. Não era esperto ser inimigo deles. "E o que eu fiz foi tentar fazer com que eles--," Sirius apontou para nossos pais, que não se mexeram. Percebi que a mão dele tremia e que meu irmão estava reprimindo sua vontade de chorar. "... que eles enxergassem a razão antes que essa família toda vá pelo mesmo caminho que você!"

Bellatrix cruzou os braços sobre o peito, o roupão rosa-claro dando-lhe um aspecto doentio em contraste com sua pele pálida. Ela também sorria, e seu sorriso era muito parecido com o de Sirius. Os dois se pareciam mais com irmãos do que eu e ele.

"Sirius, querido, ainda não compreendeu que é você quem está errado aqui? Sempre esteve. Ficou todo orgulhoso em ser selecionado para a Grifinória, envergonhando cada Black que pisou naquela escola antes de você. Nós pensamos que fosse uma fase, sabe? Coisa de criança mimada. Achamos que isso passaria, que você iria crescer e tomar seu lugar na família... que com o tempo se aliaria às pessoas certas, mas o que você fez? Só piorou. Veja só com quem você anda, se fosse apenas o Potter, que apesar de ser um idiota amante de trouxas ao menos é sangue-puro, mas como se não bastasse aquele quase-aborto filho dos Pettigrew ainda tem o mestiço de sangue-ruim do Lupin com quem--"

"Não ouse." Sirius interrompeu Bellatrix, a voz baixa e perigosa. "Não ouse falar dos meus amigos. Você não tem moral sequer para pronunciar os nomes deles. Você não tem moral para nada. Eu sei, ok? Sei bem o que você e o noivo dela-" aqui Sirius fez um aceno na direção de Narcissa, que ruborizou e estreitou seus largos olhos azuis. "- vão fazer quando saem com os seus amiguinhos por aí à noite, usando aquelas máscaras... matando trouxas!"

Prendi a respiração no mesmo instante que meus pais, meus tios e Narcissa. Apenas Sirius e Bellatrix continuavam na mesma. Ele, prestes a perder o controle e fazer uma besteira. Bella calma e, agora, decididamente sorridente.

"Ora, ora, não é que o cachorrinho dos leões andou seguindo a rastro das serpentes?" A voz de Bellatrix tinha um quê de forçada infantilidade que fez Sirius apertar as mãos, fechando-as em punho. Apenas naquele instante eu reparei que ele segurava alguma coisa dentro das vestes. Dei um passo para frente.

"Vocês vão se arrepender. Todos vocês." Sirius ameaçou erguer a varinha e eu achei que ele fosse atacar Bellatrix. Instintivamente, avancei na direção dele e segurei seu pulso com força. Seus olhos cinzas se arregalaram encarando os meus. Vi seu sorriso esmorecer um único instante antes de voltar ao normal. "Você também, Regulus. Eu vi com quem você tem andado. Eu te avisei, não avisei? Você vai acabar igualzinho a ele. Vai acabar como todos eles."

Sirius então se desvencilhou e, sem lançar um último olhar aos presentes, deu as costas e desapareceu pela porta. Em sepulcral silêncio, todos nós escutamos a som de seus passos ecoando pela escada, seguido pelo barulho da porta da frente batendo com força.

Sirius nunca entendeu. Nunca fez parte da nossa família. Ele não estava lá para ver que, quando o feitiço da minha — da nossa — mãe atingiu a tapeçaria, havia lágrimas nos olhos dela.

—X—

X. 'Seguramente, há na janela / Alguma coisa que sussurra.'

—X—

Voltei para Hogwarts depois dos feriados de natal sentindo que faltava algo. Sirius e eu nunca fomos os melhores amigos do mundo, isso era fato. Sequer nos falávamos quando cruzávamos o mesmo corredor, mas éramos irmãos e eu sabia que agora... tudo seria muito pior. Eu soube que seria no instante em que entrei no Grande Salão para jantar e corri os olhos pela mesa da Grifinória.

Encontrei Sirius e os amigos dele numa conversa aparentemente séria que se rompeu em altas gargalhadas quando o rapaz que estava ao lado de Sirius — Potter, obviamente — ergueu a cabeça, fazendo um aceno enfático e nada discreto na minha direção. Sirius acompanhou o olhar dele e... fingiu que não me viu. Simplesmente voltou o corpo e continuou a rir junto deles. Senti uma vontade repentina e imensa de correr até lá e esmurrá-lo com as mãos nuas, para que ele aprendesse que ele podia não gostar, podia renegar, mas nada mudaria o fato de ele também ser um Black. Não importava o quão idiota ele fosse. Não importava que agora ele fingisse que não me conhecia. Não importava... nem um pouco...

"Não vale a pena."

Senti uma mão me tocar de leve no ombro e, quando voltei os olhos, encontrei você parado atrás de mim. Aparentemente, eu estava bloqueando a passagem dos outros alunos e, assim, deixei que me conduzisse até a mesa da Sonserina em silêncio. Tentei não olhar para Sirius, mas foi impossível reprimir um sorrisinho quando vi sua expressão ficar sombria enquanto ele assistia a eu e você caminhando juntos. Ele sempre te odiou. Ele queria que eu te odiasse também. Mas eu não consegui.

E eu não sabia por quê.

—X—

XI. 'Entender o que quis dizer a ave do medo / Grasnando a frase: "Nunca mais".'

—X—

Eu tinha pouco mais de dezesseis anos quando descobri o motivo. Era a última noite antes das férias de verão e eu estava com medo. Pensava no dia seguinte, quando eu embarcasse no expresso de Hogwarts. Talvez aquela fosse minha última oportunidade de ver meu irmão de perto.

Mas não foi esse pensamento que me assustou. O que fez meu coração disparar sem controle foi a simples idéia de que nunca mais eu poderia levantar no meio da madrugada e ir até o salão comunal, na esperança de encontrá-lo acordado terminando um dever qualquer. Você se formara com louvor e provavelmente teria todos os NIEMs para os quais estudara. Você seria grande, eu sentia isso. Você conseguiria tudo que quisesse.

Estiquei o corpo na poltrona defronte à lareira. Lá fora já era verão, mas não havia sol que conseguisse esquentar aquelas masmorras. O fogo ainda era um bom companheiro quando se estava só. Eu gostava de ficar ali, sozinho, mas preferia que você estivesse aqui...

"O que você quer fazer com a sua liberdade?"

Abri os olhos devagar e encontrei seu rosto tão próximo do meu que instintivamente me encolhi na poltrona.

"Qual é o seu problema?" Meu tom de voz era ríspido. "Tem graça ficar me assustando desse jeito?"

Ignorando a minha pergunta, você me deu as costas e, erguendo a varinha, fez um movimento longo que atiçou a lenha na lareira. O fogo que estava morrendo aos poucos ficou mais forte. Mais quente.

"Não pretendia assustá-lo." Disse sem se voltar, ajoelhando diante da lareira e estendendo as mãos para perto do fogo. "Achei que, como um bom sonserino, você estivesse alerta."

Torci o nariz diante daquela reprimenda velada. Empertiguei o corpo, ajeitando os ombros, inconscientemente tirando alguns fios de cabelo negro que caíam na frente dos meus olhos. Encarei seus ombros, tentando contar quantas vezes você já dera as costas para mim. Eu sabia que a nossa relação, mesmo não sendo a mais calorosa de todas, era a mais próxima do que eu podia chamar de amizade. Eu me preocupava com você, embora soubesse que podia se virar sozinho. Você não precisava de ninguém.

Muito menos de mim.

Limpei a garganta na esperança de que você dissesse alguma coisa. Algo que desencadeasse uma conversa e talvez — aí sim — eu pudesse me sentir confortável para lhe desejar boa sorte e perguntar se podia te escrever de vez em quando...

"Você não respondeu minha pergunta."

Franzi o cenho tomado por um mísero instante de confusão. Ah, aquilo.

"Liberdade? O que quis dizer?"

Você virou o corpo, mas, em vez de se levantar, apoiou as costas contra uma das poltronas próximas, os olhos voltados para o fogo crepitante. Seu ar tranqüilo e sereno.

"Liberdade, Pequeno Rei," E eu senti um arrepio involuntário ao escutar você me chamar daquele jeito. "Poder tomar suas próprias decisões, fazer o que quiser sem pensar que o perdedor do seu irmão vai estar por perto para tentar ofuscar os seus méritos. Amanhã ele será apenas uma lembrança. E lembranças podem ser esquecidas. Este ano será o seu ano, pense nisso. Você deveria estar satisfeito, mas não parece."

Firmei os pés no chão, inclinado na beirada da poltrona, os braços apoiados nos joelhos e o rosto nas mãos, encarando-o com curiosidade. Você continuava olhando para a lareira como se estivesse hipnotizado pelas chamas e, parecendo não tomar consciência da minha presença, trouxe as pernas para mais perto do corpo, abraçando-as tal como uma criança em busca de calor. Senti uma vontade estranha e totalmente inapropriada de sentar ao seu lado, mas me contive bem a tempo, porque, no instante seguinte, você voltara o rosto e seu olhar era frio, como sempre fora.

"Realização. Plena, segura... única." Sua voz era tão gelada quanto o seu olhar e, apesar daquelas palavras parecerem inofensivas, eu senti medo. "Existem coisas que você só pode alcançar sozinho. Essa é uma delas."

Seu rosto foi tomado por uma expressão de quem acabara de receber um elogio graças a uma poção bem preparada e, naquela hora, eu não entendi que você dissera aquilo para me animar. Decididamente, não parecia a melhor maneira de animar alguém que sequer era capaz de dizer um simples "vou sentir sua falta". E eu senti inveja de Sirius. Ele, afinal, teria coragem de dizer o que quer que fosse. Para qualquer um.

"Você não é o seu irmão. Aprenda isso de uma vez por todas."

Arregalei os olhos, novamente seguro que você possuía uma inapropriada capacidade de ler pensamentos. Baixei as mãos para os braços da poltrona e fiz menção de me levantar. Já sabia que não teria coragem de dizer coisa alguma. A quem eu queria enganar? Eu sabia que você não daria a mínima, que não faria a menor diferença se eu--

"Fugir só é uma saída válida quando você sabe que voltará para se vingar."

E você estava sorrindo agora. Aquele sorriso de quem sabe de um grande e bombástico segredo. Um sorriso que eu odiava. Odiava porque me fazia pensar o quanto eu era idiota por me preocupar com você. Você, que não se importava com ninguém.

Desta vez eu me levantei. Num rompante. Tão rápido que deixei minha varinha escapar, rolando pelo chão até parar perto de você. Seu olhar vagou dela para o meu rosto, repentinamente corado. No mesmo instante, abaixei para pegá-la, estendendo o braço, mas você foi mais rápido e, quando dei por mim, já tinha sido puxado pelo pulso e caíra sentado ao seu lado. Você soltou uma risada meio contida e balançou a cabeça, mas não me largou.

Por vários segundos nós apenas nos encaramos em silêncio, sem que eu tivesse coragem de me mexer. Senti um nó incômodo se formando aos poucos na garganta e prendi a respiração no instante em que você virou a minha mão, de forma que a palma ficasse aberta, voltada para cima. Nela, você colocou minha varinha e usando a sua outra mão, fechou meus dedos em torno do cabo.

"Suas mãos estão geladas. Venha para mais perto do fogo."

Então se afastou um pouco para que eu também apoiasse as costas contra a mesma poltrona e me aproximasse da lareira. Em silêncio, eu o vi estender novamente as mãos na direção do fogo, esfregando-as de um modo que as sombras ganharam formas contra a parede. Apertei os olhos e soltei uma risada curta.

"Parece um pássaro." Eu disse, observando a figura refletida na parede. "Um pequeno pássaro negro..."

Você seguiu meu olhar e franziu o cenho, reprimindo outra risada. Sua reação tranqüila serviu de incentivo para que eu chegasse mais perto e estendesse meus próprios braços, imitando a posição das suas mãos. E eu sorri ao perceber que finalmente tínhamos algo em comum, mesmo que fosse uma idéia tão pueril. Abstrata. Aquela de dois pássaros negros, sozinhos, presos nas sombras da parede.

E ali, na penumbra das masmorras, eu descobri que não precisava dizer que sentiria a sua falta porque, de alguma forma... você sabia. Sabia sem que eu precisasse falar em voz alta. Sabia porque naqueles seis anos que me observara em silêncio, você aprendera a ler um livro que nunca seria aberto.

—X—

XII. 'Dize os teus nomes senhoriais; / Como te chamas tu na grande noite umbrosa?'

—X—

Foi estranho voltar para a casa nos feriados de natal daquele ano. Os primeiros meses em Hogwarts longe dos seus olhares silenciosos se mostraram mais difíceis de suportar do que eu imaginava. Não saber onde você estava ou o que estava fazendo me deixava irrequieto. Perdi a conta de quantas vezes acordei no meio da noite e fui para o salão comunal, esperando encontrá-lo lá, lendo algum livro de capa escura. E quase sempre, diante da lareira quase apagada e das poltronas vazias, eu acabava puxando uma folha de pergaminho, enquanto tentava colocar em palavras a sensação de angústia e incerteza que faziam parte dos meus pensamentos constantes.

As notícias a respeito da guerra que se alastrava pela sociedade bruxa já havia anos agora chegavam diariamente e eram cada vez mais sangrentas e perturbadoras, fosse através das páginas dos jornais e suas manchetes gritantes ou pelas cartas amarradas nas patas das corujas que pousavam na mesa do café, bicando as mãos dos meus colegas. As cartas remetidas do número doze de Grimmauld Place, por outro lado, eram rasas e superficiais, sem maiores esclarecimentos do que acontecia no mundo exterior.

Em nenhuma única linha minha mãe mencionou Sirius, nem mesmo para desaprová-lo uma vez mais. Ela, porém, escreveu repetidas vezes como estava orgulhosa das minhas vitórias no quadribol, nos estudos e como era importante ser monitor-chefe, afinal, tão logo me formasse papai poderia me indicar para um bom cargo no ministério da magia, caso assim eu desejasse. Às vezes, e só às vezes, ela tecia curtos comentários sobre aquele que se auto-intitulava Lorde das Trevas, cujo nome as pessoas passaram a respeitar e temer, apoiando e reforçando cada uma das suas idéias sobre a sociedade bruxa e seus inimigos em potencial. Minha prima Bellatrix, segundo minha mãe, sempre mencionava nas reuniões da família o quão poderoso o Lorde era e o quanto seria proveitoso que nossa família estivesse do seu lado. Mamãe sempre parecia admirada e dizia, nas entrelinhas, o quanto ficaria feliz caso eu tivesse uma conversa sobre o assunto com Bellatrix, na primeira oportunidade que surgisse.

"Regulus, querido, sabe onde seu pai está? Ah, esqueça. Venha você comigo. Temos de recepcionar os convidados..."

Era até engraçado ver a euforia de Dona Walburga com a festa de casamento da prima Cissy e de Lucius Malfoy. Tradicionalmente realizada na casa da família da noiva, a mansão Black estava decididamente diferente do seu aspecto lúgubre e austero costumeiro. Foram contratadas duas dúzias de garçons para servir a mais alta classe da sociedade bruxa, reunida ali naquela noite.

Um banquete especial fora preparado pelos elfos domésticos da família Malfoy. Kreacher passara quase um mês inteiro lustrando (duas vezes) cada um dos cristais do suntuoso lustre que iluminava todo o salão de festas. Convites com bordas douradas foram enviados a bruxos de todo o mundo, e corriam boatos de que o próprio Lorde das Trevas compareceria a cerimônia. Mas eu duvidava. Seguidores de Dumbledore provavelmente estariam infiltrados na festa, usando seus respeitosos sobrenomes naquela cruzada contra a pureza bruxa. Esta idéia em especial me enojava, mas não havia nada que pudéssemos fazer a não ser — como minha mãe não parava de me repetir aos cochichos a cada novo bruxo que cumprimentávamos com ar solene — "As aparências, meu filho. Mantenha as aparências."

Mas foi difícil manter as aparências quando uma carruagem negra sem cavalos parou junto à entrada da mansão e um pajem abriu a porta com um aceno rápido da varinha. Da carruagem desceu Bellatrix, usando um conjunto de vestes negras e vermelho-sangue, os cabelos presos no topo da cabeça adornados com pérolas do tamanho de bolotas de chumbo. Ela tinha o braço dado com o marido, Rodolphus Lestrange — alto e empertigado como um pomposo galo. Logo atrás do casal desceu um segundo homem, que reconheci imediatamente como o irmão de Rodolphus, Rabastan. Então, quando achei que a porta seria fechada para dar passagem a uma nova carruagem, foi que você apareceu.

"A nobre e mui antiga Casa dos Black tem o prazer de receber Rodolphus Lestrange, sua esposa Bellatrix, Rabastan Lestrange e--" O pajem anunciou a altos brados, lendo o pergaminho que flutuava diante de seus olhos. "Severus Snape."

Senti um sorriso involuntário se formando no meu rosto ao vê-lo franzir a testa de leve, enquanto subia as escadas de entrada, decoradas com fitas verde e prata. Você parecia decididamente incomodado dentro de suas vestes de gala negras como a noite que começava a cair sobre o largo. Seus cabelos não pareciam muito mais compridos do que a última vez em que nos vimos, mas, talvez pelo decoro da ocasião, você os prendera num discreto rabo de cavalo, assim como os demais senhores presentes.

Tentei focar minha visão na carruagem negra que se afastava devagar e logo em seguida nas enormes pérolas do arranjo de cabelo de Bellatrix. Tudo isso para não encará-lo e, assim, conseguir manter meu rosto frio e impassível, tal como mandava o figurino do jovem rapaz de família nobre que eu devia representar. O último herdeiro que poderia manter o nome dos Black limpo e inabalável. Era assim que todos me viam. Era o que eu deveria mostrar.

Nos cumprimentamos com uma leve reverência, mas, ao contrário de mim, você não parecia estar tendo problemas em controlar os cantos de seus lábios, que não deram a menor mostra de quererem sorrir. Eu senti o peso do seu olhar gelado sobre mim e engoli em seco, assistindo enquanto você se afastava, se misturando aos outros convidados.

A noite seguiu impecável. Narcissa, com sua beleza nobre e delicada, tornou-se a Senhora Malfoy diante dos aplausos de dezenas e dezenas de bruxos com vestes elegantes e sobrenomes respeitados. O Lorde das Trevas não aparecera, mas isso não significava que sua doutrina seria posta de lado em prol da festa. O brinde que Lucius Malfoy fizera a sua recém-esposa foi seguido de um entusiasmado discurso sobre a importância de se manter as relações entre os bruxos de puro-sangue e assim preservar a nossa sociedade, a cada dia mais e mais aviltada pelos mestiços e nascidos-trouxas. O som de copos sendo batidos uns contra os outros e das vivas de aprovação encheram o salão de vozes e sons, mas eu reparei que, longe de estar à vontade com aquilo tudo, você parecia discretamente tentar se afastar do centro da multidão.

Sozinho, parado no topo de uma das escadas, eu acompanhei os seus movimentos através do salão apinhado. Assisti quando você pareceu pedir desculpas e se livrar de uma roda de bruxos vestidos de negro para então erguer a cabeça e fixar os olhos na minha direção. Eu engoli em seco e apertei os dedos com mais força no parapeito do primeiro andar, desviando o olhar para o enorme e brilhante lustre. Passaram-se poucos segundos antes que a curiosidade vencesse e eu abaixasse o rosto mais uma vez.

Você subia as escadas e desviava das pessoas sem esbarrar em nenhuma delas, os olhos focados em algum ponto à sua frente, aparentemente sem se dar conta do caminho que estava tomando. Então, dando as costas para as escadas, comecei a andar devagar e fui aumentando o ritmo gradativamente até alcançar uma sala no fim do corredor, cuja porta destranquei com aceno da varinha. Era bom poder usar magia fora da escola, para variar. Acendi as velas do aposento com outro aceno rápido e já tinha alcançado a janela quando escutei o som da porta sendo aberta e fechada seguidamente.

"Vocês tem uma bela casa aqui." E eu senti um misto de alegria e irritação ao escutar a sua voz pela primeira vez, depois de quase seis meses de silêncio. "Meus cumprimentos à senhora sua mãe, ela realmente se empenhou. A festa está maravilhosa."

"Não que você pareça estar se divertindo muito." O tom da minha voz era propositalmente sarcástico e, mesmo não podendo te ver, eu sabia que você franzira o cenho por causa dele. "Por que veio até aqui? Deve estar entediado, Severus. Não gostou do discurso de Malfoy? Foi tão esclarecedor. Por que não está lá embaixo compartilhando o efeito?"

Escutei o som que lembrava uma risadinha e tentei não me mexer, embora a vontade de te encarar fosse muito grande.

"Cada um de nós está neste mundo para representar um papel. O de Lucius é usar aquelas vestes finas, sorrir um ensaiado sorriso e proferir um bem elaborado discurso cada vez que alguém lhe pergunta as horas. O meu é ficar nas sombras, em silêncio, achando tudo sem graça e desinteressante. Algumas pessoas diriam que eu represento muito bem esse papel, mas... e quanto a você? Por que não está representando também, Regulus? É o casamento de sua prima favorita e a festa está pululando de futuras pretendentes em potencial. Eu não entendo por que você está aqui comigo, quando poderia estar lá embaixo... sendo tão bom quanto um Black arrogante pode ser."

A irritação cresceu na mesma proporção em que eu virava o corpo, puxando a varinha e apontando-a na sua direção. Eu não tinha uma idéia bem estruturada de por que estava agindo daquela forma. Não era uma atitude que se esperaria de alguém como eu. Alguém na minha posição. Era o que esperariam de Sirius e sua completa falta de juízo. Mas não de mim. Eu era o filho perfeito.

Abaixei a varinha quase imediatamente, sem perceber o que estava fazendo e desviei o olhar. A verdade é que eu me sentia no pleno direito de amigo — ou o que quer que nós fôssemos — de exigir uma explicação ou uma atitude sua, por pior que ela fosse.

"Escrevi uma carta por semana nos últimos cinco meses." Disse tornando a encará-lo, minha expressão tão fechada quanto o meu humor. "Você não respondeu nenhuma delas, nem mesmo para me mandar desistir ou para dizer que estava muito ocupado fazendo algo certamente bem mais importante. Mesmo assim você tem coragem de aparecer aqui hoje e me tratar como se não me conhecesse. Eu deveria azará-lo agora mesmo. Eu deveria expulsá-lo daqui."

Eu voltara a levantar a varinha, mas você, em vez de recuar, preferiu inclinar-se na minha direção, seus olhos fixos nos meus.

"Eu gostaria de ver você tentar. Gostaria de ver você conseguir."

Deixei a mão pender frouxa ao lado do corpo, ciente de que estava fazendo um tremendo papelão com aquela atitude infantil pontuada de palavras vazias. Senti meu rosto subitamente quente e, quando tentei dar-lhe as costas outra vez, um par de mãos hesitantes fez com que eu ficasse no mesmo lugar. Parado e quieto.

Levantei a cabeça tão logo você se aproximou o suficiente para que eu pudesse me ver refletido nos seus olhos frios e escuros — com a sutil diferença de que agora eles não pareciam tão frios quanto eu me lembrava e, subitamente, eu senti orgulho.

Orgulho de mim. De você. De nós dois.

Orgulho de saber que nem mesmo todo orgulho do mundo podia ser maior do que a falta que eu sentia de estarmos ali, de uma certa forma, juntos.

Eu senti orgulho por você não ter se afastado quando eu me enchi de coragem e dei um passo à frente. Por você ter conseguido manter suas mãos nos meus braços quando nossos lábios se encostaram de leve. Por ter me segurado firme quando eu senti as pernas fraquejarem. Por não ter rido de mim quando eu engoli em seco devido ao nó que se formava na minha garganta. Por você ter me abraçado forte quando eu pensei que fosse cair.

Continua...


¹ Verso do "Soneto do Amor Total" de Vinícius de Moraes.

Notas da Autora:

(x) Primeiramente o meu "Muito Obrigada" a todos que leram, especialmente a Naki-chan, Lily Carroll, Dressa, Luiza, maryee, Cami Rocha, Maaya M., Calíope Amphora, Julia Cohn e Amelia Ebherrardt que deixaram seus comentários por aqui. Todas vocês me fizeram sorrir feito Lufa por horas, principalmente porque a maioria, pelo visto, não curte muito o Snape em romance e gostaram da fanfic assim mesmo. Well, nesse capítulo as coisas avançaram um pouco, não? Favor dizerem o que acharam!

(x) Agora, esse próximo comentário é específico para a Naki-chan, mas, por ser relativo à fanfic, talvez interesse aos demais leitores também.

Review da Naki: "(...) Mas o que mais me surpreendeu, na verdade, foi a escolha do shipper, já que não se sabe praticamente nada sobre Régulos, e eu nunca imaginei Snape dentro de um shipper. Lembro de uma matéria em uma das edições do fanzine do 3 Vassouras onde você mesma (acho) criticava este tipo de arranjo entre personagens, considerando isto até um feito patético."

Só para localizar, vou colar o trecho em questão que foi publicado no fanzine do site do Aliança 3 Vassouras (o The Quibbler, edição nº 02, matéria sobre Personagens Originais e Pseudo-Personagens Originais, assinada pela Calíope Amphora):

Palavras da Dana:"É uma tentativa patética de algumas pessoas se imaginarem no lugar de uma personagem cujo nome apenas é citado na história. As pessoas escolhem uma personagem qualquer, que ninguém sabe de onde veio nem como era, e traçam todo um histórico de amor eterno entre ela e seu personagem do coração. Eu gosto de fics baseadas em Harry Potter, não apenas com seus 'personagens' e muito menos com personagens que só têm corpo e forma na cabeça dos autores."

Esclarecendo: Não, eu não sou uma vira-casaca de opinião fraca ou coisa parecida. xD. Eu continuo achando a idéia de se pegar nomes que são mencionados numa única linha de seis livros e colocá-los como 'o' par romântico de um personagem mais famoso uma atitude simplesmente patética, no sentido de achar que eles serão mais "fortes" ou "dignos de nota" do que um personagem original "legítimo" por causa isso. Mas cada um faz o que bem quer com as suas fics, e não sou eu quem vai dizer se isso é bom ou ruim.

Agora, o detalhe é: Eu não considero o Regulus um mero "pseudo-personagem". Muito pelo contrário. Apesar de ele ter sido citado apenas no quinto e no sexto livros, Regulus Black tem todo um background que pode ser usado para se ter uma idéia de como ele realmente era. Me acompanhem: sabemos como era a sua família (pais, irmão, primas, etc.), onde ele morava, qual era a sua idade, para qual casa (de Hogwarts) ele foi, sabemos que ele se tornou um Comensal da Morte e quis voltar atrás depois, quando e (de alguma forma) como morreu... não é exatamente uma Marlene McKinnon da vida, certo? Se acompanharem a fanfic até o fim, verão que eu não precisei inventar muito do Regulus, apenas preenchi as lacunas que a própria JK deixou na história. E, cá entre nós, isso dá muito mais trabalho do que inventar um personagem do zero apenas tendo um nome como base. Explicadinho Naki? Espero que continue gostando da fanfic!