"We might kiss when we are alone,
when nobody's watching.
We might take it home,
we might take it out when nobody's there.
It's not that we're scared,
it's just that it's delicate."
("Nós podemos nos beijar quando estivermos sozinhos,
quando ninguém estiver olhando.
Nós podemos ficar juntos em casa,
nós podemos ficar juntos quando ninguém estiver por perto.
Não é que estejamos com medo,
é que simplesmente isso é delicado.")
— Delicate (Damien Rice)
Parte Três:
"E abriu o coração diante da estátua." ¹
—X—
XIII. 'Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava/ Sentia o olhar que me abrasava.'
—X—
As pessoas ainda comentavam o assunto quando eu voltei para Hogwarts no começo de janeiro. E era bem provável que eu tivesse achado que tudo aquilo não passava de boatos maldosos, se não tivesse presenciado todo o ocorrido, é claro.
Pessoalmente, o que mais me incomodava nas conversas sobre o final da festa de casamento de Lucius e Narcissa Malfoy era ser forçosamente lembrado da maneira como eu descobrira... aquilo.
Não posso dizer que fiquei surpreso. A sua ambição era tão grande quanto a sua inteligência, e escolher o lado que ganhava cada vez mais força na guerra era a decisão mais inteligente e ambiciosa que você poderia tomar. Mas, enquanto nos beijávamos, por mais idiota que isso parecesse, eu não estava pensando na minha própria vida, na minha família, nos estudos ou sobre o que faria quando terminasse Hogwarts. Não pensei em nada que não dissesse a respeito de você e eu. Pensei apenas no quanto nós dois éramos estúpidos. Em como era quente e confortável ter um dos seus braços ao redor da minha cintura e sentir os dedos da sua mão acariciando de leve os fios de cabelo da minha nuca. Na maneira como era te abraçar pelo pescoço, sentindo o seu coração batendo contra o meu.
Eu não sei dizer quando percebi que as batidas ficaram mais rápidas, mas foi no mesmo instante em que sua mão pressionou o meu pescoço com mais força do que o necessário, me fazendo apertar os olhos de dor. Então eu dei um passo para trás, confuso, massageando a pele, mas, em vez de me pedir desculpas, você simplesmente se afastou, segurando seu braço esquerdo como se ele fosse cair, e saiu da sala sem dizer uma única palavra.
Você tinha acabado de passar pela porta quando consegui me mexer novamente. Eu o alcancei no topo das escadas e, antes que você pudesse falar qualquer coisa, eu já tinha te agarrado pelo braço esquerdo, mas larguei-o imediatamente ao sentir que ele queimava debaixo dos meus dedos.
E foi como se o mundo ao nosso redor tivesse parado enquanto eu procurava pelos seus olhos em busca de uma explicação. Você então soltou um suspiro fundo como de quem acabava de desistir de alguma coisa que dera trabalho demais para ser decidida. E em silêncio pesado e quase constrangedor, você ergueu a manga das vestes, expondo a imagem da caveira e da serpente que pareciam literalmente queimar a sua pele pálida.
A Marca Negra. Como a de Bellatrix, de Rodolphus, de Rabastan e Lucius. Um Comensal da Morte. Era o que você tinha se tornado. Então era por isso que nunca respondeu a nenhuma das minhas cartas? Porque estava muito ocupado levando as doutrinas do Lorde pelo mundo bruxo? Foi por isso que você veio ao casamento? Para proteger seus outros companheiros? Não era por que queria... me ver?
E sem um outro olhar ou uma palavra eu deixei que você fosse embora, descendo as escadas para encontrar o pequeno grupo formado por Lucius e os Lestrange. Vi Narcissa com uma expressão indecifrável, parada ereta ao lado de minha tia e minha mãe, os braços cruzados sobre o peito e o buquê de lírios frouxo pendendo de uma de suas mãos enluvadas. Seus grandes olhos azuis fixos no marido que a deixava na noite de seu casamento para honrar a marca que carregava no braço.
Os nossos olhares, o meu e o dela, acompanharam os passos de vocês enquanto caminhavam discretamente para fora do salão. E não éramos os únicos. Dúzias de pescoços se viraram sem a menor discrição, os cochichos crescendo à medida que mais figuras austeras se juntavam à silenciosa comitiva. E eu fiquei com pena de Narcissa e de cada um que fora deixado de lado em prol de algo muito maior do que todos nós.
Eu não admiti a mim mesmo, mas, naquele dia, eu tive raiva do Lorde. Não podia dizer que estava surpreso, mas me surpreendi em me sentir incomodado. Afinal, eu mesmo pensava em me alistar. Porque era uma boa decisão. Porque o Lorde era um líder poderoso. Porque deixaria meus pais contentes e orgulhosos. Mas havia... havia mais uma coisa...
E vendo o grupo se afastar, eu descobri que a decisão estava tomada. Nunca fora tão simples. Eu não precisei pensar, medir prós e contras. Era apenas querer.
E eu queria fazer algo pelo mundo no qual acreditava. Eu queria deixar meus pais orgulhosos. Queria sumir para sempre com aquela sombra suja que meu irmão colocara sobre o nome dos Black.
Eu queria ficar perto de você.
—X—
XIV. 'Tira-me ao peito essas fatais / Garras que abrindo vão a minha dor já crua.'
—X—
Em Hogwarts eu voltara a lhe escrever, desta vez sem esperar por respostas. Afinal, sabia o quanto você estava ocupado e quão arriscado era me contar qualquer coisa. Quão arriscada era a vida que você escolhera viver.
Praticamente todas as manhãs em Hogwarts nós éramos brindados por um discurso do diretor, censurando as ações do Lorde e de seus Comensais, dizendo que deveríamos ser bons uns com os outros e nos unirmos. E, a cada dia em que ele se levantava, pedindo a palavra com uma tossida discreta, eu sentia a minha garganta secar de medo. Medo por você.
Foi em uma das minhas cartas que eu passei todas as datas de nossas futuras visitas a Hogsmeade, na esperança de que eu pudesse vê-lo antes de julho. Mas no fundo, bem no fundo, eu não achava que você arriscasse aparecer nas proximidades da escola, mesmo que fosse por minha causa. Definitivamente eu não esperava encontrá-lo parado do outro lado da rua quando eu e um grupo de colegas saímos da Dedosdemel naquela manhã de sábado.
Nossos olhares se cruzaram e, com o coração aos solavancos, eu dispensei meus colegas com uma desculpa qualquer, esperando que todos eles tivessem entrado no Três Vassouras antes de caminhar — num passo que eu julguei tranqüilo e nada ansioso — na sua direção.
Um aceno rápido e discreto foi tudo que você fez antes de tomar o caminho que logo reconheci levar ao Cabeça de Javali. Eu estivera lá apenas uma vez, no meu quarto ano, pagando uma aposta que perdera para outro colega da Sonserina. Não gostava dali. Era freqüentado apenas por uma sorte de gente que minha mãe nunca permitiria chegar a meio quilômetro de distância da nossa casa. Não fiz qualquer comentário relativo a isso, mas um calafrio involuntário me subiu por cada vértebra da coluna ao sentir você colocar uma das mãos nos meus ombros e me conduzir em silêncio para dentro do lugar.
Além do barman e dois clientes que conversavam baixinho numa mesa afastada não havia mais ninguém por perto, e eu soltei a respiração devagar, um pouco mais aliviado. Corri os olhos de um lado para o outro, procurando por uma mesa menos empoeirada, mas você simplesmente me puxou na direção das escadas que conduziam aos quartos do primeiro andar. Engoli em seco e um nó se formou na minha garganta quando escutei o som da porta se fechando atrás de mim.
A sacola de doces nas minhas mãos parecia pesar uma tonelada e eu não conseguia me mexer. O quarto era pequeno. A janela de vidro embaçado não ajudava na fraca iluminação ambiente, sustentada por uma única lamparina acesa sobre uma mesa de dois lugares. Próxima a ela havia uma cama de solteiro, cujos lençóis revirados denunciavam que alguém passara aquela noite ali.
Indiferente a meus olhares questionadores, você se afastou na direção da mesa, puxando uma das cadeiras para que eu me sentasse. Larguei a sacola, que farfalhou de leve ao cair no chão, o colorido dos doces contrastando com a madeira empoeirada. Assisti em silêncio enquanto você despia a capa de viagem comprida, largando-a sobre o encosto da cama e em seguida conjurava uma garrafa de cerveja amanteigada e dois copos de cobre. Soltei outro suspiro de alívio. Você riu.
"Achou que eu te faria beber whisky de fogo? Se bem me lembro, você não agüentou bem da última vez..."
Estendi a mão sobre a mesa e segurei o copo com força. Minhas bochechas queimavam. Eu não tinha coragem de encará-lo. Coragem nenhuma.
"E você se aproveitou bastante daquela vez, não é mesmo?" O sarcasmo na minha voz até poderia ter tido algum efeito, caso a minha mão não estivesse tremendo tanto. Você então me segurou pelo queixo, forçando meu rosto para cima. Sua expressão longe de ser lida ou decifrada era bem próxima do que eu poderia chamar de apatia.
"Eu não me aproveitei. Eu nunca me aproveitaria de você."
Os cantos dos meus lábios tremeram de leve enquanto eu fazia força para não sorrir. Você sequer se deu a esse trabalho e soltou meu queixo, servindo cerveja em nossos copos e levantando o seu numa espécie de brinde.
"À Morte, Pequeno Rei. A mais inexorável de todas as bênçãos".
Assisti a você virar o conteúdo num só gole e tentei imitá-lo, mas não consegui. Havia algo de perturbador naquela frase e não apenas na frase em si, mas na maneira como você a proferiu, como se ela fosse algo... belo. Eu coloquei o copo sobre a mesa novamente, minhas sobrancelhas unidas em confusão. Você não se abalou e chegou a servir outra dose para si antes de voltar a me encarar.
"Quer saber por que estou aqui hoje?"
Balancei a cabeça afirmativamente, sem perceber que agarrara as bordas da mesa com uma das mãos.
"Porque eu matei um bruxo. Um bruxo importante. Um político. Ele tinha uma esposa e dois filhos pequenos, nenhum com idade para freqüentar Hogwarts. A família precisava dele mais do que tudo no mundo e, mesmo assim, eu o matei. Sem piedade. Sem remorso. Já pensou nisso?"
Não.
"Ser um Comensal da Morte significa poder." Você continuou, seu tom de voz inalterado. "Um poder enorme. O poder sobre a morte. Sabe o que é ter nas suas mãos uma vida intocável e então tirá-la de quem mais precisa dela, num piscar de olhos? Não, claro que você não sabe. E eu vim aqui hoje para lhe dizer isso: não se aliste aos Comensais. Você não quer ter esse poder."
Os nós dos meus dedos estavam brancos, tamanha a força com a qual eu me agarrava à beirada da mesa. Era como se eu tivesse medo de cair e não me levantar nunca mais.
"Sua prima Bellatrix intercedeu pessoalmente junto ao Lorde e ele se mostrou satisfeito com a sua vontade de se alistar à nossa causa." Você se levantou, o copo seguro numa das mãos e começou a caminhar sem rumo pelo quarto. "Mas há algo que você precisa saber. Não existe volta. Eles irão pedir que você faça coisas que aprendeu a vida inteira que não se deve fazer. E você vai gostar. Vai gostar de sentir a indescritível euforia ao dizer as palavras e ver o corpo tombar sem vida diante dos seus olhos. Vai sentir o poder na palma das mãos e vai querer usá-lo outra vez e outra. E então mais uma."
Meus olhos estavam arregalados agora. Você baixara o copo ao lado da garrafa, já pela metade, e voltara a se sentar, me encarando, seus braços apoiados sobre a superfície lisa.
"Mas um dia, como este, você vai olhar para alguém do outro lado da mesa e se perguntar: e se fosse ele? Eu teria coragem? Eu faria sem hesitar?" Seus olhos se fecharam apenas por um instante e então você os abriu novamente, mas desta vez eles pareciam perdidos e desfocados. Melancólicos.
"Você está bêbado." E a minha voz estava trêmula. Se era medo ou ansiedade eu nunca soube.
"Durante sete anos eu lhe dei conselhos disfarçados de parábolas e frases feitas, Regulus Black." E o brilho dos seus olhos mudara. Agora eles pareciam perigosos. Implacáveis. Inexoráveis. Como a morte. "Eu estou sendo direto agora. Não se aliste aos Comensais por um capricho."
"Não é um capricho." Retorqui, impaciente. "É tão difícil acreditar que eu possa ter interesses genuínos? Será que você me tem em tão baixa-estima assim?"
Você balançou a cabeça, aparentemente desolado, sem saber que caminho tomar.
"Seja lá o que tem em mente, não vale a pena. Você tem um bom nome, uma boa família. Tem um futuro. Você não precisa acabar como eu."
"Por que não? Eu gosto de você. Quero ficar perto de você."
O silêncio que se seguiu às minhas palavras foram pontuados pelas trocas de olhares mais constrangedoras de toda a minha curta existência. Imagens de nós dois surgindo dentro da minha cabeça sem que eu pudesse controlar, imagens minhas no quarto, à noite, enquanto eu pensava em você e me tocava, sozinho. De alguma forma eu sabia que você estava vendo tudo aquilo. Eu senti meu rosto ruborizar, mas foi você quem desviou os olhos primeiro.
"Você não quis dizer isso." E a sua voz era mais do que séria. Era cautelosa.
"Eu quis e você sabe que eu quis. Sempre soube. Todas as vezes que olhou nos meus olhos você soube o quanto eu me importava, me preocupava, o quanto eu queria. Mas sempre ignorou isso, talvez..." e a minha voz ficou mais baixa à medida que sua expressão se tornava mais e mais severa. "Talvez eu estivesse certo no final das contas..."
"Certo sobre o quê?"
Ergui a cabeça, meu olhar firme a despeito do nó que eu sentia pouco a pouco voltar a se formar na garganta. Mas eu não consegui disfarçar a voz embargada que usei para dizer o que deveria ter dito há muito, muito tempo.
"Sobre eu gostar de alguém que não dá a mínima para mim."
Você ficou parado durante quase um minuto inteiro para então se levantar bruscamente, empurrando a mesa de lado. Instintivamente, também fiquei de pé, procurando pela minha varinha para então lembrar que a deixara junto com a sacola de doces, longe do alcance de meus dedos. Dei dois passos hesitantes para trás, sem desgrudar meus olhos dos seus, mas não demorei a sentir minhas costas batendo contra a parede. Fim da linha. Você estava muito perto agora e eu senti medo. Eu sabia que passara dos limites.
Mas em vez de puxar sua varinha para me azarar ou coisa pior você ergueu a mão vazia no ar, acertando o lado esquerdo da minha face com força. E, no instante seguinte, seus dedos já estavam firmes nos meus antebraços para me impedir de revidar. Me impedindo de perder o controle como você acabara de perder. Era a primeira vez que alguém me batia e eu não sabia como reagir. Não sabia se eu deveria revidar na mesma moeda ou xingar cada uma das suas gerações passadas e futuras. Só sabia que nenhuma delas era a reação que você esperava. Você queria ser surpreendido. E eu não sabia como.
"Pense." E longe de estar fria a sua voz parecia mais acolhedora do que eu jamais ouvira antes. "Você quer mesmo arriscar o seu pescoço por algo que nem sabe o que é? Você vira e me diz: 'eu gosto de você e se você for até o inferno eu vou junto!', mas pense. Como pode dizer uma coisa dessas? Consegue ouvir a si mesmo? Vê como soa tolo? Irresponsável? As coisas não vão funcionar assim quando você tiver isto no seu braço!"
Você me soltou apenas por um instante para puxar a manga e exibir a marca outra vez, aproximando-a do meu rosto até tocar nele. Dava para escutar as batidas do seu coração e isso me deu uma enorme vontade de rir porque eu compreendi que, no final das contas, você também tinha medo e não sabia o que fazer. E não era um medo qualquer. Aquela covardia barata de quem só quer mesmo salvar a própria pele e deixar que o resto do mundo se exploda. Era um medo quase nobre. E aquilo era a coisa mais... mais...
"O que é tão engraçado?" E a sua voz tinha um quê de impaciência que me fez rir com mais força ainda. Eu senti suas mãos me apertarem novamente, me forçando a encará-lo, minha face esquerda queimando. Eu o surpreendera. Eu rira. Eu havia entendido.
"Você. Você, Severus. Faz esse discurso tentando me impedir de fazer o que eu quero fazer apenas para não me colocar em perigo. Por que não diz de uma vez que está preocupado?"
"Pensei que achasse que eu não me importava."
"Não." Sorri novamente e balancei a cabeça, me desvencilhando de você, desta vez sem encontrar resistência alguma. Caminhei até a cama e me sentei nela, voltando a erguer o rosto, o encarando. "É diferente. Você se importa, mas não quer se importar, será que não entende?"
Mais silêncio. Era tão estranho. Normalmente eu não deixava os outros mudos e sem reação. Bom, ninguém podia me culpar. Parece que eu aprendera com você.
"O que eu quero não lhe diz respeito, Pequeno Rei."
"Ora vamos." Rodei os olhos. As suas esquivas até que tinham um certo charme, mas podiam se tornar cansativas com o tempo. O tempo. Será que nós teríamos tempo?, eu pensei. "Você veio até aqui para tentar me convencer que eu não devo virar um Comensal, porque me acha incapaz de lidar com esse poder e..."
"Eu não disse isso."
"Se não é isso, o quê é? Acha que eu posso ser morto ou coisa assim?"
Você caminhou em passos largos e apoiou as mãos nos meus joelhos, dobrando o corpo e olhando dentro dos meus olhos em desafio.
"E se for isso, o que você vai fazer a respeito?"
Afastei suas mãos com um tapa de leve. Você se ergueu sem desviar o olhar, os braços ameaçando se cruzarem sobre o peito. Inspirei fundo uma, duas...
Três vezes.
Se podia ser a qualquer momento, por que não agora?
Icei o corpo até encostar na parede, as pernas estendidas sobre o colchão. Trouxe os joelhos junto ao rosto, encostando a testa neles e inspirando fundo para tomar coragem. Afastei as pernas devagar, sentindo o tecido das calças repuxarem minha pele. Abaixei as mãos e mordi o lábio inferior. Tenho quase certeza de que fechei os olhos, mas poderia jurar que te vi empalidecer quando eu abri o primeiro botão da minha camisa.
—X—
XV. 'Como se essa palavra escassa que ali disse / Toda sua alma resumisse.'
—X—
Ninguém jamais me tocara daquela forma antes. Aliás, de forma alguma. Meus pais não foram os mais carinhosos dos pais, embora isso não tivesse nada a ver com amor ou mesmo respeito. Já Sirius erguera a mão para mim mais vezes do que eu poderia contar, embora nunca tivesse ido em frente com nenhuma de suas ameaças. E imagino que ele também fosse, mesmo que indiretamente, o responsável por estudante nenhum ter tentando algo contra mim durante meus anos em Hogwarts. Sua fama de encrenqueiro estava à frente da verdade sobre a relação entre nós não ser tão amigável assim. Os sobrenomes falavam mais alto do que os boatos. Era seguro ser um Black quando se tinha um irmão como Sirius.
E eu nunca demonstrei interesse por ninguém em especial. Não foi de propósito, entretanto. Até meus quatorze anos as pretendentes que almejavam o sobrenome Black só tinham olhos para Sirius. O mais velho, o mais bonito, o herdeiro por direito. E mesmo depois dele cair em desgraça, poucas foram aquelas a voltarem seus rostos na minha direção. Eu, porém, nunca me importei com nenhuma delas e seu mal disfarçado interesse. Sabia que sim, meus pais esperavam que, — agora que Sirius era peça fora do tabuleiro — eu escolhesse uma moça de boa família e continuasse com a linhagem dos Black. Toujours Pur.
E talvez isso também tenha se tornado uma das razões, na maior das razões,para que eu estivesse aqui, hoje, neste quarto, deitado nesta cama, o braço esquerdo erguido acima dos meus olhos acinzentados.
Eu simplesmente não conseguia deixar de admirá-la.
A marca. A Marca Negra.
Já tinham se passado várias horas desde a cerimônia, mas minha pele ainda ardia debaixo da caveira e da cobra. E, se fechasse os olhos, eu poderia desenhar os contornos da figura com a ponta dos dedos. Como agora. O quarto já escurecera totalmente. Não se escutava o menor ruído. Todos estavam fora em missão.
'Ainda há muito que fazer' foi o que o Lorde dissera antes de te pedir que me trouxesse até aqui. Você não disse uma só palavra durante todo o trajeto. Não me olhou nos olhos uma única vez e sequer respondeu quando tentei agradecer por ter me acompanhado. Então deu as costas para se juntar aos outros e me deixou sozinho com os pensamentos que me consumiram nas horas seguintes. Era óbvio que depois de quase seis meses de encontros rápidos e furtivos em Hogsmeade você desistira de tentar me fazer desistir, mas, talvez, lá no fundo, você achasse que na hora 'H' eu recolheria o braço e não deixaria que Ele me marcasse.
Mesmo no escuro eu fechei os olhos e lembrei da dor. A sensação do calor sendo pouco a pouco sugado de todas as partes do meu corpo, percorrendo cada centímetro de carne e pele até alcançar o braço. Tinha sido quase insuportável, mas eu suportei. Não houve gritos, somente fogo e sangue. O vermelho de ambos se misturando, convergindo e intercalando até se transformarem no negro da Marca.
"Satisfeito?"
Levantei da cama num salto, apoiando meu corpo sobre o braço esquerdo. E soltei um gemido baixo, quase estrangulado, quando senti a marca arder.
"Dói, é, eu sei."
Apertei os olhos, tentando enxergar na penumbra do quarto. A luz que entrava pela soleira da porta era tão insuficiente quanto suas palavras. Não era a primeira vez que nós nos encontrávamos numa situação como aquela. Meus olhos procurando os seus sem encontrar um alicerce onde eu pudesse me apoiar.
Senti o colchão afundando e instintivamente me afastei de você, as costas contra a parede. O quarto estava tão frio quanto seus dedos que se fecharam ao redor do meu pulso. A manga de minha camisa foi puxada sem delicadeza. Eu sabia que você encarava o lugar da Marca sem piscar. Dava para sentir o calor dos seus olhos em mim.
"Lumus."
Cerrei as pálpebras instintivamente para em seguida abri-las devagar, me acostumando aos poucos à luz da sua varinha. Devagar também voltei o rosto para você, que acabara de subir os dedos do meu punho até a Marca, acariciando-a sem força.
"Satisfeito?" Você repetiu, sua voz parecendo tão machucada quanto a minha pele.
Soltei um suspiro fundo, daqueles que deixam escapar no ar todas as palavras que gostaríamos de dizer e não sabemos como. Mas, talvez, você fosse capaz de escutá-las porque, em vez de insistir numa pergunta cuja resposta eu não conhecia, você simplesmente segurou meu braço e começou a murmurar algo que quase se parecia com uma canção de ninar. Um rumorejo que me deixou de corpo leve, a dor diminuindo sensivelmente. Sorri sem querer sorrir e balancei a cabeça sem saber o que mais esperar.
"Obrigado." Disse e pousei uma mão sobre a sua, apertando seus dedos entre os meus. Você balançou a cabeça em desalento e também suspirou, mas sem deixar palavras no ar, apenas uma sensação de perda tão grande que me fez sentir algo que poderia ser chamado de angústia, mas que não era. Era mais fundo. Era pior.
"Não há volta."
Era para sempre.
"Eu sei."
Fiquei em silêncio por alguns instantes e então larguei seus dedos, subindo minhas mãos e segurando seu rosto entre elas. Pela primeira vez naquele dia você me encarou de verdade e nos seus olhos eu pude sentir a vontade de chorar espelhada. Refletida. Uma vontade que eu sabia, você nunca, nunca saciaria. Porque lágrimas não resolviam problemas. Elas os criavam.
"Regulus..." Agora, além dos seus olhos, sua voz também o denunciava e eu não queria ouvi-lo porque, afinal, eu não era forte o bastante. E só havia um modo de parar com tudo. De acabar com as palavras não pronunciadas, com o choro reprimido, com aquela sensação de perda desamparada, sem nome e sem solução.
"Você não se arrepende?"
E eu fechei os olhos, aproximando meu rosto do seu e me deixei levar depois de responder um simples 'não'.
—X—
XVI. 'A porta escancaro, acho a noite somente/ somente a noite, e nada mais.'
—X—
"Vamos! Levante-se! Acha que os soldadinhos de Dumbledore vão esperar até que você se recomponha antes de atacarem novamente?"
Não havia uma única parte do meu corpo que não clamasse de dor. Não que eu imaginasse uma vida fácil, depois de ganhar a Marca, mas a verdade é que eu nunca conhecera aquele lado de Bellatrix. Para mim ela sempre fora apenas a prima mais velha, que a gente respeita e, de certa forma, teme. E mesmo sabendo que Bella era uma das mais entusiastas seguidoras do Lorde, eu nunca pensaria na minha prima como alguém tão... extremista. Sua força de vontade parecia inesgotável e sua devoção ao Lorde às vezes chegava a me assustar. E eu até arriscaria cogitar que ela não era exatamente a pessoa mais sã da face da Terra se já não soubesse que a própria Bellatrix, assim como você, era perita naquela estranha capacidade de ler meus pensamentos. Definitivamente, havia coisas que ela não precisava saber.
Foi com dificuldade que eu me coloquei de pé novamente. O brilho dos olhos de minha prima mais intensos do que a própria luz que emanava da varinha dela. Engoli em seco, desviando de uma rajada rubra que estourou o arco sustentador do teto bem acima das nossas cabeças. Ergui os braços instintivamente, numa tentativa inútil de me proteger, enquanto Bellatrix conjurava um campo de força para repelir a chuva de pedras que caíram sobre nós.
"Em guarda, moleque!" Escutei ela gritar para em seguida, com um aceno rápido, fazer com que todas as pedras no chão se voltassem contra mim em alta velocidade. Revidei com outro feitiço, transformando as pedras em uma enorme nuvem poeira.
Bellatrix sorriu meio de lado, um sinal de aprovação, ao mesmo tempo em que dava outro passo adiante, continuando a lutar. O fogo em seus olhos era cada vez maior e mais brilhante. Sua mão se movia para cima e para baixo com tanta rapidez que eu só conseguia distinguir um giro de uma estocada da varinha quando os efeitos do feitiço não pronunciado se tornavam visíveis, quando eu os sentia na minha pele. Jamais conseguiria vencê-la assim. Minha energia ia se esgotando pouco a pouco e logo não teria sequer forças para me manter de pé.
Olhei para os lados, procurando pela saída daquela situação. A galeria onde estávamos se estendia por dezenas de metros, tanto para a direita quanto para a esquerda. Dúzias de novatos, como eu, treinando todos as horas do dia. Durante as duas primeiras semanas de treinamento reconheci vários ex-colegas de Hogwarts, inclusive alunos de outras casas, além da Sonserina. Bellatrix fizera questão de ser a veterana responsável por mim desde o princípio e, se por algum instante eu achei que isso me deixaria fora de perigo, mudei de idéia depois de meia hora sob a mira de sua varinha. Bella me fazia treinar horas afinco, sem pausa para coisa alguma. Agüentei pouco mais de cinco horas no primeiro dia, antes de desmaiar exausto e ser carregado para meu dormitório, onde acordei e encontrei você sentado na cama ao lado. Eu tentei sorrir, mas até fazer isso me causava dor.
"Parabéns," seu tom de voz fora o mais próximo do que eu podia chamar de bem-humorado, embora, no fundo, você parecesse aborrecido com alguma coisa. "Acho que você bateu um recorde. Dizem que o primeiro pupilo de Bellatrix quase enlouqueceu e tentou desistir depois de duas horas de treinamento."
Eu levantara, rangendo os dentes e apoiando as costas no travesseiro. Balancei a cabeça antes de voltar a encará-lo.
"Ela deve ter pego mais leve comigo só porque eu sou da família..."
"Bellatrix não pega leve com ninguém." Você me interrompera, estalando a língua com um quê de impaciência. "Até Rodolphus evita enfurecê-la. Isso já virou uma piada entre os Comensais. Ninguém se mete com Bellatrix. Ela só se curva perante o Lorde."
Era provavelmente a primeira vez que eu ouvia você falar de alguém daquela forma, embora houvesse algo de irônico no seu tom de voz.
"E você?" Eu perguntara, sentindo o gosto metálico de sangue na boca. "Também tem medo dela?"
Suas sobrancelhas se uniram formando uma única linha, negra e estreita.
"Eu a respeito. Bellatrix é devota à causa. É a mais devota de todos. Ela é essencial para nossa vitória, uma excelente duelista e eficaz oclumente--"
"Oclumente?" Eu franzira o cenho, confuso.
Evitei sorrir quando você mordeu o lábio inferior e inspirou fundo, desviando os olhos dos meus.
"Peritos em Oclumência, a magia contra a penetração externa da mente. Um bom oclumente quase sempre sabe quando alguém está mentindo para ele, sabe disfarçar os próprios pensamentos... é muito útil. O Lorde das Trevas é o mais soberbo oclumente do qual já se ouviu falar."
"Mais que Dumbledore?"
Eu devia estar com os olhos arregalados e parecer muito com uma criança que encantada, acabava de descobrir a distância da Terra ao Sol, porque você deu um sorrisinho enviesado e balançou a cabeça antes de responder.
"Como você sabe que Dumbledore é oclumente?"
"Bem," foi a minha vez de sorrir meio de lado. "Sirius é um excelente mentiroso, mas nunca conseguiu mentir para Dumbledore. Ele dizia que o diretor sempre sabia quando ele estava tentando enganá-lo."
Suas sobrancelhas erguidas denotavam surpresa. "Nunca imaginei que vocês dois tivessem esse tipo de conversa."
"Nós não tínhamos", eu abaixara a cabeça e desviara o olhar, dando de ombros. "Mas, morando na mesma casa, às vezes escutamos coisas."
Você desceu uma das sobrancelhas, parecendo divertido. E curioso.
"Coisas?"
Esbocei um sorriso rápido que desapareceu tão logo a dor voltou a me assaltar.
"Coisas de família. Coisas dos quais não falamos, simplesmente sabemos."
Você acenou em concordância e voltou a olhar para frente. Ficou em silêncio por quase um minuto inteiro, antes de voltar o rosto e perguntar:
"Ele, o seu irmão... ele sabe?" Sua voz estava baixa, como se você não quisesse realmente ter feito aquela pergunta.
"Sobre...?"
"Nós?"
Eu sorrira, sem graça, espantado por ter sido justamente você o primeiro a colocar o que quer que tínhamos em palavras. Nós. Uma palavra tão pequena e tão complicada. Se Sirius sabia? É possível. Talvez por isso ele te odiasse tanto. Sirius, porém, não tinha mais o direito de agir como o irmão mais velho. Ele perdera seu lugar na família. Perdera seu poder sobre mim.
"Regulus Black, REAJA! Não me obrigue a usar uma imperdoável contra você!"
Desde seus doze, treze anos Sirius censurara as escolhas de Bellatrix e, possivelmente, devia me amaldiçoar por essas mesmas razões hoje também. Não que isso importasse. Não agora. Nossos caminhos eram diferentes e com alguma sorte não se cruzariam, mas... ver Bellatrix brandindo a varinha contra mim, sem dó, sem piedade, me fez pensar, Severus... pensar no que você me dissera meses atrás. E se fosse Sirius, do outro lado da mesa? Será que eu teria coragem de dizer as duas palavras e acabar com tudo? Ele, afinal, era meu irmão. Não importava o que acontecera. Era meu irmão. Mesmo que fosse um traidor de sangue, um bastardo idiota...
"Estupefaça!"
Senti minhas costas baterem contra o chão de pedra dura e fria antes da inconsciência tomar conta do meu corpo quase que instantaneamente. Eu deveria aprender com Bellatrix Lestrange. Ela não teria dó de ninguém, eu tinha certeza. Mas, e você? Se estivesse no lugar dela, Severus? Você faria, sem hesitar?
Eu tinha certeza de que existiam coisas mais importantes do que a causa em si, mas eu não sabia se, para você, eu era uma dessas coisas.
—X—
XVII. 'Mas o silêncio amplo e calado/ Calado fica; a quietação quieta;'
—X—
Quando você me disse que matar significava poder eu não acreditei. Nunca imaginei que levantar a varinha e dizer duas palavras realmente fosse me colocar num degrau acima dos outros. Sempre tive consciência de que a morte fazia parte da vida. Que, assim como meus pais me trouxeram para este mundo, sempre havia a possibilidade de alguém se tornar o responsável por me tirar dele. Não que eu ficasse muito tempo pensando a respeito da minha própria morte. Quando se tem pouco mais de dezoito anos, a morte parece apenas uma palavra forte que as pessoas evitam dizer. Mas hoje eu vi essa tal morte pela primeira vez e pelas costas, porque fui eu quem a chamei.
A missão fora um sucesso, apesar de tudo. E uma grande covardia também. Cinco contra dois? Confesso ainda estar surpreso. Nunca imaginei que um irmão fosse defender outro daquela maneira e foi num silêncio quase respeitoso que eu assisti a Dolohov e ao filho dos Crouch duelarem contra os gêmeos Prewett.
Eu não pretendia interferir; aliás, sequer tinha ordens para tanto, mas, quando um deles nocauteou Crouch e se voltou para mim, não tive escolha. De costas para o irmão, meu adversário brandia a varinha sem parar, rebatendo todas as azarações que eu invocava, uma atrás da outra. Havia um estranho brilho nos olhos dele, um brilho tão intenso que me espantou, pois era de uma vivacidade absolutamente diferente daquele que eu vira incontáveis vezes nos olhos de minha prima Bellatrix.
O gêmeo Prewett parecia totalmente entregue à luta, como se não se importasse em sair vivo dela, como de fato, não saiu. Mas o brilho dos olhos dele, longe de parecer insano e desvairado, era de uma magnitude imensamente forte, quase ofuscante. Estava decidido a morrer se fosse preciso, mas não sem levar pelo menos um de nós com ele. Tão decidido, aliás, que eu devo a você o fato de ainda estar aqui. Porque se você e Karkaroff não tivessem chegado, talvez os gêmeos ainda estivessem vivos, lutando tão bravamente quanto lutaram até o fim. Até eu ter sido afastado da batalha pelos seus braços e, após alguns instantes de inconsciência, me recuperar a tempo de aproveitar a distração dos irmãos e proferir a maldição que matou o primeiro deles.
E foi em silêncio que eu assisti ao brilho dos olhos do outro gêmeo aumentar na mesma proporção que ele gritava. E também foi em silêncio que eu me senti mal em ser o responsável por aqueles gritos. Porque eu sabia, entre outras coisas, que Sirius jamais gritaria daquela forma se eu fosse o cadáver a seus pés.
Eu não me senti forte ou poderoso ao causar a dor de uma pessoa daquela forma. Eu me senti pequeno. Vulnerável. Mas descobri no final que, de uma certa forma, você estava mesmo certo. Certo quando insinuou que matar era simples e fácil.
Foi simples não olhar para o corpo do gêmeo morto. Foi fácil ignorar o sentimento de devastação que me assolava enquanto eu ouvia os gritos do outro irmão aumentarem mais e mais. E foi mais simples ainda erguer a varinha e silenciar aqueles gritos.
Mas só eu sei o quão difícil foi te encarar e ver apenas decepção nos seus olhos.
—X—
XVIII. 'Com longo olhar escruto a sombra / Que me amedronta, que me assombra.'
—X—
As pupilas dos gêmeos Prewett tinham perdido todo o brilho e agora me encaravam através de um espelho, brancas e leitosas. Sem vida. Eu não conseguia mexer os braços ou mesmo fechar os olhos. Não era capaz de fazer nenhum único movimento que me impedisse de encarar aquelas almas presas no vidro.
Pelo que pareceram horas eu senti como se o meu corpo tivesse sido paralisado por um feitiço e por cada uma daquelas horas eu fui obrigado a ficar de frente, reto, sem sequer piscar.
O formato do rosto deles era idêntico, assim como a cor dos cabelos que pouco a pouco se tornaram cinzas. Foi quando eu reparei que as mãos de um dos gêmeos tinham sido cortadas na altura de seus pulsos e que o sangue rubro escorrendo pela borda do espelho era a única cor daquele grotesco retrato. E eu teria me perguntado como aquilo acontecera se no instante seguinte não tivesse ficado sem ar ao ver a adaga negra que o outro irmão segurava nas suas próprias mãos, pálidas e intactas.
Foi naquela hora que eu finalmente consegui me mexer, mas quando tentei dar um passo para trás e me afastar do espelho eu senti alguma coisa me mantendo parado. Abaixei o rosto, o coração batendo rápido, mas não me surpreendi em encontrar as duas mãos cortadas segurando meus braços com força.
Voltei os olhos para o espelho. O irmão que segurava a adaga estendeu uma de suas mãos, um convite mudo para que eu me juntasse a eles. O outro gêmeo começou a golpear o vidro que nos separava, erguendo os tocos dos braços e manchando a transparência de vermelho. Em seguida eu senti as mãos que me seguravam reagirem, me puxando para dentro do espelho. Gritei alto antes de cerrar as pálpebras, escutando o som do vidro se partindo em pedaços, sentindo meu corpo sem peso, como se estivesse caindo sobre o nada. Então minha voz sumiu e quando finalmente consegui abrir meus olhos foi que eu encontrei os seus.
Nós nos encaramos por alguns instantes, minha respiração rápida e pesada, a sua normal e controlada, como sempre.
"Você estava gritando." Sua voz saiu baixa. Tranqüila.
"Eu tive um pesadelo." Respondi sem conseguir formular nada menos óbvio.
Você balançou a cabeça e em silêncio se afastou na direção da sua cama, encostada na parede oposta. Os cobertores amarrotados indicavam que você estivera dormindo. Eu provavelmente te acordara com meus gritos, mas não consegui me sentir culpado por isso.
"Eu te disse." Você se sentou na sua cama, apoiando os cotovelos nos joelhos, o rosto seguro nas mãos, me encarando meio de lado.
"Você não disse que era tão ruim assim."
Você deu de ombros.
"Não é. Não para mim."
"Eu nem os conhecia."
"Seria pior se conhecesse."
Espalmei as mãos sobre o colchão para me erguer e reparei que meus lençóis estavam todos emaranhados junto aos pés da cama. Coloquei uma das mãos na testa, sentindo o suor frio grudar pele contra pele. Soltei um suspiro e olhei na direção da porta, preocupado. Há quanto tempo eu estava gritando? E se tivesse acordado os outros?
"Está imperturbada."
Voltei a te encarar com uma sobrancelha erguida.
"Ninguém pode nos ouvir."
Concordei com um aceno e sentei na cama, sentindo um arrepio se espalhar por todo o corpo quando meus pés descalços tocaram o chão de pedra fria. À medida que minha consciência ia voltando e tomando forma eu sentia a raiva crescendo. Você não estava no quarto quando eu retornara depois de encontrar o Lorde, onde ele me parabenizara por ter acabado com dois membros da tal Ordem da Fênix. Sozinho eu adormecera quase que imediatamente e acabara sonhando com... eles.
Balancei a cabeça, irritado. Eu não tinha por que sentir culpa. Era uma guerra. Alguns ganhavam, outros perdiam. Alguns morriam e outros...
"Você sabe por que eu não queria que você se alistasse, não sabe, Regulus?"
Ergui os olhos e reparei que você usava apenas calças escuras e que mantinha a cabeça abaixada, os fios negros dos seus cabelos quase tocando os ombros tão pálidos quanto seu peito.
"Durante todos esses anos eu o observei, esperando encontrar uma resposta. Uma resposta para uma pergunta que eu nunca tive coragem de formular."
Engoli em seco, preocupado demais em tentar não piscar para lembrar de respirar normalmente.
"Que pergunta?"
Você torceu os lábios num sorrisinho enviesado e fez que 'não' com a cabeça.
"Não há pergunta. Nunca houve. Eu só precisava de uma razão para poder seguir seus passos sem culpa. Eu achava, Regulus, que você tinha algo a me dizer e que eu só precisava estudá-lo tempo o bastante para descobrir o que era. Eu pensava que você era diferente. Especial."
E o sorrisinho enviesado se foi, dando lugar a uma expressão sombria. Desapontada.
"Eu nunca imaginei, em todos esses anos, que um dia eu iria olhar para você e ver um espelho."
Continua...
¹ Verso do "Soneto da Desesperança" de Vinícius de Moraes.
Notas da Autora:
(x) Hey, pessoas, como vão? Melhor do que nossos dois sonserinos, aposto! Eu sei, mas é um fato: a garota aqui NÃO sabe escrever histórias em que os personagens são simplesmente felizes para sempre. Isso não funciona mais comigo, so sorry. Agora, devo confessar que estou surpresa com o retorno desta fanfic. Sim, porque, apesar de poucas, as reviews que alguns deixaram foram as mais 'completas' que eu já recebi na vida, com bastante conteúdo e não apenas um básico: 'Adorei, por favor continue postando!' (e não, eu não tenho NADA contra esse tipo de review, mas às vezes a gente sente falta de 'detalhes' a mais, sabem?). Em resumo: meu MUITO OBRIGADA a todos que estão lendo, especialmente a gutinha, Caliope Amphora, kazahaya, Pandora lll, Dressa, Luiza, bruna-almofadinhas, maryee, Clara dos Anjos, meryyrem, Ana K13 Poste, Maaya M., Bruna F., Lily Carroll e Shaka Dirk que deixaram comentários tão lindos que me deixaram TÃO lufa!
(x) Aliás, eu fico TÃO contente que vocês estejam gostando do Snape (até rimô, xD!). Tipo, dá um medo DESTE tamanho escrever o cara. A gente nunca sabe quando pode exagerar demais ou de menos. E que bom que gostaram do beijo, da cena em que o Sirius vai embora de casa e daquela com as sombras na parede, também adorei escrevê-las (independente do trabalho que deram!). Espero que curtam esse capítulo, que aliás está maior do que o original. Eu tirei essas duas últimas cenas do começo do quarto capítulo original e passei para o final do terceiro. E por quê? 1º) Por que o último capítulo era muito grande, denso e pesado (não que ele tenha ficado pequeno ou menos denso por isso, mas...); 2º) Porque ficou bem melhor acabar ali, não?
(x) Eu fiz uma capa nova para a fanfic, está lá no meu profile. Os atores que ilustram a mesma são o Norman Reedus (o fulaninho de capuz negro do vídeo citado nas notas do 1º capítulo) e o próprio Alan Rickman. Ficou legal, eu acho. Vão lá ver. xD
(x) Por hoje é só. Fico esperando pelos comentários de vocês e, assim... dependendo da vossa colaboração, quem sabe euzinha aqui não poste a última parte ainda essa semana, hum? Hum? (#sorriso de tubarão#)
