"Now I'm breaking down your door,
to try to save your swollen face.
Though I don't like you anymore.
You're lying, trying, waste of space.
My oh my, a song to say goodbye.
Before our innocence was lost,
you were always one of those blessed with luck 7's.
And the voice that made me cry."
(Agora eu estou derrubando a sua porta,
para tentar salvar seu rosto inchado.
Embora eu não goste mais de você.
Você está mentindo, tentando inutilmente.
Oh, uma canção para dizer adeus.
Antes da nossa inocência ser perdida,
você era um desses sempre abençoados com a sorte grande.
E a voz que me fazia chorar.)
Song to Say Goodbye (Placebo)


Parte Quatro:
"Que seja infinito enquanto dure." ¹


—X—

XIX. 'Por esse céu que além se estende/ Pelo Deus que ambos adoramos, fala,'

—X—

Era preciso ser muito corajoso para tomar uma decisão e mais corajoso ainda para admitir que essa decisão estava errada. E eu nunca fui corajoso. Talvez um pouco mais inconseqüente do que deveria ser, mas isso estava bem mais próximo da ansiedade do que da bravura. Eu não sabia se chegaria o dia em que eu diria aquilo em voz alta. Eu não sabia, nem tinha certeza se realmente estava... arrependido.

Você me avisara, sim, e fez questão de me lembrar disto, esfregando as palavras na minha cara na noite que se seguiu à morte dos Prewett. Eu jamais achei que sentiria raiva de você, mas eu senti. Senti porque, aparentemente, você estava mais preocupado em provar que estava certo e isso... isso eu não podia aceitar. Eu não estava errado, Severus. E nem arrependido. Tudo só era... confuso demais.

Como hoje, aqui, nesta... Igreja? Sim. É como os trouxas chamam esses santuários de pedra, com cruzes e estátuas. Eu lembrava de algumas xilogravuras de igrejas nos velhos livros da biblioteca dos Black, que contavam a história da tal Inquisição, caça às bruxas, seja lá o que nome que se dá. Tudo muito antigo. Tudo muito velho.

Não sabia se gostava daquele lugar, nem sabia direito o que estávamos fazendo lá. Eu sempre tive a nítida sensação de que o Lorde nunca era muito claro sobre as missões que nos incumbia. Parecia até que...

Não.

Eu não devia ficar levantando hipóteses desta forma. Era óbvio que o Lorde tinha suas razões para não dizer todos os detalhes de tudo a todos nós. Era verdade que alguns sempre pareciam saber de coisas que os outros não sabiam, mas, talvez, ele apenas quisesse que nós aprendêssemos a lidar com o elemento surpresa. Entretanto, havia uma parte de mim, bem pequena, porém consideravelmente barulhenta, que não achava aquilo uma boa idéia. Nós arriscávamos o pescoço pelo Lorde todos os dias e o mínimo que se poderia esperar em troca era alguma demonstração de confiança.

O fato era que, desde que nós dois tínhamos brigado, eu não conseguia mais me segurar em outra razão forte o bastante para me manter firme na causa. Lógico que eu continuava acreditando no que o Lorde pregava, mas eu não precisava matar dois irmãos a sangue-frio só porque eu não gostava de trouxas ou sangues-ruins. Era, de uma certa forma, uma guerra inútil por uma razão inútil. A maioria daqueles que se reuniam ao redor do Lorde sequer faziam isso por respeito ou devoção. A maioria tinha medo. O Lorde era forte e poderoso e algumas vezes eu poderia jurar que ele irradiava uma aura de imortalidade, tão forte e palpável quanto as pedras daquela igreja.

Aparentemente se tratava de uma cerimônia de batismo. No altar um homem segurava um bebê nos braços enquanto outro, vestido com roupas negras, fazia gestos sobre a cabeça da criança. O homem murmurava algumas palavras estranhas que pareciam algum tipo de feitiço. Talvez os trouxas não fossem tão diferentes de nós, afinal das contas. A mulher ao lado deles usava um vestido de renda branco e tinha um sorriso tão radiante que parecia sozinho querer iluminar todo o lugar.

As pessoas sentadas em bancos de madeira assistiam à cena em silêncio. Na primeira fileira, uma menininha de saia de tule cor-de-rosa esticava o pescoço para tentar ver a cena com mais clareza. Seus pezinhos pequenos balançavam vários centímetros acima do piso de parquê. E por um instante eu me perguntei como seria ver aquela cena pelos olhos de uma criança e voltar a achar tudo novo e incrível. No fundo, eu sabia que havia algo de muito errado em querer que pessoas morressem simplesmente por elas serem diferentes de mim.

O poder sobre a morte que você mencionara fazia sentido aqui, mas eu não queria ter esse poder. Não agora que eu sabia que o decepcionara. Tudo que eu queria quando me alistei era deixar meus pais orgulhosos e passar mais tempo perto de você e nenhuma das duas coisas pareciam estar dando certo. Nós éramos perseguidos pelo Ministério da Magia e apenas a força do meu sobrenome manteve meu rosto longe dos cartazes de 'procurados' que estavam espalhados por todo canto. E você passou a me evitar desde aquela noite. Estava dando tudo errado. Eu só não sabia que podia ficar ainda pior.

Começou com uma explosão no altar. O barulho forte e dez vezes mais alto do que o normal ecoando pelas altas paredes de pedra. Saí de trás de uma coluna e puxei a varinha imediatamente, correndo na direção da fumaça branca que subia em meio aos entulhos. Meus ouvidos captaram gritos de horror ao fundo, mas eu estava ocupado demais olhando para a menininha de saia cor-de-rosa, que tinha o rosto manchado de lágrimas e que acabara de ajoelhar ao lado da mulher de vestido branco. As rendas estavam salpicadas de vermelho, assim como os cabelos castanhos claros, idênticos aos da garotinha que puxava a mão dela, como se sozinha fosse capaz de tirar a mulher debaixo dos escombros...

"CUIDADO!"

Senti o gosto de cal na boca quando um feitiço passou raspando acima dos meus cabelos e eu fui empurrado com força na direção das escadas que levavam ao altar. Só tive tempo de levantar as mãos para proteger a cabeça antes de bater o corpo dolorosamente contra o mármore branco. Minha varinha escapou, rolando pelo chão até parar aos pés da garota. Ela me encarou como se eu fosse o culpado por todos os males do mundo, inclusive pelo sangue que agora também manchava sua saia cor-de-rosa. Ela então se abaixou, pegando a minha varinha e apontando-a para mim. Fui dominado por uma enorme vontade de rir. O que ela poderia fazer? Me bater com ela? Era só uma criança trouxa...

"AI!"

Senti uma agulhada num dos braços e mal tive tempo de reparar que um vergão vermelho se formara na pele quando um raio verde atingiu a menina, que desabou ao lado do corpo da mãe, minha varinha frouxa em suas mãos. Sem tentar descobrir de onde a maldição viera, eu me levantei com dificuldade, escorregando nas pequenas pedras que um dia pertenceram a uma estátua e, pegando a varinha, corri em direção da saída.

Para todos os lados que eu olhasse uma pequena batalha era travada. Reconheci vários dos convidados da cerimônia duelando com os Comensais que, assim como eu, também estavam escondidos atrás de uma coluna há alguns instantes. Todos pareciam surpresos com a quantidade de desafiantes. Não eram apenas com trouxas que estávamos lidando, afinal. Havia uma quantidade significativa de bruxos no meio daquela pequena multidão. Seria essa a idéia do Lorde? Pegar vários amantes de trouxas de uma única vez?

Pequenas explosões agora tomavam conta da igreja. Pedaços de vitrais estilhaçados caíam sobre as pessoas que passavam correndo, confusas e assustadas demais para tentarem compreender o que acontecia. Vi mães tentando proteger os filhos com os braços, suas peles pálidas sendo cortadas pelos cacos coloridos.

Não saberia dizer quanto tempo se passou antes dos aurores chegarem, mas era óbvio que eles tinham recebido novas ordens, porque, em vez de estuporar e prender, os feitiços que jorravam das varinhas deles tinham outras intenções. Parecia que finalmente iriam revidar nossos ataques à altura e aquele pensamento, de alguma forma, me consolou.

Rosier e Wilkes foram os primeiros a cair. Eu vi seus olhos arregalados, as pupilas dilatadas refletindo a luz das varinhas dos aurores, que se aproximaram para certificaram-se que os alvos tinham sido devidamente abatidos. Então um deles, um homem magro de astutos olhos amarelos, emoldurados por sobrancelhas espessas e louras estancou de repente e virou-se na minha direção, erguendo a varinha como quem desembainhava uma espada. Me senti paralisado debaixo daquele olhar tão decidido e o homem provavelmente teria me cortado ao meio se um dos enormes bancos de madeira não tivesse sido arremessado em cima dele, atingindo-o em cheio. Pisquei incrédulo quando o auror conseguiu sair debaixo do banco praticamente ileso, a despeito de sua perna dobrada num ângulo estranho, como se tivesse sido partida ao meio por dentro da pele. E só desviei a atenção da cena quando uma mão firme segurou meu braço com violência, me puxando para longe.

Eu não podia ver o rosto oculto pelo capuz negro, mas eu sabia que era você quem me arrastava para longe da morte certa. Eu me senti tranqüilo em ter seus dedos envolvendo meu pulso e sorri discretamente quando nossos olhos se cruzaram por instante fugaz, antes de aparatarmos juntos.

—X—

XX. 'Dize-me: "existe acaso um bálsamo no mundo?" / E o corvo disse: "Nunca mais".'

—X—

A garoa fina tocou a pele do meu rosto com suavidade tão logo eu voltei a sentir o chão debaixo dos meus pés. Sua mão ainda prendia meu pulso com força e, apesar de quase machucar, o seu toque não me incomodava. Era bom estar sozinho com você, sem uma dúzia de Comensais por perto, para variar. Desde aquela nossa discussão você passara dias e dias fora, sem aparecer no esconderijo a não ser para passar informações ao Lorde. Há mais de uma semana que eu dormia sozinho, imperturbando a porta todas as noites, esperando os pesadelos chegarem.

Não reconheci o lugar onde tínhamos acabado de desaparatar. Minhas narinas se dilataram ao capturar o cheiro forte que exalava de um rio próximo e da fumaça que escapava em grande quantidade de uma enorme chaminé negra. O letreiro informava o nome da rua, totalmente desconhecido para mim: Spinner's End.

Fiz menção de abaixar o capuz para observar ao redor, mas você segurou minha outra mão e resmungou um 'Não aqui!' ríspido. Confuso, me deixei ser guiado pela rua, tentando não olhar para os lados, embora minha curiosidade fosse maior. Finalmente paramos, defronte a uma casa cinzenta com vidraças empoeiradas, o interior oculto atrás de cortinas de tecido pesado.

Você olhou para os lados como um animal que fareja o ar esperando por um ataque e em poucos segundos já tinha puxado a varinha e batido com ela na maçaneta da porta, que se escancarou com o típico ruído estrangulado de um lugar que não é visitado com muita freqüência.

O cômodo em que entramos era escuro e úmido, mas eu fiquei surpreso por ele apresentar um aspecto mais limpo que do que parecia ser do lado de fora. As poucas estantes estavam forradas de livros dos pés ao teto. A mesa atulhada com pergaminhos cuja tinta ainda cheirava forte e a vela recém-apagada denunciavam que alguém estivera ali recentemente. Meus olhos percorreram o restante do lugar, que também revelou um sofá puído coberto por uma capa em tons de verde e um corredor escuro ao fundo.

"Dolohov foi capturado pelos aurores esta manhã." A sua voz grave cortou o silêncio como uma espada afiada. "À base de veritaserum, ele revelou onde se daria nosso próximo ataque. Soubemos em cima da hora graças a uma fonte no Ministério, mas o Lorde preferiu não mandar reforços para não denunciar nosso informante."

Meu coração batia muito rápido agora. Dolohov preso. Isso acarretaria uma série de problemas. Ele poderia fornecer informações muito mais sigilosas e comprometedoras do uma mera localização. Como nomes, por exemplo, eu pensei. Um arrepio me subiu pela coluna e fechei os olhos. Ele poderia me delatar.

"Ele foi mandado a Azkaban para aguardar julgamento." Uma pausa calculada, então: "Dolohov está sendo responsabilizado pelas mortes de Fabian e Gideon Prewett."

Ergui a cabeça imediatamente e você não desviou seus olhos dos meus.

"Ordens do Lorde. Quem for capturado deve fazer de tudo para aqueles que estão fora... continuem fora."

Concordei com a cabeça. Era tão típico do Lorde das Trevas. "Ou a pessoa vai desejar nunca sair de Azkaban." Entoei sobriamente.

Seus lábios se torceram num sorriso torto, meio risonho, meio entristecido, e sua voz soou quase ressentida quando você deu de ombros. "Ele já estava envolvido de qualquer forma. Matamos dois vermes com um feitiço só."

Tudo que fiz foi um aceno rápido, assentindo. Aquela informação não servia para nada. Eu não me sentia melhor simplesmente por outra pessoa assumir um crime meu. Na verdade, parecia que uma dose a mais de culpa pesava sobre a balança. Inspirei fundo. O que estava feito, afinal, estava feito. Eu era um Comensal e não deveria estar me abalando por tão pouco. Era uma guerra. E numa guerra era matar ou morrer. E eu ainda não estava pronto para morrer. Soltei outro suspiro e levei as mãos ao capuz, deixando que ele caísse para trás. Alguns respingos d'água fria salpicaram minhas bochechas.

"Aqui..."

Com cuidado você envolveu meu rosto com as mãos, pressionando os polegares sobre a pele debaixo dos meus olhos, como se estivesse secando duas lágrimas invisíveis. Cerrei as pálpebras ao sentir o calor dos seus dedos e instintivamente me aproximei um pouco mais. A falta que sentira se intensificando por mil agora que tinha suas mãos me tocando. Deixei que você deslizasse os dedos pela minha face e em seguida baixasse as mãos pelo pescoço, descendo pelos ombros e braços até alcançar meus pulsos. Você então levantou a manga das minhas vestes, revelando o vergão vermelho que aquela garotinha fizera. Franzi o cenho e ergui os olhos. Uma idéia tão repentina.

"Foi você."

Sua expressão era inelegível diante das minhas palavras. Seu rosto parecia ser feito de pedra.

"Foi você quem matou a garota."

Tudo que você fez foi piscar, o aperto de sua mão repentinamente mais forte ao redor do meu pulso.

"Ela teria te matado." Você respondeu à guisa de explicação.

"Era só uma criança, Severus. Não ia conseguir fazer nada além disto." Indiquei o vergão e soltei um muxoxo, rodando os olhos.

Um sorriso se formou no seu rosto quando você balançou a cabeça e desceu a manga, cobrindo o machucado.

"Você ficaria surpreso se soubesse do que uma pessoa é capaz quando não tem mais nada a perder."

Outro arrepio. Maldição. Por que suas palavras sempre me deixavam daquele jeito? Por que eu não podia simplesmente ignorá-las? Deixar que elas entrassem por um ouvido, saíssem pelo outro e fossem parar nalgum lugar onde nunca mais pudessem me atingir?

"Eu fiquei decepcionado quando você matou aqueles dois, Regulus."

Abaixei a cabeça, sem entender o que estávamos fazendo naquele lugar. Era para isso que você me trouxe aqui? Para repetir o que dissera da última vez em que nos falamos?

"E eu ainda estou."

Engoli em seco, desejando que tudo acabasse logo de uma vez.

"Mas eu pensei muito. Pensei e cheguei à conclusão de que não era justo exigir de você algo que nem mesmo eu era capaz de prometer."

Voltei a te encarar. O que era aquilo? Um pedido de desculpas? Não, não fazia sentido. Quem pediria desculpas por algo assim? Não era errado se decepcionar. O erro foi meu, não foi?

"O Lorde ordenou que Comensal algum, além daqueles que já estivessem posicionados no local da missão, se envolvesse na luta--"

Meu coração falhou uma batida quando você fez uma pequena pausa antes de concluir a frase.

"Eu não estava."

Mordi meu lábio inferior e sua mão apertou meu pulso com mais força. Eu não conseguia sentir as pontas dos meus dedos.

"Você..."

Seus olhos negros me assistiram em silêncio enquanto eu procurava por palavras melhores para usar.

"Não deveria ter feito isso."

E você sorriu. Um sorriso constrangido, quase maldoso. Meio disfarçado, meio impossível de se conter. Um sorriso indescritível. Um sorriso tão não a sua cara, mas que ao mesmo tempo ficava perfeito em você. Era único. Orgulhoso. Seu. seu. Um sorriso verdadeiro. O primeiro de todos.

E o último.

"Não deveria mesmo. Se Ele descobrir--" foi tudo que eu consegui murmurar antes de ter meu rosto seguro pelas suas mãos e erguido de forma que pudéssemos nos encarar.

"Não era para ser assim."

Suas palavras diziam tudo sem dizerem absolutamente nada. Não era para ser assim. Era verdade. Nunca fora. Ontem. Hoje. Ou amanhã. Jamais aconteceria e nós sabíamos disso. Nunca seria como queríamos que fosse. Sonhar, afinal, parecia nunca ter feito parte desta mal vivida realidade.

"Como deveria ter sido?"

E eu fiz aquela pergunta sem querer saber a resposta.

"Não deveria, Pequeno Rei."

Porque ela machucava mais do que o próprio silêncio.

"Regulus, eu--"

Você se calou quando eu pressionei dois dedos sobre seus lábios, mantendo-os fechados. Mudos.

"Não." Murmurei subindo uma das mãos pelas suas costas. "Não agora."

Um aceno foi tudo que você fez, além de segurar minha nuca, me mantendo firme e me impedindo de recuar. O som da respiração só não era mais alto do que as batidas compassadas que escapavam do meu peito.

"E agora?" Sua voz saiu murmurada debaixo do meu toque.

Fechei os olhos e me aproximei do seu ouvido.

"Agora nós vamos tentar esquecer que um dia isso não passou de um sonho."

Nossos narizes roçaram de leve antes de aqueles dois dedos que eu mantinha sobre seus lábios serem substituídos pela minha boca. A sua mão me apertou a nuca com força, me puxando para mais perto, num gesto exigente e intenso. Meus braços envolveram suas costas e eu podia sentir as gotículas de água da garoa presas nas suas vestes evaporarem ao menor contato com pele das minhas mãos. O calor que se espalhava por dentro de cada um dos meus ossos só não era maior do que o frio que eu sentia na boca do estômago, idêntico aquele que se agarrara a minha espinha sem dar mostras de querer soltar. Eu já sabia até onde aquela insolúvel mistura de fogo e gelo me levaria e eu não tentei te impedir quando as suas mãos desceram da nuca para minha cintura e me puxaram para mais perto de você.

Foi totalmente diferente da primeira e da segunda, da terceira... de todas as outras vezes. Não foi apenas uma sucessão de gestos quase maquinais antes de se render à abençoada inconsciência e ao cansaço físico. Não foi algo planejado com alguma solícita cama por perto para agilizar nossas ações. Foi bom porque foi diferente. Foi melhor porque foi legítimo.

"Relaxe."

Você nunca me olhara nos olhos quando fizera isso das outras vezes. Eu sempre estava de bruços ou de lado, os olhos cerrados e as mãos apertando o lençol a ponto de deixá-lo marcado por várias horas. Havia cuidado, mas não afeição. Parecia que todas aquelas vezes tinham acontecido com dois estranhos, não com duas pessoas que de fato, de alguma forma, se importavam uma com a outra.

Tentei manter os olhos abertos quando você fez o primeiro movimento forte, mas tudo que consegui foi rilhar os dentes e me impedir de gritar. Aquela circunstância era nova. E a dor também.

"Shhh..."

Mordi o lábio inferior outra vez e desta vez foi com tanta força que o gosto metálico do sangue chegou a me atordoar. Abri os olhos e encontrei os seus, me encarando de um jeito que se parecia muito com nervosismo e medo. Tentei sorrir, gesticulando que você continuasse, mas ambas as dores já tinham se transformado numa coisa só e tudo que eu consegui fazer foi segurar o soluço típico de quem não sabe como reagir diante de alguém que não sabe como ajudar.

Éramos muito parecidos. Nós dois. Orgulhosos até a morte. Queríamos fazer tudo sozinhos. Sermos independentes. Mas eu sabia que as coisas nunca dariam certo se não tentássemos fazer algo juntos. Se não tentássemos fazer dar certo. Era algo que nunca tínhamos feito e aquela era a ocasião perfeita. Era como começar do zero. Como se fosse a primeira vez.

Sua respiração morna junto ao meu pescoço me arrancou arrepios involuntários e totalmente contraditórios àquela estranha sensação. A sua língua quente e úmida fez com que eu mordesse os lábios com mais força, antes de lembrar de que ninguém podia nos ouvir e que ninguém iria nos interromper. E eu fechei os olhos, não de prazer ou de dor. Fechei porque me senti entregue a suas mãos como jamais estivera antes e, longe de ficar aflito ou preocupado, aquilo me tranqüilizava. O significado da palavra 'confiança' fazia mais do que sentido agora: ele era simplesmente real.

"Aqui..."

Os gemidos e murmúrios que saíram dos meus lábios era parecidos com aqueles que você deixou escapar quando começou a se movimentar compassivamente. Era a primeira vez que eu os ouvia e eles, mais do que as suas mãos ou o seu toque, foram o que me fizeram relaxar de verdade. Éramos como um só agora.

"Meu..."

Havia algo de especial em fazer com que outra pessoa se sentisse bem com coisas tão simples como beijos rápidos e toques intensos. Era melhor do que causar sofrimento. Era melhor porque era puro. Uma inocência que pertencia somente àqueles que cujas segundas intenções simplesmente não existiam.

"Pequeno Rei."

E na hora em que você fechou os olhos, reprimindo um gemido mais alto e desabou sem forças em cima do meu peito foi que eu senti a felicidade maior do que tudo no mundo. Maior do que o medo do fim. Maior do que aquela falta de esperança que parecia açoitar as janelas, junto ao barulho da garoa que se acabara de transformar em chuva.

—X—

XXI. 'Parece, ao ver-lhe o duro cenho/ Um demônio sonhando.'

—X—

Acordei sentindo uma dor quase lacerante no meu braço esquerdo. Nele a Marca Negra ardia como jamais ardera antes. Pisquei, tentando ignorar a dor, e levantei do sofá onde tínhamos adormecido. A chuva continuava descendo firme pelas vidraças e o ruído da água caindo era tão tranqüilizante que, se não fosse pela minha pele queimando, eu possivelmente teria me deitado e fechado os olhos uma outra vez.

Levantei com alguma dificuldade, uma dor costumeira que nada tinha a ver com a Marca me arrancando caretas a cada passo que eu dava sobre o chão gelado. Encontrei minhas roupas dobradas no braço do sofá e reprimi um sorriso enquanto me perguntava onde você estaria. Olhei ao redor repetidas vezes, sem encontrar o menor sinal seu. Inspirei fundo e vesti as roupas o mais rápido que pude. Não era o momento de procurá-lo. Já tinham se passado algumas horas desde a Missão e, agora, o Lorde chamava.

E você não estava no quartel quando eu cheguei. De fato, alguns Comensais falaram que durante os últimos dias você estivera do outro lado da Inglaterra, numa missão, e possivelmente nem fora informado sobre o que acontecera. Foi difícil esconder o suspiro de alívio que deixei escapar. Parecia que sua pequena excursão para salvar minha pele tinha passado desapercebida e isso era ótimo. Saber que você não estava em perigo, aliás, me tranqüilizou a tal ponto que eu sequer temi pela minha própria vida quando o Lorde chamou a todos que estiveram na igreja e então puniu cada um dos que fugiram, sem concluir sua respectiva tarefa.

E eu tentei não pensar em você quando a primeira cruciatus me acertou, tingindo tudo ao meu redor de vermelho. A dor se espalhava rapidamente, entrando e saindo por cada poro do corpo, rasgando a pele como se tivesse a forma de infinitas e afiadas agulhas. Eu não conseguia pensar em nada que fosse capaz de amenizar aquela dor. Ela era mais do que forte, impiedosa e insuportável. Era desesperadora. Parecia que nada conseguiria afastá-la e que não havia a menor esperança de que um dia ela acabasse.

Eu tentei não pensar em você porque aquela era única coisa que poderia me impedir de gritar e eu sabia que quanto mais alto eu gritasse, mais o Lorde acreditaria que meu remorso em ter falhado era genuíno. E foi quando eu já tinha desistido de me manter em pé e tentava tomar uma nova tragada de ar, antes de me entregar novamente aos gritos, que eu reparei. Reparei no silêncio que tomava conta do lugar. Reparei como se tivesse vendo através dos olhos de uma outra pessoa. O círculo dos Comensais fechado ao meu redor, meu corpo caído no chão, convulsionando enquanto o Lorde mantinha sua varinha firme e alta, o rosto pálido impassível, quase indiferente.

Naquele fugaz instante de silêncio eu pensei que estivesse morto e aquilo fez com que a minha própria figura, arruinada sobre o piso frio, gritasse ainda mais, meus olhos cinzas arregalados a ponto de saltarem das órbitas. Eu gritava de medo. Medo de morrer naquela hora, pelas mãos do mestre que eu mesmo escolhera seguir. E a desilusão que me atingia tão violentamente quanto as pontadas de dor só não era maior do que aquele medo profundo, que se enraizava aos poucos dentro de mim. Medo de morrer e não poder dizer que você era a razão pela qual eu lutaria do meu próprio lado, de agora em diante.

—X—

XXII. 'Minh'alma então sentiu-se forte; / Não mais vacilo, e desta sorte'

—X—

"Regulus?"

Se havia decepção em meu rosto quando notei que a visita que acabava de chegar não era exatamente quem que eu esperava receber, minha prima não pareceu dar importância. Seus olhos azuis me fitavam com uma mal-disfarçada atenção enquanto ela se aproximava em passos lentos, quase delicados.

"Cissy, que faz aqui?"

Narcissa Malfoy jogou para trás os longos cabelos loiros, que caíam sobre seus ombros retos, e sentou-se no único lugar disponível perto de mim, o banquinho do piano. Os dedos pálidos e esguios de suas mãos tamborilaram distraidamente sobre o marfim negro antes que sua voz se fizesse ouvir.

"Lucius viajou. Vim passar uns dias com a tia Walburga. Ninguém me disse que você estava em casa."

Fiz um aceno rápido, assentindo. Não queria que ninguém soubesse que eu viera para cá após dois dias inteiros agüentando o sarcasmo dos outros Comensais, que não perdiam uma única oportunidade de me lembrar que eu não estava nas boas graças do Lorde. Quase todos aqueles que não se envolveram na maldita missão passaram a ostentar um ar de superioridade inabalável cada vez cruzavam o meu caminho. Lucius Malfoy inclusive. Apenas Bellatrix parecia abalada, não comigo, é claro, mas com sua própria posição. Fora ela, afinal, quem me indicara ao Lorde.

"Não estou nos meus melhores dias." Respondi com um quê de irritação, dando a entender que não queria conversar.

Ela piscou devagar, como se fosse capaz de absorver a verdade oculta por trás das minhas palavras. Sua atitude fazia todo sentido do mundo, sendo casada com quem ela era. Eu já vira Lucius Malfoy torturando e matando trouxas e bruxos. Ele estava longe de ser alguém que eu consideraria o esposo ideal.

"Também não estou." A voz de Cissy soava tão indiferente que me deu vontade de sacudi-la e tirá-la daquela redoma de vidro que ela sempre vivera. "Ando enjoando com uma facilidade incrível."

Fiz outro aceno rápido para indicar que escutara e mudei a posição na poltrona onde estava sentado, tomando cuidado para não gemer de dor ao sentir minha pele arder. As feridas abertas enquanto eu era torturado ainda estavam lá, invisíveis, mas tão reais e palpáveis quanto o piano em que Narcissa apoiava o braço esbelto.

"Minha irmã não tem me visitado. Sabe se ela está bem?"

Obviamente ela se referia a Bellatrix. Nós não tocávamos no nome de Andromeda há séculos, embora eu soubesse que ela tivera uma filha poucos anos atrás. Um pensamento fugaz me assaltou. Encarei Narcissa com atenção, reparando que suas bochechas estavam mais cheias e rosadas.

"Você disse que tem estado enjoada?"

Ela piscou novamente e ergueu os cantos dos lábios num sorriso tímido, como quem esperava por uma pergunta específica antes de deixar a emoção fluir através dos olhos.

"Sim." Foi a resposta breve e curta, sem margens para interpretações.

"Você está grávida?" Decidi não deixar que aquela conversa se alongasse muito. Por mais que eu gostasse de Narcissa, eu não estava no humor para aquilo.

"Estou." Ela respondeu tranqüila, inclinando a cabeça de leve, deixando os cabelos caírem mais uma vez sobre o ombro.

Encarei os fios dourados e me perguntei por que ela estava me contando aquilo, afinal das contas. Obviamente era uma boa notícia. Ao menos teríamos um herdeiro legítimo, mesmo que ele não compartilhasse o nosso sobrenome. Sirius e Andromeda, afinal, não faziam mais parte da família. Bellatrix, mesmo casada há anos, jamais dera mostras de querer ser mãe e quanto a mim...

"Severus pareceu contente quando Lucius lhe contou."

Encarei Narcissa com atenção redobrada à simples menção do seu nome. Ela apenas ampliou mais o sorriso, revelando uma fileira de dentes brancos e perfeitos.

"Eles são bons amigos."

Pisquei também, mas diferente da Narcissa, não foi um ato devidamente medido, foi involuntário. Que ela queria dizer com isso? Onde queria chegar?

"Eu sei que você estava esperando por ele hoje, Regulus. Ele me pediu para avisar que não poderá vir."

Engoli em seco, minhas mãos repentinamente frias e secas. "Você sabia que eu estava aqui." Eu disse, a voz controlada, mas acusadora.

O sorriso dela desapareceu instantaneamente. Narcissa se virou no banquinho, jogando os cabelos para trás, levantando o tampo do piano agilmente e afundando os dedos nas teclas com uma precisão igual à de Lucius quando executava um prisioneiro. Arregalei meus olhos e Narcissa fechou os dela, deixando a música tomar conta do ambiente. Não reconheci a melodia, mas era triste. Parecia o prenúncio de uma tempestade sem fim.

"Isso é loucura."

Pisquei atordoado ao escutar a voz de minha prima em meio à harmonia que escapava do piano. Seus olhos azuis me encaravam sem o menor vestígio da costumeira tranqüilidade. Naquele instante, ela me lembrou a irmã, o ar implacável de quem não aceita ser contrariada.

"Eu sei." Respondi, sem estar realmente interessado em saber como ela sabia sobre nós.

"Você sabe? Sabe mesmo?" A música ficou mais alta enquanto ela corria os dedos, trocando de teclas tão rapidamente que até parecia que as escolhia de forma aleatória, embora a melodia continuasse tão bela quanto antes.

"Eu sei que não posso esperar em ser o novo ministro da magia agindo assim, por exemplo." Eu brinquei, abrindo um sorriso que me fez lembrar de Sirius. Murchei os cantos dos lábios imediatamente.

Os cabelos loiros formaram um véu na frente do rosto alvo quando Narcissa balançou a cabeça em desalento, sem parar de tocar.

"Vocês dois vão morrer, Regulus."

E então a voz dela soou no mesmo tom que as notas da música. Triste e melancólica. Encarei Narcissa como se a estivesse vendo sem sua máscara de indiferença pela primeira vez. Ela não parecia mais apenas a prima de beleza radiante, de porte alto, nobre, mais elegante do que qualquer outro Black poderia ser. Eu nunca a vira daquela forma, como se houvesse uma camada de pó maculando a pureza de um belo quadro.

O som do piano parou repentinamente e Narcissa ficou por vários segundos parada com as mãos sobre as teclas antes de se voltar para mim. Seus olhos azuis estavam úmidos e eu reparei que havia pequenas olheiras debaixo deles.

"Eu nunca senti tanta preocupação na minha vida, Regulus. Ninguém me disse que ia ser assim."

Levantei da poltrona, ignorando a dor que o movimento brusco me fez sentir, e abracei Narcissa pelos ombros, deixando que ela escondesse o rosto no meu peito. Seus soluços saíam abafados, quase imperceptíveis, e eu reparei que, enquanto ela chorava, uma de suas mãos, que até então estivera sobre as teclas do piano, deslizou pelo seu colo até alcançar o ventre, que ela abraçou com visível carinho.

Eu entendia o medo que minha prima sentia. Eu não precisava estar no lugar dela, com um filho a caminho, para saber que o Lorde das Trevas, embora poderoso como nenhum outro bruxo, tinha seus defeitos. E como um grande bruxo, seus defeitos não eram apenas grandes, eram devastadores. Ele não hesitara em erguer a varinha para me castigar, mesmo eu tendo arriscado minha vida e minha honra em nome dele. E isso, para mim, não demonstrava força de caráter, a despeito do que Bellatrix, Lucius ou qualquer outro gostassem de pensar.

Eu podia ser jovem e não entender um monte de coisas, mas sabia que cometera um erro quando não dera ouvidos ao seu conselho. Quando eu me deixei levar pela vontade de ficar com você e fiz com que meu braço fosse marcado. Não foi apenas um erro, foi o maior erro de todos. Escolher seguir uma doutrina que eu respeitava, mas que não morreria por ela. Você estava certo quando disse que eu não precisava daquilo, mas errado quando deixou de perceber o óbvio: você também não precisava.

Mas não havia volta. Eu lembrava de ter pensando, enquanto os crucios me atingiam seguidamente, em como seria bom dormir e acordar apenas quando tudo estivesse acabado. Eu parei de pensar nisso quando voltei à consciência e encontrei você sentado na outra cama, me encarando como se fosse o responsável pelo deplorável estado em que eu me encontrava.

Eu não tivera forças para lhe contar sobre a minha nova decisão, mas quando você me abraçou, tão forte quanto eu abraçava Narcissa agora, eu senti que não havia mais nada a dizer, que você simplesmente... entenderia.

Eu não morreria pelo Lorde das Trevas. Esta era minha decisão. Eu morreria em nome da minha família. Dos meus pais. Daqueles que se mantiveram firmes dentro de suas diretrizes e doutrinas, apesar de todas as adversidades. Em nome do meu irmão, que tivera coragem de romper com tudo isso, sem olhar para trás. Eu morreria pela criança que Narcissa carregava e por quem ela temia tanto.

Não havia mais volta. Eu sabia disso. A morte que você brindara era inexorável, sim, mas era a única saída, portanto, eu a admirava, a respeitava. Eu não a temia. E eu sabia que só haveria paz verdadeira se eu morresse em nome daquele que mais me fizera sentir vontade de viver.

—X—

XXIII. 'Com o gosto severo, - o triste pensamento / Sorriu-me ali por um momento,'

—X—

Narrar todos os eventos que me trouxeram até esta caverna provavelmente levaria dias e, mesmo assim, talvez eles não fossem devidamente esclarecidos. Os sentimentos que me dominavam enquanto eu atravessava o lago dentro daquele funesto barco eram tão imensos e contraditórios que eu fiquei admirado de não ter afundado no meio daquela água sob o peso de todos eles.

A idéia de entrar em contato com os companheiros do meu irmão me atormentara por alguns dias, mas foi descartada rapidamente. Eles jamais confiariam em mim e eu não podia arriscar minha posição, apesar dos pesares, privilegiada. O Lorde obviamente temia ser traído pelos seus próprios servos e tomara precauções contra isso. Mas parecia que, a lição mais importante de todas, ele nunca aprendera.

Sonserinos não perdoavam. Não esqueciam. Não davam segundas chances. O Lorde deveria ter imaginado que, a despeito do seu incalculável poder, alguém ainda teria seu orgulho ferido a ponto de se voltar contra ele. E era isso que eu estava fazendo agora. Tomando aquilo que daria fim a sua dose de imortalidade. Ele tinha passado a se vangloriar dela há alguns meses, dizendo que tomara as providências necessárias para estar um passo acima do homem comum. Parecia não haver limites para a ambição dele.

Todos os outros assistiam aos discursos do Lorde com visível inveja. Obviamente pensavam que teriam uma gota da sua fonte da juventude, caso fossem fiéis o bastante. Eu não acreditava naquilo. Após todas aquelas horas de tratamento especial, eu descobrira um lado meu até então desconhecido. E eu o respeitei. Era o lado que Sirius tentara aflorar em mim quando disse que eu deveria ter ido para a Grifinória, como ele.

Sirius estava errado, é claro. Eu fui para onde deveria ter ido e agora responderia à altura do tapa na cara, da palavra jogada no ar de quem se tornou tão cego diante da própria força e se esqueceu que todos nós temos um ponto fraco. Não foi difícil descobrir como o Lorde se fizera imortal. Apesar de não ser exatamente o assunto preferido da hora do jantar, os Black nunca consideraram a lenda dos horcruxes um tabu.

Me oferecer para todas as missões que surgiram fez com que eu ouvisse as conversas certas. Parecia que todos sabiam de alguma coisa útil, embora aquilo que soubessem não fosse o bastante para desvendar o quadro como um todo. Tendo isso em mente, foi simples me colocar de fora e daí juntar uma por uma das peças daquele intrincado quebra-cabeças, até descobrir onde estava a horcrux e como eu chegaria até ela. Tentei não deixar pistas, mas parecia improvável que ninguém desconfiasse. E desde que essa desconfiança fosse apenas uma desconfiança, ninguém precisava saber o que eu sabia. Podiam supor que eu traíra o Lorde, mas não como.

Você ficaria orgulhoso de mim, Severus, aposto que ficaria. Eu me mantive tranqüilo, dono dos meus pensamentos enquanto mandava que Kreacher bebesse gole atrás de gole do cálice que eu enchia com o líquido da bacia de pedra. Ele parecia lutar bravamente contra os efeitos que aquilo lhe causava, pois a minha palavra era ordem e a ordem era que ele fosse até o fim.

Segurar um fragmento da alma do Lorde das Trevas nas mãos foi a sensação mais estranha que eu já tivera, mesmo que tenha sido por alguns poucos instantes. O medalhão parecia absolutamente normal, apesar de suntuoso, mas era possível sentir o poder emanando dele. Era como ser o próprio deus de um pequeno universo e aquele pensamento me deixou assustado.

Fui distraído por Kreacher, que resmungava palavras desconexas, caído a meus pés, mas não havia tempo para sentir pena de um elfo doméstico.

Admito que assinar as iniciais no bilhete que deixei dentro do medalhão falso me fez sorrir de um jeito que não era meu. Era um sorriso que Sirius teria dado se estivesse aqui. Eu não sei o que você faria se me visse agindo daquela forma, dando um gostinho de vitória para meu irmão. Mas provavelmente ele nunca irá saber o que eu fiz, muito menos por que eu fiz. Sirius sempre teve coisas mais importantes para se preocupar e eu nunca fizera parte delas.

Eu gostaria de poder te contar o que aconteceu aqui hoje, mas algo me diz que não haverá tempo para tanto e que eu estarei morto muito antes que alguém leia essas mal rabiscadas palavras. Morto com uma marca que eu nunca quis de verdade, maculado pelo lado que não desejava realmente seguir.

Mas eu tinha a esperança, uma vaga esperança, de que seria você quem estaria lá no momento em que meus olhos se fechassem para sempre. E isso era assustador. Desejar algo que possivelmente era a única esperança que eu podia ter.

—X—

XXIV. 'Devolvamos a paz ao coração medroso/ Obra do vento, e nada mais.'

—X—

A neve que caía do lado de fora da janela me fez lembrar daquela noite de Natal, oito anos atrás, quando eu ouvira o seu nome pela primeira vez. Era engraçado pensar que, de uma certa forma, eu conheci a pessoa mais importante da minha vida justamente por meio de alguém que tanta a detestava. Era engraçado pensar que talvez eu nunca tivesse prestado atenção em você, se não fosse pela insistência do meu irmão que eu fizesse exatamente o contrário.

"Um Black. Outro Black."

Não. Você se fez notar sozinho. Me ganhara com sua força de vontade e de caráter, com sua personalidade sem igual e seu ar de tranqüilidade irreprimível.

As pessoas normalmente se apaixonavam por rostos belos e corpos fortes, por promessas vazias de vidas fáceis e felizes. Mas você não me ofereceu nenhuma destas coisas e ainda assim eu o escolhi.

Você estava certo quando disse que eu não era como o meu irmão. Sirius se deslumbrara pela grandiosidade que uma casa como a Grifinória poderia lhe trazer. Morrer como um herói que leva para o túmulo todos os problemas da humanidade, que carrega o mundo nas costas. Era engraçado pensar que no final era isso que eu estava fazendo. Mas eu que nunca desejara ser o herói de um mundo inteiro, embora não me importasse se pudesse ser o seu.

Desviei os olhos da janela e voltei o rosto para o quarto. Esse lugar também me trazia lembranças. O barman me olhara de cima a baixo umas boas duas vezes antes de entregar as chaves do 'mesmo quarto de sempre'. Talvez ele estivesse esperando que você entrasse pela porta a qualquer minuto e subisse comigo. Nós passamos por algumas coisas juntos neste quarto e talvez eu pudesse tentar atribuir a isto a razão de eu estar aqui hoje.

Mas era mentira.

Há cinco dias que eu procurava incansavelmente por uma forma de destruir a horcrux. Há exatos cinco dias que eu mal dormia, comia ou parava para pensar por alguns instantes que fosse. A Marca Negra queimava meu braço com uma freqüência assustadora. Eu quase podia escutar a voz do Lorde me chamando de volta.

Mas Ele sabia que eu nunca mais voltaria.

Para todos os efeitos, eu me acovardara. E encontrara a oportunidade perfeita para tanto algumas horas depois de deixar Kreacher em casa, com instruções que ele escondesse o medalhão até que eu voltasse. Não que eu pretendesse voltar agora. Eu já tinha perdido essa esperança depois de quarenta e oito horas sob a intensa perseguição dos meus antigos companheiros. Foi Crouch quem iniciou a caçada pela minha cabeça, depois de descobrir que eu me negara a participar de uma missão para matar uma família de bruxos fiéis a Dumbledore. Crouch era tão fiel quanto Bellatrix, e a palavra do Lorde para ele era mais do que lei, era um mandamento. Crouch só não tinha idéia de que eu declinara da missão não por medo ou bondade, mas porque queria usar a informação para convencer o próprio Dumbledore a me ajudar.

Eu nunca gostara do Bruxo. Ele protegia os nascidos trouxas de uma forma quase nauseante. Até havia quem achasse graça, mas suas piadas e ações só me faziam pensar que ele era tão louco quanto o Lorde, embora com motivações diferentes. Mas era lógico que se existia alguém que podia derrotar o Lorde, esse alguém era ele. E era por causa disso que eu estava neste quarto hoje. Dumbledore aceitara se encontrar comigo, com a condição de que fosse aqui, no Cabeça de Javali. Talvez ele tivesse medo de me deixar entrar em sua preciosa escola. Talvez achasse que aqui eu estaria vulnerável e não poderia fazer nada contra ele.

Bom, havia uma certa razão naquele raciocínio. Agora eu estava mais vulnerável do que já estivera em toda a minha vida. O que eu tinha a perder era justamente a motivação pela qual estava me arriscando e se eu morresse agora, teria sido tudo em vão. E eu não podia morrer antes de falar com o velho e de lhe dizer o que era preciso ser feito. Então, imagine o quão grande não foi minha surpresa quando escutei o som da porta do quarto se abrindo e, em vez dos olhos azuis de Dumbledore, encontrar o negror dos seus.

Nós dois puxamos as varinhas exatamente ao mesmo tempo, os meses de treinamento com Bellatrix se refletindo nos meus movimentos ágeis. Em silêncio medimos um ao outro, avaliando, esperando por quem daria o derradeiro passo em falso.

E eu nunca imaginei que o primeiro a cair seria você.

"Por quê?" A sua voz saiu fraca quando eu pressionei a varinha contra a sua garganta.

Fechei os olhos, sentindo todos os músculos do meu corpo retesarem. Eu precisava fazer. Não haveria 'depois' caso eu desistisse agora. Por que, afinal, eu abrira mão de tudo? Não tinha sido por você? Mas, e se você morresse agora? Não teria sido à toa? Sem razão?

Você me ensinara a pensar sempre antes de agir e foi isso que me trouxe aqui. O ato de pensar foi o que me fez ver que o caminho que eu escolhera era errado e que só havia um modo de resolver tudo. E foi justamente esse meu instante de hesitação, onde eu parara para pensar e medir prós e contras, que me custou a vida.

Eu sabia que morreria no instante em que você se aproveitou da minha distração para inverter as posições e me colocar sob a mira da sua varinha. Eu assisti você pressionar a ponta contra o meu peito, enquanto usava a outra mão para me manter firme e parado.

Era uma situação que eu, de fato, não previra, mas que deveria ter imaginado. Como poderia te explicar o que eu tinha feito, sem entregar a localização do horcrux? E quem me garantia que o fato de você gostar de ficar comigo de vez em quando significava que eu era mais importante do que a causa e o Lorde? Ninguém. Você não queria que eu me envolvesse, mas nunca se deu ao trabalho de explicar por que você se envolvera. Fora pelo poder? Pela possibilidade de se vingar de quem te causara algum mal? Você também não precisava daquilo, mas escolhera o seu caminho mesmo assim. E não havia nada mais justo do que deixar que eu também escolhesse o meu.

"Por quê?" Você repetiu em voz baixa. A varinha em sua mão tremia de leve e seus olhos pareciam cobertos por uma camada de vidro embaçado.

"Porque há coisas que nós só podemos alcançar sozinhos."

Fora você quem me dissera isso. Fora você quem me ensinara que certos sacrifícios são necessários para se alcançar outro degrau. Era hora de um sacrifício e você sabia o que tinha de fazer.

Então eu olhei dentro dos seus olhos e foi como se no lugar de um vidro embaçado que refletia uma figura torta surgisse um espelho. E nele eu me vi deitado no chão, com seu corpo me mantendo preso. Eu me vi com apenas onze anos, sentado sobre uma banqueta e tremendo antes do chapéu seletor me colocar na Sonserina. Eu não me lembrava de ter sorrido quando olhei em desafio para o meu irmão na outra mesa. Sequer lembrava de ter me sentido superior. Era algo bom e ao mesmo tempo cruel para lembrar. Talvez tudo pudesse ter sido diferente e talvez nós não precisássemos estar aqui hoje. Talvez nós nunca tivéssemos nos conhecido direito.

Mas esse pensamento, em vez de me tranqüilizar, me assustou e repentinamente eu estava sendo assaltado por memórias que não eram minhas, embora fizesse parte delas.

Você me assistia dormir depois de ter me carregado para o dormitório e dobrava as peças do meu uniforme de Quadribol com cuidado para não me acordar... Você estava parado de frente a um espelho, prendendo os cabelos num rabo de cavalo... Então o som de gritos que reconheci como sendo meus em meio a uma escuridão totalmente desconhecida... O meu próprio rosto tranqüilo e cansado antes de você desabar sobre o meu peito nu... A face pálida do Lorde murmurando uma ordem e o seu rosto impassível, assentindo em silêncio...

Eu vi o vilarejo de Hogsmeade sombrio, como se alguém tivesse acabado de morrer, a neve caindo sobre as casas enfeitadas com luzes coloridas. Todos aqueles dias fugindo e eu nem me dei conta de que o Natal já chegara e que eu nunca passara um Natal com você antes. Nós dois sempre tivemos outros planos.

Como agora.

"Eu não tenho escolha." A sua voz se fez ouvir de algum lugar distante, mas eu não conseguia mais te ver. Parecia que eu tinha sido tragado para dentro de um túnel escuro e sem fim e que estava perdido para sempre. Mas eu não senti medo.

"Você não me deu escolha." E a voz ia e voltava. Eu já não tinha tanta certeza de que ela era mesmo a sua voz. Estava tudo escuro, muito escuro. Mas eu gostava do escuro. Ele sempre me lembrava dos seus olhos. E eu sabia que sentiria saudades deles agora.

Então, quando eu já tinha me acostumado à escuridão, uma luz se acendeu ao longe, e eu me vi correndo na direção dela. A luz pertencia a uma lanterna rústica, pendurada sobre uma porta de carvalho. Escutei o que parecia alguém batendo na porta e com um puxão rápido na maçaneta, a abri. Atrás dela havia um rio e nele, logo depois da porta, um pequeno barco balançava sobre as águas.

Levantei os olhos para o homem de aspecto nobre e austero, coberto de negro, que conduzia o barco, a face oculta sob um capuz. Reparei também que havia um corvo empoleirado em um de seus ombros. Ele então voltou o corpo e tomando cuidado para não revelar suas feições, estendeu uma das mãos pálidas para mim.

Aceitei a oferta que me era oferecida e subi na embarcação que pareceu oscilar debaixo do meu peso. O homem trajado de negro então passou um dos braços ao meu redor, me mantendo longe da beirada e com um acenar da outra mão, o barco começou a se mexer, deslizando devagar.

Tentei ver o rosto dele, tentei descobrir a quem pertenciam àquelas mãos que me abraçavam com força. Eu podia ouvir o crocitar do corvo ao longe, como se fossem palavras perdidas ao vento. Então, de repente, um clarão de luz verde incendiou as águas ao meu redor e naquele instante, naquele fugaz instante, eu vi que as mãos que me abraçavam com tanta força tinham marcas de pequenas cicatrizes.

E a luz se foi junto com o clarão, mas a força do abraço não diminuiu. Eu não conseguia mais ver, mas sentia gotículas da água do rio respingarem sobre o meu rosto, enquanto o barco avançava. Mas, ao contrário do que se esperaria, aquelas minúsculas gotas de água não eram geladas, mas quentes. E quando uma delas caiu sobre meus lábios eu me surpreendi ao sentir que seu gosto não era doce, mas salgado feito uma lágrima.

Aquilo era como um sonho. O fim perfeito para uma existência sem razão. Sonhos, talvez, não passassem de impulsos elétricos que serviam apenas para nos atormentar com imagens belas e desconexas de vidas que nunca seriam vividas, mas, ainda assim, era bom sonhar.

O calmo sacolejar das águas fazia minhas pálpebras pesarem, mas não havia sentido dormir quando já se estava sonhando. Mesmo assim eu fechei meus olhos, sentindo o abraço, o seu abraço, ficar mais forte e mais quente. E eu pensei que provavelmente esse era um daqueles sonhos que só acontecem uma vez na vida, um sonho do qual a gente não tem vontade de acordar.

Não mais.

Nunca. Nunca mais.


FIM


Dedicada à Calíope Amphora,
que não faz idéia de como foi importante para a história desta história.


¹ Verso do "Soneto de Fidelidade" de Vinícius de Moraes.
Notas da Autora:

(x) Nunca é fácil escrever notas finais, da mesma forma que não é fácil colocar o tal "FIM" após meses se dedicando a uma história como esta. Por outro lado, é muito bom saber que o fim foi algo planejado, medido e que acabou exatamente como eu queria. Sorry por aqueles torciam por um final feliz, mas, conhecendo a natureza (e o histórico) dos personagens (sem falar da autora aqui), não faria sentido se as coisas simplesmente acabassem "bem", né? Foi um grande prazer e honra escrever a primeira fanfic Severus/Regulus em português e (de alguma forma) fazer com que eles, apesar dos pesares, "dessem certo".

(x) Agradeço imensamente a todos aqueles que acompanharam a história e fizeram comentários tão profundos e edificantes. Certamente não teria sido tão satisfatório se não fosse pelo apoio de vocês. E também meu muito obrigada a Lily Carroll, Caliope Amphora, Maaya M., maryee, Amelia Ebherrardt, Ananda, Pandora lll, Elora, Dressa, gutinha, bruna-padfoot, Shaka Dirk e Cami Rocha que deixaram reviews tão fodas no último capítulo.

(x) Agora, se eu pretendo escrever mais fanfics com esses dois? Talvez. Queria arriscar algo sob o ponto de vista do Snape, mas tem de ter muito culhão para escrever o cara e eu sou covarde à beça. Mas, quem sabe um dia? Por enquanto, me digam o que acharam da fanfic como um todo. Estarei aguardando pelos comentários de vocês!