Capítulo 2 – O novo dia de ontem
Nos primeiros anos de Mia em Hogwarts, ela era uma verdadeira moleca. Os pais morreram cedo, e ela fora praticamente criada pela velha tia Blossom. Como toda grifinória, ela mostrava coragem e ousadia ao preparar suas traquinagens. Aprontava contra todos, armava brincadeiras, fazia pegadinhas. Com um perfil desses, não era de surpreender que ela naturalmente tenha virado grande amiga dos maiores aprontões de Hogwarts: James Potter, Sirius Black, Remus Lupin e Peter Pettigrew. Se eles eram os Marotos, ela era uma marota.
Assim, não foi nenhum dos quatro Marotos quem soltou um pelúcio dentro do dormitório feminino, e o bicho causou um pandemônio . Foi Mia quem armou a proeza, mas quem levou a fama foi Sirius. Sem perceber, ela terminava passando muito tempo com os rapazes de Grifinória. Era parte do grupo. Tanto que ela foi informada sobre o "pequeno problema de pele" de Remus e tentou também tornar-se uma Animaga. Infelizmente, ela não tinha o dom.
Com um sorriso, Mia lembrou-se daqueles tempos com um misto de saudade e dor. Porque fazer brincadeiras era divertido, mas havia um lado sombrio naquela diversão. Como seus amigos Marotos, na época, ela não via nada errado em pegar no pé daqueles sonserinos metidos a besta. Ela era mestiça, com mãe bruxa e pai Muggle. Então o papo de sangue puro não tinha nada a ver com o que ela pensava. Como qualquer Maroto, ela perseguia os sonserinos sem o mínimo remorso.
Até o dia fatídico dos N.O.M.s.
Ela tinha acabado de prestar a prova de Defesa contra as Artes das Trevas, e seus amigos saíam da sala de aula, rindo e brincando. Eles foram até a beira do lago e logo localizaram um alvo: Severus Snape. Normalmente, Mia estaria junto deles, mas ela queria conferir algumas das respostas com Lily Evans, que era uma das melhores alunas da classe.
Naquele dia, Mia ficou ao lado de Lily, vendo James e Sirius implicarem com Severus. O sonserino estava de cabeça para baixo na beira do lago, os Marotos o atormentando. Lily resmungou, contrariada:
– Aquele Potter...! Adora ficar implicando com quem não pode se defender!
– Ah, não esquenta, Lily – disse Mia. – Eles só estão brincando.
– Isso não tem a menor graça, Mia. Mas é claro que você vai achar isso divertido: você vive pendurada com aqueles marginais.
– Nossa, Lily, que exagero.
– Ah, exagero, é? E se estivessem tentando fazer isso com você? Você ia achar bom? Olha só o que eles estão fazendo com Severus! Que absurdo! Não posso ver isso sem fazer nada! – E saiu, indignada.
Mia observou a ruiva se dirigir ao local onde Severus Snape estava de cabeça para baixo, sendo humilhado por seus amigos. Naquele momento, naquele instante, alguma coisa dentro dela mudou. Pela primeira vez, ela viu os amigos. Enxergou-os como eles eram.
Mia se horrorizou com o que estava vendo.
Lily discutiu com James, que ainda por cima tentava flertar com ela. Não foi nada bonito de ver, ainda mais que Severus também deu uma resposta mal-criada à sua defensora. E foi erguido no ar de novo.
Mas a frase de James é que a deixou possessa:
– Quem quer me ver tirar as calças do Snivellus?
– PÁRA COM ISSO!
Eles se viraram para a amiga, e Sirius foi quem se mostrou perplexo:
– Mia?
– Lily está certa! O que foi que ele fez para vocês?
– Mas o que deu em você?
– Quer saber o que me deu? Foi nojo de ver o que vocês estão fazendo. Deixem o rapaz em paz!
– Assim você não tem graça, Mia – disse Sirius, desanimado. – Fica ajudando o Snivellus assim...
James deu de ombros:
– Tá bom, então. Sirius, põe ele para baixo.
Severus foi para o chão, mas lançou um olhar de ódio para Mia:
– Não sei o que pretende, Byington, mas não preciso de sua ajuda também!
Ela chegou perto dele e estendeu a mão:
– Tudo bem. Pode ficar de pé agora.
Severus recusou a mão estendida e ergueu-se:
– Sei ficar de pé sozinho, obrigado. Pode voltar para os seus amigos arruaceiros.
O rapaz deu as costas e saiu. Mia ficou olhando a figura dele ficar menor, indo em direção ao castelo. Aquilo tinha sido o início de tudo.
A partir desse dia, tudo mudou. Como qualquer grifinório, Mia foi incansável. Ela fazia o possível e o impossível para evitar que seus amigos judiassem de Severus. A princípio, o sonserino não se emocionou. Desconfiado, ele evitava qualquer aproximação.
A nova postura de Mia a fazia ficar mais próxima de Lily Evans e os poucos alunos (especialmente aqueles fora de Grifinória) que não achavam os Marotos a oitava maravilha do mundo. O sexto ano, portanto, começou com uma Mia bem diferente daquela que todos conheciam.
Entre os Marotos, a decepção era quase palpável. Sirius, principalmente, sentia que tinha perdido uma amiga. Pior ainda: sentia-se traído.
– Mas por que você agora está assim?
– Sirius, não é nada contra vocês. Só que eu não acho mais graça nessas brincadeiras. Eu não gostaria que vocês fizessem isso comigo.
– Mas você era legal. Agora você está parecendo a Evans!
James ajuntou:
– Aliás, você bem que podia dar uma palavrinha com ela, Mia. Ela ainda não aceitou sair comigo.
– E faz ela muito bem! Até que vocês cresçam um pouco, eu também não iria querer saber de vocês.
– Ah, então é atrás do Snivellus que você está, é? – zombou Sirius. – Você gosta de uma cuequinha suja e cabelo seboso?
Ela não soube direito por quê, mas ficou vermelha e começou a erguer a voz:
– Bom, mesmo se eu gostasse, vocês se certificaram que eu não terei mais nenhuma chance, não é?
– E você está bem melhor assim, Mia. Fica longe do Snivellus!
Ela estava muito, muito irritada, e não sabia direito o motivo.
– Sirius, você é meu amigo. Não me obrigue lançar uma azaração em você.
– É, Sirius – concordou Remus. – Não azucrine a Mia.
– Agradeço a ajuda, Remus, mas agradeceria ainda mais se você controlasse seus amigos. Sei que você condena o que eles fazem tanto quanto eu, mas não faz nada para impedir.
O rapaz calou-se, sentindo a estocada de Mia mais fundo do que imaginara. A jovem deu de costas para o grupo, disposta a fazer uma saída dramática. Pena que não deu certo, porque ela deu de cara com Severus Snape.
Ele não parecia particularmente grato. Os olhos pretos faiscaram com um ar maligno que era uma mistura de ódio e ressentimento:
– Já falei, Byington: sua ajuda não é necessária nem bem-vinda. Não preciso de proteção.
Mia ia tentar explicar, mas Sirius adiantou-se, ficando à frente de Mia:
– Continue falando assim, Snivellus, e vai precisar de mais do que proteção!
James também se adiantou, e Snape rosnou para Sirius, de olho nos outros dois:
– Como sempre, Black, você é valente quando está com seus amigos.
– Seu...
– Parem com isso! – gritou Mia, interrompendo-os. – Severus, eu só quero ajudar.
– Então escolha melhor seus amigos e me deixe em paz.
Ele foi embora, deixando Mia angustiada. Sirius aproveitou para insistir:
– Viu? Ele não presta mesmo, Mia. Não vale seu esforço. Ele e aqueles amigos dele não vão dar boa coisa, pode escrever.
Foi naquele momento que Mia soube que ela estava apaixonada por Severus Snape.
Um amor sem futuro, pensou, triste.
