Capítulo 10 – Fim de jogo

As mãos de Severus tremiam quando ele começou a despir-se da cintura para cima. Quando ele desabotoou a camisa branca que usava sob a casaca, ele exibiu seu peito para a enfermeira da escola, rosnando:

– Não me diga que não se lembra disso.

Havia uma marca vermelha grande e circular, tomando todo o peito de Severus. O Mestre de Poções estava com dor, como sempre, mas agora também se sentia humilhado por ter que exibir sua fraqueza a um de seus atormentadores. Ele jurara, naquela noite fatídica, há tantos anos, que jamais pediria que eles desfizessem o feitiço. Sim, ele morreria de dor, mas não se humilharia.

Os olhos de Mia se arregalaram, e ela deu um passo para frente, a fim de examinar melhor o ferimento. Imediatamente, a ferida tornou-se ainda mais vermelha e irritada, e Severus sibilou de dor.

– Quem... – Ela percebeu estar com a boca seca e os pulmões sem ar. – Quem fez isso?

– Você, Lupin e Black. – Ele deu um passo para trás, e o vermelho pareceu enfraquecer. – Não me diga que não se lembra.

Mia tentou chegar perto:

– Severus, eu posso dizer sinceramente que jamais faria isso com você. Você está enganado.

Ela vinha se aproximando dele, e Severus só pensava que tinha que se afastar dela. Nunca tinha doído tanto; a marca estava prestes a começar a sangrar como no dia que eles a lançaram, há mais de 20 anos.

Severus estava tão absorto em tentar controlar a dor (agora se assemelhando a ferros quentes na sua pele) que não viu Mia se aproximando, nem quando ela ergueu a mão para examinar a ferida. Tocou o peito dele.

A dor foi inenarrável. Esmagava, rasgava, perfurava. Severus não agüentou o peso das próprias pernas e foi ao chão, com um grito gutural, curvando-se sobre o próprio peito.

Mia precipitou-se para tentar ajudá-lo, e ele mal conseguiu rosnar, em meio à agonia:

– FIQUE LONGE DE MIM!

Num reflexo, Mia foi para trás, e foi, e continuou, até que suas costas bateram na parede mais próxima. Ela não suportava ver a dor de Severus, mas suportava menos ainda a idéia de que era ela quem a causava, mesmo sem querer. Ela notou que tinha ajudado Severus (mesmo que apenas um pouco) ao ouvir um suspiro de alívio entrecortado.

Severus conseguiu controlar os músculos o suficiente para fazer as mãos elegantes puxarem o cabelo para trás, e ele se ergueu, buscando apoio na mesa mais próxima. Mia notou que, mesmo apoiado na mesa, Severus ainda cambaleava.

– Por que não se senta um pouco? – sugeriu. – Eu trouxe uma poção...

– Não seja hipócrita. Você mesma causou isso, e agora quer ajudar? Poções não ajudam para um feitiço desse.

– Severus, por favor, acredite em mim. Eu não tive nada a ver com isso.

– Ah, então agora está me chamando de mentiroso?

– Pare de ser difícil! – Ela se impacientou. – Eu estou tentando ajudar!

– Desculpe-me por não acreditar em suas nobres intenções! – Ele ainda tentava recuperar o fôlego, segurando o peito. – Eu cumpri fielmente seus desejos. Fiquei longe de você, como me pediu naquela noite. Quando você se mudou para o Mediterrâneo, achei que esse inferno teria um fim. Não que tenha terminado, mas pelo menos a dor era administrável. Aprendi a viver com ela, fui obrigado a conviver com ela. Mas aí você volta e aceita trabalhar em Hogwarts, e ainda finge que nada aconteceu? Que podemos ser amigos?

Mia estava tão assustada, tão perdida com tudo aquilo, que seus olhos se encheram de lágrimas por 25 anos de mal-entendidos. Mas Severus continuou, o ódio destilando dos olhos negros:

– O que você é? Algum tipo de sádica que gosta de me ver contorcendo-me de dor? E você honestamente acreditou que eu a receberia de volta, como algum tipo de filha pródiga ou que nós nos engajaríamos em algum tipo de atividade de "recordar é viver"? Que eu esqueceria 25 anos de dor simplesmente porque você apareceu na minha frente?

A voz de Severus estava repleta de dor emocional, ressentimento e raiva completa. Mia estava atordoada; as emoções fora de controle.

Mas ela podia reconhecer que aquilo não era um feitiço qualquer de adolescentes. Era uma maldição, e não era qualquer maldição. Certamente alguém da família Black conheceria algo assim.

Além disso, algo que Severus dissera deixara uma pulga atrás da orelha de Mia.

– Quem fez isso?

– Como se você não soubesse: Lupin, Black e você.

– Severus, eu não fui. Só podia ser Peter. Provavelmente ele usou Polissuco.

– Não tente se safar! – Severus voltou a rosnar. – Eu vi o que eu vi!

– O que eu preciso fazer para provar que não fui eu, Severus?

– Pare de jogar esse jogo! Não é divertido nem instrutivo.

– Eu posso deixar que você pratique Legilimência na minha mente. Isso deve provar, não?

– Ah, então você quer me matar? Se ficar perto de você já me deixa assim, imagina o que não acontecerá comigo quando eu entrar na sua mente?

– Então eu tomarei Veritaserum! Severus, tem que haver alguma coisa que possamos fazer.

Inconscientemente, Mia chegou perto dele. Desta vez a dor foi demais, e ele falseou no apoio da mesa, derrubando o móvel e espalhando os objetos no chão. Num reflexo, Mia deu um passo para frente, mas refreou-se a tempo, com o grito inarticulado de extrema dor que Severus proferiu.

Dali para frente, tudo pareceu acontecer num borrão e em câmera lenta ao mesmo tempo.

Um pesado castiçal de pé que estava na mesa tinha caído ao lado de Severus, um medieval e pontudo, estava precisamente no caminho do Mestre de Poções. Quando Severus atingisse o chão, uma das arestas pontiagudas do castiçal perfuraria diretamente seu crânio, e ele provavelmente morreria.

Num reflexo, Mia se jogou para apará-lo de sua queda fatal.

Ao segurá-lo em seus braços, Mia observou, horrorizada, quando ele arregalou os olhos, estremeceu um pouco e o sangue começou a jorrar de seu peito. Ele perdeu os sentidos em seguida.

Desesperada, Mia gritou de pânico. O grito veio do fundo de sua alma, um grito que parecia demorar 25 anos.

De repente, no meio do grito, a porta se abriu. Atordoada, Mia não percebeu que Remus e Tonks tinham entrado com Minerva até que Severus foi arrancado de seus braços, e o lobisomem correu com ele nos braços, Minerva atrás.

Tonks a abraçou, e Mia chorava, desesperada, mas a moça apenas a apertava em seu braço, sussurrando uma palavra sem parar.

– Desculpe, desculpe, desculpe, desculpe...