– Eu tenho boas notícias e más notícias.
Louro, de olhos claros, o Curador Spencer, se fosse mais novo, poderia ser confundido com um Malfoy. Mia, porém, não pensava nisso assim que ele deixou a enfermaria e se dirigiu a ela e Tonks. O dia já tinha amanhecido, mas ninguém tinha arredado pé da ala hospitalar. Para Mia, pareciam ter se passado semanas, sem qualquer notícia.
Atrás do curador, estava a diretora, com feições cansadas, mas totalmente composta, como sempre. E, em seguida, tentando ficar invisível, vinha Remus J. Lupin.
– Tem boas notícias? – repetiu Mia. – Ele vai sobreviver?
O rosto jovem se abriu num sorriso:
– Sim, Madame Byington, ele vai sobreviver. Mas só se a senhora não entrar na enfermaria pelas próximas 72 horas.
Aquilo doeu, mas Mia apenas indagou:
– E como ele está, curador? O que pode ser feito?
O sorriso dele desapareceu:
– Essas são duas perguntas cruciais, senhora. No momento, ele está estabilizado, mas em coma. A dor é muito grande, e não consegue ser tratada por qualquer poção ou feitiço analgésico.
– Hiperalgesia – disse Mia, quase pensando em voz alta. – Mas foi possível diagnosticar se foi uma dor neuropática, talvez hiperpática?
– Neuropatia não é incomum em casos de maldições desse tipo. Eu induzi um coma mágico para que o paciente tivesse alívio da dor. Minha varinha de diagnósticos indica que, mesmo em coma, ele pode estar sofrendo.
– Como isso pode ser possível? – indagou Tonks, leiga. – Se ele está em coma, não deve ter dor.
Mia explicou:
– O cérebro continua enviando mensagens de dor aos terminais nervosos mesmo que o analgésico tenha sido administrado para bloquear a dor. É parte do quadro. É isso, não é, curador?
– Isso mesmo. – Ele a encarou, com admiração dobrada. – A senhora é mesmo uma excelente profissional.
– Mas não posso ajudar Severus.
– Lamento informar que talvez nem eu mesmo possa ajudá-lo muito. Tentei mantê-lo confortável, só isso. O problema dele é uma maldição desconhecida e caseira, segundo eu fui informado, uma maldição que ele já carrega há muito tempo. Ele precisa urgentemente de um desfazedor de maldições.
– Bill – sugeriu Tonks. – Bill Weasley trabalha para Gringotts fazendo justamente isso.
Mia disse:
– Meu filho Heitor também está se formando nessa especialidade. Pena que ele ainda esteja na Macedônia. Ele ficou de vir para cá, mas...
Minerva garantiu:
– Eu já mandei uma coruja a Molly Weasley para que ela entre em contato com Bill com urgência. O Curador Spencer também chamou uma enfermeira exclusiva para monitorar o estado de Severus. Se ele piorar, um curador virá instantaneamente de Flu para atender a emergência.
Mia estava mortificado:
– É o meu trabalho, Minerva... Eu é que devia estar ali. Desculpe.
Tonks a abraçou e explicou:
– Ela ficou muito abalada com tudo isso. Nem dormiu essa noite, pobrezinha.
– Está tudo bem, Mia – garantiu Minerva, num tom suave. Contudo, ela se virou para Tonks, perdendo toda a suavidade e assumindo seu pior humor de diretora disciplinadora. – Mas a senhora, Madame Lupin, tem vinte minutos para se recompor e se apresentar ao meu gabinete, bem como o Prof. Lupin. Madame Byington pode vir junto, se quiser.
Meio desnorteada, Mia concordou. Tonks parecia extremamente infeliz, quase tanto quanto Remus. Mas esse estado de espírito se provou insuficiente para enfrentar a ira de Minerva.
Vinte minutos mais tarde, um pouco refeita, Mia entrou no gabinete da diretora e encontrou o casal Lupin e uma Minerva positivamente irada. Mia teve até pena dos dois.
Felizmente, num primeiro momento, essa ira toda foi voltada a uma pessoa que, apesar de não estar viva, podia tentar se defender. Bom, podia tentar.
– É absolutamente inadmissível – dizia Minerva, gesticulando furiosamente. – Você é um retrato, Albus! Não pode ficar interferindo desse jeito na vida das outras pessoas! Nem morto você pára de ser metido!
– Minerva, minha querida, você tem que concordar que esse foi um erro honesto.
– Não deveria ter acontecido, em primeiro lugar. Onde já se viu? Professores de Hogwarts pregando peças nos colegas!
– Não era uma peça, Minerva – insistiu Albus. – Era só uma tentativa de reconciliar duas pessoas que se amam muito. Eles precisavam de um empurrãozinho...
– Albus, você perdeu a cabeça desde que entrou nessa moldura? – A professora estava estarrecida. – O que você teria feito se dois professores conspirassem contra outros dois professores?
– Não dá para chamar de conspiração... – Ele tentou argumentar. – E Remus nada teve a ver com isso, posso garantir.
– Severus está em coma! E Mia é uma senhora de respeito! Você não tem que bancar o Cupido! Portanto, recolha-se ao seu retrato, e só se manifeste se eu especificamente pedir por sua manifestação!
O retrato obedeceu e afastou-se para observar o céu no seu astrolábio. Então Minerva se virou para Tonks e vociferou:
– Agora, Madame Lupin, chegamos à nossa conversa.
– Diretora – ela tentou explicar –, eu não fazia idéia... Eu me sinto horrível.
– Sua culpa é um bom sinal, mas infelizmente não é o bastante. Ainda vou ter que falar com o Conselho de Diretores da escola sobre a medida disciplinar adequada ao seu caso. Contudo, preliminarmente, vou lhe aplicar uma suspensão não-remunerada de 15 dias. A senhora estará dispensada de suas aulas e estará à disposição do desfazedor de maldições para pesquisar uma cura para Severus.
Mia tentou intervir:
– Professora, ela não fez por mal. Ela está tão arrependida, e a idéia não foi nem dela...
– Entendo sua opinião, Mia, e até simpatizo. Mas não posso deixar em brancas nuvens um incidente desta magnitude. Mesmo que Madame Lupin não tenha sido a mentora do incidente, ela certamente aderiu à idéia sem medir as conseqüências. Pelas barbas de Merlin, isto não é uma brincadeira entre adolescentes!
A veemência fez Mia ver a razão de Minerva em estar totalmente desgostosa. Tonks tinha agido de maneira inconseqüente. Claro que ela não podia adivinhar as conseqüências de sua brincadeira, mas o gesto tinha sido realmente pueril.
– Quanto ao senhor, Prof. Lupin – continuou Minerva –, eu me encontro num dilema. O senhor não teve participação na elaboração da brincadeira de sua esposa, e mais do que isso: foi rápido em acionar ajuda e incansável na tentativa de socorro ao seu colega ferido. Infelizmente, contudo, o senhor está longe de ser inocente em todo esse episódio.
Ele se mexeu, desconfortável. Na verdade, Mia nunca o vira tão vexado em toda a sua vida. Minerva continuou:
– Meu dilema começa aí. O senhor deveria ter sido punido há mais de 20 anos. Não seria justo dar-lhe uma punição agora. Mas também não posso ser conivente com o que se passou aqui. Portanto, vou corrigir o erro na raiz. O senhor deveria ter sido punido, com seus colegas, por lançar um feitiço contra o seu então colega. Mas vocês não foram punidos na ocasião. Então, eu farei isso hoje. O senhor tem um mês de detenção noturna a cumprir com nosso novo zelador, emprestado de Durmstrang, Herr Rudy Hess. Além disso, você vai acumular as aulas de Transfiguração em todas as turmas, incluindo as preparatórias de N.O.M.s e N.I.E.M.s. Para encerrar, você também deverá depositar todas as suas memórias sobre o evento numa Penseira e supervisionar a ajuda que sua esposa fornecer ao desfazedor de maldições para curar Severus, fazendo-me relatórios todos os dias, antes do café da manhã.
Remus baixou a cabeça e simplesmente assentiu, sem protestar, sem sequer olhar para Minerva. Mia tinha conhecido o novo zelador e sentiu uma pontada de dó do velho amigo: o tal Rudy tinha cara de nazista, para dizer o mínimo.
– Com isso – ela suspirou –, posso passar a tratar de outras coisas. Dobby!
O elfo doméstico se materializou:
– Sim, senhora, Madame McGonagall diretora?
– Pode trazer os demais, por favor?
– Sim, senhora, Madame McGonagall diretora. Mas, Senhora Madame McGonagall diretora, há um Mestre jovem procurando Madame Byington.
Mia franziu o cenho:
– É alguma emergência médica?
– Não, senhora, Madame Dra. Byington. Ele diz que veio de longe. Ele diz ser filho de Madame, de nome Heitor.
– Heitor? – Mia se espantou. – Ele está aqui? Agora?
– Sim, senhora, Madame Dra.
– Pode mandá-lo entrar com os outros, Dobby – permitiu Minerva. – E traga cadeiras para todos.
Claro que Mia correu a abraçar seu filho assim que ele entrou pela porta do gabinete da diretora, abstraindo todos os demais recém-chegados. Jamais antes a presença do rapaz alto, de cabelos escuros como os do pai, parecera tão confortante a ela. Com a morte de Dimitri, Mia se agarrara muito a Heitor.
– Meu filho, que surpresa.
– Bom, essa era a idéia, mãe – admitiu, constrangido. – Eu queria surpreendê-la e passar uns dias aqui na escola. Mas parece que escolhi um péssimo momento. Um professor está muito doente, pelo que eu soube.
– Depois eu conto tudo. É muito horrível, meu amor. Mas primeiro preciso fazer parte dessa reunião.
Só então Mia se deu conta da quantidade de gente que estava na sala. Havia o Prof. Flitwick, o Curador Spencer, a Enfermeira Luscínia e Harry Potter, além de um jovem de cabelos vermelhos e horríveis cicatrizes no rosto, alguém que ela não conhecia, mas parecia familiar.
– Sentem-se todos – pediu Minerva, sorrindo para Heitor. – Vejo que temos uma pessoa nova aqui.
Mia apresentou:
– Quero que todos conheçam meu filho, Heitor Dimitropoulos Stoklos.
– Seja bem-vindo – desejou Minerva. – Logo terminaremos essa reunião, e vocês poderão se encontrar devidamente. No momento, preciso rever alguns aspectos acadêmicos, e é por isso que estamos todos aqui. Lamento, Madame Byington, mas não posso dispensá-la, pois pretendo lhe pedir um favor. Por favor, sentem-se.
