Capítulo 15 – Filho

Meia hora mais tarde, Heitor voltou. Acompanhado de Bill.

Só que o filho de Mia, com seus cabelos encaracolados e sua exuberância helênica, estava enfurecido. Ele literalmente invadiu os aposentos da mãe, aos gritos:

– Você mentiu para mim! Mentiu!

– Heitor? O que aconteceu?

Bill vinha atrás, tentando dizer:

– Calma, grego!

Mas Heitor ignorou-o e veio acusando a mãe, dedo em riste:

– Você me disse que amava o papai! Que ele morava em seu coração! Mentiu para mim!

– Heitor, meu filho, eu te amo, mas ainda sou sua mãe e não vou permitir que você fale assim comigo! – Mia ergueu a voz. – Agora trate de se acalmar antes de falar comigo de novo! Caso contrário, eu juro: não me interessa se você adora o chão por onde Bill Weasley passa, eu vou te colocar no colo e esquentar seu traseiro como se você ainda tivesse cinco anos!

A ameaça pareceu surgir efeito, e Heitor respirou fundo, mesmo contrariado. Então Mia convidou-os a se sentarem e indagou a Bill:

– O que aconteceu para deixar Heitor nesse estado?

– Eu concordei com sua análise – explicou o jovem Weasley, sinceramente. – O fator emocional que atuou na transformação da maldição foi uma combinação de frustração, surpresa, abandono e um profundo, profundo afeto. Vocês dois realmente se gostavam, por isso a maldição se transformou.

Mia sentiu uma pontada de dor no coração. Severus gostava dela de verdade, naquela época. Talvez tanto quanto ela gostava dele.

Mas agora provavelmente só sobrara ódio. Depois de tantos anos, de tanta dor, de tanto tempo acreditando que ela tinha feito aquilo...

Heitor explodiu, interrompendo-lhe os pensamentos:

– Fale o resto!

– Calma, rapaz – disse Bill, tentando acalmar o jovem. – Eu já vou chegar lá.

– Chegar aonde?

– Bom, acontece que esse tipo de feitiço tem uma duração limitada. Um prazo de validade, digamos assim. Ele não teria durado esse tempo todo, por si só. Algum outro fator tem que ter necessariamente atuado para mantê-lo ativo por mais de duas décadas.

– Outro feitiço?

– Pode-se dizer que sim. É que eu descobri que o único fator capaz de deixar esse feitiço caseiro ativo por tanto tempo é um tipo de sentimento muito raro: amor combinado com compatibilidade de almas. Sabe, almas gêmeas.

Mia franziu o cenho:

– Não tenho muita certeza de ter entendido.

Heitor não agüentou:

– Isso quer dizer que você nunca deixou de amar esse homem, é isso! Você o amou esse tempo todo! Desde aquela época!

Bill tentou acalmá-lo:

– Calma, grego. Deixa eu terminar de falar com sua mãe. – Heitor fechou a cara, mas Bill o ignorou, virando-se para Mia. – O truque que realmente fez o feitiço no Prof. Snape foi que ele também jamais deixou de amar você. Essa energia se combinou com o feitiço original e criou um tipo inteiramente novo de mágica. O Prof. Dumbledore era um grande estudioso desse tipo de magia. Sabia que ela era forte o suficiente para derrotar Lord Voldemort, e terminou provando ser certo. Efetivamente, é uma magia muito antiga e poderosa. O fato de ela ter sido invocada inadvertidamente a torna ainda mais poderosa. Sabe, só mesmo a competência do Curador Spencer pode explicar que ele tenha sobrevivido ao incidente da noite passada.

Bill trazia palavras esclarecedoras, mas a enfermeira de Hogwarts tinha se fixado numa única revelação. Aliás, tal revelação fez o coração de Mia perder o ritmo. Severus a amava. Severus a amava desde aquele tempo. Nunca tinha parado de amá-la.

Mas ela foi obrigada a se concentrar em coisas mais urgentes: como o ataque de Heitor.

– Você mentiu para mim! – Ele a acusava como se ela tivesse cometido um crime. – Você disse que amava meu pai.

– Heitor, eu não menti para você.

– Mas você ama aquele homem! O feitiço não mente! Você o ama desde aquela época!

Mia suspirou e encarou o filho, tentando explicar:

– Eu lhe disse que amava seu pai e não menti sobre isso. Se não amasse Dimitri, não teria me casado com ele. Você me conhece. Meus planos eram de envelhecer junto com ele. Seu pai foi minha rocha, meu alento. Quando eu o perdi, eu fiquei muito triste. E não quis mais ninguém. Como pode dizer que minto quando digo que eu o amava?

– Mãe, o feitiço não mente! Você ama é o tal Snape! São almas gêmeas. E eu ouvi histórias sobre ele, sabia? Ele é injusto, cruel, malvado, asqueroso, seboso e nojento! Como pôde querer esse homem e não o meu pai?

– O fato de eu amar seu pai não significa que ele era o amor de minha vida, Heitor.

– Então o amor de sua vida é esse Snape? Ele era um bruxo das Trevas!

– Para seu governo, eu o chamo de Severus – disse Mia, mantendo a calma.

– Não me trate como se eu fosse criança!

– Você está se comportando como uma. Aliás, deixe-me reformular: você está se comportando como uma criança mimada e mal-criada. Certamente, não como eu o criei.

– Não mude de assunto!

– Heitor, eu sou obrigada a mudar de assunto porque você não está falando de meu amor por Severus. Você está pensando que eu traí você ou seu pai, ou ambos. Isso, na verdade, é apenas um mecanismo de defesa, e não vai ajudar a salvar a vida de um homem que está morrendo.

Heitor fechou a cara ainda mais, sentindo que sua mãe estava coberta de razão. Ele cruzou os braços, afundou na cadeira e resmungou algo como "Odeio psicólogos". Em grego. Tentando prender o riso, Mia se virou para Bill:

– Desculpe pela cena. Somos uma família grega, sabe: tendemos a transformar tudo numa tragédia grega.

Aquilo divertiu o rapaz, que garantiu:

– Bom, como inglês, eu considero entretenimento. Sem mencionar altamente instrutivo e divertido.

Ah, pensou Mia, com uma ponta de emoção, humor inglês. Cáustico, sarcástico e sutil. Palavras que também descreviam Severus, ela notou, sem remorso.

O assunto que ela queria falar com Bill, contudo, não era divertido. Ela quis saber:

– Bill, essa descoberta ajuda na cura?

– Claro que sim. Agora sabemos que energias estão atuando, e podemos tentar desmanchá-las.

– Oh. – Aquilo foi um balde de água fria em Mia. – Desmanchar significa... o que, exatamente? Eu vou... deixar de sentir... carinho por ele?

– Oh, céus, não! – Bill garantiu. – Temos que desmanchar a magia que faz com que a proximidade física detone uma dor excruciante. Acho que existe um ritual para isso. Havia uma sociedade bruxa antiga que fazia feitiços aproveitando a Lua. A ida a Grimmauld Place vai ser muito útil. Eu a deixarei informada, claro.

– Agradeço, Bill – Mia sorriu e pegou em seu braço. – Por tudo que está fazendo.

Ele se ergueu, dando de ombros:

– Ossos do ofício. Er, acho que vou deixá-los a sós agora.

– Não precisa se preocupar, vou com você. – disse Heitor, levantando-se também, com ar enfadonho. – Se eu tentar falar com ela agora, ela vai dar uma de psicóloga para cima de mim. Conheço.

Mia riu e garantiu:

– Se quiser falar sobre isso, pode me procurar.

– Viu? Viu? Por favor, leve-me daqui!

Bill não escondeu o riso e comentou:

– Ela tem razão, grego. Você transforma tudo em tragédia.

Heitor fez uma careta, e Mia riu, um pouco mais aliviada. A reação de seu filho tinha sido apenas pelo choque. Heitor certamente se daria conta do quão descabida tinha sido a sua reação.

Ao menos, era o que ela esperava.