Capítulo 17 – Darma para um

– Eu não sei se você pode me ouvir, Severus – começou Mia. – Mas agora estamos sozinhos. A enfermeira Luscínia foi dormir, e eu prometi que ficaria mais tempo com você. Gostaria que você estivesse me ouvindo, Severus, porque eu não quero mais ler nenhuma revista técnica de Poções. Ver você aí, sabendo agora de tudo que aconteceu, do quanto você sofreu e eu também; isso só me faz querer conversar com você.

A figura na cama permanecia imóvel, incapaz de emitir uma resposta. Não que Mia necessitasse de uma resposta. Mas ela desejava ver Severus bem, saudável, talvez com aquele ar sardônico.

– Eu gostaria de simplesmente conversar com você. Queria muito que você respondesse. Porque eu sinto como se devesse desculpas a você, mas na verdade eu gostaria que alguém me pedisse desculpas também. O que aconteceu conosco não foi nada justo. Sabe, não quero me lamentar por coisas que aconteceram há tantos anos, mas eu estou com uma raiva muito grande. Tenho raiva pela injustiça de tudo. Podíamos ter sido felizes, Severus.

Ela suspirou, depois deu um meio sorriso:

– Não pense que estou reclamando do rumo que minha vida tomou. Não, eu terminei tendo uma vida muito diferente do que sempre imaginei, e foi uma vida boa. Mas me entristece que o mesmo não tenha acontecido com você, Severus. Pelo que ouvi, pelo que fui informada, a sua vida foi atribulada e não no bom sentido. Claro que não estou dizendo que parte da responsabilidade por isso não é sua: você fez as suas escolhas. Mas há uma parcela de responsabilidade que não é sua. Nem minha. As escolhas nos foram tiradas.

Neste ponto, Mia teve que inspirar fundo. As emoções se acumulavam, e ela desabafou:

– Eu amo você, Severus. Sempre amei. Você nunca deixou de ser meu amor. Aliás, foi por causa disso que o feitiço se manteve ativo. Então imagine a minha emoção ao descobrir que você se sentia do mesmo jeito! Fiquei tão feliz! Por um lado, eu fiquei imensamente feliz ao saber que você sempre me amou, que eu não estava tão maluca pensando que você gostava de mim. Claro que eu não sou mais a mesma garota de 25 anos atrás, então não espero ser possível que simplesmente nos joguemos um nos braços do outro como se esses 25 anos não tivessem acontecido. Não, eles aconteceram. Entendo isso. Por isso é que eu gostaria que você pudesse me ouvir, para eu explicar que não estou querendo que você acorde para que fiquemos juntos. Bom, isso seria ótimo, mas um tanto egoísta, não acha? Não, eu quero que você acorde para poder retomar, por si só, essas escolhas que lhe foram tiradas.

Ela deu um beijo na testa quente e seca do homem na cama.

– Agora vou deixar você descansar um pouco. Volte logo para nós, Severus. Seja como for.

Aquilo rapidamente virou rotina para Mia. Quando podia, ela até ajudava a Enfermeira Luscínia nos cuidados do paciente. Mia também variava a conversa: mesclava as revistas de Poções e novidades do mundo bruxo com monólogos sobre sua vida e como tinha sido longe dele.

– Sabia que estou dando aula de Poções no seu lugar? Não se preocupe, não desarrumei nada. Aliás, agradeço por ser tão organizado. Tornou minha vida muito mais fácil.

– Lembra-se de como você, Lily e eu estudávamos Poções? Eu ainda hoje fico andando entre os alunos, e me pego vendo nós todos, alunos, ali naqueles lugares. Com Harry Potter tão parecido com James, não é de se estranhar, não é?

– Desculpe não ter acompanhado muito sobre sua vida enquanto estive fora. Soube de algumas coisas, mas nem tudo. Sabe, era difícil para mim.Eu ficava toda estranha. Dimitri notava logo. Ele sabia tudo sobre nós. Acho até que ele tinha ciúmes.

– Lembra-se dessa música? Beatles. Era a única música Muggle da época que você suportava. Lily tentava trazer os discos, mas Hogwarts não aceitava tecnologia Muggle de qualquer espécie. Então a gente cantava. Era muito engraçado, lembra?

– De novo, fico achando que lhe devo desculpas por tudo que você passou. Espero que me acredite quando digo que não tinha idéia do que você estava passando. Todo esse tempo eu achei que você não gostava de mim. Aí quando cheguei aqui e você continuou me rejeitando, eu tentei imaginar o que poderia ter sido que o deixou nesse estado. Desculpe, Severus. Desculpe, meu amor.

E os dias se passaram...

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– Minerva, queria falar comigo?

– Por favor, Mia, sente-se.

– Aconteceu alguma coisa? Severus piorou?

– Não, nada aconteceu com Severus. E esta é minha preocupação. Já são três semanas de coma. Um total de um mês desde... desde o incidente, enfim. As coisas estão praticamente se normalizando. Madame Tonks está de volta a seu posto, o Prof. Lupin também. Eles têm sido incansáveis em tentar estimular Severus. Lupin até usou aquele gramofone e os infernais discos de jazz.

– Mesmo? Remus é tão ciumento daqueles discos.

– Pois isso lhe dá uma medida do quanto ele tem se esforçado. Mia, você falou com ele? Digo, para aparar as arestas?

– Na verdade, não. – Mia suspirou. – Tenho me ocupado das aulas de Poções e de Severus. Não tive tempo para mais nada.

– Não que eu queira me meter em sua vida particular, mas... não estaria tentando procrastinar uma conversa com seu amigo, não?

– Não, claro que não. Eu já perdoei Remus. E Tonks também, para ser sincera. Não posso dizer que não tenha ficado magoada, ou enraivecida, mas... eles sofreram tanto quanto eu nessas últimas semanas.

– Mas você tem sofrido por 25 anos. Achou que Severus não a amava – o que não era verdade. Até deixou o país. E não minta para mim dizendo que ele não teve nada a ver com isso, porque eu sei que não é verdade.

Mia enrubesceu:

– Sim, é verdade, sim. Eu teria ido para qualquer outro lugar que me oferecesse uma oportunidade de estudo. Desde que fosse longe daqui.

– Então, minha cara – Minerva ergueu-se para servir uma xícara de chá em seu gabinete. – Este foi um dos motivos pelos quais eu pedi que viesse. Correndo o risco de me repetir, insisto que não tenho a pretensão de me meter na sua vida, ao contrário de certos diretores de Hogwarts.

O retrato de Albus Dumbledore disfarçadamente voltou-se para o seu astrolábio – mas de vez em quando lançava um olhar para o gabinete da diretora. Mia prendeu o riso e comentou, pegando sua xícara:

– Oh, eu tenho certeza de que esse tempo já passou.

– De qualquer forma, achei que gostaria de saber que Hogwarts tem uma política bastante aberta com relação a confraternização entre professores. Horace Slughorn é quem costumava promover alguns... convescotes entre alunos, mas eventualmente também havia reuniões descontraídas com o staff. Aliás, seria uma boa idéia organizar um desses logo após a festa de Halloween.

– Sim, concordo. Mas por que está me dizendo isso?

– Para deixar claro que, se você e Severus forem discretos, não há nada nos regulamentos da escola que impeça dois professores viúvos e desimpedidos de, er, digamos, desenvolverem laços mais profundos do que o de amizade e companheirismo profissional.

Mia ficou vermelha, mas sorriu:

– Oh. Entendo. É bom saber. Obrigada por me alertar, Minerva.

– Não tem de quê. Mas há outro assunto que gostaria de discutir com você, Mia. Infelizmente, um não tão agradável. É sobre Severus.

– Severus? Você disse que ele estava bem!

– Eu disse que ele não tinha piorado. Mas também não melhorou, Mia. O curador Spencer acredita que ele terá mais recursos se for transferido para o St. Mungo's. Estou tentada a concordar com ele.

– Transferir Severus? Mas isso não será perigoso?

– O curador garante que a condição de Severus é estável e propícia, se quisermos transferi-lo. Ele não corre risco de piorar por causa da transferência.

– Não, Minerva, eu falava da segurança pessoal dele. Ele é um ex-Comensal, e sempre pode haver alguém interessado em se vingar dele, tanto de um lado quanto do outro. Severus é um homem marcado: Comensais o odeiam porque ele foi espião, mas o outro lado também o odeia por ter sido Comensal. Hogwarts oferece segurança para ele, ainda mais nessa condição vulnerável que ele se encontra.

– Sim, eu considerei isso também. Mas se ele não apresentar qualquer melhora em breve, o curador vai considerá-lo em "estado vegetativo", e aí a nossa enfermaria será considerada inadequada para cuidar do caso. O curador tem uma responsabilidade médica.

– Entendo. A decisão é sua, claro, mas quero apenas registrar que Hogwarts oferece muito mais segurança para Severus.

– Seu protesto está devidamente registrado. De qualquer modo, a transferência não se dará a não ser em alguns dias. – Minerva sorriu. – Vou pessoalmente requerer que você tenha permissão de visita em qualquer horário.

Mia teve que sorrir.