Parte IV – O decreto de Kublai Khan

Capítulo 16 – A sombra da abóbada do prazer

Cinco anos mais tarde

– Muito bem, Sr. Potter. – A voz de Severus provocou tensão no seu aluno. – Vamos uma última vez. Pode recitar desde o início, por favor.

A voz infantil pôs-se a recitar, de olho no mapa à frente:

– Os continentes do mundo são África, América, Ásia, Europa e Oceania. O maior país do mundo é a China.

– Não se esqueça de mencionar as regiões polares: Ártico e Antártica. Acho que já chega por hoje. Amanhã vamos estudar também as capitais da Europa Ocidental, então sugiro que olhe seu livro hoje.

– Mas, tio Sev, já tem todo o dever de matemática...

– Durante as aulas, Sr. Potter, eu sou o Prof. Snape.

Damien fez cara de muxoxo:

– Sim, senhor, Prof. Snape.

– Muito bem. Pode recolher seus livros e esperar seu pai, que certamente já virá buscá-lo.

– Posso brincar com Snuffles um pouco?

– Só se for no jardim. E se o sol começar a desaparecer, já sabe.

– Sim, senhor. Eu trago Snuffles para dentro assim que o sol começar a descer. Será que o tio Sirius não quer brincar também?

Severus sentiu uma dor no coração, mas não demonstrou ao menino. Ao invés disso, ele explicou, com voz suave:

– Você sabe que seu tio adora brincar com você, Damien. Mas ele tem essa doença, você sabe...

– Eu sei. Eu queria que ele ficasse bom logo...

– Eu também, Damien.

Foram interrompidos por um grande cão preto que entrou na sala de aula, latindo. O rosto de Damien se iluminou num sorriso:

– Snuffles!

O imenso cão pulou em cima do menino, de apenas seis anos, derrubando-o no chão e lambendo-lhe o rosto todo. Severus achou a cena adorável, mas teve que disfarçar o rosto e ralhar:

– Snuffles! Você sabe que não pode entrar aqui!

O cão saiu de cima do garoto e abaixou a cabeça e as orelhas diante de Severus, ganindo. Severus explicou:

– Não precisa fazer essa cara. Damien já encerrou sua aula, e eu lhe dei permissão de brincarem lá fora.

Imediatamente, o cão ergueu a cabeça e começou a abanar o rabo entusiasticamente. Damien se ergueu e perguntou:

– Podemos ir, tio Sev?

– Podem ir agora. Mas juízo, hein?

Os dois saíram correndo, Snuffles latindo alegremente. Severus sabia o quanto ele gostava desse momento.

Ainda tinha algum tempo até o Sol desaparecer. Talvez ele pudesse trabalhar um pouco no porão. Os livros que ele encomendara de Kathmandu chegaram, e ele não tivera oportunidade de examiná-los.

Ele precisava encontrar a solução. Ele não deixaria Lord Voldemort vencer, anos depois de morto. Ele seria feliz.

Os dois mal tinham começado a correr pelo jardim, quando as proteções brilharam e a cabeleira preta rebelde característica de Harry apareceu bem perto deles. Damien gritou de alegria, e Snuffles também se jogou em cima de Harry. Ele rapidamente trouxe os dois para dentro.

– Ah, pai – choramingava Damien. – A gente tava brincando.

– Precisamos ir agora. Você pode brincar mais com Snuffles amanhã. Agora, pegue suas coisas e dê tchau para Snuffles e para o Prof. Snape.

– Tá bom. Até amanhã, Prof. Snape.

– Até amanhã, Damien. Espero que você tenha um bom descanso e faça seus deveres.

– Tchau, Snuffles. – O garoto acariciou o cachorro. – Tio Sev, manda um beijo pro tio Sirius.

– Eu mando, sim. E mande um beijo pro seu irmãozinho e seu pai.

– Tá, tio Sev. Vem, Snuffles.

Os dois saíram correndo para o lado de fora. Harry olhou para Severus, enquanto caminhavam atrás do menino e do cão:

– Tudo bem?

– Como sempre.

– Aqueles livros chegaram?

– Sim, mas não pude ler.

– Draco pretende fazer mais pesquisas a partir do mês que vem. Ele tem conseguido consolidar a empresa de proteção contra Artes das Trevas, graças ao treinamento que você deu. Vamos conseguir, Severus.

– Sim, nós vamos. Por favor, diga isso a Sirius sempre que puder. Ele às vezes parece um tanto... deprimido.

– Ele não perdeu a esperança, Severus.

– Nem eu. – Ele deu um pequeno e triste sorriso. – Abraços a Draco e ao pequeno.

– Cuidem-se, vocês dois. E vamos almoçar juntos, domingo.

Severus observou Harry pegar o filho e sumir atrás das proteções. Snuffles veio trotando até ele. Severus acariciou-o atrás da orelha e entrou de novo para dentro de casa, o cachorro atrás.

O sol estava bem baixo, então ele resolveu ir para o quarto da transformação. Avisou o cão:

– Está quase na hora. Preciso escrever um bilhete rápido.

Os dois subiram as escadas construídas desde que o pesadelo começara. O quarto da transformação era até bonito: havia o teto alto, o imenso janelão de frente para as montanhas, o sofá espaçoso em frente à lindíssima paisagem, o grande poleiro (já abastecido de água fresca e comida), a prateleira com os livros, e a escrivaninha, sempre com papel e caneta. Era no último andar, uma espécie de sótão, e era muito, muito espaçoso. Nem sempre Severus deixava um bilhete, mas ele precisava avisar sobre os livros.

"Meu amor,

Os livros que esperávamos chegaram do Nepal. Infelizmente, não tive tempo de lê-los. Harry disse que Draco espera ter novidades em breve.

Já limpei o poleiro, então você não precisa fazer isso. Mas lamento informar que Snuffles vai tomar um banho em breve. Não vou avisar quando, caso contrário, você o avisa e ele foge para a Floresta, tentando escapar do banho. Não quero usar Petrificus de novo.

Morro de saudades suas. Cada dia é um tormento. O sol já está baixo e preciso terminar.

Com amor,

Severus"

Ele dobrou o bilhete e deixou-o à vista. Snuffles ganiu, já sentado no sofá. Severus viu o sol quase sumindo na linha do horizonte e sentou-se ao lado do cão, acariciando-lhe o lugarzinho mágico atrás da orelha.

Encarou os últimos raios de sol.

Não iria demorar.

Capítulo 17 – Na direção do mar sem sol

Em Xanadu, o pôr-do-sol sempre fora magnífico. O céu pintava-se de dourados, púrpuras e vermelhos, em rajadas furiosas, como se aquela luz fosse a última oportunidade da Natureza fazer uma declaração. Eram momentos mágicos.

Literalmente mágicos, eram esses momentos para Severus, que observava, com o coração partido, os últimos raios de sol sobre o pêlo negro de Snuffles. Ele sentia os músculos reclamando, os ossos se realinhando já naquele momento, e uma raiva o consumia. "Por favor, mais um pouco. Só mais um pouco", quase rezou

O pêlo se recolhia, pedaços de pele humana começavam a aparecer. Mas Severus ficava de olhos grudados na cabeça. Via o focinho se encolher, os olhos separarem-se, tornarem-se cinza. Os pêlos iam dando lugar a um rosto humano, ao rosto amado. Severus começava a reconhecer o rosto de Sirius, seus olhos se enchiam de água, ele tentava ignorar a dor em seu próprio corpo, quando as penas brotavam de sua pele.

Ele esticava o braço, tentava fazer os dedos tocaram o rosto que tanto amava, mas logo já não eram dedos, e sim garras, e não era um braço, mas uma asa, que não tinha pele, e sim penas negras.

O rosto de Sirius o via, e mal o reconhecia. Snuffles rapidamente estava sumindo, dando lugar ao humano Sirius.

Eles só tinham alguns segundos. Eles só tinham aqueles segundos.

O sol sumia por trás das montanhas. E no exato momento em que sua luz desaparecia, Severus não mais enxergava Sirius. Seus olhos tinham mudado. Todo o seu corpo tinha mudado.

Não havia mais Severus. Só Nilyx, a fênix negra. Menor que a fênix de fogo, como Fawkes, a fênix da noite tinha as penas negras e um faixa prateada no peito. Eram extremamente raras, fiéis se fossem adotadas como animais de bruxos e magos, com algumas capacidades mágicas próprias.

Nilyx soltou um grito na noite e agitou as asas. Sirius cobriu o braço com o braçador de couro que tinham confeccionado especialmente para Nilyx e esticou-o, convidando a fênix negra a se aproximar. Nilyx sobrevoou o quarto da mudança, alongando as asas, até pousar gentilmente no braço de Sirius.

O ex-animago sorriu com doçura para a ave e fez seus dedos alisarem a cabeça do bicho, depois o peito prateado.

– Olá, Nilyx.

A fênix abriu o bico e soltou outro grito, agitando as asas. Sirius andou com a ave empoleirada no braço e depositou-a no poleiro, dizendo:

– Eu solto você mais tarde. Por enquanto, tome uma água.

Nilyx abriu as asas novamente, encarrapitada no seu poleiro.

– Que agitação é essa? Ah, um bilhete. É isso que quer me mostrar?

Sirius leu o bilhete, e isso pareceu aquietar a fênix um pouco mais. Ele leu e releu as palavras, e depois cheirou o papel. Fechou os olhos, absorvendo o cheiro de Severus. Como ele sentia saudade...

Com um suspiro, ele desceu para ver os livros. A fênix continuou no seu poleiro, procurando água no bebedouro. Mais tarde, ela sairia para voar na noite.

Sirius voltou para se sentar à escrivaninha e examinar os livros vindos do Nepal. Ali poderia estar a resposta. Eles tinham que encontrar a resposta.

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Tudo acontecera assim que eles declararam amor um ao outro. Precisamente na mesma noite, cinco longos anos antes. Mais tarde, eles perceberam que esse tinha sido o gatilho que detonara a maldição. Até descobrir isso, contudo, o susto tinha sido grande.

Severus acordou naquela manhã e viu-se na cama não com Sirius, mas com Snuffles. Ficou intrigado, porque Snuffles raramente fazia uma aparição, a menos que Sirius estivesse chateado.

– Sirius? – Severus se dirigiu ao cachorro, e sentiu-se idiota fazendo isso. – O que foi? Vamos conversar sobre isso?

O cachorro (até então dormindo) latiu para ele baixinho, e depois se sentou na cama. Então, ele começou a ganir, e a chegar perto de Severus, que não entendeu o comportamento.

– Se quer me dizer alguma coisa, não seria melhor voltar ao normal para podermos conversar?

Snuffles chorou ainda mais alto, as orelhas caídas, um ar extremamente triste e angustiado. Severus deu de ombros:

– Está bem. Se não quer, não posso obrigá-lo. Mas também não vou saber o que quer me dizer.

O dia inteiro, porém, Severus sentiu que Sirius estava agindo como uma criança: transformado em cão, ele não podia falar. Então do que estava reclamando? Ele desceu ao laboratório e ficou lá. Snuffles não deixou seu lado.

Trabalhando no laboratório, Severus perdeu a noção do tempo, e estava morrendo de fome quando subiu para a cozinha. A tarde estava chegando ao fim, e mais um glorioso pôr-do-sol se anunciava.

– Não está com fome? Prefere jantar comigo à mesa ou vou ter que fazer uma tigela de ração para você?

Snuffles latiu, parecendo magoado.

– Ora, que droga, Sirius! Por que não volta logo e falamos sobre o que está chateando você?

Ganido. Uivo curto.

– Droga, eu nem sei se você pode me ouvir, mas se estiver, por favor, escute isso. . Se você está mudando de idéia sobre nós dois ou nosso... arranjo, eu preciso saber. – Severus engoliu em seco. – Se vai me deixar, se quiser que eu deixe essa casa, então me diga. Mas você vai ter que me dizer. Vamos ter que conversar sobre isso.

Snuffles chegou perto dele e puxou suas vestes com os dentes, quase uivando de tão angustiado. Severus perdeu a paciência.

– Pare com isso! Eu tenho que fazer o jantar! E já que prefere continuar assim, vai ser ração para você!

Foi quando o Sol se pôs.

De repente, Severus sentiu uma dor lancinante percorrer-lhe o corpo todo. Ele se dobrou, gemendo, e logo não se sustentou mais nas pernas. Quando caiu no chão da cozinha e tentou se apoiar nos braços, viu que eles estavam mudando. Criando coisas pretas. Coisas que furavam sua pele, saindo de baixo da pele.

Pareciam... penas.

Uma confusão terrível seguiu-se, e Severus não se lembrou de mais nada.

Sirius ergueu-se, intrigado como tinha passado tanto tempo como Snuffles, mesmo sem querer. Mas não teve tempo de ficar muito intrigado. Estava na cozinha, onde naquele momento havia um pássaro voando, enlouquecido, esbarrando em tudo, derrubando coisas das prateleiras, tentando desesperadamente achar uma saída.

Sirius tentou acalmar a ave, notando que ela não era uma coruja. Era toda preta, e podia ser um corvo. Mas era grande demais para ser um corvo. Era magnífica, também.

O bicho fugia de Sirius, que tentou abrir uma janela para deixá-lo voltar lá para fora. Quando a ave pousou na borda de um armário, Sirius notou que ela possuía uma mancha grande e prateada no peito, e não era um corvo, nem águia nem um falcão, muito comuns na região.

De repente, o bicho desapareceu diante de seus olhos, com uma nuvem negra. Sirius arregalou os olhos: era uma fênix negra, uma fênix da noite, um bicho que se julgava estar extinto.

E aquela fênix era Severus.

Capítulo 18 – Profetizando guerras

– Sirius? O que aconteceu? Severus está bem?

– Não, Harry, eu acho que não. Desculpe chegar a essa hora e sem avisar, mas... algo está acontecendo.

– Nossa, você está pálido. Senta aqui.

– E Draco?

– Dormindo. Ele tem dormido muito, com a gravidez e tudo mais. Damien também está dormindo. Mas conte-me o que houve com Severus.

– Eu acho que ele pode estar sob uma maldição de Voldemort.

– O quê??? Voldemort morreu há anos. Por que está dizendo isso?

– Harry, hoje de manhã, eu acordei como Snuffles e não consegui voltar à forma humana. O dia inteiro, eu quero dizer. Tentei, tentei, e não consegui. Então eu comecei a voltar a ser humano. Aí, de repente, Severus começou a se transformar também!

– Severus? Mas ele não é um animago. Ao menos, não que eu saiba.

– Por isso mesmo! Ele se transformou numa fênix negra, e é claro que ele não tinha idéia do que estava acontecendo. O bicho ficou apavorado, e começou a quebrar a cozinha toda, voando desesperado. Aí ele desapareceu e acho que foi para a floresta. Mas, Harry, ele não sabe ser bicho! E se algum falcão o pegar? Ou um outro animal? Merlin, Harry, ele é uma presa fácil.

– Mas por que você acha que é uma maldição?

– Porque foi de repente. Que nem aquela outra vez. Eu só não sei o que detonou isso.

– E afetou você também?

– Acho que sim. Mas eu consegui me transformar de volta. Afinal, eu sei como. Mas ele não sabe, Harry. – Sirius parecia desesperado, a ponto de começar a chorar. – Harry, ele não sabe ser bicho e também não sabe voltar à forma humana. Eu nem sei se ele vai voltar à forma humana. Se for uma maldição, ele pode passar a vida inteira como ave!

– Calma, Sirius.

– Como, calma? Não me diga para ter calma! Droga, Harry, agora que a gente tinha se acertado, isso acontece!

– Vocês tinham se acertado?

– É, sabe... – Sirius ficou encabulado, um sorriso tímido. Coçou a cabeça e deu de ombros: – Ele gostava de mim, e eu não sabia.

– Sirius... – Harry deu um risinho. – Acho que só você não sabia. Até Damien sabia.

Aquilo arrancou outro sorriso embaraçado de Sirius.

– É... Bom... Mas a gente se acertou, e agora eu estou preocupado com ele, Harry. Só Merlin sabe o que pode atacá-lo de noite na tundra, se ele não sabe direito como ser uma ave.

– Fique calmo. Vamos procurar por ele. Olhe, vou avisar Draco e já volto. Ele pode sair de Xanadu?

– Acho que não. As proteções detectam animagos, porque na época Wormtail era vivo. Isso nunca foi trocado.

– Que bom. Assim podemos tentar rastreá-lo.

Eles passaram a noite na floresta que circundava Xanadu. Quando o dia começava a amanhecer, Harry encontrou Sirius. Por sorte, ele viu o que aconteceu.

Assim que os primeiros raios do Sol surgiram no horizonte, Sirius começou a se transformar. Harry acompanhou a aflição, o desespero, em que Sirius tentava reverter a mudança e manter sua forma humana. Inútil. Snuffles apareceu, e parecia agitadíssimo, ganindo e pulando, e puxando Harry pelas calças para irem até a floresta.

– Snuffles? Ache Severus!

O cachorro largou Harry e correu floresta adentro, Harry tentando ir em seu encalço. Mas Snuffles se perdeu na mata densa, e Harry achou melhor ficar perto da casa.

Em minutos, um ruído alto de Aparatação o assustou. Severus apareceu, absolutamente desalinhado, vestes rasgadas, cabelo ainda pior do que o de costume, arranhões no rosto. Harry o chamou:

– Severus!

Aliviado, Harry o abraçou e o levou para dentro de casa. O seu ex-professor estava francamente atordoado.

– O que...

– Calma, calma. – Harry o pôs sentado à mesa da cozinha. – Vou fazer um chá, que tal?

– Tem comida? Estou esfomeado, e nem sei direito o que houve...

– Você passou a noite como uma ave negra mágica aparentemente extinta.

– Hum?

Harry contou tudo o que Sirius tinha lhe contado, e Severus ainda processava as informações quando alguém bateu à porta da cozinha. Severus por um minuto teve uma esperança de que fosse Sirius. Mas era Draco, com Damien no colo, a barriga levemente arredondada. Ele encarou Harry, bravo:

– Você está aí? Por que não me avisou que Severus estava bem? – Draco olhou com mais atenção para Severus e comentou. – Na verdade, ele não parece tão bem.

– Ev! Ev! – gritou Damien, que ainda não falava, mas articulava algumas sílabas.

Draco olhou para o filho, que agitava os braços e queria se jogar para cima de Severus. Era impressionante como o garoto gostava de Severus.

– Venha cá, Damien. – disse o ex-professor

– Ev! – Damien parou de gritar quando foi levado a sua pessoa favorita, os pezinhos fincados nas coxas, as mãozinhas direto no nariz. – Ev, papai.

– O que aconteceu com você? – indagou Draco.

– Não tenho certeza. Harry parece saber mais do que eu.

– E Sirius?

Harry repetiu a história toda para Draco, que empalideceu. Damien estava ficando chateado no colo de Severus, então ele pediu para descer, e começou a caminhar pela cozinha, Harry de olho no diabinho.

– Draco? – Severus notou a palidez do outro. – Você sabe algo sobre isso?

– Acho que sim. Não tenho certeza. – Ele parecia confuso e arrasado. – Droga, Severus, eu espero que não seja nada disso que estou pensando.

– No que você está pensando?

– Isso é coisa do Lord. – Draco ainda não conseguia dizer o nome de Voldemort. – Ele adorava lançar essas maldições sem tempo definido. Elas funcionam à base de circunstâncias específicas: quando as condições certas se reúnem, a maldição se aciona praticamente de maneira autônoma.

– E como desfazer a maldição?

– Logicamente, seria desfazendo as circunstâncias. O problema é que não se sabe exatamente as circunstâncias. Meu pai me falou de um feitiço geral para esse tipo de maldição. Conhecendo o Lord, não estou muito certo de que daria certo. Ainda mais quando nós nem sabemos direito de que circunstâncias estamos falando.

Severus abaixou a cabeça.

– Eu acho que sei.

– Como assim?

– Ele dizia que eu jamais seria amado. Ninguém nunca seria capaz de me amar, segundo ele. Acho que a maldição foi uma maneira de assegurar a sua profecia.

Harry pegou Damien no colo pouco antes do menino tentar se enfiar no forno e indagou:

– Eu não estou entendendo.

– Sirius e eu... – Severus enrubesceu um pouco antes de continuar: – ... admitimos nossos sentimentos.

– Sirius também?

– Sim. Na verdade, foi ele quem admitiu. Eu já sabia há muito tempo.

Draco assentiu:

– Sim, faz sentido. O feitiço foi acionado quando o amor foi correspondido. Todos nós sabemos o quanto o Lord odiava o amor.

– Por isso Sirius vira bicho e Severus também? Mas Severus nem é animago!

– Pelo que vocês disseram – continuou Draco –, a intenção é que um tenha forma humana enquanto o outro for animal. Desta maneira, eles estarão sempre sozinhos. Eternamente esperando um momento em que poderão ser os dois humanos de novo. Só que o Lord não deixaria isso acontecer. Portanto, as condições de transformações seriam garantidas.

– O Sol – deduziu Severus. – Quando o Sol se levanta...

– ... é quando vocês se transformam – completou Harry, tentando controlar o filho que se contorcia para sair do seu colo. – Afinal de contas, o que pode ser mais certo do que o nascer do Sol?

Draco assentiu de novo, pegando Damien no colo. O menino queria mexer em tudo, e Harry não estava deixando, então ele foi para o pai que o deixava se divertir.

Severus estava cabisbaixo, exausto de várias maneiras, mal prestando atenção no que eles diziam. Só o que ele ouvira é que ele não podia ficar junto de Sirius. Agora Sirius só aparecia quando ele virava uma ave negra extinta.

Neste momento, um barulho ensurdecedor produziu-se na porta da cozinha. Pelas batidas, alguém diria que uma tropa de assalto estava tentando arrombar a porta e invadir o local. Os ganidos e latidos, porém, deram certeza de que era apenas Snuffles – que captara o cheiro de Severus e voara para casa.

O barulho assustou o pequeno Damien, que se abraçou a seu pai Draco quando Severus abriu a porta e o imenso cão negro pulou para dentro da cozinha, derrubando-o no chão ruidosamente. O corpo dolorido de Severus reclamou quando suas costas aterrissaram no assoalho.

– Calma, calma – Severus tentou dizer, mas o bicho estava com as patas dianteiras sobre seus ombros, a língua lambendo furiosamente seu rosto. – Está tudo bem, Snuffles. Assim você vai assustar Damien.

O cachorro começou a ganir, e Severus conseguiu sentar-se no chão. Damien olhava tudo, espantado, enquanto Draco tentava convencê-lo de que aquele bicho era amigável.

- Está tudo bem, Damien. Esse é au-au.

– Au-au, papai?

Severus disse:

– O nome dele é Snuffles, Damien. E você não precisa ter medo dele. Quer brincar com ele?

Snuffles chegou perto do menino, ainda no colo do pai. O garoto soltou um grito de tão excitado, mas esticou a mãozinha para acariciá-lo. Snuffles ficou quietinho enquanto era acariciado, e o menino pareceu adorar aquilo.

– Snuffles, esse é Damien. Você pode brincar com ele, mas ele é pequeno. Portanto, tome cuidado.

O cão latiu, e Damien estava maravilhado com o bicho, após o susto inicial. Ele nunca tinha visto um cachorro antes. Os dois logo começaram a criar mais contato.

Seria uma cena linda, pensou Harry, se não fossem as circunstâncias. O ar depressivo de Severus deixava tudo mais difícil. Talvez por isso, Harry prometeu que tentaria ajudar.

Se Draco não impedisse, claro.

Capítulo 19 – Rezando por uma luz

Harry demorou uns meses para tocar no assunto. Mas quando tocou, a reação foi explosiva.

– Mas Draco...

– Não, não e não! Você não vai nem mencionar isso. Severus vai concordar comigo.

– Você viu como eles estão? Droga, Draco, eles estão um trapo. Eles estão tentando de tudo, e nada funciona. Eu preciso fazer isso.

– Eu o proíbo, entendeu? Eu proíbo você! – O louro ex-Malfoy segurou sua barriga volumosa. – Não basta eu estar para parir, tendo que torcer para nosso filho nascer de dia, porque o parteiro vira urubu de noite, e você ainda quer me deixar aqui sozinho para ir numa corrida louca atrás do impossível, uma que pode ameaçar tudo que nós temos aqui?

– Draco, querido, não se altere. O bebê...

– Devia ter pensado nisso quando veio com sugestões absurdas!

– Mas se der certo, tudo isso acaba. E seu parteiro não vai mais virar urubu! Nunca mais!

– Prefiro me arriscar a ficar 12 horas em trabalho de parto, esperando o Sol nascer para Severus voltar à forma humana! – Draco jogou os braços para cima, o rosto esfogueado. – Esse assunto está encerrado, Potinho! Não quero mais ouvir falar disso! Nunca mais!

Ele saiu, segurando a imensa barriga, e Harry suspirou. Draco tinha seus ataques hormonais e ficava intratável, uma das piores características Malfoy. Apesar de Draco ter abandonado seu sobrenome e ter dado a Damien apenas o sobrenome Potter, ele não podia trair seus genes. De qualquer modo, Harry sentia que precisava ajudar.

Porque Sirius e Severus precisariam de toda a ajuda que pudessem conseguir.

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Não foi falta de tentar. Severus mergulhou na leitura de todos os títulos que podia colocar a mão. O quarto onde Severus dormia sozinho, anos atrás, tinha se transformado num escritório/biblioteca. O local tinha livros empilhados por todo o lado. Era uma mescla de Transmorgrificação, Transfiguração e Artes das Trevas.

Por instinto, Severus tinha começado com poções. Depois de voar a noite inteira, ele passava os dias inteiros de pé, mexendo caldeirões. Vários caldeirões ao mesmo tempo, diga-se de passagem.

Ele tentou isolar-se num quarto escuro e hermético, para que a luz do Sol não entrasse ali e ele pudesse deter a transformação. Foi uma boa idéia, mas equivocada. A maldição era ativada pelo nascer e pôr do Sol, não pela sua luz.

Por corujas, eles encomendaram novos livros. Tentaram encantamentos e feitiços. Respeitaram fases da Lua e alinhamento de planetas, como os livros diziam. Sirius e Severus se revezam nas experiências, trocando bilhetes furiosamente sobre as tentativas e seus resultados.

Aos poucos, eles montaram o quarto da transformação. E, enquanto isso, eles tentaram outras opções.

Uma das primeiras coisas com as quais Sirius tentou lidar foi com a fênix. Ele lhe deu um nome, tentou aproximar-se do bicho. Ele queria nomear a fênix Nyx, nome de uma deusa grega da noite. Severus preferiu Nilyx, uma forma masculina. Mas essa era a menor das complicações com a ave.

O problema era que, como não era animago, Severus (em sua forma animal) não retinha seus pensamentos humanos. Ele era puramente animal e um animal bem assustado, porque não entendia sua transformação. Sirius ficou todo bicado, lanhado, arranhado e cortado pela fúria de Nilyx.

Severus teorizou que Nilyx se assustava com a transformação, portanto, se ele não a presenciasse, talvez ficasse mais calmo. Então, Severus tomou uma forte poção para dormir no pôr-do-sol, e estava inconsciente quando a noite chegou e a transformação trouxe Nilyx. A ave estava tão agitada quanto sempre quando acordou. Mas estava grogue, o que resultou em desastre ao tentar voar, desgovernado. Sirius quis se aproximar, mas aí mesmo que a ave se assustou. Enfim, novo fracasso.

Sirius não viu alternativa. Ele teria que tentar domar o animal.

Com a concordância de Severus, Sirius fez extensos preparativos para domesticar uma ave adulta. Aquela região era famosa por falcões treinados para caça, e ele tentou aplicar algumas das técnicas locais, que remontavam aos tempos dos ancestrais do imperador Genghis Khan.

Se Nilyx o reconhecesse, mesmo que fosse como um amigo ou treinador, ele teria chance. Mas, a exemplo de Severus, Nilyx também era um animal desconfiadíssimo, muito pouco inclinado a confiar.

Durante meses, Sirius montou um imenso viveiro de aves só para Nilyx, do lado de fora da casa. Severus entrava na gaiola com Snuffles, e quando o Sol se punha, Sirius permanecia trancado com Nilyx. Nas primeiras semanas, o bicho ficava supernervoso e estressado, voando por toda a gaiola, procurando uma saída, procurando fugir de Sirius. O animago, porém, ao invés de tentar se aproximar dele, ignorava o animal. Ficava ali a noite inteira, tão preso quanto o bicho, com uma garrafa de água e conjurando comida, lendo livros, tentando encantamentos. Aos poucos, Nilyx foi se acostumando à sua presença ali.

Depois que o bicho se acostumou a ele, Sirius forçou-o, com comida e água, a se aproximar fisicamente. De novo, Nilyx ficou nervoso. Demorou semanas até ele aprender a entender Sirius como uma não-ameaça.

Harry estava abismado. Ele jamais chamaria seu padrinho de uma pessoa paciente, Severus tampouco. Mas ambos estavam ali, tentando. Semanas a fio, meses. Anos.

Para sorte de todos, Severus foi capaz de fazer o parto de Draco, embora Harry estivesse de sobreaviso para uma emergência. O ex-Malfoy tinha entrado em trabalho de parto perto do amanhecer, e Derek nascera às 3 da tarde, forte e com um belo par de pulmões. O afilhado emocionou Severus, e Sirius também se sentiu muito orgulhoso.

Eventualmente, os meses se transformaram em anos, e Sirius e Severus continuavam separados. O momento da transformação era o mais sofrido. Por alguns segundos, eles viam seus rostos humanos – por segundos, segundos em que um virava bicho e o outro deixava de ser bicho, segundos tão rápidos que não dava tempo para eles se falarem, se tocarem, se reconhecerem.

Eles tinham ficado extremamente esperançosos quando Severus consultou os astros e calculou que um eclipse do Sol se aproximava. Seria um eclipse total. A luz do Sol seria obscurecida pela sombra da Lua, e o dia se transformaria em noite. Era uma ocasião para se verem, ao menos. O fenômeno duraria quase quatro horas. Eles poderiam ao menos se tocar.

Com sorte, a maldição se quebraria quando a luz do Sol fosse apagada, quando a noite invadisse o dia. As condições seriam quebradas, certo? E tudo poderia ter fim.

No dia marcado, os dois se trancaram no quarto da transformação e olharam o céu, homem e cão. A emoção cresceu quando o Sol começou a desaparecer, como que "devorado" pela sombra da Lua. Snuffles sentiu imediatamente, ganindo e deitando no chão, como fazia quando a transformação começava.

Severus sentiu os olhos se encherem de água ao notar o focinho se retraindo, os pêlos se recolhendo... O problema é que ele começou a sentir, ao mesmo tempo, os ossos se realinhando no seu corpo. E não acreditou. Como podia ser possível?

Ele foi ao chão, as pernas encurtando, as garras da ave mudando suas mãos e pés, penas nos seus braços e pernas. A dor, como sempre, era estarrecedora, mas desta vez havia outra dor: a emocional. A de se ver transformado quando o Sol ainda estava no céu, a de saber que ainda estava amaldiçoado.

Pior do que isso, Severus olhou para o lado e viu. Viu o rosto de Sirius, numa expressão de dor, a transformação na metade do caminho. O Sol continuava a experimentar o fenômeno, mas a metamorfose não continuara. Ela parou no meio.

Durante horas, Severus nada pôde fazer a não ser ficar deitado no chão, parado, transformado apenas pela metade, olhando para Sirius. Sirius também nada mais fez do que isso: qualquer movimento era acompanhado de dor inenarrável. Os dois conseguiram apenas ficar olhando, um para o outro, em silêncio, como algo inacessível. Em silêncio, ambos choraram, sem sequer conseguir esticar suas garras e patas para tocar o outro, para confortar-se.

Quando o Sol voltou a brilhar plenamente, Sirius voltou a ser Snuffles e Severus retornou à forma humana. Assim que se viu novamente um humano, com suas mãos e pés, ele saiu do quarto e voltou para o escritório onde eles tinham os estudos.

Severus quebrou tudo que podia. Em sua fúria, ele derrubou livros, esmagou utensílios, virou mesas, até que, quando viu que nada mais tinha para quebrar, ele urrou para o Universo, amaldiçoando a sua impotência, fazendo todas as janelas do local se espatifarem.

Durante mais de 40 anos, Severus jamais tivera um ataque de cólera dessa magnitude.

Ele jamais tinha amado dessa maneira.

De todas as perdas de sua vida (e eram tantas), essa era a única que ele não conseguia processar. Severus não se conformava.

Era a sua chance de ser feliz. Sirius também sofria, com uma vida abortada. Doze anos em Azkaban por um crime que não cometera, e ainda por cima morto par ao mundo, incapaz de ser reconhecido como um ser humano livre e vivo.

Ambos ficaram muito deprimidos depois do eclipse. Contudo, nenhum queria demonstrar na frente do outro.

Num momento de desespero, Sirius deixou um longo bilhete em que basicamente autorizava Severus a consolar sua solidão com Snuffles. Argumentando que, apesar de não ser adepto dessa prática, no fundo o cão era ele, só que em outra forma, e com sorte ele teria algum tipo de lembrança, e poderia senti-lo de novo. A formidável língua ferina do ex-Mestre de Poções respondeu, com outro longo bilhete, recheado de palavras nada brandas, que ele não era adepto da zooerastia ou bestialismo, e que, por mais que Snuffles fosse Sirius, era Sirius que ele amava, portanto tudo aquilo era uma conversa estapafúrdia que jamais deveria ser repetida sob qualquer circunstância. Da mesma forma, Severus esperava que Sirius não tentasse abusar de Nilyx sob qualquer aspecto. Essa troca de bilhetes jamais chegou a Harry.

Mas não era nada fácil. A angústia, a solidão, o sofrimento...

Até quando eles iriam agüentar?

Capítulo 20 – Congelados numa visão perpétua

Com um nome falso e grande senso de segredo, Harry tocava um negócio informal de proteções bruxas aos magos da região, que não era exatamente próspero, mas ele não queria atenção sobre si. Quando Derek começou a ficar crescidinho, era hora de pensar numa educação para Damien. Harry e Draco pensavam muito sobre isso, e sabiam que eventualmente os garotos iriam para Hogwarts ou outra escola bruxa. Até lá, porém, ambos concordavam que Severus poderia ser um bom educador. Eles só não sabiam se o ex-mestre de Poções estaria interessado.

Portanto, essa era a missão de Harry ao visitar Xanadu naquela tarde: tentar convencer seu ex-professor a educar seus filhos. As crianças gostavam de Severus, e talvez desse certo. Só dependia de Severus, claro.

Mas as preocupações de Harry tomaram outro rumo assim que ele Aparatou do lado de fora da casa, e ouviu os insistentes latidos de Snuffles lá dentro. E eram latidos fortes, como se houvesse um intruso ou algum problema.

Vinham do segundo andar.

Harry subiu as escadas de dois em dois degraus, imprimindo o máximo de agilidade que podia. Localizou os latidos no quarto e abriu a porta, de varinha em riste. A cena o intrigou.

Severus estava encurralado, imprensado contra a parede, apontando a varinha para Snuffles, que latia para ele desesperadamente, aparentemente em posição de ataque. O estranho é que o cão estava em cima de um baú, no caminho para a porta do quarto.

– Snuffles! – gritou Harry. – Snuffles, pare com isso!

O cão rosnou para Harry também, mas não fez qualquer movimento de ataque. Continuou latindo, porém.

– O que deu nele?

Severus rosnou:

– Aparentemente, o vira-lata discordou de uma decisão minha.

– Decisão? – Harry não entendia nada. – O que está acontecendo aqui? Por que suas roupas estão rasgadas?

Snuffles continuava rosnando. Severus não respondeu. Harry finalmente se deu conta do que ele estava vendo.

– Droga, Severus, você estava indo embora?

– É a única coisa que nos resta a fazer – disse Severus, entre lábios apertados. – Tentamos todo o resto.

– Não, não! Ainda podemos tentar outras coisas. Além disso, para onde você iria?

– Para longe. Para sempre...

Snuffles saiu de cima da mala, de orelhas baixas, e foi ganindo até Severus. O ex-Mestre de Poções, que durante tantos anos tinha povoado pesadelos de Harry, naquele momento literalmente desmoronou. Escorregou pela parede, murmurando:

– Eu falhei... Falhei...

Aquilo cortou o coração de Harry, ainda mais quando Snuffles começou a lamber as lágrimas que Severus não conseguiu mais segurar. O rapaz também se agachou junto a Severus e abraçou-o.

Durante alguns minutos, o Slytherin chorou, abraçado a Harry e Snuffles. Soluçou como Harry jamais vira. Depois de algum tempo, Harry conseguiu tentar dizer:

– Severus, vai ficar tudo bem.

– Não, Harry, não vai ficar! Eu não sei se algum dia vamos conseguir vencer isso. Aquele maldito venceu no final...

– Isso não é verdade, Severus. Além do mais, o que achou que iria fazer? Simplesmente abandonar a gente? Droga, isso não é seu estilo! Você nunca fugiu de nada antes... De nada! – Então Harry raciocinou. – Ah, merda! Você ia fazer mais um sacrifício.

Severus ainda chorava:

– Ele iria se esquecer... Um dia... E aí... estaria livre... A maldição acabaria.

Snuffles enfiou o focinho na mão de Severus, para que ele o acariciasse, e Severus terminou chorando ainda mais.

Harry também.

– Sirius não se esqueceria de você, e você sabe disso. Parece até que não o conhece. Ele iria até o inferno para buscá-lo. Raios, ele foi o único homem a fugir de Azkaban. Enfrentou Dementors. Sobreviveu comendo ratos. Acha que um homem assim ia simplesmente se esquecer de você?

Severus abaixou a cabeça, e Snuffles o lambeu de novo.

– Além do mais – continuou Harry -, ele conta com você. Sabe que ele me disse que essa sua vontade incansável de achar uma cura é que o motiva? Ele passa as noites debruçado naqueles livros enquanto Nilyx está fora, e às vezes ele fica meio... desanimado.

– Mesmo? – Severus olhou para Snuffles, que abanava o rabo. – Ele sempre parece tão animado, orelhas em pé, essas coisas.

– Provavelmente, ele vai me odiar depois por dizer isso, mas ele tira muita força de você. – Harry abaixou a voz. – Quando ele está deprimido, tende a beber. Sabe como é.

Severus sabia disso. Ele raramente exagerava, mas nos últimos tempos as garrafas de firewhisky vinham esvaziando a um ritmo alarmante. Afinal, com dois a beber todo o estoque...

Então, de repente, ele se virou para Harry.

– Harry, o que está fazendo aqui?

– Ajudando vocês, espero.

– Não, eu quero dizer, o que você veio fazer aqui. Não pode ter sabido o que se passava.

Harry arregalou os olhos. Tinha se esquecido completamente do motivo pelo qual viera.

– Oh. Certo. Sim, é... Bom, vamos conversar um pouco na cozinha?

Foram todos. Snuffles estava ao lado de Severus o tempo todo, desconfiado. O bicho grudara dele e não queria perdê-lo de vista, como se temesse que ele fosse tentar pegar a mala e ir embora de novo.

Harry expôs a proposta, e Severus indagou:

– Tem certeza de que quer isso, Harry? Ser meu aluno não foi experiência suficiente para você? Pretende submeter seus próprios filhos a ela?

O jovem pai sorriu de maneira afetuosa.

– Você é o melhor professor que eles podem ter, Severus. E eles adoram você. Vivem pedindo para vir para cá.

– É por causa de Snuffles. O cachorro mima os dois.

– Derek é apaixonado por suas histórias.

– Histórias para dormir é uma coisa. Matemática e gramática é outra. Não vou me transformar num professor bonzinho só porque são seus filhos. Eu tenho meus métodos de ensino, você sabe.

– Isso quer dizer que aceita?

– Está bem.

Snuffles latiu, contente. Ele adorava os meninos.

– Preciso que me dê uma lista de todo o material que você e Damien vão precisar. Depois, podemos construir uma escolinha ou um outro prédio...

– Bobagem. Eu mesmo posso erguer uma salinha extra aqui ao lado da cozinha.

– Excelente. Draco vai gostar de saber que só vai ter que cuidar de Derek.

Harry sorriu para Severus, que retornou o sorriso. Snuffles pôs a cabeça na mão de Severus, como ele sempre fazia quando queria ser acariciado.

Ao ver aquilo, Harry fez um juramento interno de ajudar a remediar aquela situação, custasse o que custasse. Draco que se danasse.