Ato II: Canções de uma Lua Azul
Quanto tudo o que sentíamos falhou
Uma música navega suave na distância
Ela não soa mais como antes
E então eu sei que não me restou mais nada
Além de minha própria alma
Quando belas fotos estão viradas
E seus casacos não estão pendurados no cabide
A água azul se transforma
Num lugar onde não posso chegar
Um lugar que não posso
Num quarto tudo o que sinto
É o frio que você deixou
Pelo ar tudo o que vejo
É seu rosto cheio de culpa
O que falta ver
É o que está lá pra se ver
(Songs for a Blue Guitar - Red House Painters)
O trem mágico que ia para Portugal cortava a noite estrelada do oceano, saindo da Bretanha. Dentro dele, num luxuoso e iluminado vagão, Lílian conversava com Dumbledore, dois bruxos do Ministério e mais o bom e velho Senhor Manoel Bandeira, uma importante figura do governo mágico Português. Dois vagões atrás, algumas moças gordinhas e prendadas recebiam uma visita que causava calafrios: uma das bruxas mais procuradas da história, a mais cruel e poderosa. Agora, claro, Leah estava mais magra, o cabelo imundo e cheio de nós, grisalho de sujeira, quase irreconhecível. Estava a poucos meses em Azkaban, mas tempo suficiente para parecer uma prisioneira das mais lastimáveis.
Um auror levou Leah até o banheiro, onde quatro mulheres – apavoradas – a esperavam. Leah, acorrentada, mantinha a cabeça baixa.
- Aqui está ela. – disse o auror – Ficarei na porta. Qualquer tentativa de reação...
Leah ergueu o olhar por entre os cabelos imundos, sorrindo cinicamente. Uma das mulheres se encostou na parede, apavorando-se.
- Não vou morder ninguém. – sorriu Leah – Juro. Não morderia ninguém sabendo que é insignificante.
- Não morderia ninguém sabendo que Lílian Evans encontra-se a menos de cem metros de você. – rosnou o auror, tirando as algemas de Leah.
Leah ficou sozinha no grande banheiro do luxuoso trem. As mulheres de avental e touca pareciam realmente apavoradas em vê-la.
- Vocês foram pagas para darem um jeito no meu visual. – murmurou Leah – Não para serem meu jantar, como ratos dados às serpentes. Não vou machucar nenhuma de vocês.
As mulheres se olharam, e, cautelosas, fizeram seu serviço: Leah tinha de parecer alguém decente, então teve de tomar um belo banho (três vezes), fazer as unhas (terríveis), e dar um jeito no cabelo, que se mostrou tão estragado que teve de ser cortado.
- Ah, cara... olha isso. – murmurou Leah, se olhando no espelho, o cabelo todo armado, cheio de nós – Vai ser impossível arrumar ele. Corte. Por favor.
Ela se sentou na cadeira de barbeiro que havia na frente do espelho, usando um roupão. As mulheres, começando a se acostumar com ela, tiveram de cortar seu cabelo, que antes quase chegava á cintura. Foi cortado e repicado, ficando na altura dos ombros. Satisfeita com o cabelo leve, diferente e novamente negro, Leah se elogiava no espelho, jogando os fios soltos para trás:
- Ah, olha que beleza! Isso sim é cabelo de gente... agora... – e olhou as unhas – Alguma manicure aí? Olha minhas mãos... eu uso espadas... essa mão podre pode atrapalhar minha habilidade.
As mulheres mais uma vez se olharam, estranhando a super simpatia e educação da bruxa das trevas, chegando a desconfiarem de que ela era mesmo a tal Leah.
Por fim, Leah se pôr na frente de outro espelho, enquanto era vestida com roupas novas em limpas. Mais uma vez usava calças pretas, botas e uma jaqueta por cima de uma regata branca. A mulher que teve de lhe entregar suas espadas para colocar na cintura tremia. Mas Leah as pegou, amarrou no cinto, e educadamente respondeu:
- ...Muito obrigada. Bom, estou pronta. – sorriu, respirando fundo e arrumando a gola da jaqueta. Virou-se para as mulheres, igualmente cordial – Vocês conseguiram fazer eu virar gente de novo! Muito obrigada a cada uma de vocês. São muito competentes. Até.
E saiu, deixando aquelas mulheres gordinhas um tanto espantadas, vendo que, de fato, mais de perto o demônio não era tão feio quanto se dizia.
- Não são os piratas. – disse o Senhor Bandeira, gesticulando como um homem entendido, sua boina vermelha sempre impecável, e seu bigode parecendo mais pontudo que o normal – Tenho certeza disso, donzela. É algo maior. Muito maior. Não sabemos de onde vem. Talvez seja uma maldição libertada após o fim de Roz, Iolaus e seus piratas. Pessoas enlouquecem... coisas estranhas acontecem...
- Veremos isso quando chegarmos, Senhor Bandeira. – disse Lílian, no sofá, de pernas cruzadas – Mas é estranho ver outra maldição voltar, se tivemos certeza de que os piratas tinham ido embora. Talvez a primeira tenha sido mesmo apenas um gatilho para outra maior.
- Nem quero pensar nisso! – gemeu, colocando um lenço branco na boca, parecendo enjoado.
- Então não pense, seu bacalhau boiola. Deixe o serviço para quem pode.
Leah aparecia na porta, de braços cruzados. Manoel a olhou, petrificado. Ela também lhe dava calafrios. Dumbledore, que calmamente tomava uma xícara de chá, ergueu os olhos, sorrindo:
- ...Nossas senhoras conseguiram lhe trazer o brilho de volta, não, Leah...? É bom vê-la tão bem.
- Nem me lembre! - resmungou Leah – Aquelas tias são o máximo! Os pêlos do meu sovaco estavam tão grandes que eu poderia me enforcar com eles!
Lílian olhou para trás, e parou o olhar em Leah. Piscou algumas vezes, a olhando de cima até embaixo. Ela parecia tão diferente, o cabelo que chegava á cintura agora tinha franja, fios repicados, e ia só até os ombros. E aquela roupa que a fazia parecer alguém da alta patente do exército... ainda lhe caía como uma luva, acentuando nela toda a pompa e pinta de autoridade que naturalmente já tinha.
- Vamos combinar, – continuou Leah, olhando o português – Você tira esse seu bigode ridículo do caminho, e deixa a gente cuidar de tudo. Mas de tudo MESMO. Alguma coisa me diz que, da última vez, você ficou com medo que a gente fuçasse demais.
- ...Que blasfêmia! – gaguejou, fazendo Dumbledore sorrir, divertindo-se – A única coisa que temo é que alguém como você, considerado um demônio, possa ferir pessoas de bem... como a doce senhorita Evans!
- E pare de passar cantada porca nela, seu coroa impotente! – rosnou, brava.
Dumbledore se levantou, deixando sua xícara de café na mesa:
- Bem... meu ponto está chegando. Vocês seguem sozinhas.
Dumbledore e os aurores deixaram o trem numa curiosa plataforma... no meio do oceano, aparentemente vazia.
- A senhoritas... boa sorte. – sorriu Dumbledore – Precisando de qualquer auxílio, chamem. Mas creio que, juntas, não precisarão de ajuda alguma. A você, Lílian... não digo nada. Você, mesmo jovem, já sabe mais do que pode imaginar.
- Quem me dera, professor. – sorriu Lílian, abaixando a cabeça.
- E você, Leah... – disse, olhando a bruxa, de braços cruzados, emburrada – Tente não matar o Senhor Bandeira. Ele é um bom homem. Apenas... limitado.
- Vou tentar, professor. – murmurou.
- Lílian... cuide de Leah. – disse, por fim – E você, Leah... cuide de Lílian.
E, assim, o trem partiu, deixando os bruxos na plataforma. Seguindo viagem, Leah, Lílian, Manuel Bandeira e alguns passageiros comuns isolados em outro vagão, sem saber o que se passava.
Leah se deitou num dos sofás, para cochilar, enquanto Lílian ia para a varanda do trem, na parte de trás, ver a vista peculiar de um trem que corre sobre o mar. Manoel achou melhor não ficar ali, com a bruxa das trevas de vigia.
O trem passava veloz pelo oceano, deixando uma linha branca de espuma. Estava frio, mas Lílian não se importava, estava debruçada na grade, olhando uma bela lua cheia, um céu com pouquíssimas nuvens e estrelado. O oceano estava liso, sem onda alguma. Era até estranho.
- Uma paisagem peculiar. – comentou Leah, aparecendo na porta da varanda, com as mãos no bolso.
Lílian olhou para trás, surpresa por vê-la acordada, já que parecia dormir profundamente no trem.
- É. Uma bela paisagem. – comentou, voltando a se debruçar na grade.
Leah olhou para o infinito vazio da paisagem, e depois de algum tempo, disse, sorrindo:
- ...Estou me vendo, agora. Achei essa paisagem muito parecida comigo.
Lílian soltou um riso meio abafado, olhando o mar. Leah continuou, olhando a paisagem:
- É escura... fria... vazia... silenciosa... dura e insegura.
- ...Eu a acho grandiosa. – sussurrou Lílian, a olhando de esguio, sorrindo, com um certo ar desapontado.
Leah a olhou, sorrindo. As duas de repente pareciam ter um ar pesado e triste. Foi Leah quem começou:
- ...Achei que nunca mais veria você de novo. De verdade.
- É... eu também achei que não.
- Mas não deveria reclamar... estou fora, não estou...? Deveria estar... contente. Mas não estou. Sei lá. Parece que nada vai mudar, de novo.
- Você deveria ter mais esperança, Leah.
- ...Esperança? – perguntou Leah, num sorriso bastante dolorido – De quê?
Lílian suspirou, passando a língua nos lábios, ainda olhando o mar abaixo de seus pés. Leah reparou na aliança prata que Lílian usava:
- ...Então Tiago voltou da Croácia. E tratou logo de amarrar você no pé dele. – riu, divertida – Ele é esperto. Porque não veio junto com a gente?
- A segunda parte dos estudos dele são na Grécia.
- Poxa, você casar com um nômade. – riu Leah. Mas ela percebeu que Lílian não parecia feliz, e acabou perdendo o sorriso também. Lílian constantemente parecia engolir alguma coisa pesada em sua garganta, e sempre olhava para baixo, mexendo nos dedos.
- ..Dessa vez eles vão diminuir sua pena, Leah. Tenho certeza. – sussurrou Lílian.
Leah respirou profundamente, se encostando na grade, cruzando os pés, com as mãos ainda no bolso:
- Fico feliz por você, Lílian. Tiago é um bom homem. Será um excelente marido. Vocês irão se casar, terão uma família muito boa. Vou me orgulhar de você.
O queixo de Lílian começou a tremer, e ela passou o dedo nos olhos, quando começava a chorar, em silêncio, ainda olhando o mar. Leah riu um pouco desapontada, e disse, calma:
- ...Não precisa chorar. Eu agradeço muito que você tenha exigido que eu viesse com você, para tentar diminuir mais uma vez minha pena, mas... eu jamais irei sair de Azkaban, Lílian.
- Você vai ver que...
- ...Eu nunca irei ter uma família, nunca viverei em liberdade, esse é meu destino, Lílian. E eu sei que fiz por merecer isso. Não se entristeça por mim, nem guarde esperança. Não vale a pena. Como me foi designado, eu vim ajudar você, e é o que vou fazer. Mas não espero receber nada em troca. Você sabe que eu nunca esperei nada de ninguém; e nem de mim mesma.
Em seguida, Leah deu as costas, voltando pra dentro do trem:
- Por favor, não se importe mais comigo. – e pensou bem, antes de dizer – ...Mas é bom ver você de novo. Boa noite.
- ...Também é muito bom ver você de novo, Leah. – sussurrou Lílian, sem olhar para trás, sendo deixada na mesma bela e vazia paisagem do oceano azul escuro da noite.
N.A 1: Se você tem Kazaa, Emule ou afins, BAIXE estas musicas. Eu sou tão coração mole que estava escutando esta música nessa ultima cena e chorei! Me fez mudar a musica do capitulo, que seria All About Us, da TATU. Mas essa musica é linda, linda, linda. Só troquei o titulo porque escrever "Canções pra uma guitarra azul" ia ficar sem noção demais, rs.
N.A 2: É engraçado como L² acaba tendo muito do platonismo do H² da EdD. Mas enquanto H² formam um casal, L², obviamente, não forma. Mas a relação entre as "almas" das duas também lembra muito a força e a trsiteza de um amor platônio. Um amor impossível, óbvio. Mas uma existência oposto e única. As trevas não existem sem a luz, e a luz não existe sem as trevas. Talvez seja por isso que Lílian chora diante da paisagem, ela vai se casar, terá uma família, enquanto à Leah não resta outro destino a não ser eternamente um temido e solitário demônio.
N.A 3: Quase usei "Forever Yours" do Nightwish pra este capítulo, também. Mas deixa para outro Ato, ou quem sabe pro Capítulo das Trevas. Porque, sem dúvida, o refrão "Qualquer um que caminhe em meu coração caminhará sozinho" cai como uma luva pra Leah.
