Ato III: Bicho de 7 Cabeças
Não dá pé, não tem pé nem cabeça
Não tem ninguém que mereça, não tem coração que esqueça
Não tem jeito mesmo
Não tem dó no peito, não tem nem talvez
Ter feito o que você me fez, desapareça
Cresça e desapareça
Não tem dó no peito, não tem jeito
Não tem ninguém que mereça, não tem coração que esqueça
Não tem pé, não tem cabeça
Não dá pé, não é direito
Não foi nada, eu não fiz nada disso e você fez um
Bicho de sete cabeças
(Elba Ramalho, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo - CD O Grande Encontro 2)
A taverna da vila portuguesa era bastante parecida com as tavernas medievais: um lugar grande, cheio de mesas, escuro, barulhento, e cheio de homens feios, fedidos e bêbados falando alto. Mas, ao mesmo tempo, se parecia muito com um saloon americano, porque, afinal, era o ponto de encontro principal do lugar. Enquanto de um lado uma mesa de bruxos homens mal encarados riam e bebiam, de outro, uma família entrava para comprar pão, queijo e presunto. Não era de todo desagradável, dependendo do horário em que você visitava. Infelizmente, como já era de se esperar, Leah havia escolhido uma dessas horas ruins para visitar o lugar.
- Leah, está de noite. – disse Lílian, arrumando as malas no mesmo quarto que ficaram na última vez – Dá pra escutar da janela a arruaça dos fregueses. Se está com fome, espere o Senhor Manuel mandar alguém trazer a comida pra gente.
- Não sou uma princesa enjaulada. – resmungou Leah – E, além do mais... você não manda em mim.
Lílian balançou a cabeça, assim que ela saiu. Terminou de pôr as roupas nas gavetas e achou melhor ir atrás da outra bruxa.
Leah entrou na taverna, e ela estava relativamente vazia, com alguns poucos bruxos espalhados pelos cantos. Ela caminhou até o balcão, olhando para os lados. Num canto escuro, alguém de capa, escondendo o rosto no capuz, tomava alguma bebida. Leah sentiu-se atraída por aquela figura por alguns instantes, mas logo a esqueceu.
- Boa noite. – cumprimentou uma criatura grande e gorda, que Leah estava na dúvida se era mulher, porque tinha peitões, olhos pintados, coque oleoso e boca com batom vermelho borrado; ou se era homem, porque falava grosso e tinha o queixo e os braços peludos. Vestia um avental todo imundo – Vai querer o quê?
Leah ficou na dúvida sobre o que pedia. Quando saiu do quarto, tinha em mente comer um suculento sanduíche de pernil com um copo de vinho gelado, mas aquela mulher havia esvaziado a cabeça dela de qualquer coisa e enchido ela de um único pensamento: "Credo!"
- ...BOM... – começou, tentando voltar o pensamento no lugar – Ah, sim, um sanduíche de pernil. E pra beber... ahm... qualquer coisa que saia bastante.
A mulher, ou seja lá o que era, foi até a cozinha, e trouxe debaixo do braço um grande pernil assado, e na outra mão uma garrafinha escura. Colocou tudo na mesa, e preparou o sanduíche com um pão que estava no balcão, cortando o pernil ali mesmo, e depois abriu a garrafa, que era cerveja.
- Obrigada. – disse Leah, quando a criatura voltou a sair pra cozinha. Olhou para o sanduíche, cuja aparência era muito boa, mas ficou meio sentida de saber que o delicioso tempero acebolado da carne poderia ser de outra coisa, e não da cebola cortada em tiras no sanduíche. Mas resolveu comer – Ah, o que não mata, engorda.
De fato, Leah, que havia ficado tanto tempo em Azkaban, não iria desperdiçar comida, não importasse seu estado. Foi quando chegou do outro lado do balcão um homem alto, musculoso e com cara de mau. Pediu vinho, e ficou tomando sua jarra na dele.
- E aí? – cumprimentou Lílian, chegando ao lado de Leah.
- Vaza, urubu.
- Ah, "de nada" por fazer sua paisagem ficar mais agradável nesse muquifo. – sorriu, divertida.
- Minha paisagem está linda. – comentou, olhando o homem do outro lado.
Lílian olhou, e viu que o cara parecia um pirata no estilo dos irmãos Roz e Iolaus. O homem tinha barba por fazer, cicatriz no rosto, cabelos castanhos. Usava uma roupa surrada, e tinha nas mãos ataduras de gaze, também sujas. Usava brincos dourados e um pesado medalhão numa corrente de ouro. Na cintura, uma espada e um revólver.
- Fala sério... – sorriu Leah, sussurrando pra Lílian – Pra tudo quanto é lado que você olha nele, só se vê homem.
Lílian observou que, de fato, o homem tinha uma cara e um jeito bem masculino. Não era feio, mas sua aparência de pirata largado não ajudava em nada.
- Ele deve ser mó fura-colchão. – sorriu Leah, fazendo Lílian torcer o nariz, com cara de nojo.
- Fura colchão... francamente, essa é a pior definição que já escutei pra alguém na vida...
- Que nada. Você que gosta de menininhos com cara de moleque, almofadinhas e magrelinhos. – continuava Leah, encantada em seu machão – O cara tem tudo pra ter uma pegada forte. Putz, já achei minha válvula de escape nesse lugar. Tanto tempo em Azkaban...
- Você está de brincadeira, né, Leah...?
- Ah, em uma semana eu pego você de jeito, pedação... – continuava, sacana.
Antes que Lílian resmungasse mais uma vez, um grupo entrou na taverna fazendo o ar pesar. Um grupo de cinco homens, o da frente andava curvado, tinha barba e cara ossuda. Todos os seus homens eram igualmente sujos e com cara de encrenqueiros.
- ...Não irei arrumar confusão hoje. – declarou Leah, fazendo Lílian olhar para ela com cara de "heim?".
O grupo se aproximou do balcão, e o chefe bateu a mão na mesa:
- Queremos cervejas.
- Sinto muito. – disse a criatura sem sexo – Já vendi a última garrafa. Amanhã deve chegar mais.
- Mas eu não quero amanhã. Eu quero hoje.
- Ei, moço. – chamou Leah, fazendo o homem a olhar bastante ofendido. Ela, simpática, esticou a garrafa na direção dele – Eu comprei a última garrafa. Mas não gosto de cerveja, se quiser, pode levar.
O homem a olhou durante alguns segundos. Com um rápido movimento, o homem sacou a espada e raspou no balcão, fazendo a comida e a garrafa se partirem em vários pedaços. Leah olhou de lado e viu a ponta da espada do homem em sua bochecha.
- Eu tenho cara de cachorro, pra comer resto, mulherzinha? – rosnou, se aproximando – De onde você saiu, biscate? Sabe quem eu sou?
- Hum. Se conhecesse o senhor, provavelmente teria usado o mesmo nível de educação do senhor. Mas, quanto à pergunta do cachorro...
Com um violento golpe, o banco de Leah foi partido, e ela caiu de costas no chão. Lílian saltou para trás, desviando do ataque.
- Então saiba que somos o bando do Lobo Negro, e eu sou o líder. Pode me chamar de Coiote. E você, sua vadia... – ao dizer isso ele passou a espada em todo o lixo, cacos, bebidas e comidas espalhadas no balcão, derrubando tudo em cima de Leah - Vá arrumar algum pau seboso pra chupar numa zona bem fedida, que é seu lugar, antes que eu resolva servir seus pedacinhos pros tubarões. – antes de sair, ele olhou Lílian, dando um sorrisinho com poucos (e podres) dentes – Mas pra você, ruivinha, eu posso dar o meu, se estiver querendo diversão. Até breve, docinho.
Aos risos, os homens saíram do lugar. Leah continuava de cabeça baixa, no chão, sem dizer nada. Lílian olhou os homens saírem, visivelmente assustada.
- Aí, garota. – disse a barman, olhando Leah, por cima do balcão – Esses idiotas são assim mesmo. Se machucou?
Leah, de repente, começou a gargalhar, extremamente divertida. Levantou-se, tirando os restos de comida da roupa e jogando o cabelo ensopado de cerveja pra trás.
- HAHAHAHAHHAHAHAHA, cara, que cena! – ria, achando graça – Que bando de mal humorados!
A barman também começou a rir, e disse que ia fazer outro lanche. Leah disse que não precisava. Foi quando olhou Lílian, e viu que ela estava visivelmente brava.
- ...Que é, ô?
- ...Que papelão foi esse? – exclamou, brava – Os caras te humilharam na frente da taverna inteira! Devia ter acabado com eles!
Leah piscou:
- ...Que eu saiba, a que apóia pactos de não violência aqui é você. Estou estranhando você. Pra que arrumar briga? Foi só um sanduíche e uma cerveja.
- Você devia ter reagido!
- Ah, francamente, Liloca, não ia desperdiçar meu tempo e minha força com eles. Além disso, eu disse que não arrumaria confusão...
- Bom, mas eu acho que existem horas em que a gente deveria reagir, não?
- ...Você ficaria quieta, se fosse eu. – resmungou – Porque me crucificar se fiz o que você faria?
Lílian parecia extremamente ofendida com a atitude de Leah, e balançou a cabeça, enojada:
- ...Mulher, o que aconteceu com você nesses meses? Não é um terço da Leah de antes. – e saiu da taverna.
Leah parecia realmente espantada com a atitude de Lílian. Enquanto uma resolvia seguir a paz, a outra exigia guerra. Mas ali, houve uma inversão de papéis.
- Maluca. – murmurou.
Foi quando alguém chegou ao seu lado, colocando na mesa uma jarra de vinho. Leah olhou pro lado e viu o charmoso e mal tratado homem que ela havia "paquerado" ao seu lado, parecendo orgulhoso da atitude dela:
- ...Você é uma menina corajosa. Uma pena terem destruído seu lanche. Importa-se se eu lhe oferecer a minha bebida?
Leah olhou dos lados, e sorriu. Pelo jeito o prêmio por não ter reagido tinha sido maior que ela imaginava.
No canto da taverna, debaixo daquela capa negra e surrada, um bruxo samurai sorriu, tomando um gole do copo de sua bebida. À luz das velas, ele era apenas um samurai comum. Mas parte de sua mão esquerda, envolta na escuridão de uma coluna, revelava dedos ossudos, apodrecidos, onde a carne e as unhas denunciavam que aquele samurai já estava morto há muito tempo. Talvez a mais de um século.
Lílian virava na cama de um lado para o outro, sem conseguir dormir. Leah, obviamente, não havia voltado da taverna. E ter certeza de que ela estava fazendo o que Lílian sabia que ela estaria fazendo a deixava mais irritada ainda. Foi quando alguma coisa bateu no vidro da porta da varanda do quarto. Lílian levantou-se, de camisola, e abriu uma das portas. A noite estava clara, lua cheia, mas não viu nada. Olhou de lado e viu o vulto de capa e capuz da taverna agachado na borda da varanda.
Num impulso ela deu um passo para trás, mas o zumbi foi mais rápido, e agarrou sua mão. Lílian prendeu a respiração, olhando aquele zumbi com cara de oriental, careca no alto da cabeça e o tradicional coque samurai na parte detrás.
- Não vou machucá-la. – sibilou a criatura, com sotaque forte – Apenas vim dar um aviso. Diga à sua companheira... que quero um duelo.
- Diga isso pessoalmente! – gemeu Lílian, se soltando.
- Sou um samurai de honra e educado nos palácios do meu senhor feudal. – disse, simplório – Assim que ela parar de fazer sexo como uma cadela no cio pelos becos dessa cidade com aquele pirata e resolver voltar para casa, eu poderei pedir pessoalmente. Mas como isso provavelmente não acontecerá tão cedo... passo o recado á vossa donzela. Meu tempo é curto. O de vocês... também.
E, dito isso, o samurai saltou no ar, desaparecendo nas sombras. Lílian debruçou-se na grade, mas não viu mais nada.
N.A1: Capitulo mais que total atrasado, hehehehe... digamso que eu me esfriei, depois que a EdD atrasou, assim como tive aquele tanto de problema com o site da EdD. Mas ele está de volta equem quiser acessar é só ir em espadadosdeuses (ponto) com (ponto) br
N.A2: A EdD já está com o proximo capitulo emf ase de betagem, então, vamos ver se adianto ou termino a Medo do Escuro em duas semanas. )
