Ato IV: Me segure, Me Excite, Me Beije, Me Mate.
Vestida como sua irmã,
Vivendo como uma prostituta.
Se eles não sabem o que você está fazendo,
Querida isto deve ser arte.
Você é uma dor-de-cabeça,
Você é uma estrela.
Oh não, não seja tímida,
Você não precisa ficar cega,
Segure-me,
Excite-me,
Beije-Me,
Mate-me.
Você não sabe como chegou aqui,
Você só sabe que quer sair.
Acreditando em você mesma,
Quase tanto quanto você duvida,
Você é um grande desastre,
E você aceita isso como uma audaciosa
Estrela.
Oh não, não seja tímida,
Você precisa de uma platéia para chorar,
Eles querem que você seja Jesus,
Eles vão se ajoelhar,
Mas vão querer seu dinheiro de volta.
Você é uma estrela, oh criança.
Claro que você não é tímida,
Você não tem que negar o amor.
Segure-me,
Excite-me,
Beije-me,
E mate-me.
(Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me – U2)
Leah acordou já no quarto da estalagem, na cama de canto, onde sempre dormia. Ergueu-se de sobressalto e sentiu uma dor fina na barriga, e viu que tinha um grande curativo enfaixado por debaixo da camisola semi-aberta.
- Parabéns, campeã. – cumprimentou Lílian, sentada na mesa do quarto, a olhando com cara de tédio – Em menos de 72 horas fora de Azkaban, e 48 horas nessa cidade, você quase foi morta por um cadáver.
Leah abraçou os joelhos, cobertos por uma felpuda colcha e olhou para a vista da varanda, o horizonte do mar, sentindo o ar frio da manhã:
- ...Achei que a pessoa sarcástica e cínica aqui era eu.
E depois de alguns instantes, olhou Lílian:
- Vá tomar no seu cu, sua puta!
- Bom dia pra você também, Leah. – sorriu Lílian, de pernas cruzadas e o queixo apoiado na mão – Gostou da noite anterior?
- Que merda! – reclamou, voltando a deitar-se no confortável colchão e no fofo travesseiro – Aquele samurai zumbi quase me matou!
- A sorte sua é que seu galã Augusto estava junto...
- Jura? Uau. Ele é muito machão, mesmo.
- ...Estava junto e me cedeu a espada dele para eu dar fim àquele zumbi.
- Ah. Pô. Que sem graça! – reclamou, murchando.
Nisso o Reverendo Joaquim entrava no quarto, com uma jarra de prata com água quente e várias gases.
- Bom dia, Leah. – cumprimentou – Vamos trocar o curativo?
- Ahm. – murmurou, olhando a barriga, que tinha o curativo já manchado de vermelho – Obrigada. Ei, Lílian, saia daqui. Não quero que me veja de peito de fora.
- ...Mas eu também sou mulher. – estranhou.
- Sim, e o Joaquim é padre. As chances dele se excitar vendo meus lindos peitos de fora são nulas. Já as suas...
- Af. – murmurou, virando os olhos – Quem você acha que teve de te trazer aqui, te dar banho e te curar primeiro?
- NÃO JOGUE TUDO NA MINHA CARA, SUA VAGABUNDA!
- ...Mas não estou jogando nada, sua louca! – defendeu-se.
Foi a vez de Manuel entrar no quarto. Parecia mais carrancudo que o normal, e tinha olheiras.
- ...Bom dia. – murmurou.
- Xi. – murmurou Leah – Outro zumbi.
- Pois não, Senhor Bandeira? - disse Lílian, se levantando – Desculpe o trabalho dado ontem...
- Não foi nada. – respondeu – A senhorita está bem?
- Estou. De fato, quem acabou se ferindo ontem foi Leah, ao ser atacada por um morto vivo...
- Serie interessante se sua amiga não... fuçasse. – rosnou, olhando Leah estreitamente – Prezo demais a sua segurança, minha donzela.
- Eu prometo que ficarei bem. – sorriu Lílian, olhando o português.
Antes que ele saísse, Leah perguntou:
- Aí, bacalhau... que cara é essa? Tá parecendo o zumbizão que apareceu ontem pra encher nosso saco.
Manuel parou, e, pela primeira vez, pareceu olhar Leah com fúria, sentimento até então extremamente escondido por ele.
- A maldição assola minha vila. – murmurou o português – Como você acha que eu deveria me portar? Os selos irão se abrir, e quando libertarem o demônio, nada mais poderá ser feito. Deveriam pensar nisso.
- Pensamos sim. – disse Lílian, calma – Por isso estamos aqui, para ajuda-los e evitar que o demônio seja libertado.
- A menos que queria que a gente vá embora porque mudou de idéia. – murmurou Leah.
- Meça suas palavras, vadia. – rosnou Manuel. E saiu, sem a mínima cerimônia.
Todos ficaram em silêncio. Até que Leah olhou Lílian:
- ...Ele me chamou de vadia?
- ...Chamou. – disse Lílian, espantada – Que surpresa, um homem da classe do senhor Manuel...
- Pau no cu, viado filho da puta! – xingou Leah – Vadia é a mãe dela, aquela bucetuda arrombada do inferno!
- Senhorita... – choramingou o Padre Joaquim.
- Desculpa aí, padre. – suspirou Leah – Mas que bosta. Ahm, bosta não. Mas que droga.
- ...Agora não adianta consertar. – murmurou Lílian.
- Calaboca. – disparou Leah, de repente parecendo mais serena que o normal, suspirando profundamente e passando a mão com força no couro cabeludo – Cara... essa parada de maldição tá começando a me deixar louca. Zz'gashi... putz.
- ...É a primeira que vejo você tremer.
Leah ergueu o olhar para Lílian, que parecia séria.
- Pior ainda, Leah: vejo você tremer por um nome.
- ..."Nuimteressa". – gemeu Leah, ríspida.
- Interessa, sim. – resmungou Lílian, cruzando os braços – Qualquer cosia que a gente saiba sobre essa maldição é válido. Até então era fácil, saber que zumbis andavam por aí, enquanto a maldição passava de pessoa em pessoa. Sabíamos então que o alvo inicial eram as pessoas, não os zumbis perdidos. Ao menos até um deles quase matar você em segundos.
- Liloca. – murmurou Leah – Eu tô boazinha. Esse Manuel tá com mó cara de bunda pra gente. Aquele zumbi samurai xarope vai continuar atrás de mim, porque não cometi o Haraquiri depois que ele me surrou. Mas isso não impede de que a gente continue indo em frente, afinal, o Augusto está caçando zumbis, é o trabalho dele. Mas, por Deus, se as coisas ficarem feias... vamos vazar.
- Você, pedindo pra gente recuar? – voltou a estranhar.
- Meninas... – murmurou o padre Joaquim - Preciso ir. Precisando de minha ajuda...
Leah imediatamente se ergueu, ainda sentindo dores:
- Vou também, padre.
- ...Mas estou indo pra igreja, minha filha... – comentou, calmo.
- ÓBVIO que o senhor está indo pra igreja! – ralhou Leah – Pro puteiro certamente é que não seria!... Seria?
Lílian a olhou significantemente.
- E você fica. – disparou Leah – Quero falar sozinho com ele.
- Você e um padre? Sozinhos?
- ...Preciso me confessar. – resmungou.
- CONFESSAR? – exclamou Lílian - ...Comeu cocô?
- Sou cristã, cristãos se CONFESSAM, imbecil!
- Cristã, VOCÊ? Conta outra. E se você é cristã, certamente que não é do tipo que se confessa, TENHO CERTEZA.
- Não gosto de me confessar. – murmurou, saindo atrás do padre – Me dá nos nervos. Parece que o padre está sentadinho cagando na casinha, de cócoras.
- ...Depois dessa, acho bom você ir se confessar. MESMO. Mas, sinceramente, acho que você não tem salvação. – resmungou Lílian, pondo as mãos na cintura.
- Você diz isso só pra me agradar.
Otávio, coroinha da pequena igreja da vila, corria atrás de uma bola com outras três crianças de noite, pelas vielas de pedra do lugar. Uma das crianças, uma gordinha de Maria-chiquinha, chutou a bola para um beco sem saída escuro.
- Teca! – ralhou outro menino – Vá buscar!
- ...Mas lá é escuro! – murmurou a menina – Tenho medo.
Otávio se adiantou:
- Ah, deixem que eu vou buscar, medrosa.
Ágil, ele esgueirou-se entre balaios dos pescadores, até chegar até a bola. Pegou o brinquedo, e ia voltar quando escutou um grito vindo da janela acesa da casa ao lado. Imediatamente as crianças desapareceram de vista, a exceção do pequeno, que se apertou contra a parede, a bola entre os braços.
A sombra de alguém que se contorce de dor tomou conta da luz amarela que batia na parede. E, no instante seguinte, essa mesma pessoa saltava para o beco, fazendo Otavio correr aos tropeços para a rua principal.
A pobre pessoa parecia tomada por alguma força maligna, algum feitiço que tentava controla-la. Contorcia-se, curvada, urrava. O rosto enrugado de fúria, os olhos escuros. Parecia um bicho, um animal tentado livrar-se de alguma prisão.
Otavio, tremendo, fez o que achou correto: tirou de dentro de sua blusa o precioso crucifixo que tinha, e pôs-se a chorar e rezar. A pessoa pareceu perceber o garoto, e ficou em silêncio, olhando-o.
Ele continuou a recuar entre alguns barris que ficavam próximos ás saídas das calhas das casas, até se espremer na parede. Continuava a chorar, a tremer, e a apontar o crucifixo praquela pessoa:
- ...O Senhor é o meu pastor; nada me faltará... De - Deitar-me em pastos verdejantes; guia-me mansamente a águas tranqüilas... Re... Refrigera a minha alma; guia-me nas veredas da justiça por amor do seu nome.
Com um estalo, as portas e janelas de duas casas ao lado se abriram, com outras pessoas igualmente possuídas pela mesma maldição saindo, curvadas, sedentas por sangue. Olharam o pobre menino, sozinho, acuado, apegando-se à sua fé, desesperado:
- A... Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte... não... não temerei mal algum, porque tu estás comigo; a tua espada e o teu cajado me consolam...! – Otávio segurou o crucifixo com força, e fechou os olhos quando a primeira pessoa, um homem de meia idade, pescador, corpulento, avançou sobre ele, cambaleando. Imediatamente um dos pesados barris atingiu o rosto do homem, jogando-o de costas no chão.
O menino abriu os olhos, assustado. Outra pessoa avançou sobre ele. Imediatamente ela foi atingida no rosto por um bastão de madeira maciço, que alguém tinha pegado das ferramentas dos pescadores, encostadas nas paredes. Como instinto os outros "quase zumbis" atacaram. Com muita habilidade, a pessoa que vestia um traje branco girou o bastão no ar e deu cabo dos outros dois, com extrema facilidade, voltando a parar na frente do menino, com o bastão calmamente repousado ás suas costas, na diagonal. Diferente da jovem delicada e feminina de sempre, ali aquela figura parecia incrivelmente onipotente. As pessoas, do chão, apenas gemeram.
- Ah! – exclamou Otavio, aliviando-se e largando do crucifixo – Senhorita Lílian!
- ...Próximo? – perguntou Lílian, levemente arrogante, olhando ao redor.
As pessoas se ergueram. Mais uma vez, Lílian derrubou todos eles, sem maiores dificuldades. Mas eles novamente se ergueram.
- Eles vão sempre levantar! – exclamou Otavio – Não os machuque! São vitimas da Maldição Maior!
Lílian recuou. De fato, as pessoas ainda eram apenas serem humanos, mas sem consciência, sem medo, sem dor. Como bonecos.
- ...Tem razão. – murmurou. Olhou dos lados, tentando achar uma saída. Olhou o céu, e as nuvens começaram a vagarosamente tampar uma lua crescente azulada. Imediatamente as pessoas caíram desacordadas.
- Hora de ir embora. – disse uma voz rouca no beco ao lado. Augusto, o pirata caçador de recompensas.
- O que é que VOCÊ está fazendo aqui? – resmungou Lílian, exasperada.
- Não é hora de perguntar, senhorita. – disse, simpático – É hora de corrermos. Antes que a lua volte.
Sem entender direito, Lílian, achou melhor seguir o conselho do grandalhão. Acabaram indo para a igreja. Lá, encontraram Joaquim, igualmente preocupado:
- Graças a Deus! Hoje será uma noite daquelas! Que Deus nos proteja! – e olhou Otavio, feliz – Otavio! Eu pequeno! Que bom que está bem! Ouvi dizer que o lado da sua vila...
Imediatamente Otavio começou a chorar:
- Padre... os pais dos meus amigos... a maldição...
- Acalme-se, criança... Deus lhe protegeu... não protegeu? Tenha fé!
- Rezei, Padre... rezei... e Deus mandou... mandou...
- Mandou um anjo, por assim dizer. – sorriu Augusto.
- Suas cantadas furadas não vão funcionar comigo. – virou Lílian, ríspida.
- ...Não disse nada, donzela. – espantou-se, na defensiva – Apenas quis dizer que vossa intervenção foi um presente divino na vida do garoto.
- ...Sei. – resmungou.
- A maldição via de casa em casa. – disse o padre – Testando um por um. Transforma as pessoas em demônios.
- A luz da lua influencia, reverendo – disse Augusto – Há tempos venho prestando atenção... na luz da lua, á medida que sua fase aumenta... aumenta a força e a freqüência das possessões... assim que a luz da lua some... as pessoas caem.
O padre pensou durante uns instantes. Lílian piscou algumas vezes:
- ...Está dizendo que a fase da lua comanda essa maldição? – perguntou – Se quer dizer isso... o dia do pico da maldição será na lua cheia.
- A Lua Azul. – disse Augusto, um pouco receoso – Um fenômeno raro. A luz da lua... está azulada. Na lua cheia, estará azul. As forças místicas dessa Luz estão envoltas em mistérios até hoje. Não sabemos o que pode acontecer neste dia.
Lílian se sentou no degrau do altar da igreja, pensando. As noites onde a luz da lua estava atingindo a cidade faziam com que a maldição aflorasse, e os zumbis aparecessem. De repente lhe ocorreu um pensamento um tanto alarmante:
- Ah, Cristo...
- ...O que houve? – perguntou o Padre.
- ...Onde a Leah se enfiou?
- ...Estava na taverna. – disse Augusto – Eu a deixei lá antes de sair para a rua.
Lílian deu um suspirou meio aliviado:
- Ah, menos mau.
Augusto pensou uns instantes.
- Pensando bem... muitos dos zumbis e criaturas estranhas libertadas por essa maldição costumam freqüentar a Taverna da vila nas noites em que estão se sentindo fortes...
Lílian e Augusto se olharam por breves e silenciosos segundos, pensativos. E imediatamente saltaram, disparando juntos numa louca corrida em direção à taverna local.
Na taverna, a responsável pelo lugar, que Leah descobriu se chamar Juraci – o que, de fato, não ajudou saber se era homem ou mulher de vez – olhava detrás do balcão uma cena que acontecia com certa freqüência quando havia muitos piratas de bandos diferentes na cidade. Um bando deles estava na frente de outra pessoa, esta, sentada na mesa, parecendo desentendida. Mas, dessa vez, havia uma singularidade na cena. Sentada na cadeira da taverna, com cara de mau hu8mor e um palito na boca, estava Leah, reclinada na cadeira, as pernas cruzadas, a cadeira apoiada apenas nas duas pernas detrás. E, na sua frente, cinco zumbis.
Um deles, o do meio, tinha no canto da boca um cigarro tão apodrecido quanto o próprio zumbi. E murmurou:
- ...Não escutou? Ou não és tudo o que dizem que és? Queremos você lá fora. Agora. Ou está com medo... Zz'gashi?
- Porra. Era só o que me faltava... – murmurou Leah, injuriada – Eu sou um pára-raio de bizarrices. Que merda.
N.A1: mó tempo sem postar, né? Muito trampo, muitos rolos coma EdD, etc, etc. Mas, dando sinal de vida, vamos em frente que atrás vem gente. Perdoem os erros cabulosos, shortfic sem betagem, vocês já sabem.
N.A2: Chegando a hora de revelar um dos segredos da Capitulo das Trevas. Quem conhece StarCraft (game mto foda pra pc, antigo, masmto bom) e "O Castelo Animado" (longa metragem de anime, barbaro tb) vai notar certas semelhanças. Eu poderia dizer que é coincidencia, o que, de fato, até que é. Mas quando pensei em fazer a maldição, imaginei ser mais parecida com StarCraft do que com o desenho animado. Anyway, influêcnias de sempre. Vocês sabem que não perco esta péssima mania.
N.A3: até a proxima.
