Ato VI: Doces Sonhos.

Doces sonhos são assim

Quem sou eu pra discordar?

Viajar o mundo e os sete mares

Todos estão a procura de algo

Algum deles querem te usar

Algum deles querem ser usados por você

Algum deles querem abusar de você

Algum deles querem ser abusados por você

Eu quero usar você

E abusar de você

Eu quero saber o que há dentro de você

MEXA-SE!

(Sweet Dreams – Marilyn Manson)


- Zz'gashi... Não vai fazer nada? Que tipo de demônio é você? – murmurou o zumbi, balançando seu cigarro no canto da boca.

Leah, encolhida na cadeira, continua a olhar ele, em silêncio. Há essa hora, é claro, as pouquíssimas pessoas que estavam na taverna já tinham percebido o clima de disputa e davam um jeito de sair do lugar sem chamarem a atenção.

- Você acha que EU sou o quê? – murmurou, parecendo injuriada, mas não muito a fim de briga – Seu zumbi morfético, volte pra sua tumba, seu bosta.

O zumbi bateu uma pesada clava de ferro enferrujado na mesa, partindo-a no meio. Leah pegou impulso na borda da mesa e se empurrou para trás, ficando longe do ataque. E continuou sentada na cadeira, que apenas deslizou uns três metros para trás.

- Eu senti sua presença ao pôr os pés aqui. – sibilou o zumbi, enquanto os outros também sacavam suas diversas armas: espadas, pistolas, correntes, soqueiras.

- Olha, moço, eu sei que sou foda. Mas não sou esse capeta que está deixando vocês loucos!

- Não me importo. Farei o demônio despertar nem que seja á força! – gritou, avançando com a pesada clava em Leah, que não se moveu.

Ao descer o golpe, o que desceu desferindo o ataque foi apenas o cotoco do braço do zumbi. Ao seu lado, sua mão caia ao chão, com sua arma. Os zumbis imediatamente olharam para trás, onde Augusto, da porta, estava na posição de quem havia atirado algo. E, na parede ao lado, seu pesado facão estava fincado, confirmando o disparo perfeito.

Mas, para a infelicidade deles, o zumbi apenas fez careta, e outro braço surgiu no lugar.

- ...Algum problema...? – perguntou Augusto.

A resposta foi dada pelos cinco zumbis, que simplesmente juntaram as mãos á frente do corpo e dispararam uma poderosa magia, que fez Augusto se jogar atrás do balcão.

Do buraco na parede, feito pelo ataque, Lílian esticava a cabeça, um tanto espantada:

- Santo Deus, heim!

Leah se levantou:

- Eles não tem nada a ver com nossa briga, seus...!

Um dos zumbis saltou com duas facas no ar, mirando Augusto, que se erguia entre os cacos das garrafas que ele havia quebrado na queda. Mas, no ar, como um raio, Lílian atingiu o estomago do zumbi, girando o corpo num potente pontapé, mais uma vez girando no ar e caindo no chão, agachada, enquanto o zumbi voava de costas em outras mesas.

- ...Ufa. – suspirou Leah, aliviada.

- UFA O CACETE! – xingou Lílian, se levantando, injuriada – Eu estou cansada de ficar fazendo o SEU papel de "dadeira de porrada" nesse lugar! Eu sou a cabeça pensante! Você á o mercenário que gosta de pancadaria, e é assim que tem que ser!

- ...Eu não crio confusão pra não dar dor de cabeça pra VOCÊ! – reclamou, saindo do seu canto e dando alguns passos pra frente, pondo as mãos na cintura.

- Você ATRAI confusão, Leah, conforme-se com isso! – xingou, realmente parecendo brava – Eu não tirei você de Azkaban pra ter do meu lado uma bruxa frouxa que não é um terço da mulher que eu conhe –

Lílian não terminou, porque o zumbi que ela havia derrubado lhe atingia três feitiços, jogando-a de costas nos escombros da porta e da parede do lugar, se erguendo zonza, balançando a cabeça. Leah foi avançar, mas parou no primeiro impulso:

- Ah, seu filho da... eu AVISEI! ELA NÃO TEM NADA A VER COMIGO!

Lílian, balançando a cabeça e espalhando poeira, tossiu, e urrou, inconformada:

- JOGUE FORA ESSA SUA MALDITA POSE DE PESSOA SENSATA, Leah! EU ODEIO VER VOCÊ AGINDO ASSIM, SUA IDIOTA IGNORANTE! PARE DE FICAR FINGINDO SER O QUE VOCÊ NÃO É SÓ PRA ME AGRADAR, QUE MERDA!

Leah recuou de novo, assustada. Augusto estava de pé, ferido. No instante seguinte um clarão enchia a taverna de luz e movimentava tudo com um deslocamento de ar que parecia um furacão. Eram os zumbis, de novo unidos, mandando aquele poderoso ataque mágico direito no peito de Leah, fazendo ela desaparecer no meio do ataque do canhão de luz.

- Ah, meu D - Leah! – exclamou Lílian.

A poeira vagarosamente baixou, revelando um grande buraco na parede. E dentre os escombros, Leah permanecia de pé, as mãos na cintura, os olhos arregalados, toda imunda, chamuscada, o cabelo armado como alguém que leva um choque.

Os zumbis saíram da posição de ataque. Augusto se ergueu, mas Lílian não teve pernas pra isso.

- Que coisa... incrível. – murmurou Augusto.

- ...Leah? – sussurrou Lílian, esperando uma reação.

Leah piscou algumas vezes, até abaixar a cabeça, cerrar os punhos, e começar a gemer e grunhir.

- ...O que...? – estranhou Lílian.

Foi quando Leah ergueu as mãos, como alguém que cansou de segurar alguma emoção, e saiu correndo pela taverna, toda chamuscada, balançando os braços:

- Tô... Tôôô... tô doida, Tô doida, Tô doida, Tô doida, Tô doida… - e saiu por toda a taverna, derrubando as mesas que sobraram de pé, completamente sem noção - Tô doida, Tô doida, Tô doida, Tô doida, Tô doida, Tô doida, Tô doida, Tô doida, Tô doida, Tô doida, Tô doida, Tô doida, Tô doida, Tô doida…!

Lílian, boquiaberta, apenas seguia Leah com o olhar, assim como Augusto. Os zumbis entendiam menos ainda.

Foi quando um dos zumbis cansou da cena e atacou Leah, pelas costas. A centímetros dela, Leah girou o corpo, trazendo junto uma cadeira, que se esmigalhou no zumbi, jogando-o longe, de costas numa coluna. E ela, reclinada, os cabelos no rosto, mostrava os dentes cerrados, como uma fera, os olhos estreitos, quase desfigurada de raiva:

- ...Que venham então, seus putos!

Os zumbis obedeceram. Um a um, atacaram. Leah não teve problema algum em despedaça-los com as mãos nuas, ou usando alguns utensílios da taverna.

Quando já estavam caídos, nos cantos da taverna, Leah apenas permanecia de pé, ao centro. De repente os zumbis simplesmente viraram fumaça.

Leah imediatamente olhou pra trás, na direção de Lílian. No mesmo instante aparecia o senhor Bandeira, atrás da auror.

- ...Posso saber o que acontece na minha taverna? – perguntou. Imediatamente se agachou, tentando ajudar Lílian, que se ergueu antes que fosse tocada, fazendo o português voltar a atenção para Leah - ...Devo eu lembrar você que não está mais na sua cela imunda de Azkaban?

- Quem te deu intimidade pra me chamar de "você", seu cuzão? – grunhiu Leah, olhando para ele, o velho e ameaçador olhar estreito de volta ao rosto.

Manuel bandeira riu. Era incrível como ele estava cheio de coragem.

- Alguém da sua laia não possui nível de intimidade, Leah. Sua confusão vai me custar caro. Estava planejando uma importante reunião nessa taverna amanhã, durante uma festa.

- Senhor Bandeira... – disse Lílian – A culpa não foi de Leah, nem nossa... os zumbis da maldição... foram eles. Seja...

- Eu SEI dos zumbis e da maldição, sua menina idio... – mas ele parou, ao ver que, de fato, era Lílian ao seu lado – Digo... bom... donzela, fico sem controle ao ver aquilo que mais gosto ser destruído.

- Não iremos causar mais problemas. – disse, firme – Se quiser, poderemos trabalhar aqui para poder...

Nisso uma garrafa de vinho do porto era esmigalhada na cabeça do senhor Bandeira, manchando-o com a cor do mais puro vinho tinto. Olharam de lado e viram Leah:

- Tô doida, Tô doida, Tô doida!

Manoel piscou algumas vezes, abriu a boca para falar alguma coisa, mas desabou de lado, inconsciente.

- Você tem MERDA na cabeça! – exclamou Lílian, assustada.

Augusto se aproximava, rindo:

- Hahahahahaha! – gargalhava – Nunca tinha visto alguém como você, donzela!

- Sorte sua. – gemeu Lílian.

- Vamos sumir antes que esse Zé Mané acorde. – disse Leah.

- Nem vou me dar ao trabalho de perguntar se você "ficou doida".

- Ótimo. Vamos rachar fora. – sorriu Leah, puxando Lílian pela mão e correndo para longe da taverna.
- Vamos arrumar uma grande encrenca por causa disso! – resmungava Lílian, correndo atrás de Leah, entre os estreitos corredores do vilarejo – E duvido que o reverendo Joaquim aceite deixar a gente dormir lá depois de ter feito o que fizemos. Ele é um sacerdote justo!

- E é justamente por isso que ele vai reconhecer que aquele Manoel é um porco, e que a gente devia ter feito até mais! – comentou.

De repente, Leah freou, não dando tempo de Lílian parar, encavalando-se e caindo sentada no chão, de costas. O motivo era óbvio. No alto de uma das casas, aquele mesmo samurai zumbi parecia esperar Leah, com os farrapos de seu quimono balançando ao vento, junto de seus poucos fios de cabelo.

- Era só você quem faltava pra completar a festinha. – murmurou Leah – Te devo uma por quase ter me matado aquele dia.

- Irá interferir, senhorita? – perguntou o zumbi, olhando Lílian.

- Não, ela não vai. – disse Leah.

Leah, então, saltou para o telhado, enquanto o samurai saltava de costas, indo pousar na outra ponta.

- Creio que ela não tenha entendido que minha vontade de duelar com vossa pessoa refere-se apenas a recuperar minha honra.

- Pro inferno você e sua honra. – rosnou Leah – Eu quero enfiar a porrada em você pra descontar o mico que você me fez pagar.

- Minha intenção nunca foi lhe humilhar, grande espadachim. – disse o samurai – Mas sim, tentar recuperar minha honra que foi perdida ao retornar do mundo dos mortos. A única forma de eu voltar ao mundo dos mortos é morrendo honradamente pelas mãos de um grande espadachim. E a aura de guerra sua pode ser sentida a distância. Conceda-me esta honra.

E, assim, o samurai esticou uma de suas espadas japonesas para Leah, que a pegou, e se pôs em guarda, cada um em uma extremidade do telhado.

Leah respirou profundamente, com a espada á sua frente. O vento gelado da noite passou sobre eles, e ela sentiu um pouco de tontura. Foi quando percebeu que, dentre as nuvens, um feixe de luz da lua havia escapado, e passava lentamente pelo telhado. Em seguida, viu o samurai á sua frente, no ar, pronto para lhe decepar.

Imediatamente agachou-se, e girou a espada, atingindo o samurai e erguendo os braços, como se o empurrasse. As telhas se esmigalharam, e os dois saltaram para o alto a tempo de não caírem.

O zumbi, no ar, não viu ninguém no chão. Olhou para trás, e, em queda livre, foi atingido violentamente não por um, mas por vários e incontáveis golpes, que o jogaram ao chão, rachando as pedras da rua. Lílian se ergueu, para finalmente prestar atenção: Em meio á pequena cratera, estava o samurai, totalmente esmigalhado, despedaçado. Em seu corpo e ao redor, entre as pedras, vários grossos e afiados espinhos fincados. Lílian piscou e olhou para trás. As nuvens haviam voltado a cobrir a lua, e Leah estava de pé, na parte sólida do telhado, respirando ofegante, curvada, parecendo dolorida. Respirou profundamente e saltou para o chão.

- ...Como você...? – sussurrou Lílian, espantada.

Leah parou na frente do samurai, e jogou a espada de lado.

- ...Por favor... grande espadachim... – murmurou o zumbi, que agonizava, o que era extremamente estranho para um morto –Devolva-me minha honra... mate-me. Não me deixe morrer aos seus pés... mas sim pelo seu golpe fatal.

- E quem disse que me importo com sua honra? – murmurou Leah – Se não morreu da primeira vez com honra, não vai ser nessa segunda vez que vai.

Lílian a olhou de esguio. O samurai gemeu, tossindo e cuspindo algo viscoso e preto.

- ...O poder do demônio Zz'gashi é grande... tão grande que não se dá ao direito de permitir que um velho samurai recupere sua hon...

- Você não é deste tempo, samurai. – cortou Leah, olhando-o de cima – Se perdeu para mim, que sou séculos á sua frente... não há motivos para se sentir desonrado. Você aceitou reviver para tentar me vencer, porque diz que sou a melhor. Isso significa que quando você morreu, em seu tempo, ninguém poderia lhe vencer. Por isso veio me procurar. Então volte pro mundo dos mortos sem receio, Denjishiro Yoshioka. Você foi e sempre será o maior e mais honrado samurai de sua época. Aceite sua grandeza e não tente mentir pra si mesmo.

O samurai, então, apertou os olhos, e pendeu a cabeça, desaparecendo como poeira negra na noite. Leah olhou Lílian, segundos depois.

- ...Que bom que disse isso pra ele. – sorriu Lílian, achando aquele encontro realmente bizarro.

- Bom uma pinóia. – resmungou – Não suporto esse papo escroto de honra e o caralho. Que volte pro mundo dos defuntos e não venha mais encher meu saco. Pau no cu dele e do código de honra imbecil que segue.

- Ah. Estava mesmo indo tão bem... – lamentou-se Lílian – Mas... como você conseguiu fazer isso? Foi... incrível.

Leah olhava a própria mão, parecendo, de repente, preocupada. Olhou para as nuvens, e disse:

- Sorte. Ou inspiração momentânea.

Um trovão soou ao longe, aproximando mais ainda as nuvens carregadas.

- ...Amanhã tem festa na taverna. – comentou Lílian, olhando o horizonte do mar, entre as vielas – Será que seremos convidadas pelo Manoel Bandeira?

- Você, com certeza. – disse Leah – Eu, sem chance.

Lílian pôs as mãos na cintura, rindo:

- É, ele sempre é um gentleman comigo. Mas não sei se vai continuar sendo depois da sua confusão na taverna.

- Claro que vai! – reclamou, brava – ...Aquele frango velho escroto arrasta a maior asa pra você. Não vê a hora de te comer.

Lílian continuou olhando Leah, com as sobrancelhas erguidas, achando graça no visível bico e cara emburrada dela.

- ...Velho tarado nojento. – voltou a resmungar – Tenho certeza que ele tem alguma coisa a ver com... – e pareceu perceber a cara de Lílian, e piscou, estranhando - ...Que foi?

- ...Você implica demais com o fato dele ficar jogando charme pra mim, sabia?

- ...Com coisa que você adora o Augusto.

E, assim, as duas ficaram se olhando, o olhar estreito, desconfiado. Leah de lado, com os braços cruzados, e Lílian com as mãos na cintura. Foi quando começou a cair alguns gelados pingos das nuvens.

- Ah, droga, chuva. – resmungou Leah, começando a correr – Vamos embora antes que caia a chuva e a gente morra de pneumonia.

- Seu otimismo me fascina. – suspirou Lílian, correndo atrás dela, não sem antes olhar mais uma vez para o buraco cravejado de espinhos, feito por Leah, e sentir uma sensação ruim.


N.A1: depois de um longo e tenebroso inverno, mais um capítulo da Mde! o/ Não que isso signifique alguma coisa, mas anyway...

N.A2: Não, NÃO SEI quando sai capítulo da EdD, e NEM VENHA ME PERGUNTAR. Se não sabem, entre este fim de semana que passou e este que começa agora é que deveria ser o que eu postaria o capítulo da EdD, mas como você sabem, a Inna me fez postar antes, não posto. Ou sej,a venham me atazanar por capitulo da EdD só daqui a duas semanas e meia. Ou melhor, nem venham, vai que eu atraso mesmo, heheheheheh