Ato VII: Os Mariachis
Sou um homem muito honrado,
Que gosta sempre do melhor.
Não me faltam mulheres,
Nem dinheiro, e nem amor.
... Em meu cavalo
pela serra eu me vou
e as estrelas e a lua
são elas que me dizem para onde vou
Ai, ai, ai, ai
Ai ai, meu amor
Ai minha morena,
Do meu coração
Eu gosto de tocar guitarra
Eu gosto de cantar pro sol
Mariachi me acompanhe
Quando canto minha canção
Eu gosto de tomar minhas bebidas
Aguardente do melhor
E também a pura tequila
que com sal lhe dá sabor
(El Mariachi – Gipsy Kings)
Reverendo Joaquim caminhava pelo centro da Igreja, balançando molemente seu defumador, enchendo a escura capela de fumaça de mirra. Orava baixo, com um terço na mão. Parou de caminhar e orar quando percebeu Leah na porta da sacristia, de pé, com a mão na parede.
- ...Boa noite, criança. – sorriu o reverendo, sem esconder achar estranho vê-la de pé em plena madrugada gelada – Porque não está dormindo?
- ...Por que tá defumando a Igreja a essa hora?
- Manter os maus espíritos longe. – disse, tranqüilo – Curiosamente, desde que começaram as aparições, tenho defumado e orado todas as noites aqui. E nenhum deles entrou aqui para nos fazer mal até hoje.
Leah lhe deu um visivelmente sorriso dolorido, que fez o padre estranhar. Na verdade, ela parecia mesmo abatida, triste. Fez um "hum" e caminhou até a escada circular de madeira, que dava acesso ao sino e ao telhado da única e pequena torre.
- ...Se Lílian perguntar por mim... – sussurrou Leah, olhando o chão – Diga que você não sabe para onde fui, mas que volto de manhã.
- ...Se Lílian pergun... mas ela não está dormindo?
- Está. – disse, apática, subindo as escadas – Mas ela vai perguntar.
Leah sumiu de vista, pelo alçapão da torre, e o padre voltou às suas orações, defumando a igreja.
Lílian dormia num fofo arranjo de penas e algodão desfiado, com um travesseiro do mesmo material, entre pesadas e quentes cobertas de renda crua e lã. Virou na cama, se ajeitando, e abriu os olhos, vendo que, ao seu lado, a improvisada cama estava vazia. Piscou algumas vezes, até se sentar e olhar ao redor, sentindo os olhos pesarem de sono:
- ...Leah? ...Onde ela já foi se enfiar...?
- ...Reverendo...
Joaquim olhou para trás e viu, de fato, Lílian, na mesma porta de onde Leah havia vindo, coçando os olhos.
- ...O senhor viu Leah por aí?
O padre pensou por alguns instantes, mais uma vez parando suas orações, e apontou o telhado:
- ...No terraço da torre.- e deu as costas, voltando a defumar o salão da capela. Assim que Lílian subiu as escadas de madeira, o padre sorriu, rindo baixinho - ...A mentira é um pecado mortal, meu Senhor...
Leah estava sentada no telhado da capela, olhando o maravilhoso horizonte: abaixo dela, a pequena vila, com algumas luzes acesas, e á frente a praia e a grandiosa baía. O céu agora estava limpo, e a lua, que havia nascido cedo naquele dia, já havia se posto. Milhares de estrelas pintavam a noite. Aquele ar pesado ainda estava nos ombros de Leah, que parecia perdida em pensamentos, abraçada aos joelhos.
- Está querendo pegar uma pneumonia nesse ar gelado e nesse telhado molhado de chuva? – perguntou Lílian, se aproximando.
- ...Padre linguarudo. – murmurou, olhando a auror de esguio, e voltando a olhar para frente, parando de abraçar as pernas e as esticando, apoiando as mãos para trás, suspirando.
- Não se faça de difícil. – sorriu, sentando ao seu lado – Que veio fazer aqui? É alta madrugada.
- ...Tô sem sono.
- ...É, eu também gostava de ficar...
- Tava afim de ficar sozinha. – murmurou.
Lílian parou. Olhou Leah, parecendo engolir alguma coisa bem dolorida. Suspirou e olhou para o outro lado, ficando na mesma posição em que Leah estava antes, abraçando-se aos próprios joelhos.
Silêncio. O único som vinha do gelado vento que passava por elas. Quando Lílian foi pegar impulso pra se levantar, Leah disse, como se estivesse esperando alguma reação dela primeiro:
- ...Fica.
Lílian, de novo, parou, voltando a olhar Leah, meio confusa. Leah, então, meio dolorida, suspirou, voltando a abraçar os joelhos, olhando para a baía:
- ...É que ficar sozinha com você... é melhor do que ficar sozinha comigo mesma.
Mais uma vez, o silencio. Lílian mantinha as sobrancelhas juntas, olhando Leah, que se recusava a olha-la nos olhos.
- ...O que está acontecendo, Leah, que você parece tão preocupada?
- ...Nada.
Leah olhou para as estrelas, e ficou durante muito tempo as olhando. Lílian fez o mesmo.
- Gosto de ver as estrelas. – disse, depois de alguns minutos – Olhar para elas me faz sentir espetacularmente insignificante perante Deus.
- Elas também me fascinam. – sorriu Lílian – Mas é estranho ver você falar que gosta de ser insignificante perante alguém. Mesmo que esse alguém seja Deus.
- ...É que pensar assim... faz o demônio do meu Eu se refugiar mais longe ainda da superfície.
Lílian balançou a cabeça, achando meio engraçada a frase meio dramática de Leah. Olhou as estrelas de novo, sentindo saudades de seus pais, já mortos, que ensinaram a ela ver algumas constelações.
- ...Eu sabia achar várias constelações. – comentou, saudosa – Adorava achar Escorpião. Mas faz tanto tempo que meus pais me ensinaram, que já me esqueci. Agora olhar as estrelas me faz lembrar deles. Ás vezes paro e fico perdida, sinto tanta falta deles que...
Lílian parou, abruptamente. Seus pais não haviam morrido. Seus haviam sido mortos. Por Leah, anos atrás, quando ela começava a ser uma assassina sob o comando de Voldemort. Mas tanta coisa havia mudado desde então, que Lílian tinha quase apagado de sua lembrança tudo isso. Mas Leah, não. Nunca, jamais. Ela cerrou as sobrancelhas, como se de repente ser lembrada daquilo lhe desse uma dor enorme. De fato, doía. Lílian abriu a boca, mas não sabia o que dizer:
- ...É... eu... – antes que ela continuasse, Leah suspirou, se ergueu, e saltou do telhado, desaparecendo. Lílian tomou impulso para ir atrás dela – Não, Leah, espere, eu só...
Mas achou melhor sentar-se de novo. Não ia adiantar nada ir atrás dela, não naquela hora.
Lílian chegou cautelosa na casa de Manuel Bandeira no dia seguinte, e viu que a taverna estava quase em ordem, com vários homens a arrumando. Entre eles, Manuel, que veio ao seu encontro, todo sorridente:
- Minha doce senhorita Evans! – sorriu, fazendo Lílian recuar – Onde vossa senhoria passou a noite? Fiquei tão preocupado ao ver que não estava em seu quarto esta manhã...
- Bom... é que... – Lílian não sabia o que dizer.
- Viu o que aqueles zumbis malucos aprontaram aqui? – reclamou – Ainda bem que você não estava por aqui, ficaria extremamente preocupado. Mas, aproveitando que a senhorita apareceu, me dará a imensa honra de sua presença hoje a noite, não dará?
Lílian realmente estava passada. Ele não lembrava de nada. Nada, absolutamente nada. Ouvira dizer que sua taverna fora destruída pelos zumbis. Menos mal, pensou Lílian.
- Bom, senhor Bandeira... eu e Leah passamos a noite fora, mas quem sabe, não?
- Ficaria muitíssimo honrado. São bruxos espanhóis. E alguns mexicanos. Ouvi dizer que são especialistas na arte de desfazerem maldições. Sei que a senhorita está aqui para isso, não estou menosprezando vocês, ingleses... mas é que, a senhorita entende, latinos parecem ter mais ligação com nossa maldição do que anglo saxões...
- Toda ajuda é bem vinda. – comentou, sem se preocupar.
- Teremos bebida, comida e muita dança. – sorriu, particularmente feliz – Os Mariachis prometem tocar muita musicas perfeitas para dançar. Quem sabe se a senhorita puder me conceder também a honra de uma dança, não?
- ...Não sou exatamente uma boa dançarina, senhor Bandeira – murmurou, dolorida – Garanto para o senhor.
- Isto é uma ótima notícia – sorriu, orgulhoso – Garanto para a senhorita que não haverá professor melhor do que eu neste vilarejo. Sabe, em minha juventude, muitas moçoilas se renderam ao meu encanto na...
- Opa, festa? – disse Leah, aparentemente animada, aparecendo na porta da taverna – O senhor tá caprichando, heim, seu portuga? Olha que beleza.
- O senhor Bandeira dará uma festa para latinos nesta noite, Leah. – disse Lílian, tentando parecer que também não se lembrava da conversa no telhado – Parece que será legal.
- Hum... – e olhou para o português, que não parecia gostar de ver Lílian avisar Leah do acontecimento – Ah, não sou chegada em festa. Se vier, vai ser só pra tomar tequila com sal. Uma beleza pra subir. Bom, vou indo pro quarto. Preciso tomar banho.
Ao cair a noite, a taverna e a pousada se agitaram com a chegada dos bruxos. Uma dúzia deles, vestindo ternos pretos com blusa grande, chapéu de aba dourada e carregando instrumentos em caixas pretas. O tloc-tloc da sola das botas e das esporas chamava a atenção de quem estava no local. Augusto, recostado na porta da pousada, jogava para o alto sua faca, despreocupado, vendo a chegada dos Mariachi.
- Pessoal estiloso, heim? – comentou Leah, chegando ao lado de Augusto.
- Por que elogiar eles? – perguntou, olhando Leah de cima abaixo, que também usava calça comprida, bota, jaqueta preta e blusa branca – Você está bem parecida com eles.
- É por isso que elogiei. – disse, óbvia.
- ...Você ás vezes não faz muito sentido, sabe...?
- Obrigada. Vamos comer alguma coisa?
- Não achei que quisesse invadir a festa do senhor Bandeira...
- Não vou na festa dele. – murmurou, os dois já indo pra taverna – Vou só ficar na taverna, como sempre.
Reverendo Joaquim chegou na taverna ao mesmo tempo em que Lílian, que não parecia muito animada de ir no encontro dos latinos, mesmo sabendo que eles tinham vindo ajudar.
- Festa de espanhóis e mexicanos. – sorriu o padre – Não achei que viesse de calça comprida e blusa.
- Estava achando que eu viria de que? Com aquele vestidos vermelhos cheios de rendas e uma flor enorme no cabelo? Não acho que me sentiria bem fantasiada de espanhola ou mexicana aqui.
- Bom... aposto que o senhor Bandeira imaginava. – sorriu, discreto, para em seguida olhar o céu, e murmurar – perdoe-me a blasfêmia, senhor.
- ...É nisso que dá conviver com a Leah. – sorriu Lílian, achando graça no comentário do padre.
Dentro da taverna, os latinos pareciam muito á vontade. Juntos, tocavam musicas latinas, animando absurdamente o lugar. Bebida e comida não parava de circular, e alguns velhos bruxos amigos de Manuel Bandeira pareciam fascinados e ver as moças da vila dançarem com os latinos.
Em poucos instantes Manuel achou Lílian, e insistiu que ela fosse cumprimentar os visitantes. Enquanto isso, o Padre achou melhor se refugiar pelos cantos da taverna:
- Padre! O Senhor neste antro de perdição! Que perigo! – sorriu Leah, erguendo um copo de tequila.
- Oh. Senhorita Málaga.
- Deixe a educação de lado, sente-se aí.
- ...Onde está Augusto? Oh, com os latinos.
- Sim, alguns são caçadores de recompensas, como esses outros bruxos. Eu fiquei aqui, pra não ser notada. E não fui. Aleluia.
O padre suspirou, e se sentou.
- ...Incrível como o senhor Bandeira gosta de cortejar a senhorita Evans – comentou, inocente – AI! SENHORITA!
- ...Dar um "pedala" num padre não me faz ir pro inferno, faz? – disse Leah, dando um sorrisinho torto, enquanto o padre tentava arrumar seus poucos cabelos caprichosamente penteados na nuca – Apesar de que o inferno deve ser bem mais legal que o céu.
- Deus me perdoe...
- Cachaça, homem, sexo, porrada...
- ...Se a senhorita tem salvação ou não, não sei. Mas acredito que esteja fazendo valer a pena aqui em cima.
- Falando em Manuel, esse tosco está pagando o maior mico. – comentou, sacana – Ele tá tirando quase todas as meninas pra ficar dançando essas musicas latinas. E está duro que nem um pau. Mas falando em duro e em pau, o que deve estar duro nele...
- Me poupe dos detalhes. – murmurou o padre – Mas o senhor Bandeira é um bom dançarino. Ao menos, das musicas portuguesas.
- É, e O Vira é muuuuito igual a uma musica mexicana que se dança agarradinho, jogando a parceira pra lá e pra cá. – disse, apática.
- A senhorita Evans não parece muito á vontade sem conhecidos por perto – riu, ainda se punindo em pensamento – Espero que ninguém a tire para dançar. Apesar de que, se voltarem a tocar alguma outra musica, o senhor Bandeira muito provavelmente irá chama-la.
- Se chamar, está lascada. Lílian dança muito bem.
- Jura? Não parece. Tão centrada.
- Pois é. Mas dança. E muito bem.
- Jura? ...Onde será que aprendeu?
- Comigo. É lógico. – disse, parecendo ofendida – Na época de escola. Quando ela teve de se acostumar com os costumes das famílias bruxas tradicionais por causa dão namorado, agora, noivo. O senhor sabe, algumas danças tem tradições, e ela veio de família trouxa.
- Ela sabe dançar mesmo...? – riu Joaquim – Puxa, será uma grande surpresa.
Lílian parecia constrangida de estar entre os velhos amigos de Manuel, que ela sentia que era apresentada quase como uma amante secreta do português. Ela até preferiria estar com os latinos meio embriagados, que, ao menos, eram mais divertidos. E menos tarados. Seu constrangimento só aumentou quando, desviando o olhar pela taverna, viu, no fundo, Leah e Joaquim, lhe acenando cinicamente. Leah, aliás, fez questão de simular uma dança sensual de longe e fingir dar beijinhos, apontando Manuel, o que fez a outra bruxa ficar sensivelmente mais irritada.
- Não a deixe mais constrangida... – riu Joaquim.
- Ela merece.
Nisso, os mexicanos voltavam a tocar musiquinhas bem animadas, e Lílian acabou sendo tirada para dançar por dois dos mexicanos, que estavam fazendo um relativo sucesso com as moças do lugar. Elas não gostaram muito de ver a ruiva inglesa de repente ser o centro das atenções dos visitantes, dos velhos portugueses, e muito menos de verem que ela não dançava tão bem, aprecia alguém constrangida e presa, fazendo poucos passos, mas nenhum tão sensual quanto aqueles que elas tentavam fazer propositalmente nas musicas, junto dos latinos, e que eles mesmos faziam quando dançavam sozinhos.
- ...A pobre está visivelmente sem graça. – sorriu o Joaquim. E Deus me perdoe novamente, não quero fazer falso juízo, mas ela não parece tão á vontade ao dançar...
- Você não viu nada. – riu Leah, se levantando – Deixa comigo, padreco.
- Pero yo lhe garanto, señor Bandeira – disse um dos mexicanos, de cabelos ensebados e brinco de ouro na orelha – Este tal demônio no deve ser tan perigoso así. Yo, ao menos, nunca ouvi hablar dele.
- Mas ele é terrível. Eu lhe garanto, jovem. – dizia o senhor Bandeira, com o nariz levemente vermelho, engolindo mais uma dose de tequila.
- Pero como? Nunca ouvimos hablar deste zizigaxi...
- ...É Zz'Gashi, seu mariachi espertinho. – murmurou Leah, aparecendo entre eles, fazendo Manuel se espantar e se irritar visivelmente. E Se pronuncia Zis-gáchi. Nunca ouviram falar porque é uma lenda do norte, dos países gelados.
- La doncella entiende desta maldición, no? – sorriu o mexicano, com o violão debaixo do braço, também tomando tequila.
- Claro que entendo. – disse, sorrindo – Eu nasci lá.
Lílian piscou e olhou pro lado. Não sabia disso. Sabia que Leah era filha de espanhola com inglês, mas não que tinha ido nascer tão longe.
- Sei porque meus pais viajavam muito, e nasci quando estávamos lá. – disse, se sentindo entendida do assunto – Eles temem horrores essa lenda do demônio Zz'gashi. Aliás, perdi meu irmão por culpa dessas lendas malucas.
- ...Entiendo. – comentou o mexicano, de repente se interessando – Conheço los costumes de los nórdicos. Matar um de los hijos gêmeos así que nasce para acalmar los dioses.
- Exatamente. Vocês são espertinhos. – sorriu Leah, agora praticamente da família dos latinos – Minha mãe deu á luz a gêmeos. Meu irmão, que nasceu antes de mim, foi morto, como sacrifício pros deuses. Engraçado, porque ele era mais saudável e maior que eu, ao menos foi o que escutei. E além dessa crença dos gêmeos, ouvi falar sobre Zz'Gashi. Mas a lenda do Zz'Gashi é bem mais divertida.
- Matar demônios sempre é divertido, doncella. – riu o mexicano.
- Com certeza!
Leah, então, se sentou com os mexicanos, enquanto Lílian e o português ficaram um pouco mais para trás, onde os velhos portugueses continuavam a alugar Lílian, querendo saber porque era tão famosa sendo uma jovem tão bela e delicada, e outros papos de velhos pedófilos chatos.
- Hey, Hermano! – chamou outro mexicano, se aproximando de Leah e do seu novo amigo – Vamos tocar mais una!
- Isto! – cumprimentou, tomando mais uma dose de tequila e se posicionando. Virou-se para Leah – Baila, doncella?
- ...Um pouco. – ela pensou, olhou Manuel Bandeira e cochichou - ...Conhecem a letra de El Mariachi?
- Se não, doncella! – sorriu o mexicano.
- ...Poderia me oferecer esta música?
O mexicano girou a mão, abaixando a cabeça, como se fizesse uma reverência.
- Lhe devo uma, Mariachi. – sorriu Leah, se levantando.
Os mexicanos começaram a afinar as cordas dos violões numa música extremamente contagiante e irresistível.
- El Maricahi. – comentou Lílian, sorrindo, olhando para o lado.
Manuel a olhou:
- Conhece, senhorita? – disse o português, de repente se sentindo animado ao ver ela se animar com alguma coisa naquela noite.
- ...Conheço. – disse, murchando ao ver o ânimo do português – É que, bem... me lembra alguém.
- Hum... – murmurou o português, sorrindo e passando as mãos nos bigodes. Era a deixa que ele esperava a noite toda.
- Noite quente, não?
Lílian olhou para trás e viu Leah, aparecendo sorridente. Manuel Bandeira, é claro, desmanchou o sorriso.
- Hum... calor latino, músicas mexicanas, muita tequila e pimenta. – disse, categórica – Está de parabéns, senhor Bandeira.
- ...Obrigado. Mas se a senhorita não se...
- E aí, Liloca? Curtindo ser a coelhinha playboy pro clube da melhor idade?
Lílian fechou a cara, se ofendendo:
- ...Você tem programa melhor? – murmurou, entre os dentes.
Leah deu um sacana sorriso fechado, e ergueu a mão direita na altura do rosto de Lílian. E disse, dois segundos depois:
- Duvido que você aceite.
Lílian sabia que Leah esteve reparando seu constrangimento a noite inteira, e estava lhe testando. E ela odiava ser testada. Deu um sorrisinho irritado, e bateu com força a sua mão na dela. Leah imediatamente a puxou pro centro do salão, com um tranco. Soltou-a, e girou, agachando-se e olhando os mexicanos, que davam gritinhos ao começar a música:
- Bailemos, amigos!
- Arriba! – exclamou um dos Mariachis.
Leah voltou para o salão, e caminhou em volta de Lílian, que a seguiu com o olhar. E, como se já tivessem decorado a música e a dança, no primeiro acorde da música, Leah a puxou novamente pela mão, com força, e, por um instante, Manuel achou que elas iam "se dar" uma cabeçada capaz de as jogarem de costas no chão. Mas, ao contrario disso, as duas se encaixaram perfeitamente, imediatamente começando a dançar pelo salão, sem para, no acelerado ritmo da musica, sem um erro sequer. Para que assistia, em silêncio, via que, de repente, naquela fajuta festinha, dois exímios dançarinos haviam aparecido, fazendo todas as atenções se voltarem para eles. Para as duas, era quase um duelo. Leah e Lílian sorriam em tom de desafio, e quase não piscavam, e nem por um picar de olhos tiravam os olhos uma da outra, com medo de cometer algum deslize e poder tirar sarro da rival o resto da semana.
Leah não se importava se os velhos queriam socar-lhe um punhal nas costas por ter tirado o principal troféu da noite para dançar, de repente ela só tinha olhos para Lílian, e ouvidos e alma para a música. E Lílian, idem. Não ia fazer feio, era questão de brio. Bailavam e giravam pelo salão, rápido, dançando perfeitamente, trocando de posição, girando o corpo, sem tempo para tomar fôlego. Leah cantava a letra, extremamente à vontade, enquanto a parceria não dava o braço a torcer e permanecia com a mesma expressão.
- ...Santo Cristo... – admirou-se um dos velhos.
- ...Cale a boca. – sibilou Manuel.
Os músicos repicavam o violão, dando um tempo na letra e no ritmo, enquanto Leah soltava Lílian, e as duas mais uma vez se separavam, ainda batendo o pé no ritmo da musica, dançando separadas, caminhando, ainda sem se desconcentrarem uma da outra. A musica retornou, e com dois passos elas voltaram ao centro do salão, com Leah abraçando-se à cintura de Lílian, as duas ainda sem errarem um passo sequer, mesmo não estando na tradicional posição de dança. O senhor bandeira se irritou profundamente com essa parte da música. Era ele quem deveria estar ali, abraçado à auror, com o rosto colado ao seu, com as mãos em sua cintura e em seu quadril, dançando com extrema perfeição, balançando ao som daquela sensual e agitada música, com seu corpo colado ao dela.
Apesar de ter passado metade da música – que era longa – as duas não perdiam o fôlego, apesar de visivelmente estarem suando em pouco tempo. Também, era um exercício e tanto. Mais uma vez Leah empurrou Lílian, dessa fez a puxando novamente com força antes de esticar o braço, o suficiente para voltarem a dançar juntas. Se o senhor Bandeira tivesse uma arma, a sacaria e atiraria, porque, no mesmo pique, as duas continuavam a dançar, dessa vez mais coladas; coladas o suficiente para parecer que eram uma só, tamanha precisão dos passos. Ainda sem olhos para o redor, sem sentidos para o público, as duas permaneciam se olhando, sorrindo, ainda esperando o desfecho daquele repentino desafio pessoal. As duas mantinham o rosto colado, sentindo a respiração da outra ofegar, tendo olhos apenas pro olhar da parceira, para obrigar que as duas adivinhassem o próximo passo, ao invés de olhar para o chão e ver os próprios pés.
- ...E não é que elas sabiam, mesmo? – comentou Reverendo Joaquim, a boca ainda aberta, as sobrancelhas erguidas, se abanando com a esteira de palha trançada que usavam para colocar os pratos quentes nas mesas.
E finalmente, com outro repique, as duas se separaram, giraram e de novo pararam abraçadas, entre os gritinhos dos mariachis. Os próprios músicos ergueram as mãos e bateram palmas, enquanto nem o padre se conteve, saltou do banco, bateu a mão na mesa e se pôs a aplaudir:
- EM NOME DO SENHOR, QUE MARAVILHA! – vibrou.
- Muy bien! – vibrava o violeiro, aplaudindo, agora junto de todos – Estas señoritas sabem o que fazem!
As duas, ainda no centro do salão, se olhavam, respirando ofegante. Aos poucos pareceram sentir toda a exaustão de dançar, e relaxaram, se separando, Lílian percebeu que, de fato, havia aparecido "um pouco demais" além da conta, e, ofegante, tratou de tirar os fios de cabelo do rosto molhado. Leah agachou-se sobre os joelhos, gemendo de dor, murmurando alguns palavrões.
Hermano, o mexicano do violão, parecia extasiado, e se aproximou de Leah:
- Doncella, que pasa! Que espetáculo! Por Dios, por instantes, usted fez com que eu desejasse ser mujer, e tu, mi compañero de dança.
- ...Obrigada. – sorriu Leah, torto, recebendo amistosos tapinhas no ombro. Ela se esticou, estalando a coluna, gemendo. Suspirou e disse – Aí, Liloca! Achei que tinha enferrujado.
- ...Ainda vai demorar a chegar o dia em que você vai me deixar no chão. – disse Lílian, sorrindo, olhando por cima do ombro, sumindo entre os convidados, para ir buscar água com a lendária mulher sem sexo da taverna.
Reverendo Joaquim aprecia extremamente feliz. Olhou as costas de Lílian, olhou Leah, e disse:
- O orgulho é um pecado mortal. O duelo de orgulhos é mais grave ainda. – e, segundos depois, disse, vibrando – Mas quem se importa? Vocês duas não vão por inferno por causa disso! Deus há de perdoar.
Leah respirou profundamente, e disse:
- Reverendo, se Deus colocou nós duas no mundo, ao mesmo tempo, tinha plena consciência de que daríamos um puta trabalho. – e abraçou-se ao Padre – O senhor iria para o inferno se tomasse uma dose de tequila por minha conta?
- ...Bom... Bom... Ora, nada que uma semana de penitência a pão e água não resolva. – sorriu, seguindo Leah, amparando a pobre e exausta dançarina, na verdade.
Entre os velhos que se olhavam e teciam comentários, Manuel permanecia de pé, olhando as costas de Leah e do Padre, visivelmente furioso. Para ele, o maior espetáculo da noite estava bem longe de ter sido a dança. Na verdade, ele achava que era hora de outro espetáculo. E ele seria de matar.
N.A 1: vamos começar as N.As. Primeiro lugar: NUNCA, JAMAIS, em MOMENTO ALGUM da mainha vida eu me inspirei na Inna pra fazer a Leah. Quando criei a Leah, eu nem tinha IDÉIA da existência dessa senhorita desmiolada. Se vocês acham que a Leah dessas shortfics parecem a Inna por ser tão desmiolada, é uma feliz COINCIDÊNCIA.
N.A 2: Também NUNCA, JAMAIS me inspirei na minha relação com a Inna para "sermos" Leah e Lílian. Isso me ofende PROFUNDAMENTE. Eu ODEIO TODO e qualquer RUMOR ou comparação que se faça com meus trabalhos. Eu felizmente não sou uma frustrada com a JK que "se faz nos livros" para de certo casar com um antigo amigo de infância imbecil. E sim, isso é uma piada infeliz com R/H.
N.A 3: Tudo o que está na EdD e nessas shortfics são fantasia. Vieram da minha cachole, em algum momento de bebedeira. Se não são, são inspiradas em games, animes, filmes e etc. E se alguma vez eu disser que me inspirei "na vida real" para fazer tal coisa na EdD, eu DIREI MESMO, e JAMAIS seria alguma experiência relativa à pessoas ou fatos ligados ao fandom de HP. Eu separo com extrema rudeza minha vida real/pessoal desse mundinho cheio de asco que é o fandom de Harry Potter. Portanto, não venham inventando historinhas ou achando que eu me inspiro em X, na relação com Y para fazer as fanfics. Me irrita profundamente.
N.A 4: E pelo amor de Deus, PAREM DE ACHAR QUE EU SOU A Leah. A Leah é alta, magrela, tem quarenta anos, tem voz grave e é escorpião de corpo e alma. É inglesa, filha de espanhóis, é estourada, líder nata, anda de nariz em pé e não leva desaforo pra casa. Eu sou baixinha e gordinha, cheia de pelanquinhas, tenho vinte e dois anos, sou pisciana. Jeca da roça, extremamente tímida, tenho voz irritante. Ando curvada, de tamanha timidez. Não me sinto á vontade em público, e odeio aparecer em EPs, eventos, fóruns, em qualquer lugar que alguém possa saber que "ah, você é a tal da Massafera?". A única coisa de real que Leah tem é a data de aniversário, que é a mesma de uma amiga minha, que tem em comum com a Leah de ser escorpião, e como todo indivíduo de escorpião, adora bater em pessoas. Ou seja, parem de achar que a Massafera é a Leah. Dela, se querem saber, eu queria ter é só o marido. E de mais a mais, eu sou real. A Leah, um personagem. E personagens são personagens. PONTO.
N.A 5: Estou com medo de continuar a MdE. Porque eu vou contar muita coisa da Leah que eu guardava à sete chaves. Obviamente que terei inúmeras cartas na manga ainda, mas, de certa forma, tenho medo de "estragar a surpresa". Por outro lado, posso também deixar os leitores ansiosos para ver quando os segredos da MdE vão aparecer na EdD. Afinal, MdE não tem NADA A VER com a linha do tempo da EdD.
N.A 6: Como sempre, eprdoem os erros e o espanhol meio no improviso. Eu e Inna (beta reader das madrugadas embriagadas) nunca prestamos mutia anteção na correção edssa short fic. Até a próxima.
