Ato VIII: Mudança

Eu vi você se transformar

Em uma mosca

Eu observei

Você estava em chamas

Eu vi uma mudança em você

Era como se você nunca tivesse tido asas

E agora você se sente tão vivo

Eu assisti você se transformar

Eu levei você para casa

Coloquei você em um vidro

Eu arranquei suas asas

E então eu ri

Eu vi uma mudança em você

Era como se você nunca tivesse tido asas

Agora você se sente tão vivo

Eu vi você mudar

Era como se você nunca tivesse tido...

annhh-ahah

Eu olho a cruz

E eu olho pra longe

Te dou a arma

Atire em mim

(Change In the House of Flies – Deftones)

Lílian saiu da taverna e encontrou o sacerdote sentado no meio fio, parecendo despreocupado.

- ...Cansou-se da festa, padre? – perguntou.

- Ah. Aproveitei tudo o que tinha de aproveitar – comentou, sorrindo – Vim aqui fora respirar ar puro.

Lílian fez o mesmo, olhou para o alto, as nuvens encobrindo a lua, e respirou fundo o ar frio da madrugada.

- ...Pra onde Leah foi? – estranhou – Achei que estivesse aqui, já que não estava lá dentro.

- Hum... ela saiu com o senhor Augusto. – disse, meio constrangido – A senhorita sabe...

- Certo. Ok. – murmurou, evitando continuar o assunto.

E, assim, ela se sentou ao lado do padre, apoiando-se no joelho, olhando para o alto.

Cinco minutos se passaram, em silêncio. Dez minutos. Quando chegavam à casa dos quinze...

- ...A senhorita não sente que, ás vezes, o mundo parece meio entediado sem a senhorita Leah por perto?

Lílian olhou o padre, espantada. Piscou algumas vezes, e começou a gargalhar.

- Meu Deus! – ria, quase chorando – Leah é capaz de tirar o bom caminho até mesmo um padre!...

- ...Não diga isso, senhorita... – murmurou Joaquim, sem graça – Mas é que... desde que conheci as senhoritas, é tão... encantador vê-las...

- ...Encantador?

- Sim, ora pois. – sorriu, um pouco sem jeito – Veja só, a senhorita Leah por exemplo... quando escutei que ela viria aqui da primeira vez, quando escutei sobre sua fama... um demônio incontrolável, sedento por sangue... me apavorei... pedi tanto pra Deus que houvesse alguém que pudesse impedir isso. Mas quando a vi, de perto...

- ...O demônio não é tão feio quanto parece?

- Demônio. As pessoas não sabem o que esta palavra significa.

- ...Talvez Leah fosse apenas alguém com a realidade distorcida. – comentou – Cometia atrocidades, mas não tinha noção do que fazia. Ela basicamente... não conhecia nada de bom. Ela não recebia nada de bom... portanto, não tinha nada de bom para oferecer.

- É dando que se recebe. – sorriu o padre – Eu, franciscano, sei melhor que ninguém o significado dessas palavras.

Lílian sorriu:

- É estranho ver que eu, uma bruxa do alto escalão, seja cristã. – comentou, coçando o queixo – Aliás, é estranho ver que existem padres bruxos cristãos.

- Nascermos com poder mágico não nos impede de acreditar em um só Deus, e em uma religião cristã. – sorriu o padre – Não?

- ...Devo confessar... que acho que minha religião ajudou a "converter" o "demônio" que era Leah. Nunca fui extremamente católica, confesso... mas, acima de tudo, eu acredito numa Força Maior, num Deus. Acredito nas coisas boas que a fé nos passa. E, de fato, não obriguei Leah a sentar num banquinho de escolinha e ensinei ela sobre a Bíblia ou sobre o que Jesus fez na Terra. Eu simplesmente... dei pra ela tudo aquilo que ela parecia não ter, tudo aquilo que acho que Deus quer que façamos por nós e por nossos companheiros...

O padre esticou três dedos para Lílian, e sorriu:

- Três coisas foram dadas à ela, e são essas três coisas que podem salvar o mundo e qualquer criatura dele. Você deu estas três coisas, e ela mostrou que, no fundo da alma dela, ela ainda tinha vestígios disso. Um triângulo com três lados iguais, e com três vértices sólidos: Fé, Esperança, e Amor.

Lílian fez que sim com a cabeça:

- ...Não importa quem seja a pessoa, no que ela acredita, ou pelo que ela tem passado. – sorriu Lílian – Estas três coisas são a base da salvação de qualquer espírito. Esperança, como princípio de tudo. Fé, para dar fôlego ao espírito. E amor, para saber porque se está vivo. É nisso que acredito.

- ...Não há como não olhar para você, jovem, e não ver um anjo.

- ...Não gosto de ser chamada de anjo. – sorriu, encabulada – Anjos parecem... perfeitos demais.

- Talvez seja por isso que as duas garotas gostam tanto de andarem juntas, mesmo que inconscientemente.

- Perto da Leah, eu sou menos anjo. Perto de mim, Leah é menos demônio.

- Talvez. – sorriu, se levantando – Bem... acho que vou para a Igreja. Já é tarde.

- É... – suspirou, desanimada, também se erguendo – Acho que vou dormir também. Se eu ficar esperando Leah, irei congelar.

E, assim, os dois se despediram, cada um indo para seu canto. Pouco tempo depois, os mariachis também se recolhiam. Na taverna, ficaram apenas a atendente grandalhona, arrumando o balcão, e o Senhor Bandeira, numa mesinha, à beira da janela, balançando uma garrafa de tequila vazia, olhando para onde Lílian e o padre conversavam. Respirou profundamente, e tirou do bolso um medalhão negro que cabia na palma da mão, com uma esfera da cor da luz azulada da lua, presa por uma haste negra de ferro, como uma garra. Brilhava mesmo, como se a luz da lua estivesse ali, aprisionada.

- ...E se nós brincássemos esta noite, meu amigo...? – murmurou, meio embriagado – Seria divertido para você...?


Leah caminhava com Augusto pela areia da praia, os dois igualmente alegres, se arrastando pela areia. Á frente, o padre caminhava, parecendo meditar.

- PAAAAAADREEEEEE! – gritou Leah.

- Ah, Senhor... – murmurou o padre, olhando para trás e vendo Leah correr na sua direção – Eu sou uma ILUSÃO, minha senhorita! GARANTO! Eu NEM ESTOU AQUI!

- Ah, peraê, padre! – riu Leah – Vem cá, preciso te contar! Agora há pouco, cada posição... peraê, padre, PORRA! Que caralho! Preciso em CONFESSAR! Fiz cada coisa horrenda!

Joaquim, bravo, virou-se, nervoso:

- Senhorita Leah, eu não... Oh... Ah... Z...

- …Quê, padre? –perguntou Leah, estranhando a cara dele, que de repente apontou para trás – Ah, o Augusto deixou a braguilha aberta? Acontece, sabe como é, ás vezes não cabe dentro da... AH, PUTA QUE PARIU!

Atrás de Augusto, no meio da praia, dezenas, centenas de zumbis apareciam. Imediatamente os três se juntaram.

- Senhor Deus... – murmurou o padre, agarrando-se à cruz que usava.

- ...Estou sem arma. – gemeu Leah.

- ...Eu também. – murmurou Augusto.

- ...Tsc. Deixa comigo! – resmungou Leah, de repente avançando no meio deles, sem medo algum. E, de mãos nuas, saiu nocauteando um por um, com os punhos brilhando de magia.

- Fique para trás, padre. – pediu Augusto, protegendo o sacerdote – Ela vai saber se virar.

E, assim, Leah, sem medo, descia o braço nos zumbis.

- Seus viados! – esbravejava, abatendo um por um, que se erguia de novo – Bando de filho da puta do inferno! Vão tomar tudo no cu, seus arreganhados!

- Santo Deus... – sussurrou o sacerdote, atrás do corpulento Augusto.

Leah, ofegante, continuava a socar e mandar longe os zumbis, que pareciam cada vez mais numerosos.

- Ah, seus... – murmurou, caindo de joelhos na areia, de repente, suando, sentindo-se exausta.

- Ah, donzela! – exclamou Augusto.

Os zumbis, centenas, chiaram ao redor de Leah, agachada, de joelhos, arfando. Dentre os coqueiros á beira mar, Manoel Bandeira permanecia de pé, olhando a praia, o amuleto nas mãos.

Com um guincho coletivo, os zumbis avançaram. Leah cerrou os dentes, e, furiosa, os olhou, urrando como eles, e se erguendo. Vindo de trás do padre e de Augusto, saltando na areia e pegando impulso, aparecia Lílian, avançando nos zumbis, sacando a sua espada da cintura com extrema rapidez, cortando o ar na horizontal.

Uma onda de luz branca, na forma de lâmina, partiu da arma de Lílian, partindo ao meio aquela massa de zumbis. Ao mesmo tempo, as mesmas centenas de zumbis eram lançadas ao ar, seus pedaços voando, como se uma granada houvesse estourado onde estava Leah.

- ...Mas o q..! – exclamou Lílian, recuando e pondo a espada na sua frente, fazendo um escudo mágico, que se ergueu como uma parede translúcida.

Imediatamente inúmeros projeteis perfuraram a parede, raspando em Lílian, a jogando de costas, assim como Augusto e o padre.

Ao se levantar, Lílian sentiu-se zonza, como se um gigantesco sino tivesse tocado sobre sua cabeça. Ergueu apenas o corpo, para ver o que tinha acontecido. Percebeu que seu rosto e seu braço tinham um fino corte, como se tivesse feito por uma navalha. Augusto e o padre também tinham alguns poucos cortes. E, á sua frente, uma cratera na areia havia se formado, com todos aqueles zumbis despedaçados, e seus pedaços espalhados por toda a praia. E, fincados na areia, nas paredes das casas e nas árvores, inúmeros espinhos grandes como estacas.

Leah, no centro da cratera, estava inclinada, de pé, os braços pendendo para o chão, respirando ofegante, suando. Seus olhos brilhavam de fúria.

- ...O que houve? – espantou-se Augusto.

Leah deu um grito de dor e exaustão, caindo de joelhos.

- AAAAHHHH, seu FILHO DA PUTA! – gritou, gemendo, como alguém que chora de dor e raiva – Sai daí, seu PORTUGUÊS DO INFERNO!

Lílian se levantou. Nisso Manuel Bandeira aparecia na praia, caminhando ate Leah, sorrindo.

- ...Não se sinta mal com isso. – sorriu o homem, com a fisionomia mudada – Afinal, eu estou muitíssimo feliz!

- Chega mais... – gemeu, ofegando, de joelhos – Eu vou matar você, filho da puta.

Ele se aproximou, sem medo, os olhos brilhando, rindo. Ergueu o amuleto:

- Esse brilho assassino no olhar... é inacreditável que algo tão grandioso esteja relacionado á alguém tão desprezível. Não se excitou? Não se excita com isso? Veja! – e mostrou o amuleto brilhante – Veja! Vamos! É isso que te dá energia! É isso que te ALIMENTA!

Leah retorcia o rosto e rangia os dentes como um animal feroz. Lílian sentiu o corpo se arrepiar como há muito tempo não se arrepiara.

Manuel Bandeira começou a gargalhar, no exato instante em que todos os bruxos mariachis chegavam na praia, correndo. O senhor Bandeira então ergueu o amuleto pros céus:

- VAMOS! ESTÁ NA HORA! Que as nuvens desapareçam e faça com que a luz azul da Lua cheia incida nesta praia!

Leah respirou profundamente, arregalando os olhos, apavorada. Se ergueu, feroz, olhando o português:

- ...Eu vou fazer o que devia ter feito há MUITO TEMPO, seu cretino!

Augusto avançou veloz, largando Lílian e o padre pra trás. Avançou muito veloz em Leah, esticando a mão, e gritou:

- NÃO FAÇA ISSO, DONZELA! ISSO PODERÁ LHE –

Augusto não terminou. Na velocidade feroz do bote de Leah, ela, ao invés de atingir Manuel, metros á frente, virou as palmas das mãos na direção de Augusto, como se fosse impedi-lo de lhe atrapalhar.

Foi incrível e aterrorizante. O corpo de Augusto foi alvejado por uma dúzia de espinhos, que lhe cravaram no peito e no rosto, fazendo ele ser atingido em pleno ar, e voar de costas por mais vários metros, antes de cair ao chão, quase desfigurado pelo impacto do ataque.

- ...Santo Deus. – murmurou reverendo Joaquim, olhando o corpo e Augusto, imediatamente fazendo o sinal da cruz e olhando para frente.

Leah, ofegante, relaxou os braços, parecendo perceber o que tinha feito. E seu rosto jamais havia demonstrado um pavor tão grande.

- ...Leah? – sussurrou Lílian, igualmente paralisada de susto.

Leah olhou o senhor Bandeira, que gargalhava, e olhou os mariachis, na orla. E correu na direção de Lílian e do padre.

- Às armas, hombres! – ordenou um dos mariachis.

- FUJAM DAQUI! – gritou Leah, caindo de joelhos na frente de Lílian, depois a agarrando pelos ombros, se reerguendo, parecendo cansada, ansiosa, dolorida.

- ...Eu não vou te deixar sozinha! – exclamou Lílian, erguendo Leah - ...O que está acontecendo?

- ...O português SABE! – exclamou, ofegando, parecendo sentir muita dor – Ele SEMPRE SOUBE! Por isso nos chamou aqui!

- ...Sabe do quê!

- Da LENDA! Da MINHA MALDIÇÃO! ELE é o responsável por quebrar os selos da maldição! ELE quer libertar Zz'Gashi!

A gargalhada de Manuel soava pela praia. Os bruxos se preparavam, abriam as bolsas de seus instrumentos e tiravam várias armas mágicas. Lílian continuava agarrada à Leah, que não se agüentava de pé.

- ...O que quer que eu faça! – perguntou Lílian, num sussurro, se desesperando.

- FUJA! – gritou Leah – Fuja para LONGE! Não volte NUNCA MAIS! Desapareça! RÁPIDO!

Leah urrou de dor, caindo de joelhos, segurando a cabeça com força. Lílian recuou, e caiu de costas na areia. O medalhão de Manuel brilhou, e as nuvens pesadas da noite se tornaram um redemoinho.

- ...SAIA DA MINHA CABEÇA! MALDITO! – urrou Leah, se contorcendo de dor. - SAAAAIA!

O padre agarrou Lílian pelo braço:

- Vamos correr enquanto é tempo, senhorita Evans! – Lílian o olhou, completamente sem reação – Estes segundos que ela nos dá em meio á dor é a diferença entre nossa vida e nossa morte! Vamos!

Leah, urrando, se ergueu, e avançou em Manuel, correndo, inclinada, como um animal feroz.

- Leah, NÃO! – gritou Lílian – Eu não vou lhe deixar sozinha!

Do redemoinho de nuvens, a luz azul da Lua cheia incidiu na praia, como se um canhão de luz os atingisse.

- Leah não existe mais! – exclamou o padre, puxando Lílian.

A menos de dois metros de Manuel e seu amuleto, Leah caía ao chão, as mãos na cabeça, urrando de dor, com a luz da lua lhe banhando de azul. Imediatamente suas costas foram rasgadas por grandes espinhos afiados, assim como seu crânio, suas mãos. Ela em segundos se transformou, deixando a forma humana de lado. Pela sua espinha dorsal, espinhos afiados como navalhas brotaram, assim como três pares de outros grandes espinhos, como novos braços, rasgaram suas costas, dando a impressão de ser o esqueleto de uma asa arrancada. Seguindo o desenho da espinha dorsal, uma grande cauda também formada de cascas e espinhos se formou, como as caudas de um dinossauro, ou mesmo de um dragão. Seu rosto se encheu de numerosas placas de casca rígida, seus dentes se tornaram grandes presas, seus olhos violetas se tornaram brilhantes como esferas de luz. Seus braços, mãos pernas e cabeça também se encheram de pedaços de cascas, com espinhos curvados, como afiadas esporas. Seu corpo pareceu crescer quase um metro, mudando quase toda sua anatomia. Uma criatura aterrorizante, inimaginável para qualquer cultura. Um ser maldito, que encheu o lugar de seu diabólico poder, fazendo as nuvens dos céus e as águas do mar se agitarem com seu infinito poder mágico. E, assim, o lendário demônio se ergueu, soltando um grito que foi escutado por quase um quilômetro, com a potência do urro de um Tiranossauro, estremecendo céu e terra.

- ...Seja bem vindo ao meu mundo... Zz'Gashi, meu servo! – gargalhou Manuel, erguendo as duas mãos, completamente enlouquecido.


N.A1: Bom, agora que ninguém mais acha que sou a Leah ou que a Inna seja a Lilian, e que a relação das duas é inspirada no nosso fantasioso relacionamento pseudo-sexual-platonico, podemos continuar nossas como sempre. Tô no trampo e essa buceta de fanficition ainda NAO ACEITA a barrinha pra dividir as cenas, então eu tenho que pôr manualmente. E sempre me perco no código. Se errar, sorry.

N.A2: Well, está aí. Um dos grandes segredos da Leah foi contado. Oh, jesus, isso é tão triste...

N.A3: Eu sempre tenho N coisas importantes pra dizer nas NAs, mas como demoro pacas entre um capítulo e outro, sempre esqueço.

N.A4: Ah, sim, e antes que eu me esqueça, eu faço várias "ceninhas" L², sempre mostro o companheirismo e a amizade incondicional entre os dois "opostos" absolutos da EdD. Mas, pelo amor, isso não quer dizer que as duas se desejem e queiram uma comer a outra. A relação das duas tem uma pitada de uma amizade fantástica entre eu e uma grande amiga de infância, que eu acredito que vem desde outras vidas. Em oturas palavras, Nem Leah nem Lílian são sapatões, parem de delirar, elas gostam é de piroca, pelo amor de Deuso.