Ato X: Raízes, Sangrentas Raízes

Raízes Sangrentas raízes

Raízes sangrentas raízes

Raízes Sangrentas raízes

Eu

Acredito em nosso destino

Não precisamos disfarçar

É tudo que queremos ser

Me veja enlouquecer!

Eu digo

Estamos crescendo todo dia

Ficando fortes de todas as formas

Vou te levar para um lugar

Onde devemos achar nossas

Raízes Sangrentas Raízes

Raízes Sangrentas Raízes

Raízes Sangrentas Raízes

Chuva

Traga-me a força

Pra alcançar mais um dia

E tudo que quero ver

Nos liberte

Por quê?

Não pode ver?

Não pode sentir?

Isso é real

Eu rezo

Nós não precisamos mudar

Nossas maneiras pra sermos salvos

É tudo que queremos ser

Nos veja enlouquecer

(Roots, Bloody Roots – Sepultura)


Reverendo Joaquim pegava água em um poço de pedras cheio de visgos ao seu redor, como se há muito tempo não fosse usado. Estava num pequeno terreno gramado, cheio de pequenas flores brancas e amarelas. Ao redor, o paredão da fria floresta da serra que separava a vila do mar. Estavam há muitos metros de altura, e tinha uma vistam magnífica, da vila e da baía, kilômetros abaixo. O lugar tinha uma pequena capela de pedras, também tomadas pelas trepadeiras de flores, e atrás, uma pequena casinha também de pedras. Era uma antiga capela, abandonada há muitos anos. Mas, ás vezes, o padre ia lá, visitar. Era um lugar seguro e ótimo para ficar a sós.

O padre pegou sua água num balde de madeira, e voltou para dentro do casebre atrás da capela, de onde saía fumaça da chaminé. Na pequena cozinha, ele colocou um pouco da água em uma bacia de metal, e completou com água quente que fervia no fogão de lenha. Pegou alguns panos limpos, e caminhou para o fundo da casinha. Sentou-se ao lado de Lílian e colocou a bacia de água quente no chão. Havia uma cama de pedras no pequeno quarto, ao lado da janela, e, sobre ele, um colchão feito de lã. Lílian dormia, com alguns curativos pelos machucados. O padre torceu um dos panos e começou a limpar o machucado que ela tinha na cabeça, para trocar o curativo. Antes de colocar um novo curativo, abriu um pequeno frasco com um liquido de cheiro forte, parecido com éter, que fez Lílian acordar.

- Bom dia. – cumprimentou o padre – Sente-se melhor? Desculpe, acho que o cheiro do remédio acabou te acordando.

Lílian se sentou na cama, tirando as cobertas. Pôs a mão na cabeça e soltou um gemido de dor, como se estivesse com dor de cabeça:

- Estou bem, obrigada. Só um pouco zonza. Deve ser fome.

- Ah, temos leite quente. Também tem pão, que acabei de fazer. Está com um cheiro delicioso. E tem também algumas frutas que busquei aqui nos redores. Vamos levantar – chamou o padre.

Lílian se levantou, colocou um agasalho para se proteger da cerração da serra, e foi tomar café. Pegou sua caneca de leite e se recostou na janela, olhando a vista:

- Que lugar bonito.

- Ah, sim, sim. É um pequeno santuário abandonado. Não se preocupe, estamos seguros aqui.

- E as pessoas da vila?

- Pessoas da vila. – riu o padre, triste – Agora no comecinho da manhã fui à cidade. Está um caos. Quase ninguém. Muitas pessoas foram mortas ontem de madrugada, depois que saímos de lá. Parte da taverna do senhor Manuel Bandeira foi destruída. Ele, para variar, não se lembra do que aconteceu. Está apenas preocupado em saber da senhorita.

- Ele definitivamente é a última pessoa que eu quero ver na frente.

Os dois ficaram em silencio. Até o reverendo Joaquim tomar coragem:

- Lílian... o que faremos, agora que... temos de enfrentar Zz'Gashi?

Ela continuou em silencio, de costas.

- ...Eu não sei. – sussurrou.

O padre se levantou, tristonho, e chegou ao lado da garota, pondo a mão em seu ombro:

- Eu... sinto muito pelo que está acontecendo. Ninguém poderia prever que a maldição, na verdade, estava sobre Leah.

Lílian respirou profundamente. Olhou o chão alguns instantes, e disse, em tom baixo:

- ...Se eu não tivesse arrastado ela pra cá... nada disso teria acontecido.

- Ninguém pode dizer o que "teria acontecido". – falou o padre.

- Capricho. – sussurrou Lílian – Foi por um capricho meu, que quis traze-la para cá. Não devia ter feito isso.

- Você queria só ajuda-la. – justificou o padre – Você a libertou novamente... porque, se ela colaborasse, ficaria menos tempo na prisão, não foi?

- Às vezes eu penso... se eu não tivesse pedido para Leah vir... como Manuel teria feito? Era ele quem esperava por Zz'gashi o tempo todo...

- ...Mas o senhor Bandeira pediu que vocês duas viessem.

- Como?...

- Sim, eu me lembro. Ele disse que vocês duas deveriam estar aqui. Até achei estranho, a senhorita me perdoe... ele pedir para que Leah viesse enquanto... bem... o interesse dele é a senhorita...

Lílian ficou olhando o padre, em estado de choque.

- Mas como ele poderia saber que era Leah quem...?

- Os olhos. Os olhos dela são... violetas. Eu não posso lhe afirmar com certeza, mas dizem ser um dos indícios... como se fosse... a marca. Entende?

- Mas Leah sempre teve os olhos daquela cor. Bom, de qualquer forma... isso não parece mais ter importância. O que importa é arrumarmos um jeito de trazermos Leah de volta.

O Padre silenciou. Lílian ainda continuou falando, até olhar o padre e pedir opinião. Foi quando percebeu que ele estava bastante inseguro.

- ...O que foi, reverendo? – perguntou.

- Ah! – ele exclamou, de repente pulando para fora da casa, ficando na frente da porta. Lílian não entendeu, até olhar para o lado mais baixo do terreno: da trilha de pedras da floresta, vinha o senhor Bandeira. Ela imediatamente andou até o padre, que pôs o braço em seu caminho – Espere, minha jovem.

- Não sabe o alívio que sinto em vê-la bem, minha doce Lílian, meu amigo Joaquim!

- Senhor Bandeira... – começou o padre – Eu realmente agradeço sua preocupação, mas... não gostaria de... o senhor entende... expor Lílian... ela inda se recupera.

- Entendo perfeitamente! – disse. Ele tinha o maxilar roxo, e vários curativos pelo rosto também. Mas, como sempre, não se lembrava de nada – Por isso vim aqui oferecer os mantimentos necessários a vocês dois. Fazem bem em ficar longe da vila. Está um caos. Mas não posso deixar meu povo. Gostaria de conversar.

O padre olhou Lílian, que o olhava muito séria, como se o analisasse. Mas, resolveu sentar-se junto a ele e o padre numa pequena mesa de pedras e madeira, debaixo de uma bela árvore cheia de cachos de flores amarelas.

- Muito bem. – começou o senhor Bandeira – Precisamos pensar em um jeito de acabarmos com Zz'gashi. Ele, em uma só noite, matou mais de uma dezena de pessoas. Sem contar as pessoas que morreram ANTES da maldição dele ser libertada.

Lílian cruzou os braços, brava:

- Sim, e o senhor sugere...?

- Ah, doce Lílian... a senhorita mesmo salvou minha vida... não tenho palavras para agradecer.

- Não interessa, senhor Bandeira. – disse, ríspida – O que o senhor acha que podemos...

- Nós não podemos nada, senhorita. A senhorita é a única capaz de fazer o que é preciso. Zz'Gashi foi libertado pela Pedra da Lua. Há de ser derrotado pela Pedra do Sol.

- Pedra Do Sol! – exclamou Lílian, rindo – Como, Pedra do Sol?

O padre disse, em voz baixa:

- É a mesma pedra, Lílian. Lembra-se de quando o senhor B... – antes de falar o nome, ele fingiu engasgar, propositalmente – Quando Zz'Gashi foi libertado, usaram a Pedra da Lua. A pedra, na verdade, é a mesma. A diferença é que ela carrega uma certa energia... é uma pedra mágica. E a energia dela depende de como você carrega sua força, entende? A Pedra da Lua é a pedra colocada para se banhar na luz da lua... e a Pedra do Sol é banhada pela luz do sol.

- E onde encontraremos essa pedra? – perguntou Lílian.

Foi quando o padre, parecendo hesitante, se ergueu, e foi até uma capela também de pedra, quase escondida entre as plantas, enfiou a mão lá dentro e fez força, até escutarem o som de algo se quebrando. Ele, então, voltou à mesa, e deixou sobre ela um grande caco de Pedra do Sol, que brilhava como a pedra da Lua, mas tinha um tom amarelo, diferente de sua contra-parte, azulada. Entre o afiado caco algumas lascas de pedra ainda estavam grudadas, mostrando que ele tinha arrancado de alguma estatua ou imagem.

- É um belo mineral... posso sentir sua força. – disse Lílian, segurando-o no ar, olhando aquele grande pedaço – E o que faremos com ele?

- Não é o que faremos, senhorita... – disse Manuel Bandeira – É o que a senhorita fará. Só a senhorita terá força... de enterrar esta pedra no peito de Zz'Gashi.

- Enterrar essa pedra... no PEITO de Zz'Gashi? – perguntou, como se não tivesse entendido.

- Exatamente.

- Você quer... que eu MATE a Leah, eu escutei bem?

Reverendo Joaquim segurou com força a barra da calça de Lílian, evitando que ela se levantasse do banco para socar Manuel Bandeira.

- Senhorita Evans... – riu Manuel, nervoso – É a única forma de vencer Zz'gashi...

- EU. JAMAIS. SERIA. CAPAZ. DE. MATAR. – disse, alto, pausando entre as palavras, articulando-as muito ebm, propositalmente - Seja lá quem for, eu JAMAIS mataria alguém, ou qualquer coisa que fosse. Achei que o senhor soubesse disso.

- Ora, a senhorita matou Iolaus, não matou?

- Iolaus era um morto preso em uma maldição! – gritou, completamente enfurecida.

- Não há como parar Zz'Gashi se não o matarmos.

- É claro que há! Só precisamos descobrir um jeito de trazer Leah de volta! É óbvio!

Silencio. Até que Lílian reparou que tanto Manuel quanto Joaquim estavam quietos.

- Vocês dois acham que eu não conseguiria? – perguntou, achando estranho a cara dos dois, de repente esquecendo a raiva.

- Eu entendo sua posição, mas... – sussurrou Joaquim –Zz'gashi era Leah. E não o contrário, minha criança. Entende o princípio da maldição?

Lílian engoliu algo dolorido. Sentiu que não queria escutar o que escutaria logo em seguida:

- Nós poderíamos trazer Leah de volta, se ela fosse a principal criatura, compreende? A principal consciência daquele corpo. Zz'gashi não é um demônio que estava oculto na humanidade de Leah. A figura é justamente o contrário, e por isso é tão grave. Durante todo esse tempo... Leah era uma consciência humana em Zz'Gashi. Essa consciência humana adormecia o demônio real.

- Zz'Gashi nasceu Zz'gashi. – disse Manuel Bandeira, exasperado – Essa Leah era apenas uma segunda personalidade que... que lacrava Zz'gashi.

- Se Zz'Gashi fosse uma parte de Leah... se Zz'gashi fosse algo como... uma segunda personalidade dentro de Leah... talvez nós conseguíssemos faze-la voltar. Mas... é diferente. Entende?

Lílian, de repente, pareceu desolada. Mas, mesmo assim, disse, olhando cada um deles:

- Eu não acredito em vocês. Não mesmo.

- Minha doce Lílian... – começou Manuel – Eu compreendo que...

- Leah nasceu HUMANA! – disse, em voz alta. – E, se nasceu humana... é porque ela É humana. Se ela tivesse nascido Zz'Gashi... a mãe dela teria dado á luz ao demônio, não á garota!

O padre parou para pensar:

- ...Faz sentido.

- Besteira. – riu Manuel, nervoso – Uma vez demônio, sempre demônio. Não há forma de parar Zz'Gashi a não ser atravessando seu peito com a Pedra do Sol.

- Não diga isso, senhor Manuel! – gemeu o padre – Qualquer vida merece tentar ser salva...

- ...Essa pedra não poderia trazer Leah de volta, se atingisse Zz'Gashi apenas para enfraquece-lo? – sugeriu Lílian.

- Talvez... – murmurou o padre – Podemos tentar...

- Senhorita Lílian, encare a verdade! – exclamou Manuel Bandeira, rindo nervoso – Não há outra forma de parar esse demônio, a não ser matando-o!

- Nada nesse mundo me fará capaz de matar alguém, senhor Bandeira. Principalmente Leah. – disse Lílian, séria – Coloque uma coisa em sua mente, de uma vez por todas: Nem se Zz'Gashi matasse todo mundo... e que no fim fique apenas eu e ele... ainda assim, eu não seria capaz de matá-lo.

Em seguida, Lílian se levantou, e deu as costas, indo para a porta do casebre:

- Agora, se me der licença, reverendo... vou dar uma volta pelo lugar.

O padre olhou as costas de Lílian, e olhou Manuel, que parecia tremer os bigodes de raiva. O burguês então disse, olhando a auror:

- Eu nunca fui um homem de acreditar em crenças e lendas, senhorita Lílian... mas devo confessar... que conhecer a senhorita... está me fazendo acreditar nas macabras lendas que falam sobre os anjos sagrados que caem nos encantos dos mais repugnantes demônios...

Lílian parou, olhou para trás, deu um sorrisinho de má vontade, e sumiu de vista. Manuel Bandeira virou-se com raiva para o padre:

- Reverendo! Não há saída! Ela tem que matar aquele demônio! Não há outra saída! Entendeu? Não há!

- Senhor Bandeira... acalme-se. – pediu, paciente – Ela saberá resolver isso.

O português se levantou, e dirigiu-se para a porta. Antes que saísse, o padre disse, calmo:

- Senhor Bandeira... o que o senhor faria... se descobrisse que Zz'Gashi só despertou... por culpa do desejo incontrolável de alguém por uma pessoa que repousava segura debaixo das asas desse próprio demônio?

- ...O senhor não fala coisa com coisa, reverendo. – comentou, sério, antes de tomar caminho de volta para a vila.

O padre parou, olhando o chão. Escutava apenas os passarinhos fora da casa. Pensou, e olhou para o céu:

- Senhor... eu terei de parar de pedir proteção à Lílian. E terei de começar a rogar-lhe uma divina proteção... sobre o próprio Zz'Gashi. O Senhor abençoaria um demônio, meu Senhor?...


A lua cheia estava encoberta, mostrando que uma frente fria viria. Manuel Bandeira caminhava pelas ruas do vilarejo, armado com uma grande cartucheira de cano duplo, e alguns bruxos também armados. Caminhava impaciente, porque, com a luz da lua escondida, Zz'Gashi não subia á superfície.

- Demônio! – gritou o português, na beira da praia – Apareça, seu maldito covarde! Venha! Eu quero arrancar seu coração, maldito! Pendurar sua cabeça como um troféu!

Os bruxos se olharam, espantados com a raiva que Manuel sentia daquele demônio.

- Não adianta chamar, senhor Bandeira – disse Lílian, aparecendo do outro lado da rua, junto do padre – Zz'Gashi não vai aparecer, mesmo que você o elogie.

- Este demônio está matando todos nessa vila. – rosnou Manuel Bandeira – Se a senhorita não se vê capaz de mata-lo por um capricho, eu o farei, para defender minha vila!

Lílian caminhou até o centro da praia, na areia, e fechou os olhos, erguendo a cabeça para o céu. Ficou em silencio. Abriu as mãos e esticou os braços para baixo, como se sentisse aquela brisa da noite. Foi quando os bruxos perceberam que o vento aumentava. Olharam para o céu, e, girando sem parar num redemoinho, as nuvens se afastaram, banhando a orla da praia de luz azul.

- Essa menina é incrível... – sussurrou o padre, olhando Lílian.

- Muito bem... – disse Lílian, abrindo os olhos e olhando para frente – Carregue-se de energia, Zz'gashi. E apareça.

Silencio. Lílian prestava atenção ao seu redor, mas nada de Zz'Gashi. Até Manuel bandeira escutar um chiado atrás de si. E no instante seguinte os quatro homens que estavam atrás dele foram praticamente partidos em varias fatias pelos espinhos de Zz'Gashi. O português virou-se, tremendo, mas o demônio saltou da terra direto para a areia da praia. Pôs-se de pé, e olhou Lílian, sorrindo.

- Como sempre, fazendo sujeira. – comentou, apática, olhando o demônio – tenho um presente pra você. TOMA!

Ela girou o corpo, esticando a mão esquerda, e lançou um dardo na direção de Zz'Gashi, que pôs a mão na frente do rosto. Imediatamente Lílian puxou da cintura o caco afiado de Pedra do Sol que carregava, e avançou, cortando-o na diagonal. Por milímetros, Zz'Gashi conseguiu esquivar, pulando para trás. E em seguida segurou o braço de Lílian no ar, antes que ela o acertasse novamente. Ele tentou pegar o caco de pedra, mas lLílian o jogou para o alto, e o pegou com a mão que estava livre, para aproveitar a distração do demônio e virar o corpo, dando-lhe uma cotovelada na barriga. Depois, Lílian desaparatou, voltando a aparecer na areia da praia, na beira da água.

- Quer isso, né? – perguntou, sorrindo, jogando o caco para o alto – Venha buscar.

O demônio avançou, e Lílian saltou. No ar, ela bateu os pés nos ombros do adversário, saltando para mais alto ainda. Girou no ar, mas ao olhar para baixo não viu ninguém.

- Ué? Pra onde..! – ela só olhou para cima tarde demais. Zz'gashi estava ás suas costas, sabe se lá como. Agarrou Lílian pelos ombros, e, sem dó, cravou os afiados dentes no pescoço da auror, que gritou de dor, segurando-se aos espinhos da nuca de Zz'Gashi, tentando afasta-lo. Ele, sem dificuldade, a agarrou pela gola da blusa e, de uma altitude de uns vinte metros, a jogou em direção ao centro da baía. Como um torpedo, Lílian caiu na água, desaparecendo de vista.

- Santo Deus! – exclamou o padre.

Zz'Gashi fechou os punhos e juntou toda a força que tinha, em pleno ar, contorceu-se de dor e, com um urro, fez os espinhos que saíam de suas costas se abrirem, mostrando duas grandes asas, feitas pelos seus espinhos e por uma fina camada de pele. Ele olhou para baixo, e ergueu as duas mãos, sorrindo, e se preparou para lançar um feitiço contra a água.

Foi quando as águas do mar se moveram, giraram em um grande redemoinho, e se afastaram. E, lá embaixo, no chão de areia, pedras e algas, estava Lílian, com as duas mãos juntas perto da cintura. Ela tinha juntado força para atacar antes.

- COMA ESSA, GAFANHOTO! – gritou Lílian, esticando as mãos para o alto.

Um ataque mágico partiu de onde Lílian estava, disparado na vertical. Zz'Gashi não teve como desviar. Aquele ataque estremeceu terra, água e ar. Era como se Lílian tivesse reunido num só lugar toda a energia que tinha ao redor. Ao recolher as mãos, as paredes de água cederam, engolindo novamente Lílian. Mas, dessa vez, ela aparatou onde as ondas se quebravam, baixinhas. Ela caminhou até a praia, e de repente olhou para trás. Zz'Gashi se levantava, no meio da água, com água pela cintura. Estava mais curvado que o normal, respirava ofegante, a olhava com raiva. E a maioria de seus espinhos tinha trincado ou se partido.

- É... – disse Lílian, respirando fundo – Eu sabia que você não ia cair com aquilo.

- ...Insolente... – murmurou Zz'Gashi, avançando contra ela.

Avançou em Lílian com as duas mãos. E, para seu espanto, Lílian revidou, também avançando com as duas mãos. Os dois se atingiram, um segurando as mãos do outro, medindo forças. Era espetacular ver Zz'Gashi, do alto de seu mais de dois metros curvando-se sobre Lílian, agarrado ás suas mãos, fazendo careta, enquanto a jovem humana o segurava com as duas mãos nuas, com os dentes serrados.

- Como isso é possível...! – exclamou Manuel Bandeira.

Os dois continuavam a medir forças. Lílian sentia as pernas tremerem, mas não iria fraquejar. Zz'gashi estava furioso. Ninguém iria ceder. Ao perceber que iria perder, o demônio apertou com força as mãos contra as de Lílian, e fez aparecer inúmeros espinhos em suas mãos. Os espinhos atravessaram as mãos de Lílian, que prendeu a respiração, e empurrou Zz'Gashi, gritando de dor e tirando as mãos feridas dele. Imediatamente ela se ajoelhou, acudindo a dor das mãos perfuradas. Quando Zz'gashi deu um passo para lhe atacar, Manuel Bandeira apareceu atrás de Lílian, apontou a arma para o rosto de Zz'Gashi e disparou. A explosão mandou o demônio de costas na areia, e Lílian se reergueu.

- Saia daqui! – gritou Lílian – Ou ele mata você!

Zz'Gashi se encovou na areia, sumindo de vista. Manuel Bandeira percebeu o perigo, e correu de volta para a rua. Correu na direção de uma grande escadaria de pedra, que levava da areia até a rua onde começavam os armazéns do cais. Na escadaria outros homens esperavam uma oportunidade de atacar. E, atrás deles, do outro passeio, o Padre Joaquim assistia tudo.

- Não corra para onde estão os outros! – xingou Lílian, também começando a correr atrás dele – Será mais fácil para Zz'Gashi!

Manuel se jogou nos primeiros degraus a tempo de escapar de uma fileira de espinhos que correu rente à escadaria de pedra. Lílian parou na areia, quando Zz'Gashi saltou para fora, girou no ar e pousou, olhando Lílian, que sacou a varinha e apontou para Zz'gashi, com as mãos sangrando.

- Deixe essas pessoas fora do nosso acerto de contas! – disse, pegando a Pedra do Sol na outra mão e erguendo-o na cabeça – Você deve é querer isso. Venha pegar.

Zz'Gashi sorriu. Nessa hora o padre Joaquim veio correndo lá do fundo, gritando:

- Senhorita Lílian! Jogue-me o cristal! Jogue-me! Aqui! Jogue-me aq... AAAHHHHH

Lílian e Zz'Gashi olharam para trás. O padre veio correndo na direção deles, passando por detrás dos homens que estavam na escadaria. Mas no terceiro degrau sua sandália virou, e ele caiu de cara na escadaria, descendo rolando na diagonal, as pernas para o ar, virando cambalhotas, a batina indo parar na cabeça, exibindo para todos seu par de gordas pernas brancas e uma hilária samba canção encardida.

Todos ficaram em silencio. O padre chegou de cabeça para baixo no ultimo degrau, virou-se, zonzo, tentando baixar a roupa e tampar suas vergonhas. Foi quando Zz'gashi, ao ver aquilo, curvou-se, e pôs-se a rir. Lílian piscou algumas vezes, e olhou para o demônio. Ele ria entre os dentes, os olhos fechados, a ponto de lacrimejar:

- Shi, shi, shi, shi…! Que burro, dá zero pra ele! – disse, rindo, apontando o padre.

Lílian ficou boquiaberta. O padre também. Tanto que se olharam. Zz'gashi jamais rira daquela cena, por mais hilária e idiota que tivesse sido, e muito menos diria aquela besteira para o pobre coitado que caíra. E, se não era Zz'gashi...

- Leah! – gritou Lílian. Zz'Gashi parou de rir, e a olhou, voltando a ter a expressão furiosa. Mas ela não se intimidou, e avançou nele, segurando seus ombros, lhe sacudindo – Leah! É você, não é! Eu sei que você está aí! Vamos, acorde! Acor-!

Zz'Gashi enterrou os dedos da mão ao lado da barriga de Lílian, a ergueu no ar, e a jogou de costas na escadaria. Imediatamente os outros bruxos atacaram. O padre, mancando, foi até Lílian, ajuda-la a se levantar:

- ...Senhorita, tudo bem?

- É ela, padre! – gemeu Lílian, se erguendo, com a mão na cintura ferida – Eu sei que é! O senhor VIU! Leah ainda está lá! Eu sabia!

Os bruxos atacaram Zz'Gashi, que se defendeu como pôde. Obviamente todos eram mais fracos que ele, mas era como se várias abelhas chatas avançassem sobre sua cabeça, enquanto você toca uma daqui, outra lhe pica pra lá...

- Parem de ataca-lo! – pediu Lílian.

Mas os bruxos não cederam. Zz'gashi conseguiu pegar um pelo pescoço, e atravessou seu corpo com vários espinhos.

- PAREM DE ATACA-LO, EU IREI PARA-LO! – gritou Lílian.

Os bruxos, pro um instante, pararam. Mas Manuel ordenou:

- Não dêem ouvidos! Ataquem!

Zz'Gashi deslizou pela areia, até chegar na frente de Manuel. Ergueu as garras, pronto para dilacerar o inconveniente português. Mas, ao invés de ataca-lo, soltou um agudo guincho de dor, se contorcendo. Um dos bruxos, que manteve distancia, lhe atingira com uma afiada flecha, pelas costas, perto da axila. Um dos poucos lugares desprotegidos por suas carapaças. Ele se contorceu, e arrancou a flecha.

- Isso... – gaguejou o português – Continuem atirando flechas! Mirem onde ele não tem carapaça!

Lílian parou por um segundo. Olhou o português, que atirava flechas. Percebeu que elas tinham uma ponta fina, e, grudado na ponta, um pequeno chumaço peludo empapado de um liquido. Com extrema habilidade, ele mirou novamente, e atingiu Zz'Gashi no ombro, entre a carapaça do pescoço e do ombro. O demônio mais uma vez urrou, e se encovou.

- ...Tem alguma coisa naquela flecha. – murmurou Lílian.

- Ah, Santo Deus... – gemeu o padre, mancando – aquelas flechas... são de um dos mexicanos mortos! Elas... elas... têm veneno de cascavel.

- ...Cascavel?

- Sim. Cascavel, uma das mais comuns serpentes da América latina. Seu veneno é muito forte, mas por ser extremamente comum, é tratado com eficácia. E, por ser tratado com eficácia... é também manipulado com eficácia. É um concentrado do veneno dela, que eles encharcam as flechas. A maior propriedade do veneno dela é ser do tipo Áspide. Ele ataca o sistema nervoso central. Faz o corpo lentamente parar de receber estímulos nervosos. Se não for tratado... ou se a vitima receber uma dose cavalar dele... morre por paralisia e asfixia.

O padre parou, respirou fundo, e disse para Lílian, que ainda estava paralisada:

- Por favor, Lílian... faça alguma coisa... antes que eles matem a Leah.

Lílian correu para a praia, na tentativa de achar Zz'Gashi. Mas nem sinal dele.

- Deixe que EU RESOLVO, senhor Bandeira! – pediu Lílian, puxando Manuel pelo braço.

- Você não tem competência para isso. – murmurou o bruxo.

- Eu posso salvar Leah, Manuel! – gritou, brava – Eu quero tentar usar a Pedra do Sol para aprisionar Zz'Gashi de novo!

- Mas nós não queremos salvar ninguém! – respondeu o bruxo, também gritando – Não me importa mais quem seja esse maldito demônio, eu verei ele morto nem que seja a ultima coisa que eu faça!

Ele, então, carregou a cartucheira, mirou por cima do ombro de Lílian e disparou. Lílian se agachou, de susto. Às suas costas, Zz'Gashi saltava para trás, mais uma vez grunhindo de dor. O tiro de Manuel tinha atingido o outro ombro dele, e ferido a carne entre as carapaças.

- Não está mais tão rápido, não é, amigo? – sorriu o português.

Zz'Gashi urrou. Tomou impulso e se jogou no português. Lílian estava de joelhos na areia, olhando o chão, ainda de costas para o demônio, olhando os pés de Manuel. Ela mordeu os lábios, olhou para o afiado cristal na sua mão direita, e fechou os olhos, chorando. Manuel Bandeira deu um passo para trás e levou a mão á cintura, pegando mais balas para carregar a arma. Nessa hora Lílian se ergueu, virando-se para Zz'Gashi, que saltava sobre os dois, na intenção de atacar o português. Ela juntara toda sua força na mão direita, onde segurava firmemente o cristal, e o cravou em Zz'Gashi, pouco abaixo do local onde a segunda flecha envenenada havia acertado, no lado esquerdo do seu peito, na borda da carapaça que protegia seu tórax.

Zz'Gashi se curvou, grunhindo. Deu dois passos para trás, e o cristal explodiu, brilhando, como se um feixe de luz saísse dele. Ele baixou o olhar, com uma expressão repleta de dor, e viu Lílian, segurando com força o punho direito. Ela caiu de joelhos, e chorava. Chorava sem parar, lhe olhando:

- Por favor... – soluçou – me perdoe.

O demônio piscou, mole. As nuvens voltavam a cobrir a lua, e um trovão ao longe avisava que a chova não demoraria a cair. Ele balançou a cabeça, confuso. Pôs a mão no caco da pedra, mas não teve força para tira-la. Foi quando seu olhar mudou. E, de repente, Zz'Gashi já não parecia ser Zz'Gashi. Ele olhou suas próprias mãos, parecendo confuso. Olhou o português, e olhou Lílian.

- ...Aconteceu. – sussurrou. E sua voz, apesar de ainda soar demoníaca, já não era mais tão grossa quanto a do demônio. Olhou o português, e disse, com raiva – Seu... filho da mãe... satisfeito?

O português, por um momento, baixou a arma. Mas logo em seguida a ergueu de novo, e atirou. Lílian imediatamente se levantou, virou-se para Manuel e esticou a mão. Com uma explosão, o ataque dele foi refletido, e ele, jogado de costas.

- ...Fuja! – disse Lílian, exasperada, virando-se para Zz'gashi – Fuja, antes que ele se levante!

O demônio não se moveu. Até Lílian gritar:

- EU MANDEI VOCÊ FUGIR, Leah!

- ...Fugir pra onde?

- NÃO ME PERGUNTE! – gritou, vendo que os bruxos voltavam a atacar – Apenas SUMA!

Um feixe de luz da lua banhou a praia, e imediatamente Zz'gashi desapareceu, encovando-se. Vários feitiços atingiram o lugar onde ele estava, sem sucesso. Os bruxos pararam, olhando ao redor. O bruxo que atirava as flechas foi acudir Manuel Bandeira, que se erguia, com a arma destruída e a roupa suja de preto. Lílian respirou fundo, e caiu de joelhos, pondo as mãos na testa.

Manuel Bandeira olhou para o relógio que tinha dentro da roupa. E disse para os bruxos:

- ...Quatro da manhã. Em breve irá amanhecer. Vamos embora. Amanhã será nosso ultimo dia de caça. – e olhou Lílian, com raiva – Esteja ciente disso, senhorita Lílian Evans.

E, assim, ele deu as costas, amparado pelos outros bruxos. Instantes depois, o padre correu até Lílian. Agachou-se ao seu lado, olhando-a, desolado:

- ...Está tudo bem?

Lílian respirava ofegante, com as mãos na testa, se sujando de sangue, suada.

- Leah voltou, Padre... – choramingou, ainda sem se erguer – Eu sabia que eu conseguiria...

- Está exausta, minha jovem... – sussurrou o padre, lhe amparando – Vamos voltar para nossa casa.

- Eu consegui... – disse, ajoelhada na areia, erguendo o rosto, começando a chorar de novo – Eu consegui, padre... eu consegui traze-la de volta...

Joaquim abraçou Lílian com força, enquanto ela chorava, num misto de medo e alívio, euforia e exaustão:

- Eu sabia, eu sabia que Leah voltaria... eu sabia que ela estava dentro dele, esperando por mim... eu trouxe Leah de volta! Eu sabia que a traria!

- Conseguiu, Lílian. – sussurrou o padre, com os olhos cheios de água – Graças a Deus, você estava certa! Leah pode brigar com Zz'Gashi... ela estava sim, dentro dele.. nos esperando! Podemos liberta-la... é só queremos!


N.A 1: MdE caminhando para o desfecho final! Creio eu que em mais 3 ou 4 capítulos ela termina. Esse mês ainda. D

N.A 2: Ah, eu no Orkut resolvi fazer um "concurso" da MdE e da FdN, pra quem gosta dessas fics e de L², ora pois! As regras estão na comunidade do Orkut da Leah, que você acessa pela página da fic, "espadadosdeuses ponto com ponto br" (escrevo assim pq nunca lembro como se coloca URL nessas páginas. Mas, para quem não tem Orkut, aqui vão as regras, que eu montei e foram esclarecidas pela Andréia, dona da comunidade da Leah:

São Três Categorias: ILUSTRAÇÃO/MONTAGEM, TEXTO E FANFIC

Ilustração/Montagem: Ilustração com personagens APENAS de MdE ou FdN.É uma imagem, feita com desenho seu ou montagem em Photoshop, vocês escolhem. Tamanho de Wallpaper, 800x600 ou 1024x748. (o tamanho padrão)

Texto: Refere-se diretamente à Leah e Lílian. temos o topico sobre L² na comunidade do Orkut, e o objetivo desse "texto" é bem direto: definir leah e lilian em apenas 20 linhas. (vc abre o Word, no tamanho padrão dele, letra verdana tamanho 10. Se alguem altrar margem ou espaço de parágrafos, perde - pq isso pode dar mais 'espaço' para escrever.)

Fanfic: Apenas um capítulo, de, no máximo, 20 páginas, letra Verdana 10, formatação de parágrafo padrão. Escolhi esse tamanho baseada no padrão de capítulos da série Espada dos Deuses, que tem sempre mais ou menos 20 páginas. Assim como Mde e Fdn, tem que ter Leah e Lilian, qualquer gênero de fic(comedia, aventura, drama, etc). Outros personagens podem ser usados, sejam eles da série do Harry Potter, da Espada dos Deuses, da Fdn e Mde, ou um Personagem Original.

Prêmios: Os premios serão relacionados às duas fics em questão, serão CDs com a trilha das fics. A "graça" é que eles terão capinhas bonitinhas, e dentro as letras das musicas, no encarte, essas besteirinhas.
Eu talvez possafazer outros premios, como arquivos fechados em PDF com as fics formatadas, como livro, e junto, ilustrações em preto e branco das fics, como os rascunhos das cenas que a EdD tem. Tudo depende do meu humor de participação do pessoal.

ENTREGA ATÉ: 31 DE OUTUBRO
E-MAIL PARA ENTREGA:
espadadosdeuses 'arroba' yahoo 'ponto' com 'ponto' br
Os trabalhos TÊM q ter:
NOME, NICK (se usar), EMAIL, IDADE, CATEGORIA DO TRABALHO E ENDEREÇO COMPLETO (para o envio do prêmio).
Envie um trabalho por email. O assunto deverá ser "Concurso FDN MDF - CATEGORIA" colocando em categoria o tipo de trabalho a ser enviado (ilustração, texto, fanfic).

N.A 3: Está aí. Quem estiver animado pra participar, participe! Se só uma pessoa participar, eu mando de presente! Se ninguém participar... eu fico com o cd mesmo, hehehehe. )

N.A 4: Até a próxima! E que venha o L². xP