Ato XI: Espere e Sangre

Eu senti a raiva subir
Ajoelho e limpo a pedra de folhas
eu passei onde você não pode ver
Dentro da minha concha, eu espero e sangroEu limpo o sangue no assoalho, a luz está mais clara desta vez
É tudo blasfêmia em 3D
Meus olhos estão vermelhos e dourados, o cabelo esta de pé,
Este não é o modo como eu me imaginava
Não posso controlar minha agitação
Como eu vim parar aqui, caralho?
Alguma coisa aqui está tão errada...
Tenho que rir bem alto, eu queria não gostar disto
Isto é um sonho ou uma memória?

Saia da minha cabeça, pois não preciso disto
Por que não vi isso?
Bem, sou uma vítima - candidato manchuriano
Eu andei pecando por aí, apenas
Fazendo minha cabeça e tirando seu fôlego

Você não aprendeu nada
Eu não mudei nada
Meu músculo estava nos meus ossos
A dor estava sempre livre

E isto espera por você

(Wait and Bleed – SlipKnot)


Leah caminhava pelos escuros esgotos do vilarejo, curvada, sentindo-se extremamente mal. Não sabia ao certo para onde ia, mas sabia que tinha um destino, instintivamente. O esgoto era feito de pedras, com um córrego correndo no seu centro. Leah andava aos tropeços apoiada na parede, no passeio das galerias. Apesar de ser um sistema de esgoto, as galerias não eram tão fedidas quanto se imaginava que pudesse ser. Também, uma vila pequena, e agora com poucos moradores. Leah continuava a caminhar, sentindo-se zonza e enjoada. Havia tido um apagão algumas horas atrás. Lembrou-se de quando recobrou a consciência, com Lílian á sua frente, visivelmente atormentada, machucada. Lembrou-se de fugir, encovando-se na areia (ainda não tinha desconfiado como fizera isso) e de cair nos esgotos. E, após esse breve momento de lucidez, apagou novamente.

- ...Eu devo estar voltando a ser Zz'Gashi... – murmurou, apoiando-se na parede – Não há por que eu ter essas... falhas na memória. Devo deixar a minha sã consciência de lado e voltar a ser o demônio... Ah, maldição...

Ela parou onde os córregos se cruzavam. Pela grade de um bueiro, a luminosidade de algum lampião da rua fazia a luz refletir-se na água, como um espelho. Leah ajoelhou-se na borda da canaleta de pedras e se olhou.

- Ah, cara que merda... – gemeu, choramingando, pondo as mãos no rosto – O que eu fui arrumar da vida? Aquele português filho da puta... ah eu vou... – antes que sentisse a ira tomar conta de si (o que parecia ser um piscar de olhos estando na forma de Zz'Gashi), ela respirou fundo, balançando a cabeça – Não, não posso ficar pondo a culpa nem querendo matar ninguém por isso. Merda! Se eu ainda fosse gente, eu não em importaria de retalhar aquele broxado do caralho. Mas sendo Zz'gashi...

Ela suspirou e sentou-se, encostada na parede:

- Sendo Zz'Gashi, eu posso acabar saindo por aí matando até quem eu não quero... – e, nesse instante, ela se lembrou da cena da praia. Lílian estava ferida, suja de sangue, chorando, visivelmente abatida – Tsc. Que será que eu fiz? Devo estar dando um trabalho da porra pra ela.

Leah se levantou, e saltou as águas, entrando pelo buraco de uma outra galeria. Andou calmamente, sentindo que estava chegando numa câmara seca, segura e quente. Imediatamente percebeu que seu instinto havia a levado direto para seu esconderijo como Zz'Gashi. Mas, ao erguer o rosto, sentiu o corpo inteiro se paralisar. Por toda a pequena caverna, num buraco na parede, espalhados pelo chão e pela parede, muitos, muitos corpos. Todos mutilados, dilacerados. Aquele cheiro horrível que ela parecia não perceber até então invadiu seu nariz. Ela deu dois passos pra trás e bateu de costas na parede. Olhou de lado e viu pernas e braços rasgados. Ergueu o olhar e viu, fincados na parede com seus próprios espinhos, várias cabeças de moradores da vila. Mulheres, homens, velhos, crianças. Uma das cabeças, de uma das crianças que ela havia visto brincar com Otávio, o coroinha, não tinha mais seu maxilar, e mantinha os olhos entreabertos, como se expressasse toda sua dor.

- Mas o q...? – antes que pensasse em qualquer outra coisa, Leah sentiu um enjôo terrível. Imediatamente caiu de joelhos, e vomitou no meio do lugar. E, para seu terror, tudo o que saiu não era mais do que sangue, carne e ossos. Era Zz'gashi quem vinha devorando todos aqueles corpos. E, sem cessar, continuou sentindo o corpo inteiro se arrepiar, a vomitar mais e mais carne humana, tossindo, se engasgando, cada segundo se apavorando mais e mais com aquilo que havia se tornado. Mesmo sem não ter mais nada no estômago, o enjôo não parava, e Leah continuava a ter ânsia, olhando para tudo aquilo que havia expelido, e para aquele lugar horroroso. Com dificuldade, conseguiu se levantar, e, tropeçando, saiu da câmara, caindo dentro do córrego dos esgotos. Arrastou-se de volta para o passeio, sem conseguir se levantar. Uma fraqueza absurda tomou conta de seu corpo.

- Ah, merda... – gemeu, começando a chorar, sem saber o que fazia. Aquele corpo era extremamente grande, sem jeito. Como Zz'Gashi conseguia ser tão mortal e veloz carregando tanto peso, tendo tantos espinhos nas costas? Claro, Zz'Gashi devorava carne humana, se fortalecia com eles e com a luz da lua. Mas e Leah? Passando mal daquele jeito, tão atormentada, não conseguiria mesmo se mover. Queria se arrastar para longe, e não olhar nunca mais para aquela câmara, com aqueles corpos pendurados. Mas ela não tinha forças. E, sem forças, sua vista se embaçou, até ela apagar por completo, caindo num profundo sono de exaustão o resto da madrugada.


Quando Reverendo Joaquim entrou no quarto do casebre no alto da serra, Lílian olhava-se num pequeno espelho, olhando as marcas de seu ombro. Onde Zz'Gashi havia lhe mordido, em parte do ombro e no pescoço, via-se as marcas de seus dentes, as cascas das feridas das presas e uma grande marca roxa ao redor. O padre entrou carregando uma cesta de roupas limpas, e cantarolava:

- Duas aranhas... duas aranhas... vem cá mulher deixa de manha minha cobra quer comer sua aranha... – Lílian imediatamente parou de fazer o que estava fazendo, e virou a cabeça para o padre, completamente chocada, os olhos arregalados e a boca serrada. Ele parecia continuar animado, cantarolando – ...Alguma coisa tá faltando!... É minha cobra, cobra criada, é minha... Ah, legal essa musiquinha, não acha?

Lílian piscou algumas vezes, ainda na exata posição em que estava. O padre parecia realmente animado em cantarolar aquela música. Até ela perguntar:

- Reverendo, o senhor me perdoe, mas onde foi que o senhor aprendeu essa música? – perguntou, chocada.

- Ah, eu escutei um tempo atrás a senhorita Leah no...

- Que é que eu tinha que perguntar... – murmurou, balançando a cabeça. Quem mais poderia ensinar uma coisa daquelas... para um padre? – Olha, padre...eu aconselharia o senhor a não cantá-la mais.

- Jura...? – perguntou, na maior inocência – Mas... eu a achei de um ritmo tão divertido... Leah mesmo se mostrou tão prestativa ao me ensinar a letra inteira, que eu...

- Padre, ESQUEÇA! – disse, frisando – Acredite. Não me pergunte por que, mas esqueça!

Joaquim, mesmo sem entender, concordou, e continuou a arrumar as roupas limpas numa pilha. Lílian voltou a olhar seus machucados, balançando a cabeça. Só mesmo alguém do grau de Leah para ensinar uma música cheia de duplo sentido para um pobre padre sem malícia alguma.

- Ahm... – começou o padre, olhando Lílian verificar seus ferimentos, que já se cicatrizavam – Sua recuperação é espetacular, senhorita Lílian. De ontem para hoje, tudo o que resta são pequenos sinais dos machucados. E mesmo os que não cicatrizaram já estão bastante fechados, e não correm risco de se reabrirem.

- É. Que bom.

O padre ainda olhou Lílian alguns instantes. Ela se recuperava bem dos ferimentos, mas era visível sua diferença. Sentiu-se um pouco triste, em vê-la daquele jeito. Mesmo aparentemente bem, ela estava abatida fisicamente, talvez até mais magra. Tudo isso em menos de uma semana. Tudo mudou tão drasticamente, em menos de uma semana. Lílian pôs a mão no seu machucado do ombro, olhando-o, e gemeu de dor.

- Ai. Dói. Ui. Tá inchado. – murmurou, fazendo careta. Mas em seguida começou a rir, um pouco dolorida – Ah, céus...

- Hum? Que foi? – perguntou o padre, voltando a prestar atenção nela – Oh. Sim, essa foi uma bela mordida, se me permite o comentário.

- É. – riu, ainda olhando o pescoço roxo e inchado.

- Mas por que está rindo?

- Besteira, padre. É que meu noivo ficaria irritadíssimo... se me visse com esse tamanho de chupão no pescoço. – riu, balançando a cabeça.

- Claro. – riu, sem graça. Lílian largou do espelhinho, voltando a olhar para a janela. O padre tomou coragem –Lílian... o que a senhorita pensa em fazer, agora?

- Bom... ir atrás de Leah, naturalmente. – disse – Preciso voltar hoje, antes do anoitecer... Leah deve estar escondida em algum lugar da cidade.

- ...Acho que mesmo fora da consciência de Zz'Gashi, ela não ficaria na luz do sol. Ela ainda faz mal para o corpo... bem, do demônio.

- Eu sei, padre. – suspirou Lílian, se recostando nos travesseiros, olhando o chão, se mostrando abatida – Mas eu tenho que encontrá-la. Antes do anoitecer. Antes do Manuel e dos seus homens.

- Existem inúmeras galerias no subterrâneo da cidade. – disse o padre – Em cavernas da baía, e que ligam–se aos esgotos da vila. Talvez, quem sabe...

Lílian pensou:

- É. – concordou, por fim – Eu tinha pensado nos esgotos, também. Por motivos óbvios, se Zz'Gashi se encovava, ele se movia debaixo da terra. Mas, em alguma hora... ele precisaria sair dela, e para não voltar à superfície, ele precisaria de espaço debaixo da terra. Estranho ainda não terem caçado ela lá.

- Manuel Bandeira é um homem inteligente. Ele jamais desceria ao território de Zz'Gashi. Mas, se quer garantir a segurança de Leah... é bom que faça isso hoje. E logo.

Lílian pôs a mão na boca, roendo as unhas. Olhou para frente, respirando fundo. O padre comentou, parecendo um pouco acanhado:

- Lílian, eu... eu torço muito para que a senhorita consiga salvar Leah, e para que ela se salve, também, e volte a ser o que era. – disse, em tom baixo. Ela continuou com a mão no queixo, mas o olhou, achando estranho o comentário dele – Eu no começo achava que não teria solução, mas... eu agora quero muito que vocês duas voltem sãs e salvas para seu país.

Ele respirou fundo, parecendo triste, e disse:

- Porque eu entendo perfeitamente vocês duas. – Lílian fez um 'hum?' e ele continuou – Eu agora sei o que as une. E é algo incrível. E eu... eu entendo, porque... porque eu também sinto algo assim. Talvez não seja tão grandioso, mas creio que seja bastante parecido.

- O que o senhor quer dizer? – perguntou, achando estranho o padre de repente resolver falar da própria vida.

Joaquim, então, respirou fundo mais uma vez, e disse, acanhado:

- É que eu amo uma mulher. De verdade. Como nunca amei, e como nunca amarei. – Lílian piscou algumas vezes, o olhando, admirada – Ela é uma grande amiga minha, cresceu comigo. E eu me apaixonei por ela. E, até hoje, eu a amo intensamente. E eu sei... que ela também me ama. Só que eu me tornei padre, por vontade e vocação. E ela também seguiu seu destino, começou a estudar numa faculdade bruxa, mas parou, se casou, e hoje tem um lindo casal de filhinhos. Nós seguimos caminhos completamente diferentes, e hoje, do jeito que somos, somos muito felizes.

Lílian olhou longamente o padre, e via claramente o brilho dos seus olhos ao falar de seu amor.

- Mas nós ainda nos amamos. Eu não peço perdão a Deus por amá-la tanto assim... porque eu não a desejo, e sei que amar não é pecado. E, até hoje, ela também me ama. E, se não ama, por medo de confundir o amor que sentia por mim com o amor que sente por seu esposo e seus filhos, ainda guarda algo muito bom dentro de si quando se refere à mim. Nós nos amamos, sem nos tocarmos. Nós nos amamos, sem nos desejarmos. Nós nos amamos de forma impossível e, de certa forma, proibida. De forma intocável. Mas, acima de tudo, nós nos amamos infinitamente.

- Reverendo... – disse Lílian, sorrindo, em tom baixo e terno – Preciso confessar que é emocionante escutar isso do senhor.

- Me desculpe. Talvez esteja dizendo bobagens. – riu, sem graça – Mas ás vezes eu tenho a impressão de que o que há entre eu e essa minha grande companheira... é bastante parecido com o que une vocês duas. É por isso que torço tanto para que tudo termine bem. Para que vocês sigam suas vidas, e, assim como eu, possa olhar para trás e se sentir bem com tudo.

Lílian voltou a olhar o céu, pela janela, pensando.

- Não se preocupe com isso, Reverendo. Talvez o senhor esteja mesmo mais próximo do entendimento que eu mesma.


Otávio, mais uma vez, corria entre as vielas junto de dois outros amigos, aproveitando a tarde. Brincavam correndo atrás de uma pequena bola, em meio à chuva que caía, como era de se esperar. Sem querer, um deles a chuta, e ela corre pela beirada do passeio, na correnteza da água da chuva, e some pelo bueiro antes que Otávio a alcançasse.

- Ah, e agora? – murmurou.

- Vamos descer? – sugeriu um dos amigos.

- De jeito nenhum! – exclamou a gordinha Teca – O demônio Zz'Gashi pode nos pegar e devorar!

- Zz'Gashi não me faria mal. – disse Otávio, agachando-se nas grades do bueiro, numa esquina – Se eu passar por esse buraco...

- Não vai não! – xingou Teca, puxando-o.

- Mas e a minha bola?

- O demônio vai te devorar!

- Eu não tenho medo dele!

- Vocês dois, parem com isso! – reclamou o terceiro.

O trio não parou de brigar, na borda do bueiro. Até que a bolinha foi jogada de volta para a rua.

- A bola! – exclamou Otávio, pegando-a – Alguém a jogou de volta!

- Impossível. – murmurou Teca – Ninguém mandaria ela de volta.

- Mas mandaram!

Então, a amiga bateu a mão na bola, jogando-a de volta no bueiro.

- Minha bola! Sua... sua gorda!

E assim, os dois se atracaram de pancada. Instantes depois, a bola foi jogada novamente para a rua.

- Jogaram mesmo! – exclamou o outro amigo.

Os três ficaram em silêncio. Até que Otávio, de livre e espontânea vontade, jogou a bola de novo, e ajoelhou-se, no bueiro, olhando atentamente para baixo. E, pela terceira vez, a bola era atirada para cima, dessa vez acertando dolorosamente sua testa.

- Ai! – exclamou.

No instante seguinte, Otávio era puxado com violência para dentro do bueiro.

- AH! OTÁVIO! – gritou Teca, aterrorizada.

Nos esgotos, Zz'Gashi bateu Otávio com força na parede, deixando-o suspenso no ar a quase dois metros.

- Escuta aqui, pivete do inferno – xingou – Eu já não joguei essa porra dessa sua bola de volta! Me deixa cochilar sossegada, raio!

- Ah... ah... AH!

Antes que ele gritasse, o demônio tapou sua boca com a mão:

- Shhh! Eu não vou fazer mal pra você. Não lembra de mim?... Tá, estou um pouco diferente, é visível. Mas seria um pecado mortal esquecer do meu irresistível charme. – o menino fez que sim com a cabeça – Pois é. Estou... numa má fase, por assim dizer. Me jure que não vai contar pra ninguém que eu estou aqui, certo? Nem para o padre, nem pra tampinha ruiva, ok? – Otávio acenou de novo – Ótimo. Agora vá brincar de bola LONGE daqui.

Quando Teca e seu outro amigo resolveram se aproximar do bueiro, Otavio era lançado de volta para a superfície, passando pelo mesmo buraco, caindo de costas. Ele olhou os amigos, piscando algumas vezes. Se levantou, e olhou para trás. Lá estava Manuel Bandeira, coçando os bigodes, sorrindo:

- Ora... não sabia que era tão divertido brincar nos esgotos, garotada. – em seguida ele agachou-se na altura de Otavio – E aí, meu pequeno? Encontrou algum velho amigo morando aqui debaixo...?

Otávio estremeceu dos pés à cabeça. Fez que não com a cabeça. Mas Manuel olhou para trás, chamando quatro dos bruxos que caçaram zz'Gashi na outra noite, agora acompanhados de outros três:

- Muito bem, homens. Alguém arrume um mapa dessas galerias. Vamos fechar o cerco antes que a noite caia por completo.

Otavio, ainda tremendo, correu para longe, deixando os amigos pra trás. Quando a tarde já caía, o pequeno chegou, ofegante, à cabana do Padre, no alto da serra:

- Reverendo! Reverendo! – chamou, exausto, com sua voz sumindo no barulho da chuva.

O padre apareceu na porta, acudindo o garoto. Quando entrou, viu que Lílian usava o uniforme de Auror Supremo.

- O senhor Bandeira! – ofegou, encharcado de chuva, mal conseguindo falar – O senhor Bandeira achou a Leah!

- Espere um instantes, menino... – pedia o padre, mas ele estava agitado demais.

- É verdade! Eu tava brincando... entrei no bueiro... era ela, o demônio era Leah! Ela não me fez mal, disse que não faria mal, mas... mas... mas o senhor Bandeira sabe que ela está lá! Eles entraram nos esgotos, para caçá-la!

- Santo Deus... – murmurou o padre. Olhou para Lílian, com medo.

- A que horas foi isso, Otávio? –perguntou Lílian.

- No meio da tarde... eu vim correndo... mas... demorei... é longe... difícil subir...

Lílian pos a mão na cabeça do menino, e sorriu:

- Fez bem, Otavio. Agora fique aqui e descanse. Eu vou até lá.

- Senhorita Lílian... – gemeu o padre, enquanto Lílian colocava nas costas a grande capa branca de auror, e se aprontava para sair na chuva – Ainda não está completamente curada... e Manuel Bandeira estará bem armado com seus homens.

- A essa altura, reverendo... isso já não me importa mais. – disse, saindo da casa. Saltou na janela e pulou no ar, transformando-se num grande falcão, alçando vôo na direção da vila, cujas luzes começavam a se acender, no fim da tarde.


A chuva castigava a vila, enchia as canaletas e as calhas de água, que jorravam como pequenas quedas d'água para dentro do sistema de esgoto. Ainda havia um resquício de luz do dia, os lampiões já estavam acesos, mas, mesmo assim, os esgotos permaneciam envoltos na escuridão. A luz que entrava pelos bueiros não ajudava, ao contrário, colaborava mais ainda com o clima de terror do lugar. Manuel e seus homens caminhavam pelos esgotos, desviando a água que vinha da superfície, carregando tochas mágicas e as armas enfeitiçadas.

-Zz'Gashi! Seu demônio maldito! – gritava Manuel, sua voz ecoando pelos corredores – Apareça, covarde. Venha me enfrentar! Está fraco, por acaso? Está com medo?

De alguma curva próxima, escondida na escuridão, Leah escutava atentamente, olhando os homens passarem distante para outra galeria. Fazia uma força enorme para não deixar Zz'Gashi tomar sua consciência. Mas como seria bom acabar com aquele cretino... veloz entre as sombras, ela saltou para outra galeria, escura. Correu por ela, olhando para trás, prestando atenção no som. Quando chegou ao fim da galeria, deu de cara com um dos homens de Manuel:

- AH! – exclamou, sacando sua arma – É el... ARGH!

Instintivamente, Leah moveu os braços, e iria apenas empurrá-lo. Mas, estando como Zz'Gashi, seu instinto e sua força fizeram com que vários espinhos escapassem de suas mãos e braços, pregando o homem na parede. O grito de dor abruptamente calado do homem percorreu os corredores, atraindo a atenção do bando do português.

Do outro lado dos esgotos, Lílian escutou o eco dos gritos. Caminhou apressada até uma intersecção. Olhou para o fundo escuro, mas não escutou nada. Percebeu um forte cheiro de sangue e carne apodrecida. Foi quando olhou para trás, e viu que estava de frente para um buraco na parede, que dava entrada para uma pequena câmara. Lá dentro, dezenas de corpos. Por muito tempo ela ficou parada ali, olhando aquilo, em estado de choque. Por mais que não quisesse acreditar, a verdade estava ali, na frente dela. Zz'Gashi matou e devorou todas aquelas pessoas. Só voltou a si quando escutou um ronco brando numa galeria próxima. Um ronco brando, mas que estremeceu o ar ao seu redor: Zz'Gashi.

- Leah...? – chamou, sem erguer a voz - Onde está v...!

Ao olhar para o lado, na galeria escura que dava acesso ao corredor da câmara com os corpos, Lílian deu de cara com Zz'Gashi. Com o susto, acabou batendo de costas na parede. Zz'Gashi ergueu o corpo, no alto de seus mais de dois metros. Mas era visível que estava ferido. Lílian prendeu a respiração e saltou para o lado, caindo dentro d'água, enquanto o punho de Zz'Gashi partia a grossa parede de pedras com facilidade. Antes que saltasse para escapar mais uma vez, os pés do demônio bateram em seu peito, jogando-a de costas na água, batendo a nuca na borda de pedras, sentindo a vista encher de estrelas. Ao abrir os olhos, teve tempo de apenas levar a mão direita no rosto de Zz'Gashi, empurrando-o com força, evitando que fosse atacada:

- Leah! – chamou, se esforçando para segurar aquela enorme criatura – Leah, ACORDE! ANDE! ACORDE!

O urro de Zz'Gashi doeu seus ouvidos. Mas ela não o largou, com a mão no seu rosto, empurrando seus afiados dentes para longe. O demônio então a agarrou pelo pescoço, e a jogou na outra parede com estrondo. Ele, mais uma vez se ergueu, e veio na sua direção. Lílian abriu os olhos, com a mão na frente do rosto, zonza. Arrastou-se para o lado, na curva de outra galeria, tentando escapar. Era claro que ele estava fraco, os espinhos ainda quebrados, trincados do ataque da noite anterior. O caco da Pedra do Sol ainda estava no seu corpo, os ferimentos da batalha ainda sangravam. Curvou-se, com os dentes cerrados, começando a caminhar até Lílian.

- Leah... eu não quero machucar mais você... – murmurou – Faça sua parte... por favor...

Quando o pé de Zz'Gashi bateu na água ao lado de suas pernas, Lílian percebeu que ele havia vacilado. Respirou fundo, e pôs a mão na cabeça. Mas antes que voltasse a si, um tiro estourou no ombro desprotegido de Zz'Gashi, explodindo o sangue do machucado, fazendo-o recuar, com uma expressão de dor. E em seguida, outro tiro. E outro. Como uma rajada de metralhadora, Zz'Gashi teve o peito fuzilado, logo acima das carapaças, na pele desprotegida, com doze tiros seguidos. Ele deu cinco passos e caiu de costas na água, gemendo de dor.

- NÃO! – gritou Lílian, salpicada de sangue. Olhou para trás e viu Manuel, com outros três homens armados. Ela imediatamente se levantou, agoniada – NÃO FAÇAM ISSO!

Zz'Gashi se ergueu, com a mão no rosto. Manuel Bandeira imediatamente carregou sua arma e a apontou. Ao levar o dedo ao gatilho, Lílian parou na frente dos homens, no meio do corredor, com os braços abertos:

- Não se ATREVA a fazer isso! – gritou, com raiva.

Manuel baixou a arma. Lílian ofegava. As gotinhas de sangue de Zz'Gashi escorreram pelo seu rosto, molhado pela água das galerias.

- Saia da frente. – disse Manuel Bandeira, sem o mínimo remorso – Ou terei de acertar você também, minha doce Lílian.

- Você não seria louco de fazer isso. – disse, entre os dentes.

Manuel carregou a arma e apontou para Lílian.

- A senhorita duvida?

- O que aconteceu com o senhor! – gritou Lílian – O Senhor era um homem bom! O que essa maldita maldição fez com sua sanidade, homem?

O português ergueu a cabeça, parando de mirar sua grande espingarda:

- A questão é... o que essa maldição fez com nossa sanidade, minha jovem?

Lílian prendeu a respiração. Manuel pensou, e voltou a mirar Lílian:

- A senhorita deveria saber... no fim das contas é apenas uma insana maldição de amor.

Com um salto, Zz'Gashi correu para o corredor lateral dos esgotos. Manuel virou a espingarda e atirou, arrancando lasca da parede. Com uma velocidade incrível, Zz'Gashi desapareceu, saltando e correndo pelas paredes e teto das galerias.

- Leah, não! Volte! – chamou Lílian. Os homens de Manuel se moveram, correndo pelas galerias. Lílian também se adiantou, correndo na frente.

- Não o deixem escapar, homens! – ordenou Manuel Bandeira. Mas perdeu a expressão de raiva e excitação ao olhar Lílian, no centro do único corredor que dava acesso ao outro lado da galeria, para onde zz'Gashi havia corrido – Jovem, a senhorita não faria isso!

Faria. Lílian, aproveitando a vantagem de metros de distância, se agachou no centro do córrego dos esgotos, fechou os punhos, cruzando os braços no peito, e respirou fundo.

- PARA TRÁS! – gritou Manuel Bandeira – TODOS, PARA TRÁS!

E, com uma enorme explosão de energia mágica, Lílian fez toda a água, pedras e terra daquele corredor explodirem, destruindo aquele corredor por completo. Assim que a poeira abaixou e a água se acalmou, Manuel se ergueu, fazendo cair vários pedaços de pedra e terra molhada de sua roupa. À sua frente, um corredor inacessível.

- Um mapa. – pediu, exasperado – UM MAPA! Precisamos arrumar uma rota imediatamente!

Do outro lado, na escuridão, Lílian estava de joelhos, na água. Respirava profundamente, se sentindo exausta. Escutou no fim do corredor o movimento de alguém. Ela, então, se ergueu, e começou a caminhar. Sacou a varinha e tentou iluminar o corredor. Mas ali parecia tão carregado de uma energia ruim, que não adiantou muito. Caminhava o mais cautelosamente possível, pronta para escutar qualquer som. Algum tempo depois, viu uma saída: uma caverna que dava vista para o mar, na ponta da baía. "Será que ela saiu?" pensou. Mas, ao seu lado, escutou um longo ronco, como antes. Olhou e viu uma pequena e escura galeria da caverna, seca, que se aprofundava, indo para longe dos esgotos. Entrou por ela, e começou a caminhar.

Era uma galeria seca e quente. Tinha que andar curvada. Iluminou o chão e viu o rastro de sangue que Zz'Gashi havia deixado. E, junto a ele, pedaços dos seus espinhos. Lílian parou, olhando o chão, e sentiu medo. Respirou profundamente, sentindo o peito doer. Olhou para frente, e já escutava a pesada respiração de Zz'Gashi a poucos metros à frente. Retomou fôlego, e continuou a caminhar, pé ante pé, cautelosamente.

- ...Leah? – chamou, baixinho – É você...?

À sua frente, Zz'Gashi estava de joelhos, deitado sobre si mesmo, com os braços tampando a cabeça. E, sem dúvida alguma, chorava baixinho. Lílian baixou a varinha e a intensidade da luz, se aproximando e se agachando:

- Leah? – chamou, sentindo a garganta doer.

- ...Vá embora. – choramingou, soluçando baixinho – Por favor. Vá embora.

- ...Você está ferida. – sussurrou Lílian. Se esforçava ao máximo para não chorar. Não podia. Afinal, Uma delas ali deveria ser a forte, e era claro que no momento não seria Zz'gashi.

- Eu não quero que me veja. – murmurou Leah, se encolhendo entre os braços – Vá embora daqui, Lílian!

Lílian se ajoelhou, agora a menos de um metro de Zz'Gashi, sem medo algum.

- Não quer que eu te veja?

- Não, não quero. Suma da minha frente. – disse, ríspida, sem coragem de olha-la.

- Eu não vou embora. – disse, tentando não se engasgar – Eu não posso ir embora, eu vim aqui cuidar de você.

- Cuidar de mim? Não preciso de cuidado algum.

- Leah, deixe de ser turrona, eu só quero poder ajudar você, custa entender isso? – disse, agora já não conseguindo evitar chorar – Olha pra mim. Por favor, Leah, olha pra mim.

Leah a olhou sobre o ombro, ainda encolhida, arredia. Suspirou profundamente, e devagar virou o rosto, a olhando, abatida.

- Você está ferida. – disse Lílian – Precisa se curar, Leah.

- Leah. – murmurou, em tom baixo, olhando o chão – Leah já não existe mais.

Lílian respirou fundo, a olhando, com a boca entreaberta, os olhos vermelhos.

- Como "não existe mais"? – sussurrou Lílian, esticando a mão. Sem receio, tocou de leve o rosto de Leah, entre seus afiados espinhos. Leah recuou, prendendo a respiração. Passando os dedos delicadamente entre os espinhos de seu rosto, Lílian sorriu, chorando – É claro que existe. Eu sei que existe.

Leah virou o rosto, fechou os olhos, e sentiu o corpo inteiro tremer:

- Não há nada que se possa fazer.

Lílian recuou a mão, chorando, e soluçou, desolada:

- Pare de agir assim, eu só quero poder te salvar!

- Já é tarde demais. – disse, em tom baixo – Eu não posso mais ser salva.

E, com um impulso, Zz'Gashi saltou na escuridão de outra estreita caverna. Lílian mordeu os lábios, olhando o chão, fechando os punhos, inconsolável; e gritou, batendo as mãos no chão do corredor, com sua voz se perdendo no eco e no som da fuga de Zz'Gashi:

- É CLARO QUE PODE SER SALVA! EU vou te salvar! NÃO ENTENDE? EU NÃO POSSO FICAR SEM VOCÊ!

O silêncio voltou ao lugar, e Lílian encostou a cabeça no chão, entre os punhos fechados, chorando, extremamente cansada, atormentada por tudo aquilo que acontecia como uma grande avalanche. Instantes depois Manuel veio caminhando pelo corredor, com os homens atrás. Lílian ergueu o rosto, olhando para trás.

- Ora... – disse, brancamente – Parece que o demônio magoou seu pobre coraçãozinho? E o deixou escapar... que pena. Deveria deixar nós tomarmos conta disso, senhorita. Não percebe que já está completamente impotente?

- Eu não vou deixar que...

Antes que Lílian terminasse, Manuel a agarrou pela gola da blusa, e a bateu com força contra a parede, prensando-a:

- Não vai deixar O QUÊ! Já não está óbvio que não consegue fazer mais NADA, garota? Francamente, uma bruxa da sua qualidade, se reduziu a uma pessoa abatida, chorosa, fraca! Saia do nosso caminho, antes que eu deixe meu cavalheirismo de lado!

Lílian agarrou-se ao braço de Manuel, e esticou a outra mão em seu peito. Mas nada aconteceu. Ela desfez a expressou de dor, o olhando, com medo. Manuel também percebeu, e afrouxou o braço.

- ...Esse é o preço que se paga por querer salvar um demônio maldito. – murmurou, soltando Lílian lentamente no chão – Está tão exausta... que sequer é capaz de usar mais mágica. – em seguida olhou os homens – Vamos voltar. Não podemos deixar ela aqui, sem seus poderes mágicos. Vamos, levante-se, Lílian.

Mas ela não se levantou. Continuou sentada, olhando para o fundo da caverna. Estava em estado de choque, sem reação. Simplesmente não tinha forças para reagir ou pensar no que estava acontecendo.

- ...Terei de arrasta-la? – murmurou Manuel – Tudo bem. Cada um paga um certo preço por seus atos.

E, assim, Manuel teve de literalmente arrastá-la pelo pescoço, para fora dos esgotos.


O padre caminhava pela cidade, de noite, e encontrou Manuel e seus homens voltando a sair pelas ruas, armados.

- Senhor Manuel... onde está Lílian? – perguntou, receoso, enquanto o português passava por ele fingindo que o religioso era invisível.

- ...Está em minha casa. – murmurou Manuel – Hoje ela chegou ao seu limite. Seus poderes mágicos se esgotaram.

- ...Meu Deus... – murmurou, baixinho.

- Ela não tem outra alternativa a não ser esperar o próprio corpo se recuperar. Mas... até lá, eu mesmo terei dado fim à esta história.

E continuou em seu caminho, deixando o padre boquiaberto.


A chuva castigava a vila, em plena noite. No quarto de visitas da casa do senhor Bandeira, Lílian permanecia, no escuro, sentada na beira da cama. Tinha tirado a grande capa de auror, e usava apenas a roupa branca debaixo. Estava suja de lama, e ainda estava com o cabelo molhado. Olhava para o chão, em silêncio, perdida em pensamentos. Mas, alguma coisa dentro dela estava em pânico. Olhou as próprias mãos, e esticou a mão direita á frente, com a palma da mão para cima. Se concentrou, e fez esforço. Cerrou os dentes, olhando para a palma da mão. E, com um suspiro, desistiu. Olhou para o móvel onde estava sua espada e sua varinha, levantou-se e pegou sua varinha mágica. A olhou atentamente, e com um brusco movimento aponto para um vaso de flores do outro lado do quarto. Mas nada aconteceu. Tentou mais uma vez, e nada.

- Não é possível! – murmurou, com raiva. Andou pelo quarto, de um lado para o outro, apertando com força a cabeça, esfregando a testa, tentando pensar em alguma coisa.

Com raiva, segurou a varinha com as duas mãos, cerrou os dentes, e PLAC! – partiu o objeto em dois. Mas, diferente do que deveria acontecer, ela não soltou fagulhas, nem emitiu luz ou explosão alguma. Era como quebrar um lápis. Mais uma vez irritada, Lílian jogou os cacos da varinha no chão, xingando. E se encolheu, escutando um estrondo vindo de fora da casa, da baía. Se aproximou da varanda e olhou para fora, tentando enxergar alguma coisa em meio à visão opaca por causa da chuva que caía. Sentiu o peito apertar ao identificar que aquele estrondo veio de alguma das armas dos homens de Manuel Bandeira. E, num volume mais baixo, escutava inúmeros tiros. Rajadas de tiros, tiros únicos e mais fortes. Escutava também gritos perdidos dos homens. E, num certo momento, o conhecido e aterrorizando uivo do demônio Zz'Gashi, facilmente confundido com um trovão longínquo.

Lílian respirou fundo, olhou a mão direita, ainda enfaixada, fechou o punho e com força, passou o braço por cima de um dos móveis, levanto ao chão o vaso de flores, o espelho, a toalhinha bordada que tinha em cima. Tudo foi ao chão, se partindo. Voltou a olhar a palma da mão, mordendo os lábios com força, sentindo uma frustração gigantesca em si mesma. E, com raiva, quebrou o grande espelhou do quarto com um soco certeiro. E, em seguida, continuou a derrubar o que via nas mesas, como se desafiasse a si mesma, e o próprio corpo: "se você não voltar a ser o que era, irei continuar agredindo você até acordar de uma vez."

Mas explodir sua raiva e frustração no quarto não adiantou de nada. Ao quebrar a última coisa, exausta, encostou-se na parede, ao lado da porta da varanda, olhando para o teto, gritando de raiva. Em seguida ergueu os braços e apertou a própria cabeça, com as mãos na nuca, ainda se amaldiçoando, chorando, soluçando, e sentou-se no chão, deslizando pela parede, colocando a cabeça entre as pernas, pondo as mãos nos ouvidos:

- Parem com isso! – gritava, aos prantos, balançando a cabeça, como se fazendo aquilo pudesse parar com aquela guerra lá fora, onde ela, infelizmente, não poderia fazer nada – Parem, parem, parem! Você vão matá-la! Vocês vão matá-la, VOCÊS VÃO MATÁ-LA!

Reverendo Joaquim subiu as escadas da casa de Manuel Bandeira, e bateu à porta do quarto onde as duas jovens haviam ficado da última vez. Mas não obteve resposta.

- Senhorita Lílian? Está aí? – o silêncio insistiu – Me disseram que estaria aí... posso entrar?

O padre abriu a porta devagar, e deu de cara com o quarto às escuras, completamente destruído. Entrou, olhando dos lados.

- Santo Deus... – pensou consigo mesmo – O que foi que...?

Viu Lílian na mesma posição, sentada, com a mãos na cabeça. Olhava para o chão, com o olhar perdido. O rosto molhado e vermelho, mas não chorava mais. Permanecia imóvel.

- Senhorita Lílian... – chamou o padre, agachando-se ao seu lado – Por favor... o que houve?

Lílian continuou em silêncio.

- A senhorita... está ferida? – percebeu que não estava – Manuel lhe ameaçou? – Ele não faria isso.

O som da caça à Zz'Gashi ainda chegava ao quarto, num baixo volume, pois a chuva aumentara consideravelmente. O padre pensou. Era incrível e aterrorizante o que estava acontecendo. Em tão pouco tempo aquela que era considerada a bruxa mais poderosa, havia definhado de forma indescritível.

- ...Como é possível que isso possa acontecer? – sussurrou o padre, desolado.

- Eu não tenho mais porque me levantar daqui. – disse Lílian em tom baixo como um sussurro, sem erguer o olhar – Eu não tenho mais forças. Não tenho mais espírito. Não tenho mais corpo. Não tenho mais vontade.

- Mas... mas a senhorita precisa! – implorou o padre – A senhorita é a única capaz de... de...

O padre não continuou. Passou a mão na testa, suspirando profundamente:

- Eu nunca imaginei que veria duas forças opostas tão grandiosas em equilíbrio. E jamais sonhei em ver as mesmas duas forças separadas, causando um completo caos. É assustador, senhorita Lílian Evans... ver o que acontece quando quebram a harmonia que há entre a senhorita e Leah Málaga.

Ele se ajoelhou, sem saber o que poderia fazer. Foi quando uma figura alta e imponente apareceu na porta do quarto. Vestia longas vestes brancas e azuis, e tinha uma grande capa marrom sobre o corpo e a cabeça.

- Ora essa... – disse, sorrindo calmamente, esticando o olhar para Lílian, que não se moveu – Achei que vocês duas estariam já voltando para casa. E não precisando da minha ajuda.

O padre olhou para trás e se ergueu, quando o homem colocava sobre o móvel de madeira (vago depois que Lílian tirou tudo de cima dele aos socos) uma curiosa dentadura velha, que tinha nas mãos. Ele retirou a capa marrom molhada que carregava, e mostrou ser um velho muito simpático, de olhos azuis, óculos de meia lua e grandes barbas brancas:

- ...Parece que minha menina está lhe dando trabalho, não, reverendo? – sorriu, olhando o padre.

- AH! – exclamou o pequeno gordinho, parecendo surpreso de ver aquele senhor ali – o senhor... o senhor é Alvo Dumbledore, não? Bom... senhor... eu confesso que...

Dumbledore passou pelo padre e se agachou com um pouco de esforço na frente de Lílian, que ainda não se moveu.

- Levante-se daí, Lílian. – disse, em tom firme – É uma ordem.

Mas ela não se moveu. Ele ergueu as sobrancelhas, e pigarreou:

- Muito bem... eu peço a você, por favor, se levante, Lílian. Sabe que a situação é grave. Só você pode nos ajudar. Estou velho.

Nada.

- Ora essa... – disse, encantado – Não vai se levantar? Só porque perdeu seus poderes e se acha impotente vai deixar Leah morrer? Você tem que levantar, Lílian. Tem que acabar com todos aqueles bruxos e mostrar que você pode.

Sem resposta.

- Você não é a bruxa mais poderosa que existe, Lílian?

O padre ficou com medo. Ela sequer olhava seu mestre. Por fim, Dumbledore se levantou, apoiando-se na cama, e arrumou os óculos no nariz torto:

- É. Eu tentei. Fazer o quê. Ela não vai se levantar. – disse, simplório, olhando o padre.

- Mas... mas senhor Dumbledore... o que nós...? – gaguejou o padre, indo atrás de Dumbledore, que pegava sua pesada capa de chuva.

- O que faremos? Nada. – disse, simpático – Perdi a viagem. O aurores e o ministério ficará bravo. Saí de Londres hoje de manhã, sem avisar. Ficarão bravos ao ver que vim aqui á toa.

O padre parecia realmente chocado ao ver que Dumbledore realmente se aprontava para ir embora. Ficou de pé na porta, ao lado da dentadura, e a apontou, sorrindo:

- Senhor Joaquim, foi um inenarrável prazer conhecer o senhor. Mas, terei que ir. Está é minha chave do portal. Tenham todos uma boa noite.

- REVERENDO!

Uma pequena figura chegava ao quarto, e trombava com força atrás de Dumbledore, fazendo o bruxo dar um passo para frente. Era Otávio, encharcado de chuva, desesperado:

- Reverendo, onde está a senhorita Lílian!

- Ora essa, boa noite, meu pequeno. – cumprimentou Dumbledore, pondo a mão na cabeça do menino. Ele, de repente, pareceu ser velho conhecido do bruxo.

- Moço, preciso encontrar Lílian! – disse, choramingando, ofegante.

- Ah, ela está ali. – disse, simplório, apontando Lílian – Mas creio que os esforços do senhor serão em vão. Ela não quer se levantar.

Antes de terminar de escutar, Otávio já havia saltando pela cama e corrido até Lílian.

- Oh, pobrezinho... – sussurrou o padre, olhando Otávio.

Otávio se ajoelhou ao lado de Lílian, chorando:

- Senhorita Lílian! Procurei a senhorita por toda a cidade! Por favor, só a senhorita pode nos ajudar! A senhorita tem que se levantar daí!

Sem resposta, ele segurou o ombro de Lílian, e a balançou, chorando:

- Eu tentei, eu tentei, mas o senhor Manuel machuca quem tenta impedi-lo! São muitos homens! Eles vão matar a senhorita Leah! A senhorita não pode deixar eles matarem ela! – ele abaixou a cabeça, soluçando, sem parar de balançá-la - Por favor, salve a gente, salve a Leah, ela não está conseguindo fugir! Ela não tem força para enfrentar todos eles, nos ajude, por favor!...

Alheio a tudo isso, Dumbledore pareceu achar no bolso da roupa um papel muito amassado, e resolveu lê-lo ali:

- Meu chá está esfriando, estou imaginando:"por que eu saí da cama afinal"? As nuvens da manhã chuvosa estão sobre minha janela, eu não posso ver nada; e ainda que pudesse, seria tudo cinza; mas o seu retrato na parede me faz lembrar que isto não é tão ruim assim. Empurro a porta, estou em casa enfim. E estou toda molhada; então você me entrega uma toalha; e tudo o que vejo é você; e ainda sim que minha casa desmoronasse; agora eu não perceberia, só porque estás perto de mim.

O padre olhou para Dumbledore bastante surpreso da atitude "nada a ver" do bruxo. Mas o professor não se abalou. Amassou o papelzinho e o guardou de novo. Olhou o padre e sorriu:

- Foram só uns versinhos bobos que uma velha senhora da agência de encontros me deu.

- ...Como? – perguntou, ainda espantado.

Sem resposta, voltaram a olhar Otávio, que ainda chorava, voltando a balançar Lílian:

- Por favor, por favor, se levante! Leah espera a senhorita... não a deixe morrer, por favor! Salve a Leah, eu lhe imploro, senhorita Lílian... por favor, se levante.

Otávio pôs as mãos no chão, chorando sem parar. O padre suspirou, dolorido. Mas Dumbledore parecia sorrir, simpático. Foi quando Lílian piscou. Piscou, e ergueu a cabeça, finalmente levantando o olhar para Joaquim e para o professor Dumbledore.

- ...Senhorita... – murmurou o padre, sentindo os olhos se encherem de água – Senhorita Lílian!

- Bom. – sorriu Dumbledore – Pelo jeito não perdi totalmente a viagem assim. – e agachou-se, pegando a espada de Lílian na mão direita. Voltou a se erguer, e respirou fundo, esticando a espada para Lílian – Muito bem, senhorita Evans. Aqui está.

Lílian, ainda sentada, o olhou alguns instantes.

- O tempo se esgota. Levante-se logo antes que ele acabe. – disse o professor, ainda sorrindo. Lílian respirou fundo, e se ergueu. Olhou o fundo dos olhos de Dumbledore, que terminou, orgulhoso – Muito bem, agora pegue essa espada e faça o que deve ser feito.

Ela concordou com a cabeça, e, sem tirar os olhos dos do professor, pegou sua espada, e saiu do quarto sem olhar para trás.


N.A 1: O pau vai comer! (sem ambiguidades, por favor!)

N.A 2: A cena da caverna me lembrou uma cena do ótimo O Castelo Animado, animação japonesa da primeira qualidade. É quando o mago Howl vira um pássaro e se fere na guerra, se não me lembro... a garota principal, que esqueci o nome (duh) vai até ele e diz que quer cuidar dele porque o ama, mas ele foge. Well, a intencidade da cena aqui nesse capítulo não é tão grande, mas eu gostei das duas.

N.A 3: a explicação para Lílian se levantar também vai vir de um mangá que eu amo de paixão, Rurouni Kenshin. Kenshin se sente culpado por Kaoru morrer, e foge e se recusa a lutar. Ele só se levanta porque uma criança suplica sua ajuda. Mas, de fato, basicamente, Lílian e Kenshin têm o mesmo princípio em comum: estão sempre disposts a ajudar os outros, seja onde for, no que for.

N.A 4: Participação especial do Dumbledore, HAHAHHAHAHAHAHAHAHAHA

N.A 5: MdE e FdN NÃO FAZEM parte da história original da EdD. Tudo o que acotnece aqui, em sua grande maioria, não tem NADA A VER e nem vão mudar NADA na história da EdD que é publicada. É justamente por isso que eu não me importo de colocar "yuri" ou "insinuar" um Slash. Bem como uma das duas pode morrer no fim da MdE. : - D

N.A 5: Hum... será que alguém aí vai participar do concurso da FdN e MdE? Eu acho q não, hehehehe. (gota)