Ato XII: Acordado.

Espere mais um minuto

você não pode ver que isso é

O que a merda da dor fez comigo

Eu estou vivo e ainda lutando

O que você vê eu não consigo ver

E talvez

Você vá pensar antes de falar

Eu estou vivo por você

Eu estou acordado por causa de você

Eu estou vivo e eu te falei

Eu estou acordado engolindo você

Espere mais um segundo

E vire as costas pra mim

E me faça acreditar

Que você sempre vai me ter

É seguro dizer que você nunca esteve viva

Uma grande parte de você morreu

E aliás

Eu espero que você esteja satisfeita

Vire as costas me diminuindo

Eu dou um passo pra trás pra poder respirar

Eu ouço o silêncio prestes a ser quebrado

Eu temo a resistência quando estou acordado

(Awake – Godsmack)


Dumbledore ainda olhou a porta do quarto alguns instantes, sorrindo serenamente. O padre Joaquim sentou na cama, aliviado:

- Meu Deus, obrigado! – e fechou as mãos, orando – Ajude Lílian, Senhor...

- Bem... – suspirou Dumbledore, colocando o capuz da roupa – De fato, não perdi a viagem.

- ...Por Deus... achei que estávamos perdidos, senhor Dumbledore. Nunca vi a senhorita Lílian assim, e jamais imaginaria ela daquela forma.

Dumbledore sorriu:

- Lílian e Leah são os dois mistérios que mais me intrigam e mais me excitam nessa minha vida de mais de um século. Ter a oportunidade de ver duas forças tão grandiosas e opostas virem para a Terra ao mesmo tempo... é de um valor incalculável. – ele pensou mais um instante e disse, sorrindo simpático – Mas é complicado. Se elas se afrontarem com todas as suas forças, elas podem acabar com o mundo.

- Estas duas jovens, senhor... estão muito além da minha compreensão. Sou apenas um vigário de pensamento curto. – murmurou, passando um lenço na careca.

- Não se subestime! – sorriu o bruxo – Engana-se achar que a religião cegou vossa pessoa, reverendo! Muito pelo contrário. O senhor é uma das poucas pessoas que as compreende de fato.


- Matem-no! – ordenava Manuel bandeira – matem este maldito Zz'Gashi!

Manuel urrava, suando, descontrolado. Sabia que Zz'Gashi estava fraco. Era a noite própria para ele matar aquele demônio. As nuvens encobriam a ultima noite da lua cheia, e era o momento para acabar com ele.

Zz'gashi oscilava entre a consciência e a loucura. Por sorte, Leah conseguia evitar de matar mais pessoas. Mais saltava para dentro e para fora da terra do que qualquer outra coisa. Quando uma espessa nuvem tapou a luz da lua quase na sua totalidade, Leah conseguiu desaparecer da praia, deixando Manuel e seus homens extremamente irritados.


Lílian vinha caminhando por um corredor que dava acesso á praia. O único som que ela ouvia era da água da chuva escorrendo pelo meio fio da rua. Não chovia, mas o resto da água ainda corria pelo chão e pelas casas. De repente, ela parou. Olhou para trás, mas não viu nada. Voltou a caminhar. Não tinha visto nem ouvido nada, mas sua nuca havia se arrepiado. Foi quando, por um pequeno pedaço vago entre as nuvens que se moviam, a luz da lua iluminou aquela parte da cidade. Imediatamente ela sacou a espada, e se virou. Mas não teve tempo de reagir. A palma da mão de Zz'Gashi acertava seu peito em cheio, e ela era lançada até o fim do corredor, virando cambalhotas.

- Sem poderes... acha que pode comigo? – murmurou Zz'Gashi, entediado.

Lílian sentiu muita dor ao se erguer. Havia se arranhado inteira. O braço doía, o joelho estalou. Era incrível a diferença entre ter poderes mágicos e não ter. Ou melhor... a diferença entre ser a bruxa mais poderosa do mundo, e uma jovem trouxa normal.

- ...Devolva... – gemeu, tentando esquecer do quanto os esfolados ardiam – Devolva Leah.

Zz'Gashi sorriu torto. Esticou a mão e fez aparecer um grande e afiado espinho. E o colocou no próprio pescoço:

- ...Gosta mais dela que de mim? Isso parte meu coração. A ponto de querer... me matar. – sorriu.

- Você vão faria isso, eu animal imundo. – murmurou Lílian, sentindo o pingo de medo – Você jamais se daria este luxo.

O demônio curvou-se mais ainda, e, rindo, pôs a ponta do espinho no rosto:

- Irritar você me excita de forma... inexplicável, mortal.

E passou o espinho pelo rosto, abrindo um grande corte, do nariz até o pescoço, cortando o rosto de Leah de fora a fora.

- Urgh. Isso dói. – Murmurou.

- PARE COM ISSO! – gritou Lílian, se enfurecendo.

- O que alguém sem poderes pode fazer? Bem, vamos ver que parte eu corto agora...

Lílian segurou a espada com força na mão direita, pôs a esquerda na frente do corpo e avançou, correndo. Zz'Gashi voltou a se erguer, rindo:

- VENHA, minha presa! Caia no meu truque! Caia! Ca... HÃ?

Por seis passos Lílian correu como uma trouxa. Mas, depois, ela pareceu explodir na velocidade. E, metros antes de chegar a Zz'Gashi, ela simplesmente pôs os pés na parede, correndo por ela, para desferir um certeiro e potente ataque com a espada no demônio, na diagonal. Zz'Gashi bateu o braço contra a espada, e o impacto rachou as paredes. Ele foi jogado de costas no chão, enquanto Lílian perdia o "apoio" da parede e saltava no ar, girando o corpo e caindo de pé, atrás de Zz'Gashi. Ele imediatamente também saltou, abrindo suas asas e pousando no alto da torre da estação de trem. Lílian, na mesma velocidade, correu para a torre, pôs o pé na sua parede de pedras e, de novo, correu por ela, ignorando completamente a gravidade, subindo numa velocidade quase fazia sua roupa branca ser um borrão branco, e atingiu Zz'Gashi com o punho fechado no cabo da espada, Lançando os dois para o alto. Ela mais uma vez girou no ar, guardou a espada, agarrou-se aos chifres de Zz'Gashi e mais uma vez girou no ar, indo parar nas costas dele. Como um torpedo, Os dois caíam no chão. Zz'Gashi arrebentou as pedras do chão, abrindo uma pequena cratera. No segundo antes do impacto, Lílian saltou das costas dele, pousando suavemente no chão. A lua voltou a se encobrir, e Lílian, sem receio, agarrou Zz'Gashi pela nuca, erguendo seu rosto, e gritou, com os dentes cerrados de raiva:

- Vamos, seu demônio maldito, devolva Leah! Devolva!

A criatura estava ferida. Machucara seu nariz, sua boca. Mas ao abrir os olhos, Lílian soube que Zz'Gashi havia dado uma trégua.

- ...Tô dando trabalho? – murmurou Leah, dolorida – Desculpe... mas tá foda segurar ele...

Lílian desmanchou a expressão de raiva, e largou Zz'Gashi no chão.

- ...Leah?

Leah tentou se erguer, zonza. Pôs a mão na frente do rosto, mas não conseguia focalizar direito.

- Que tá havendo...? – sussurrou. Parecia ter dificuldade de respirar – Tô... dopada. Tô ficando sem... noção das coisas...

Lílian se lembrou das flechas. Veneno de cascavel. Se ela não fosse tratada, morreria asfixiada.

- Precisamos sair daqui, e logo. – murmurou Lílian, tentando erguer Leah – Antes que...

- Obrigado por segurar nossa presa. – sorriu Manuel Bandeira, vindo do cais.

- ...Quer brincar de pique? – murmurou Leah, desaparecendo no solo como areia.

- LEAH, NÃO! – exclamou Lílian.

Imediatamente Manuel olhou para a areia da praia, onde a luz da lua iluminava um pequeno pedaço do chão.

- Para a areia! – ordenou – Cerquem-no!

Os homens de Manuel correram na direção do feixe de luz. Quando estava chegando, Zz'Gashi saltou da areia. Mas antes que eles se aproximassem, uma explosão de energia do demônio jogou todos na areia. Ele se curvou, ofegante, tentando focalizar a visão. É, não era Zz'Gashi. Era Leah.

- Ora. – murmurou Manuel, se aproximando – Zz'gashi está mesmo dando adeus. Até sob a luz da lua você rouba a consciência dele.

Leah apontou Manuel, e disse, murmurando:

- Escuta. Matar. Vou. Viado.

Manuel ergueu as sobrancelhas:

- O veneno está começando a paralisar suas cordas vocais? Que bom. Significa que está quase lhe asfixiado.

- Eu vou matar você, seu viado! – gemeu, com raiva – Vou trucidar você, como devia ter feito há muito tempo!

O português deu um sorrisinho, e sacou a grande espingarda, armando-a e apontando para Leah. Mas ao apontar, mirou Lílian, entre os dois. Ele piscou, e abaixou a arma. Percebeu que Lílian também parecia com dor.

- Ora. Você também oscila. – murmurou – Está sem poderes de novo?

- Deixe ela em paz. – gemeu Lílian, com raiva – Ou eu não vou responder por mim. O senhor excedeu meu limite de tolerância.

Manuel crispou os bigodes. E disse, também com raiva:

- ...E é agora que a bela e doce jovem mostra suas verdadeiras garras?

- Você é DOIDO, Manuel! – gritou Lílian – DOIDO! DOIDO VARRIDO!

- Eu apenas enlouqueci... de amor. – disse, sereno – Um homem mortal, como eu. Enlouquecer... por amar um anjo.

- Francamente... – murmurou.

- Mas... mas meu anjo... nunca aceitou o meu amor, o amor de um homem mortal... Meu anjo... – disse, quase chorando de decepção. Em seguida, pareceu explodir de fúria, berrou e novamente apontou a arma - ...Meu anjo sempre amou um demônio!

Ele armou a grande cartucheira e disparou. Leah agarrou Lílian pelo ombro, e a jogou na areia, avançando em Manuel Bandeira. As garras de Zz'Gashi cortaram o ar, e o português caiu sentado no chão, com sua arma partida em cinco pedaços. Leah tentou avançar, mas Lílian a agarrou pelo braço, fazendo-a cair no chão.

- EU VOU MATAR VOCÊ! – urrou Leah, de joelhos, sentindo o peito arder. O tiro estilhaçou a carapaça de seu peito, começando a sangrar.

- Pare com isso, por favor! – pediu Lílian, tentado segurá-la – Você não pode matar ninguém, senão sua pena vai...

- Que se foda minha pena! – urrou – Eu já matei tantas pessoas como Zz'Gashi, um NÃO VAI FAZER DIFERENÇA!

- Você não matou! – exclamou – Foi Zz'Gashi, não era você quem...

- E faz diferença? – murmurou, virando-se.

- ...Pra mim, faz. – sussurrou – Por favor. Pare. Você tem que vencer Zz'Gashi, Leah... pra sempre.

Leah parou. Sentiu a cabeça doer, e se desequilibrou. Lílian se ergueu, respirando fundo:

- Não se atrevam a atacá-la novamente! Ela está sob o meu...

Manuel respirou fundo, e olhou para trás, gritando:

- Ataquem Zz'Gashi!

Imediatamente Leah se ergueu, avançando em Manuel. Lílian também, mas para tentar parar Leah. Agarrou o pulso de Leah e a jogou pra trás, antes de atingir o pescoço de Manuel. As duas se separaram, dando um passo para trás. Leah a olhou com raiva, os dentes cerrados. O silvo agudo de várias flechas cortaram o ar. As duas olharam para o alto, de onde meia dúzia de flechas desciam, velozes. Leah bateu a carapaça do braço em duas, com raiva, desviando-as. A terceira flecha, no entanto, atingiu o peito de Lílian em cheio.

Leah olhou para trás, sentindo o corpo gelar. Lílian prendeu a respiração, sentindo uma aguda dor invadir seu peito. Ergueu o olhar, e as outras quatro flechas desciam na sua direção. Uma atingiu a areia, ao lado do seu pé direito. Ela tentou recuar, mas as duas seguintes atingiram seu ombro, e o lado direito do seu peito. Leah ergueu o braço, e a ultima flecha atravessou sua mão, antes de atingir o rosto de Lílian.

Manuel Bandeira se ergueu, gritando:

- PAREM! PAREM DE ATACAR!

Leah arrancou a flecha da mão, gemendo de dor. Olhou Manuel com ódio, em seguida ergueu o olhar para os homens com arco e flecha. Respirou fundo e urrou. Exatamente como quando se transformou em Zz'Gashi. Como o urro de um dinossauro feroz, que sacudiu o céu e a terra. Reverendo Joaquim acabava de chegar na orla da praia.

- Ah, não, meu Deus... – murmurou.

Lílian, desde que levou a primeira flechada, sentiu tudo parar. Como se tudo fosse mais lento, muito mais lento. Após as outras flechadas, ela ergueu o olhar, saindo de foco. Sentiu aquela aguda dor percorrer todo seu corpo, e fazer ele parar de responder por onde o veneno passava. Soltou um dolorido gemido, suspirando profundamente, e caiu de joelhos na areia.

Antes que tombasse na areia, Lílian sentiu que alguém lhe segurava nos braços. Não enxergava com clareza, mas sabia que era Leah.

- ...O que eles fizeram com você?! – gemeu Leah, sentindo os olhos se encherem de água. Lílian estava desfalecida nos seus braços, com as flechas fincadas em seu peito – Lílian! Fale alguma coisa!

Ela não disse nada. Piscava os olhos com dificuldade. Tossiu, engasgando-se, afogando-se e sentiu que alguma cosia escorreu de sua boca e de seu nariz.

- Ah, meu Deus... – murmurou Leah, sentindo a mão tremer ao passar a mão na testa de Lílian – Você tá sangrando... Por tudo que é mais sagrado, Liloca, agüenta aí...

Leah sentiu a garganta apertar, e não era do veneno. Lílian respirava pesadamente, começando a suar, sangrando. Tinha medo de retirar suas flechas: poderia ser pior. Ela simplesmente não sabia o que podia fazer.

Manuel Bandeira se ergueu. Leah soluçou, desabando a chorar:

- Por favor... faz isso não, Lílian... – em seguida viu Manuel bandeira, e gritou, com raiva – O que você fez com ela, seu desgraçado!!!

Ele, simplório, disse, segurando um dos braços:

- Se ela não seria minha... não seria de mais ninguém.

Leah cerrou as presas, com força capaz de fazer sua boca sangrar, apertou Lílian com força entre os braços e urrou, enchendo os céus com seu grito:

- O QUE VOCÊS FIZERAM COM A MINHA LÍLIAN!!!!!

Não foi apenas um grito de dor. Leah urrava, e seu corpo se explodia em diversos feixes de luz. Um redemoinho de nuvens se formou, e o ventou girou pela praia, quase num tornado de areia. Os pedaços das carapaça de Zz'Gashi se partiam, com se ele trocasse de pele. A ventania e a explosão da energia lançaram os homens e Manuel Bandeira para a cais do porto, e fez o reverendo Joaquim rolar de costas até metade da alameda que dava acesso á praia, numa íngreme descida.

Ainda em meio aos grãos de areia que desciam suavemente pelo ar como uma leve neblina, Leah baixou o olhar para Lílian, em seus braços. Piscou os olhos, atordoada, sem forças, chorando. Arrancou as flechas de Lílian e as jogou de lado. Com um ultimo esforço, arrancou os restos do grande espinho afiado que tinha nas próprias costas, gemendo de dor, e, com a ponta dele, perfurou o pescoço de Lílian, fazendo-a sangrar.

Ergueu o olhar e viu Dumbledore, cheio da areia da névoa, que terminava de cair. Ele parecia sorrir serenamente. Na mesma hora, algumas gotas de chuva começavam a cair na areia.

- Tio... – murmurou Leah – Salve a gente.

- Eu só posso salvar uma de vocês. – disse, calmo – Qual de vocês duas eu devo escolher, heim?

- ...Ce me faz cada pergunta idiota... heim? – sussurrou Leah, antes de cair desacordada.


N.A1: depois de séculos, atualizo a MdE! Bom, hj, dia das bruxas, era o prazo pra turma que queria participar do "concurso L²", que ganharia um cd da trilha sonora das fics Medo do Escuro e Fantasma do Navegante. E não e´que teve gente q participou?? Oo

N.A2: Nas minhas contas, faltam 2 capítulso pra acabar MdE. De forma triste. E que comentário mais besta, rs.

N.A3: EdD na geladeira. Mas o feriado está aí! Quem sabe semana que vem temos boas notícias dela. P