Ato XVI: Fascínio de Um Amor
O fortuna, velut luna (Ó destino, inconstante como a lua)
O fortuna, velut luna (Ó destino, inconstante como a lua)
Vire-se,
e sinta o aroma do que você não vê.
Feche os seus olhos Está tão claro...
Aqui está o espelho,
por trás há uma tela.
Ambos os caminhos você pode seguir
Não pense duas vezes antes de ouvir seu coração.
Siga o rastro de um novo começo.
O que você precisa,
e tudo o que você sente.
É apenas uma questão de lidar.
No centro da tempestade você pode ver um solitário pombo.
A experiência de sobrevivência é a chave para o fascínio de um amor!
O fortuna, velut luna (Ó destino, inconstante como a lua)
O fortuna, velut luna (Ó destino, inconstante como a lua)
O caminho de exceções guia para a Torre da Sabedoria
Tente pensar sobre isso essa é a chance de viver sua vida e descobrir O que é isso O que é o fascínio de um amor
O fortuna, velut luna (Ó destino, inconstante como a lua)
O fortuna, velut luna (Ó destino, inconstante como a lua)
Olhe em volta, são apenas pessoas.
Você pode ouvir essa voz?
Ache aquele que te guiará para os limites de sua escolha.
Mas se você estiver no centro da tempestade, apenas pense naquele pombo solitário.
A experiência de sobrevivência é a chave para o fascínio de um amor.
(Gravity Of Love – Enigma)
Ao fim da tarde, Leah e Lílian terminavam de arrumar as bagagens, prontas para embarcarem de volta para a Inglaterra naquela noite. Enquanto Lílian carregava as malas, Leah parecia forçar o olhar para longe da varanda.
- Que foi? – perguntou Lílian, se aproximando.
- Olhe aqueles dois lá na praia – disse, apontando dois minúsculos pontinhos na areia da baía – Será o que estou pensando?
- Ora... vamos averiguar. Ih, não, você não tem poderes mágicos.
- Para isso eu tenho. Meus poderes estão voltando devagar. Vamos lá.
Reverendo Joaquim passeava com sua amiga pela praia, conversando calmamente. Ela parecia tímida perto dele. Ele parecia sereno. Era como se ainda fossem mesmo grandes amigos. O amor que ele dizia sentir pela amiga era verdadeiro e óbvio em seu olhar. Já ela parecia ter medo desse sentimento. Conversava sobre sua família, sobre seus problemas cotidianos, com problemas com os filhos, o marido, mas parecia não gostar muito de falar sobre isso, achando que 'ofenderia' o amigo. O que não acontecia.
- Não precisa se sentir assim. - riu Joaquim, sereno, sentando-se numa pedra ao lado da amiga, próximo a algumas árvores da mata na beira da baía – Não somos amigos?... Gostaria que você se sentisse á vontade, ao meu lado.
- ...Mas eu me sinto. Mas é que.
Nisso duas aves pousavam num galho atrás deles. A mulher ergueu o olhar, para se distrair. Era um grande falcão marrom avermelhado, e um pequeno e invocado corvo muito negro e brilhante. Ela voltou a olhar para baixo, continuando a conversar.
- O que você vai fazer na Inglaterra?
- ... Vou num julgamento. – disse, sorrindo, de costas para as duas aves – Ajudar uma amiga. Não demoro.
- ...Aquele demônio, não? – disse, em voz baixa.
Nisso o corvo soltou um baixo som, como se estivesse descontente. "Crac", grasnou. O falcão lhe olhou, sério.
- Não diga isso. – pediu o padre – Ela não é um demônio, é apenas vítima de uma maldição.
- Você se arriscou aqui, eu sei. – resmungou – Porque insiste em ajudar?
- Porque eu devo fazer isso.
- Você é um padre, não deveria se envolver com isso.
- Não é mais uma questão de religião... é apenas.
O corvo mais uma vez grasnou. Duas vezes, como se reclamasse de alguma coisa, com cara de bravo. O falcão, então, deu dois passos para o lado e também emitiu um som, fazendo o corvo o olhar, ofendido. Em resposta, ele também se afastou. E soltou mais um grasno. O falcão replicou, também. O corvo abriu as asas e o olhou, fazendo "CRAAC CRAC CRAC". O Falcão também respondeu, virando-se, "KYA!". E, assim, as duas aves ficaram uma de frente pra outra, as asas erguidas, se bicando. CRÉ! KYA! CRÉ CRÉ! KYA! KYA! – Até que o Reverendo Joaquim se encolheu, virando-se, bravo:
- Escuta aqui, vocês duas, façam o favor de parar com essa BAGUNÇA AÍ?
A amiga do padre recuou, espantada. O padre, bravo, ergueu os braços para as duas aves, que imediatamente pararam e o olharam, assustadíssimas.
- Se continuarem com essa bagunça, vou tocar vocês duas!
As duas aves pareceram super ofendidas, resmungaram, e voaram. A amiga do padre pareceu bastante assustada. Ele voltou-se para ela, bravo, e desfez a expressão:
- Oh, desculpe, meu anjo... sei que sou franciscano e deveria amar todos os animais... Claro, amo todos eles... mas alguns... simplesmente me tiram do sério. Me perdoe.
- A culpa foi sua! – xingou Lílian, pegando uma das malas.
- Minha o caralho! – reclamou Leah, também pegando outra.
- Que tinha que ralhar no meio da conversa?
- A menina era puta feia, meu!
- Ora essa, cale a boca!
- Muito bem... as passarinhas estão prontas? – sorriu Joaquim, chegando na porta do quarto.
- Ah! Joaquim! Me... me perdoe! – pediu Lílian, sem graça – Eu juro que.
- Eu teria percebido até mesmo se vocês estivessem caladas. Seria o cúmulo um falcão e um corvo, um do lado do outro, olhando a paisagem de uma baía portuguesa.
- Hum. Certo. – murmurou Lílian, ainda sem graça.
- Bem, querem ajuda? – ofereceu o padre, carregando algumas malas.
Chegaram na estação de trem no fim da tarde, com o sol se pondo. Ela era na parte detrás da vila, descendo uma colina. Enquanto os outros empilhavam as malas para embarcar no trem que havia chegado, Leah permanecia no caminho para a vila, olhando para a maravilhosa vista da vila e do mar. O vento balançava sua roupa e seu cabelo com calma, e ela olhava a paisagem, perdida em pensamentos, com uma expressão um pouco triste.
- ... Ei. Vamos? – chamou Lílian, em tom baixo, a olhando.
- Ah. Vamos. – disse leah, ainda olhando o horizonte.
- Pensando em quê? Vai sentir falta daqui?
- É... vou.
- JURA? – espantou-se.
- Ah, sim. – murmurou – Joaquim, a tia sem sexo da taverna... Augusto.
- Hum. Ora, você vai ter sua pena reduzida depois do julgamento. Vai poder vir aqui, de novo. Mesmo se estiver velhinha. – consolou.
Leah olhou Lílian, sorrindo, mas num visível sorriso deprimido, como se soubesse de alguma coisa ruim sobre tudo.
- ... O que foi? – perguntou.
- Eu ia fugir com Augusto. – disse, sorrindo triste.
- ... Fugir? – estranhou Lílian, rindo.
- É. Fugir. – riu Leah, balançando a cabeça – Ele tinha me chamado pra fugir com ele.
- E você ia?
- ... Claro.
Lílian abriu a boca, chocada:
- Mas e seu julgamento? Sua responsabilidade, minha responsabilidade, eu.
- Ora essa, eu sei que vou me foder, Lílian. Eu vou ficar em Azkaban muuuito tempo. Augusto era um caçador de recompensa, um pirata. Sem destino, sem lei. Eu ia embora com ele. Sei lá pra onde iríamos.
- ..De onde você tirou isso? – murmurou, juntando as sobrancelhas – Achei que você só queria... bem... sexo, com ele.
- Ah, claro! – sorriu, saudosista – Ele tinha mó pintão. Uma delícia de sexo. Ok, não falo mais – riu, vendo a cara de Lílian – Mas... sei lá. De repente... começou a ter... outra coisa, além disso.
- ... Outra coisa. Que faria você fugir e ficar com ele o resto da vida?
- Sim. Ele era todo rude, mas... de repente, com ele... eu me sentia protegida. É estranho dizer isso. Mas eu tinha a impressão que, com ele... eu estaria em paz. Minha vida seria uma grande aventura, a cada dia. Eu ia gostar disso.
Lílian a olhou longamente.
- É por isso que me sinto tão mal de ir embora. – sussurrou leah – Parece que estou deixando um pedaço de mim aqui.
- ... Todas nós estamos. – disse Lílian, em tom baixo.
- Você não tanto quanto eu. Essa sua outra parte, Lílian... ta esperando você voltar. – e, assim, ela desceu a colina, na direção da estação – Vam'bora.
Já era madrugada, quando o trem cortava o oceano, na direção da Inglaterra. Lílian estava num sofá, olhando para o teto, enquanto Leah estava do lado de fora, olhando a paisagem.
- O Reverendo Joaquim podia bem estar aqui. – reclamou Lílian – Você poderia ficar alugando ele, pra gente rir e o tempo passar.
Leah voltou e se sentou no sofá na frente de Lílian, pegando um estranho aparelho quadrado e colocando um fio nos ouvidos, dizendo:
- Ninguém pode ficar com a gente. Estão indo pro meu julgamento. Sigilo absoluto. Ele está é junto do Manuel Bandeira.
- Ele não poderá estragar nada, Leah, você vai ver.
- Hum.
Leah fechou os olhos, adormecendo. Lílian ainda olhou o teto um tempo, pensativa. Alguma coisa lhe apertava o coração. Minutos depois, olhou leah:
- Ei, que é isso? – Leah não respondeu. Lílian percebeu que era um walkman, um aparelho que trouxas usavam pra escutar música. Onde Leah tinha arrumado um? Provavelmente era uma versão bruxa, que ela nem se dera ao trabalho de conhecer. Saiu do seu sofá, e se jogou ao lado dela. Ela nem se mexeu – Vou pegar um. Quero escutar também, ok?
Leah não se moveu. Lílian, com cuidado, roubou um dos fones e o colocou no ouvido. Tocava mesmo, e com um som muito bom. Deveria ser mesmo algo bruxo, porque ela nem fazia idéia de quem era aquela musica. Deveria ser algum grupo bruxo, também. Respirou fundo, cruzando os braços e deitando a cabeça no ombro de Leah. Era uma música muito boa para se dormir. Parecia mágica. Prestou atenção na letra, depois de uns instantes.
- "Eu vejo amor... mas eu não consigo ver paixão. Eu sinto perigo, eu sinto obsessão. Não faça joguinhos com aqueles que te amam, porque eu escuto uma voz que diz: 'Eu te amo... Eu te matarei.' (Solidão... eu sinto solidão dentro do meu quarto...) Olhe para o espelho da sua alma... O Amor e o Ódio são um só... O sacrifício se torna vingança, e acredite em mim... um dia você verá o rosto daquele que diz: 'Eu te amo... E eu te matarei. Mas... ainda assim, eu te amarei para sempre.' (Solidão... eu sinto solidão dentro do meu quarto"
Lílian abriu os olhos e disse:
- ... É uma letra triste.
Leah entreabriu os olhos e a olhou, sorrindo com o canto da boca. Instantes depois, voltou a fechar os olhos, sem dizer nada.
Lílian tirou o fone do ouvido e se levantou:
- Você vai mesmo dormir a viagem inteira? Deixe pra dormir quando morrer. – sorriu.
- Qual será a graça de dormir depois que morrer? – perguntou Leah – Não terá tanta graça. Lílian foi até a varanda, e ficou lá muito tempo. Leah pareceu cansar de escutar música e foi atrás de Lílian, que permanecia vendo a vista do oceano calmo, e da lua cheia.
- Estou me sentindo zonza. – comentou Leah.
- ... Enjôo? – perguntou Lílian – Em menos de uma hora a gente chega.
- Não, não é enjôo. - Leah parou no meio da pequena varanda, e olhou a lua – está chegando a hora.
- ... Não vá vomitar aí. – murmurou Lílian, se recostando na parede, quando Leah fechou os olhos e virou a cabeça para o alto, ainda de olhos fechados.
Leah abriu os braços, respirando profundamente. Na quarta vez em que respirou, Lílian realmente achou que ela estava fazendo graça e ia vomitar. Mas, ao invés disso, um círculo branco saiu do chão, ao redor dela, e se ergueu em várias estrelas brancas de luz, desaparecendo em seguida. Leah mais uma vez respirou fundo, meio zonza.
- ... Tudo bem? – perguntou Lílian, ainda um pouco espantada.
- Pronto. – disse Leah, de costas, olhando as mãos. Virou-se, sorrindo – Último instante de trouxa. Meus poderes voltaram.
Lílian a olhou longamente. Leah se virou, sorrindo, com o punho fechado, na altura do rosto. Como mágica, seus olhos não eram mais azuis, eram novamente violetas. Mas pareciam brilhar na mesma intensidade. Por um breve instante, Lílian não a reconheceu. Por outro instante, ela sabia que Leah era "Leah" de novo.
- ... Ei, que cara você fez agora... – murmurou Leah, visivelmente 'murchando.
- Hum? Nada... – sussurrou Lílian, olhando para o chão.
- ...Tu queria que eu fosse trouxa pra sempre, sua chata? – reclamou, em tom baixo – Ah, sim. Meus lindos olhos azuis se foram. Bem, tudo que é bom dura pouco. Não precisa ficar assim.
Mas Lílian não disse nada.
- Ora... – resmungou Leah, baixinho, também ficando desanimada – Não achei que isso fosse te deixar tão pra baixo, poxa.
- Não é isso... É que... sei lá, você sem poderes.
- Sem poderes?
- Parecia meio... indefesa.
- Indefesa? – estranhou.
- Não indefesa, mas... – sussurrou Lílian – Sei que você é perfeita com seus poderes, mas é que... você sem poderes dava a impressão de que... precisava ser protegida. Ser... cuidada. Só isso.
Leah parou, pensando alguns instantes. Lílian ainda sussurrou, erguendo o rosto: - Enquanto você estava sem poderes, eu sentia que tinha que cuidar de você. – finalizou Lílian, realmente parecendo triste com aquilo – Agora, com poderes, você volta a ser toda aquela independência e auto suficiência.
Ela suspirou, e olhou Leah longamente:
- ... Eu ainda não acredito em você, infelizmente. Eu sei... que você, em algum lugar, esconde alguma coisa de mim.
- Se eu estiver escondendo alguma de você, Liloca, é porque eu terei um motivo bom para isso, e você vai entender meus motivos quando chegar a hora. Mas agora... você deveria saber, que eu sou auto suficiente pro mundo inteiro.
Lílian mordeu os lábios, e fez que sim com a cabeça. Mas Leah sorriu torto e sussurrou:
- Pro mundo inteiro. ...Menos pra você. – Leah suspirou, olhando pra baixo, pondo as mãos nos bolsos – Você sabe que tem que cuidar de mim. Sempre teve que cuidar, e vai "continuar tendo que". Senão eu faço caquinha.
Leah ainda lhe deu um meio sorriso, também meio triste. Lílian respirou fundo, balançando a cabeça, confirmando. Durante algum tempo, continuou de cabeça baixa, olhando o chão, sem ter muita coragem de olhar Leah. De repente, as duas pareceram ter sido tomadas por uma perceptível tristeza, naquele absoluto silêncio da noite. Leah, na frente dela, na mesma posição, a olhava com um ar triste, inconsolável. Nenhuma das duas saberia dizer o que aconteceria ao certo no próximo dia, no julgamento, mas alguma má impressão estava entre as duas. Lílian fechou os olhos, respirou profundamente e ergueu o rosto:
- ...O que você acha que vai lhe acontecer?
- Quer saber...? Já não me importa mais. – respondeu, baixinho.
Ela a olhou alguns breves instantes, para, em seguida, quase que naturalmente, inclinar o corpo, tombar o rosto, e lhe dar um doce beijo. Lílian prendeu a respiração, encolhendo os ombros. Segundos depois, quando Leah se afastou, ela abriu os olhos, sentindo que absolutamente não tinha reação. Com a boca entreaberta, levemente assustada, ergueu o olhar para Leah, sem se mover. Leah abriu os olhos, mas apesar de também estar sem ação, não se afastou tanto. Não parecia que teria pernas para dar um passo para trás.
- Por que... fez isso? – sussurrou Lílian, ainda levemente encolhida.
Leah piscou algumas vezes, recuando. Olhou dos lados, e murmurou:
- ...Sei lá. – disse, dando um riso meio nervoso – Deve... ter dado vontade de fazer. Desculpe.
Leah suspirou e entrou novamente no trem. Lílian piscou, olhando o chão, e ergueu o olhar. O trem acabava de entrar no continente, e as luzes das cidades eram vistas ao longe, na paisagem. Minutos depois ela entrou, para juntar suas coisas. Leah colocava uma mochila nas costas.
- É bom arrumarmos as coisas mesmo. – disse Lílian, olhando as malas na beira do vagão, na parede – Já daqui a pouco iremos chegar.
- É. – disse, meio brandamente. Olhou para a frente alguns instantes e virou-se para Lílian – Ahm... escute, eu queria te dar um presente. Enfim... antes de chegarmos.
- ...Presente? – perguntou Lílian, às suas costas – O que é?
- Sua mão. – pediu.
Lílian esticou a sua mão e Leah a segurou, para em seguida tirar do bolso uma brilhante aliança de prata. Então, retirou a que Lílian usava e colocou a sua no lugar.
- ... Anel de prata. – disse Lílian, olhando o dedo - ...O que tem nele?
- Nada. – disse, dando de ombros – Só meu nome.
- Certo. Agora... pode me devolver? – disse, esticando a mão e pedindo a aliança que Leah ainda segurava na mão.
- Ora, mas essa daí é igual à esta. – sorriu Leah – Tenho um lugar melhor pra essa velha aqui.
E, sem pensar, atirou com força a aliança de Lílian pela janela, que quicou no trilho e caiu dentro do rio que margeava os trilhos do trem. Lílian soltou um grande berro, pendurando-se na janela:
- SUA LOUCA! MINHA ALIANÇA! O QUE VOCÊ FEZ COM MINHA ALIANÇA!
Leah riu, vendo o desespero de Lílian. Ela, com raiva, depois de choramingar e correr pelas janelas e varanda do vagão, avançou em Leah a agarrando pela gola da blusa, visivelmente enraivecida:
- AQUELA ERA MINHA ALIANÇA! MINHA.
- Sua aliança de noivado com Tiago. Eu sei. – sorriu Leah, tranqüila.
- E agora, o que eu faço!
- Você tem uma igual. Qual o problema?
- Como qual o problema, se ele descobrir, ah, meu DEUS! – disse Lílian, dando as costas e pondo as mãos na cabeça.
- E ele vai descobrir?
Lílian parou. Respirou profundamente e virou-se para Leah. Ela ainda sorria, mas visivelmente triste:
- Você realmente acha que Tiago vai reparar que você está usando outra aliança, e não a dele?
- Hum... – suspirou Lílian, olhando o chão – Certo. Não vai.
- Vocês vão se casar em menos de um ano, certo? Quando isso acontecer, você inevitavelmente deixará de usar essa, e usará uma de ouro. Com o nome dele. Pra sempre.
- É. Pra sempre. – pensou, olhando o tapete.
- Então, não seja egoísta, enquanto você não casa com ele de vez, use esse meu presente. É pra você se lembrar de mim.
Lílian, de cabeça baixa, olhou Leah, de soslaio. - Eu não vou rever você tão cedo, Lílian. – disse Leah – E muito menos estarei no seu casamento. Mas eu vou me lembrar de você. E, enquanto você usar essa aliança aí, também vai se lembrar de mim.
- ...Você é bem atrevida. – murmurou Lílian, passando a mão na franja – Sua... maluca. E além disso... não precisarei de uma aliança sua pra me lembrar de você. Se eu quiser ver sua cara feia, é só ir em Azkaban, enquanto você estiver lá.
Leah apenas respondeu com o sorriso levemente magoado. Lílian mais uma vez se incomodou com aquele imenso ar de tristeza dela, mas resolveu não perguntar.
Os aurores foram receber o pessoal na estação. Junto deles alguns representantes do Ministério. Estes receberam os portugueses Manuel Bandeira e o Reverendo Joaquim, e foram encaminhados para uma carruagem sem falar muito com os outros.
Lupin seguiu os dois com uma leve expressão de dor, até entrarem na carruagem. Dumbledore chegou ao seu lado:
- Eu também acho extremamente exagerado o cuidado que todos têm quando se trata de Leah. Veja bem, quem pode provar que, dessa vez, ela não foi a vilã, mas a heroína? Ao seu jeito, claro.
- Não me incomodo com Leah. – disse Lupin – Não a conheço direito, não posso ter uma opinião tão forte quanto a sua ou de Lílian, professor. Mas... me incomoda o fato de a tratarem como... um monstro. Sempre.
- Entendo perfeitamente. – sorriu Dumbledore, pondo a mão em seu ombro – E cá entre nós... existem monstros bem mais feios habitando dentro daqueles que julgam pequenas diferenças como monstruosidades.
- Todos nós temos algum monstro dentro de nós. Alguns maiores, outros menores. Mas todos são monstros.
- Os monstros mais cruéis são os mais bem vestidos.
- Diziam que havia um anjo perfeito como Deus. Mais lindo quanto Deus. E tão poderoso quanto Deus. O mais amado de todos os anjos.
- Lúcifer.
- Lúcifer. É.
Dumbledore e Lupin se viraram quando Leah descia do vagão, carregando algumas malas. Lupin se adiantou, porque, na frente dela, havia parado um rapaz moreno, que usava uma jaqueta de couro marrom, ao invés da roupa de auror ou de auror supremo.
Leah ergueu o olhar e parou na frente do rapaz. Olhou-o durante alguns segundos, e disse, sorrindo torto:
- Não precisa me olhar com essa cara feia, Tiago. Eu não piquei Lílian em pedacinhos e comi ela com patê e torradas na hora do chá.
Quando Tiago colocou a mão na cintura, na altura do cinto, dentro da jaqueta, alguém pulou em cima dele, sem a menor cerimônia. Tiago girou, tentando se reequilibrar, com Lílian pendurada em seu pescoço.
- Santo Deus! – exclamou, passando a mão na franja, enquanto Lílian punha os pés no chão de novo – Quer me matar, menina?
Lílian exibia um largo sorriso ao ver o noivo, ficou na ponta dos pés, agarrando seu rosto, e lhe enchendo de beijos.
- Ah, eu sei que gostou da surpresa. – riu – Vamos, diga que eu sou demais e que você me ama.
- Seu tratante. – riu Lílian – Você disse que só voltaria em três meses.
- Mas eu voltarei...! – disse, apontando Dumbledore – Agradeça ao professor, que conseguiu milagrosos três dias de folga pra mim. Não era para eu estar aqui. De qualquer forma, eu não poderia perder o último julgamento dela. – e abraçou Lílian, parecendo aliviado – Será como tirar o mundo das minhas costas escutar a sentença final dela.
Lílian suspirou, desmanchando o sorriso por um instante, ainda lhe abraçando. Claro que ele falava de Leah. Ele não pronunciava seu nome, ele não falava com ela. Ele só queria vê-la morta, presa, torturada, seja lá o que fosse pior. Diferente de Lílian, Tiago não foi capaz de reconhecer uma possibilidade de 'redenção' para ela, e, assim como centenas, milhares de pessoas, sentia uma única coisa ao escutar seu nome: ódio. Puro. Mortal.
Nessa hora os aurores cercavam Leah, que parecia apática. O Ministro também se aproximou.
- Estica as mãos aí, donzela. – disse uma amistosa voz vinda do meio dos aurores de cara fechada – Precisamos cumprir aqueles padrões chatos pra diabo. Você sabe.
Leah sorriu. Eram Sirius e Lupin. Sirius, com sua habitual cara de conquistador. Parecia se sentir importante.
- E quem disse que eu esticarei as mãos para você me algemar, seu monte de estrume? – riu Leah, sacana.
- Bem... – riu Sirius – Eu sou o único com algemas, querida. Lupin não tem. Ou quer que algum daqueles ali detrás o faça?
- Ah, sei... a única oportunidade de você se sentir gente na vida... Porque eu iria colaborar?
Leah olhou Sirius durante longos segundos. Depois olhou Lupin, que sorriu e deu de ombros. Ela, então, suspirou, e esticou as mãos:
- Certo. Vá em frente.
- UAAAAAAAU! – exclamou Sirius, algemando-a com cara de poderoso. Em seguida a olhou, já algemada – Puxa vida. Olha só. Você não faz idéia da quantidade de pensamentos loucos que ver você assim proporciona a um homem!
- Eh, Sirius... – comentou Lupin, chegando perto de seu ouvido – Você não tá esquecendo de nada não?
- Oh! Céus! – exclamou Sirius, se adiantando – Suas espadas!
E, assim ele retirou as espadas da cintura de Leah, e sua varinha, enquanto Lupin ria e ela balançava a cabeça, xingando de "idiota" para baixo. Dumbledore, o Ministro, Lílian e Tiago se aproximaram, enquanto Sirius e Lupin seguravam Leah pelos braços, apenas seguindo o 'padrão.
- Bem... a boa notícia é que não ficará em Azkaban até seu julgamento. – sorriu Dumbledore – Ficará em um quarto, em um lugar que, por motivos burocráticos e de 'segurança', não vou lhe dizer. Mas, descanse. Daqui a dois dias será seu julgamento.
- O Ministério estará se preparando, senhorita. – disse o Ministro, sério – Não tente nenhuma graça. Estamos muito bem preparados para realizar seu julgamento. Não conseguirá escapar. Nem se você se tornar aquele monstro que se tornou em Portugal.
Leah cerrou os dentes pro Ministro, fazendo um "grrrrruns", de sacanagem.
- Não se preocupe, Liloca vai estar lá pra chutar meu traseiro de novo. Né, Liloca? – perguntou, inocente.
- ...Não me apronte nada, Leah... – murmurou Lílian – Você tem que colaborar também.
- Ora essa, eu sou um doce. Não sou?
Nisso Leah mais uma vez parou o olhar em Tiago. Era incrível como a expressão dele se transformava ao vê-la.
- ... Veio assistir meu julgamento também, senhor Tiago Potter?
- Você não tem o direito de pronunciar meu nome, muito menos meu sobrenome nessa sua boca imunda. – Leah piscou, o olhando – Eu vim ter o prazer de escutar você levar a sentença de morte. E poder rir ao ver você ser morta da forma mais humilhante que você poderia morrer.
Leah sorriu, cínica, e inclinou-se na direção dele, falando sedosamente:
- Isso seria extremamente excitante.
Tiago avançou. Sirus e Lupin puxaram Leah para trás, num tranco. Lílian agarrou-se a Tiago, quase sendo arrastada por ele:
- NÃO! TIAGO, PARE! Ela só está te irritando!
- EU VOU MATAR VOCÊ! – Urrou Tiago, apontando Leah – Eu vou pegar você, vou torturar você, como você jamais imaginou! Você vai ficar louca de dor, vai sangrar, vai chorar, e por fim, vai MORRER! DA PIOR FORMA POSSIVEL!
Com uma certa dificuldade, Tiago foi contido, enquanto Sirius e Lupin empurravam Leah para outra carruagem. Ela foi embora ainda lhe dando um irritante sorrisinho. Tiago ofegava, branco de ódio. Sua boca havia secado de forma incrível.
- ...Ela não vai escapar dessa... desgraçada... filha da puta... maldita... não vai. Não vai. – murmurava, com ódio.
- Hey, Tiago, calma. – pediu Lílian, puxando seu rosto, fazendo ele encostar sua testa na dela – Por favor, se acalme, ela já foi. Ela só estava te irritando, por favor, meu amor, não caia nas brincadeiras dela.
Tiago respirou fundo, se acalmando. Dumbledore se aproximou dele, e lhe disse:
- Leah ainda gosta de espezinhar quem ela sabe que espezinha. – disse, sereno – Vá aproveitar sua noiva. Devem estar com saudades, precisam colocar todos os assuntos em dia.
Ele fez que sim com a cabeça, passando a mão na boca. Lílian mais uma vez se ergueu, lhe dando um beijo na bochecha, de mãos dadas:
- Ordens do professor. Não vamos desobedecê-lo, vamos?
E, assim, os últimos que ainda estação foram embora, se preparar para o dia do julgamento.
Já era quase madrugada quando Lílian e Tiago saíam de um restaurante em Hogsmead, e voltavam para o quarto do casarão onde todos os aurores envolvidos no julgamento aguardavam. Era incrível a movimentação que um condenado do nível de Leah era capaz de fazer no mundo bruxo.
- ...Soube do que houve em Portugal. – disse Tiago, quando chegaram no balcão da recepção do casarão, lembrando muito um hotel luxuoso – Não acho que ela vá conseguir se safar dessa vez. Eu realmente espero que não.
- ...Não vamos mais falar dela. – pediu Lílian, suspirando, quando a recepcionista lhe entregava uma carta do Ministério – Vamos deixar isso pra depois de amanhã.
Subindo para o quarto, Lílian abriu a correspondência.
- O que é? – perguntou Tiago.
- Uma convocação. – disse, sem emoção – Serei a responsável por Leah no julgamento. Natural, como líder dos Aurores Supremos, todo mundo acha que sou a única capaz de parar ela.
- E é. – disse, lhe abraçando pela cintura por trás, e lhe beijando o rosto – Ah, que paz. Finalmente. Um canto só nosso.
Lílian virou-se, segurando as mãos de Tiago:
- E aí? O que vamos fazer amanhã?
- Ora... sei lá. Passear por Hogsmead. Entrar nessas lojas porcas cheias de tranqueiras. Encher nossas barrigas de doces mágicos e você de presentes. Parece uma boa idéia?
- Hum... sim, parece. – sorriu, puxando Tiago e lhe beijando. Ele a abraçou, puxando com força, lhe dando um beijo que pareceu resumir toda a imensa saudade que um sentia do outro.
- Muito bem... – sussurrou Tiago, afastando o rosto, ainda deixando Lílian entre seus braços – Eu teria uma ótima sugestão para agora, mas... imagino que você esteja cansada, e que mereça apenas uma tranqüila noite de sono.
- ...Que bom. – suspirou, apertadinha no seu abraço, lhe beijando o rosto – Eu preciso mesmo de uma ótima e longa noite de sono.
- Oh. Droga. – murmurou Tiago – Disse isso só por cavalheirismo... não era pra você concordar.
Lílian riu, com a testa em seu peito.
- Eu adoraria fazer amor com você a noite toda. Mas hoje... eu só quero descansar.
- Perfeitamente, minha rainha. – sorriu, lhe beijando apertado. Lílian soltou um "AH!" quando ele a ergueu no colo – Não se canse mais. Eu a levarei até seu leito, amada donzela.
Leah estava sentada em uma desconfortável cadeira de madeira antiga, acorrentada pelos pés e pelas mãos ao chão. Tinha alguns hematomas pelo corpo, e o nariz e a boca sangravam. A luz da lua entrava pela janela, entre grades, e a iluminava. Alguém abriu a porta às suas costas, com um gesto da varinha, quebrou as correntes de Leah, que relaxou os músculos, suspirando profundamente:
- Ah, Deus é Pai. Achei que fosse me deixar aqui até depois de amanhã.
- Eu sinto muito. – disse Dumbledore – Mas eu não posso ir contra o Ministério da Magia inteiro. Apesar de gostar da idéia.
- E aí?
- "E aí" pergunto eu. – sorriu Dumbledore.
- Ah, sei lá. – murmurou, passando a mão nos pulsos – Tô fudida. Ninguém vai achar que Zz'Gashi não era eu, propriamente dizendo.
- Apenas uma coisa me preocupa. – comentou Dumbledore.
- O quê?
- ...O fato de Lílian ter prometido a própria vida a você, se sua pena não tivesse sido diminuída. Basicamente, foram trocas de juramento. Você se lembra.
- Ah. Isso me é conveniente. – riu Leah – Mas... eu quero a ajuda do senhor. Se tudo der errado. O senhor ajuda?
- Se estiver ao meu alcance.
- Estará. Acredite. Mas... teria coragem... de carregar na consciência a morte de alguém?
- ... Como assim?
Leah o olhou longamente. Dumbledore baixou os olhos, arrumou os óculos e mais uma vez a olhou, sem receio algum:
- Como o líder de todos os aurores, é imperativo que eu tenha que acompanhar várias execuções ao longo da minha vida. Como já acompanhei. Mas é a primeira vez que me oferecem a oportunidade de executar.
- Ah, o senhor vai entender... se chegar a hora.
- Perfeitamente. Agora... vamos sair dessa sala horrível?
- É pra já. Tava sacal agüentar os desaforos e as pancadas desses carrascos do Ministro.
- Não seríamos bem vistos nos encontrando aqui, no 3 Vassouras. – comentou Dumbledore, no dia seguinte, quando estava na taverna junto de Sirius e Lupin, e Lílian e Tiago entraram.
- É só uma feliz coincidência. – riu Lílian.
- Não existe coincidência para o Ministério.
- A gente convence eles.
- E aí, professor? – perguntou Tiago, pondo as mãos nos bolsos – Qual o resultado de amanhã? O senhor aposta que finalmente vão condenar aquela mulher à morte?
O professor olhou Tiago, baixando a cabeça, focalizando-o sobre os óculos. Olhou Lílian, que estava abraçada á cintura de Tiago, mas ela não lhe olhou.
- Não sei. – disse, simplório – Com toda a minha sinceridade, não sei lhe dizer. Nem por suposição.
- Eu não acho que aquela maldita vá escapar dessa vez, professor. – disse, entre os dentes – Ela não pode. Ela não vai. Depois de tudo que ela já fez, não tem como eles pouparem a vida dela.
- Amanhã... será feita justiça, senhor Tiago Potter. – disse, serenamente – Qualquer que seja o resultado, não deverá ser questionado de forma alguma, por ninguém. Porque, a única certeza que tenho é essa: será feita justiça.
- Enfim... - disse Lílian, respirando fundo – Vamos arrumar uma mesa pra gente, Ti?
- Oh, claro. – concordou, de repente voltando ao seu bom humor habitual – Senão a gente perde a vaga. Está lotando. Bem, até amanhã, pessoal.
- Até. – responderam Sirius e Lupin, quase ao mesmo tempo.
Assim que se afastaram, os três saíram do 3 Vassouras. Já lá fora.
- O senhor acha que Leah será condenada à morte? – perguntou Lupin.
- Ela tem motivos de sobra e muita gente torcendo pra isso. – comentou Sirius – Mas sabe que eu acho que ela não... merece? É estranho. Tiago não pode nem sonhar que tô falando isso.
- Morrer é uma forma de fazer ela "pagar". – disse Lupin – Mas eu acho que, se de repente ela ficasse viva... ela teria como talvez... amenizar tudo que ela fez. Ou, quem sabe... não sei.
- Viver para servir ao bem seria um castigo e um pagamento melhor do que morrer por ter feito o mal. – avisou Dumbledore – Mas só amanhã saberemos se o Ministério terá a mesma opinião.
A luz da manhã nublada entrou pela fresta da janela do quarto e iluminava o tapete. Lílian acordou, e ficou um tempo ainda olhando pela fresta, de onde via-se apenas o céu. Soltou um longo suspiro, e Tiago, que estava com sua mão junto da sua, com os dedos entrelaçados, puxou seu braço, lhe beijando a mão.
- Ora, você estava acordado... – sussurrou, sem olhar pra trás, sorrindo – O que houve, você só acorda depois do meio dia.
Tiago respirou fundo, lhe beijando o pescoço, e lhe abraçando.
- Estive aqui, pensado se não era uma ilusão estar abraçado com você.
- ...Você não engana ninguém. – riu, virando-se para ele, que ainda a abraçava.
- Sabe, Lily... – suspirou, fazendo uma doce carinha de cachorro sem dono - No fundo, eu ainda acho que acordar com você ao meu lado, nua em meus braços, é apenas o resultado de um poderoso feitiço, que eu joguei em mim mesmo para viver esta ilusão o resto da vida.
- Ah, Ti, você é um doce... – riu Lílian, lhe apertando o rosto e dando um selinho.
- Sou tudo o que você quiser que eu seja. É só mandar.
- ...Não se preocupe. Você já é tudo o que eu poderia querer. – em seguida ela se ergueu, colocando o cabelo atrás da orelha – Já é hora de ir. Sou uma das principais aurores chamadas, você sabe. Melhor chegar mais cedo. Já devem estar me esperando.
- Certo. – murmurou, esfregando o rosto, para depois também erguer o corpo e dar um beijo no ombro de Lílian – Vá lá, minha heroína. Salve o mundo de novo. Eu encontro você depois.
- E nada de deixar o quarto desarrumado.
- Sim, senhora...
O salão de julgamento era em um dos últimos andares do Ministério. Era um salão enorme, em formato de arena. No centro, apenas um lugar calcado de pedras muito bem polidas. Um muro de dois metros e meio cercava o salão principal. Depois, seguiam-se em forma de estádio várias cadeiras de almofadas, como uma arquibancada, onde ficavam as pessoas autorizadas a assistir o julgamento. Em uma parte do muro, uma pesada e negra porta de ferro permanecia fechada. Á sua frente, do outro lado, a bancada dos juízes também se encontrava elevada, por segurança. No alto da parede do salão, acima da porta negra, um grande relógio marcava as horas, com seu pêndulo dourado balançando molemente.
Algumas pessoas já se acomodavam nas cadeiras, e o Ministro, além de outros bruxos, já se arrumava na bancada principal. Alguns aurores cercavam a arena. Sirius e Lupin permaneciam junto de outros Aurores Supremos, guardando a bancada principal. Na parte debaixo da arena, estava Lílian, com o traje de auror supremo, a espada prateada e dois punhais na cintura. Ao seu lado, Dumbledore, que a olhou de esguio. Ela respirou profundamente, olhando para a grande porta de ferro negra, colocou a mão na base da espada, e suspirou.
Quando o relógio badalou uma vez, pontualmente a uma da tarde, o grande portão de madeira estalou. As pessoas silenciaram, e, depois de grandes e inúmeras travas se soltando, o portão se abriu.
Pelo portão, entrou Leah, acorrentada, empurrada por dois bruxos com capuzes pretos. Ela entrou com uma expressão de indiferença, até quando o público se atreveu a vaiar, e a lhe insultar. Lílian, mais uma vez, suspirou profundamente.
- Não se desanime. – comentou Dumbledore, calmo – Isso irá terminar logo. Você vai ver.
- Espero que sim. – sussurrou Lílian. Ela se aproximou dos carrascos – Podem solta-la.
Eles se olharam, soltaram Leah, deixando-a apenas com as mãos algemadas, e recuaram até o portão.
- E aí, Liloca? Como foram esses dois dias? – perguntou Leah, bem humorada – Espero que você tenha feito coisas legais, porque os meus foram uma bosta.
- ...O que você aprontou para eles terem te batido? – perguntou Lílian, em tom baixo, referindo-se ás marquinhas de machucado no canto da boca de Leah e de uma mancha escura ao lado do seu olho, próximo da sobrancelha.
- Sei lá. Nasci?
- ...Tudo vai acabar bem, e logo. Você vai ver. – sussurrou Lílian.
Leah olhou Dumbledore, e os dois não disseram nada. O julgamento começou.
- Em caráter de exclusividade, eu serei o responsável por seu julgamento, Leah. – disse o Ministro, em voz alta. Continuou a falar, sobre a importância de julgar ela, da honra que ele sentia e do quão desprezível Leah era.
- Tá se achando gente só por isso. Que mané. – murmurava Leah.
- ...Diante das atrocidades ocorridas na vila portuguesa, onde você e a nossa digníssima líder dos Auores Supremos estavam, não há como não mudar o teor deste seu julgamento. Para isso, devo convidar para fazer parte dessa mesa, dois ilustres cidadãos, que aceitaram nosso convite: o senhor Manuel Bandeira, e o Reverendo padre Joaquim Novaes.
Os dois portugueses entraram, e sentaram em locais opostos. O Ministro deu a palavra a um bruxo, responsável pela acusação. Depois de falar muito tempo, deu a palavra a Manuel Bandeira.
- Esta mulher que aí está... quase destruiu minha vila por completo! – esbravejou, de repente parecendo descontrolado. Leah fechou a cara, brava, enquanto Lílian arregalou os olhos, extremamente chocada com a reação do homem. Ele, então, continuou a gesticular – Ela é um demônio! Um demônio, que se transforma sob a luz da lua, como um lobisomem amaldiçoado! (Ei. – resmungou Lupin, intimamente se ofendendo) Ela matou dezenas de pessoas! Talvez centenas! Com requintes de crueldade. Eu a vi torturar velhos, mulheres e crianças até a morte! Ela devorou a carne e as vísceras de suas vítimas, num canibalismo demoníaco!
- Eh, ele vai demorar pra perder a empolgação... – suspirou Leah, abaixando a cabeça. Dumbledore cruzou os braços, já na bancada, ao lado do Ministro. Lílian olhava para os lados começando a se desesperar.
Manuel continuou a esbravejar. O Ministro permitiu.
- Mande esse homem calar a boca! – gritou Lílian, olhando a bancada.
Mas ninguém fez nada. À essa altura, toda a platéia de bruxos – e jurados – já haviam se levantado, gritando ordem de pena de morte. Aplaudiam, vaiavam. O Ministro não conseguiu fazer com que se calassem. Apenas Dumbledore, parecendo gritar mais alto que todos, foi ouvido. E tudo silenciou.
- ... Já não tenho mais nada a declarar. – murmurou Manuel, se sentando – Obrigado.
- Vá se ferrar, portuga. – resmungou Leah – Agora fodeu mesmo.
- ... Acho que chega de acusações, não? – disse Dumbledore, olhando o Ministro.
- Sim. – concordou, se sentando e pegando o martelo – Escutei o necessário, todos nós já sabemos o que devemos fazer.
- ...escutar a defesa. – completou Dumbledore.
- ...Ah... ahm... defesa? – perguntou o Ministro, visivelmente constrangido.
- É de direito de todo e qualquer condenado ter uma defesa. É a vez da palavra ser dada ao Reverendo Joaquim, que também se prestou ao grande favor de vir até aqui.
- Ah. Sim. Claro. Que a defesa... bem, fale.
Assim, todos olharam para o Padre, que se levantou, visivelmente trêmulo, com a bíblia e um terço nas mãos, apertados contra seu peito:
- Ela... ela nunca me fez mal. – murmurou Reverendo Joaquim, agora parecendo uma criatura que ofendesse a própria sombra, por estar ali, defendendo aquela que todo mundo queria matar – Ela salvou um órfão da morte certa! Ela protegeu a mim e à senhorita Lílian! Zz'Gashi era uma consciência demoníaca, que a controlou! Ela estava fora de si! Em seus momentos de lucidez, ela lutou contra si! Ela não merece levar todas essas acusações! Ela não é culpada, ela é uma vítima, como nós fomos! Estou dizendo a verdade! Pela Bíblia que eu carrego, em Nome de Deus, de Jesus Cristo Nosso Senhor!
- É tudo o que tem a dizer, senhor Joaquim? – perguntou o Ministro. O padre fez que sim, e ele então disse em voz alta – Muito bem. Então, eu devo adiantar ao senhor, que de nada serviu vossa declaração. De que adianta dizer que é verdade, pois jura em nome de Deus, de Jesus, da bíblia, ou de seja lá quem mais for? O senhor se esquece de um pequeno detalhe: todos nós aqui somos bruxos ingleses. Não temos religião. Não acreditamos em seu Deus, nem nesse Jesus Cristo, nem em santo, entidade alguém que vocês rezam nos templos que chamam de igrejas. Não acreditamos em nenhuma linha ou vírgula do que sua religião cristã diz. E muito menos acreditamos na verdade de alguém que jura sobre um livro grosso cheio de baboseiras, que vocês carregam como se fosse sagrado, chamando-o de Bíblia.
O padre recuou, boquiaberto. Olhou para todos, e sentiu o rosto ficar todo vermelho. Ele se sentou, em silêncio. Manuel Bandeira sorriu. Dumbledore olhou o Ministro, verdadeiramente chocado. Leah ficou extremamente irritada, respirou fundo e avançou. A tempo, Lílian a agarrou, acorrentando-a magicamente ao chão da arena.
- MAS SEU FILHO DA PUTA, EU VOU M – antes que Leah terminasse, Lílian gritou, em voz alta, segurando Leah.
- MINISTRO! Antes de dar seu veredicto final, não se esqueça que Leah deve receber uma pena menor que a prisão perpétua! Ou o senhor se esqueceu dessa promessa?
O Ministro silenciou.
- É um homem de palavra, Ministro?
- ...Não duvide de mim, senhorita Evans. Minha palavra vale mais do que ouro. –disse, sério.
Leah se acalmou. Parou de tentar avançar, e Lílian a libertou de novo. O Ministro se ergueu:
- Muito bem. Então, diante dos fatos, está na hora de finalmente decidirmos. Que seja feita a justiça.
Um zum zum zum se seguiu, dos bruxos cochichando, até chegar ao Ministro.
- Senhorita Leah Málaga. Por todos os crimes cometidos, e pela colaboração de ter auxiliado na quebra de uma antiga maldição que assolava uma vila bruxa portuguesa, esta corte reviu sua pena anterior, de Prisão Perpétua em Azkaban.
Lílian fechou o punho, soltando um "Yes!". Leah piscou, achando estranho o Ministro dizer aquilo. Até ele bater o martelo:
- Sua sentença a partir de hoje será de permanecer em Azkaban por 650 anos.
Dumbledore olhou Leah. Ela, de repente, pareceu achar tudo natural. Lílian simplesmente abriu a boca.
- Isso... isso é injusto! – gritou Lílian – Ela colaborou! A pena deveria.
- A pena foi diminuída, senhorita Evans. – disse o Ministro.
- Mas... mas em 650 anos... em 650 anos ela morre lá dentro! De que adiantará?
O Ministro foi bater o martelo quando Leah abriu um largo e demoníaco sorriso:
- Vai encerrar a sessão, Ministro?
O Ministro vacilou. Os aurores o cercaram.
- Já que vou mofar lá, posso ter o prazer de fazer uma última coisa! – exclamou Leah, rindo, avançando.
Mas, ao invés de atacar o Ministro, Leah avançou em Lílian.
- O quê você...? – exclamou Lílian.
Leah pôs a mãos na cintura de Lílian, puxou um dos seus punhais, e, com força, lançou às suas costas. O punhal girou no ar, atingindo o pescoço de Manuel Bandeira em cheio.
- Santo Deus! – exclamou Joaquim.
- Segurem essa mulher! – urrou o Ministro – Acudam o homem!
Lílian saltou sobre as costas de Leah, jogando-a no chão. Os aurores correram até Manuel, mas já era tarde, e seu corpo apenas parava de tremer, permanecendo imóvel e sem vida. Dumbledore fechou os olhos, sem se mover.
- ...Ele está morto. – disse Sirius, se erguendo. Recuou junto de Lupin, para não sujarem os pés no sangue que escorria pelo chão, vindo do pescoço.
Lílian virou Leah violentamente de costas no chão, ajoelhando-se sobre ela. Agarrou-se à gola da roupa dela e começou a bater nela sem parar, gritando:
- PORQUE VOCÊ FEZ ISSO?! SUA IDIOTA!! VOCÊ NÃO PODIA TER FEITO ISSO! VOCÊ ACABOU DE ESTRAGAR TUDO! TUDO! TUDO! SUA IDIOTA!
- ...estragar... o quê? – murmurou Leah, sorrindo torto, com o nariz sangrando dos socos que Lílian resolvera despejar nela.
- Como o QUÊ?! – lamentou Lílian, ofegando – Ora essa... a sua.
- 650 anos, Lílian, tu realmente achou que eles fossem diminuir minha pena a ponto de eu sair viva de Azkaban?
De repente, Lílian foi puxada violentamente para trás, por outros aurores. Os homens de preto se aproximaram. Era o Ministro, ordenando que a pena fosse anulada.
- ...Você não pode anular a pena que... – Lílian não terminou, porque o Ministro dava a sentença final:
- A primeira sentença está anulada. Eu condeno a ré à sentença de morte, perante os jurados. Imediatamente. – e bateu o martelo – E está encerrada a sessão.
Os homens encapuzados jogaram Leah na parede, algemada. Um deles esticou a varinha e apontou para Leah:
- Mas assim, tão rápido? – murmurou a bruxa. Antes que o homem murmurasse qualquer feitiço. Leah gritou – ESPEREM! ESPEREM! HÁ UMA DÍVIDA! HÁ UMA DÍVIDA DE VIDA!
Os homens pararam. Soltaram Leah no chão. O Ministro passou a mão na cabeça:
- Do que está falando, mulher?
- Eu não posso ser morta! – exclamou Leah – Porque há uma dívida não paga!
Dumbledore abriu os olhos, e comentou algo com o Ministro. Ele se sentou, sem agüentar mais tanta coisa acontecendo.
- ...Do que você está falando? – perguntou Lílian.
- Sua promessa, Lílian. – disse Leah, sorrindo – Não se esqueceu?
Lílian gelou.
- Se não se lembra... Você e Dumbledore me prometeram! Agora, têm que cumprir!
Dumbledore respirou fundo:
- Ela tem razão. Prometemos diminuir a pena de Leah. Se não conseguíssemos, Lílian pagaria com a própria vida.
O Ministro silenciou, assim como todo o salão.
- ...E o que deseja disso, mulher? – perguntou o Ministro.
- Lílian prometeu me dar a vida dela se não diminuíssem minha pena. Bem, fui condenada à morte. Não fui?
- Exatamente.
- Então, Lílian tem que pagar. – sorriu.
Lílian abriu a boca. Leah sorriu:
- Eu quero que você pague, Lílian. Sua vida.
- Como assim?
- Eu quero duelar com você. – e virou-se pro Ministro – Eu quero duelar com ela! Em xeque, estará a promessa dela. Duelaremos até a morte. Se ela vencer, minha sentença será cumprida. Se ela morrer... terá pago sua dívida.
- ISSO É UM ABSURDO! – urrou Tiago, impedido de saltar na arena por Siirus e Lupin – Você não pode fazer isso, sua maldita!
- ...Leah tem razão. – murmurou Dumbledore, sereno – É de direito dela cobrar a dívida de Lílian. Pensando bem... é uma grande oportunidade. Teremos o duelos das duas maiores bruxas de todos os tempos. Lutando pela vida.
- Professor Dumbledore, isso está fora de questão – sussurrou o Ministro, exasperado – E se Leah matar a senhoria Lílian?
- ...Ela não matará. – sorriu Dumbledore.
- Acha que Lílian a mataria?
- Em absoluto. Lílian jamais faria isso.
- Então?
- ...Peço um voto de confiança do senhor.
- A sentença será cumprida?
- Não estou cumprindo sua mesquinha e nojenta sentença, Ministro. – sibilou Dumbledore, se enfurecendo – Estou cumprindo a parte de meu trato com Leah. O senhor dá seu voto ou não?
O Ministro vacilou. Mas balançou a cabeça, concordando.
- Muito bem. – disse Dumbledore, olhando o salão em sua totalidade – Temos aqui um impasse. Lílian tem uma dívida de vida com Leah, que está para ser morta. Então... que seja: As duas bruxas duelarão aqui. Cada uma, para garantir sua própria vida. Para pagar sua promessa. Peço a compreensão dos senhores.
- E o senhor perdeu a sanidade?! – exclamou Tiago – Colocar Lílian junto com... com.
- ...Confia em sua noiva, senhor Potter? – perguntou Dumbledore, seco.
- ...Claro.
- ...Então sente-se, e aguarde. – disparou, dando as costas e descendo para a arena.
Dumbledore passou por Lílian, que parecia apavorada. Ela o agarrou pelo braço:
- O que o senhor vai fazer?
- Confie em mim. – disse, sereno – Descanse. Teremos alguns minutos.
E, assim, debaixo de um grande burburinho, Leah foi novamente levada até a sala de espera, enquanto Lílian se sentou num dos bancos da arquibancada, sendo cercada pelos aurores.
- Lily! – exclamou Tiago, caindo à sua frente, de joelhos – Meu amor, que loucura... Dumbledore precisa dar um jeito.
- ...Eu prometi, Tiago. – sussurrou, curvada e apoiada nos joelhos, olhando o chão – Está prometido. - ...Você é capaz de matá-la. Eu sei que é. Não vacile, Lílian, ela faria qualquer coisa para acabar com você!
Lílian apenas o olhou. Ele a abraçou forte, visivelmente branco de pavor. Lílian ergueu o olhar sobre o ombro de Tiago, e viu Lupin, de cabeça baixa, a olhando. De repente, ele ali parecia ser o único a entender a real situação.
Na sala de espera, os aurores pareciam inquietos. Leah estava novamente sentada numa cadeira, no centro do lugar, sendo vigiada. Qualquer movimento mais brusco dela, ela seria atacada. Mesmo com dois Aurores Supremos na sala.
- Dêem as armas à ela. – pediu Dumbledore.
- Professor! – exclamaram os aurores, quase ao mesmo tempo.
- Me obedeçam. – disse, firme.
Um simpático homem meio gordinho, trajando o imponente uniforme de Auror Supremo, pegou as famosas armas de Leah, ainda presas ao seu cinto, guardadas em uma caixa lacrada. Caminhou até ela, se ajoelhou e esticou as armas para ela. E sorriu:
- Os anos passam, e você continua a aprontar suas molecagens, heim, senhorita Málaga?
- Deixar de ser criança nunca vai ser a mesma coisa que crescer, senhor Longbotton. – sorriu Leah, desanimando-se em seguida – Mas o senhor sabe que não é bem uma traquinagem, dessa vez.
Leah pôs suas armas e se ergueu. O pesado portão se abriu. Ao lado dele, Dumbledore, com a mão direita dentro das vestes. Olhava-a fixamente.
- É hora de ir, senhor Dumbledore, meu professor... meu mestre.
Dumbledore baixou a cabeça, rindo. Voltou a erguer os olhos, brilhantes:
- Ora, escutar isso de você me emocionou.
- Eu não gosto de dramalhões. – sorriu, simpática, tombando a cabeça – Mas o senhor.
- Claro que compreendo. Agora vá. E boa sorte.
Dumbledore esticou a mão direita. Leah se curvou, tomou a palma da sua mão, e a beijou. Ficou alguns segundos parada, antes de reerguer o corpo, respirando fundo e engolindo alguma coisa, olhando para o fundo da arena.
- Eu... gostaria de abraçar o senhor. – disse Leah, em voz baixa – Mas se eu tocar o senhor de forma mais intensa, os aurores têm ordem para me atacar.
- Você não pode me abraçar, Leah. Mas eu posso. – disse Dumbledore, sorrindo, puxando-a num apertado abraço. Ela não pôde retribuir, porque tinha de manter as mãos para baixo.
Leah entrou na arena. Ao pisar nela novamente, os portões se fecharam. Lílian, à sua frente, na bancada, se ergueu. Pôs a mão na espada, colocou a varinha do outro lado da cintura e se preparou, respirando fundo. Tiago lhe beijou, e disse alguma coisa em voz baixa, que ela apenas respondeu com a cabeça. A mureta se abriu, formando uma escadaria. Ela olhou pra baixo, e, antes de descer, olhou Lupin.
- Vai lá. – sorriu ele, pondo a mão na sua cabeça, meio acanhado – E tente não se machucar demais.
Ela respondeu com um meio sorriso, e desceu para o salão principal, e a mureta se refez.
Todos voltaram para seus lugares. O Ministro se ergueu:
- Muito bem... quem diria. – disse, levemente sarcástico - O respeito às nossas antigas tradições irá prevalecer. A ré, condenada a ser executada, possui uma dívida de vida. Sendo assim, a dívida será paga agora. Se ela tomar a vida que lhe foi prometida, poderá ir. Se, não conseguir, será executada.
- "Se eu conseguir a vida da outra, poderei ir". – repetiu Leah, rindo – Parece até piada.
Em seguida, ela respirou fundo, e olhou para Lílian. As duas caminharam até o centro da arena. Há muito tempo ela não via um olhar daquele em Lílian.
- Ora... não fique brava comigo, Liloca. – disse, parecendo calma.
- Calculista. – murmurou Lílian, com raiva – Você utilizou um detalhe técnico para poder fazer isso. Você violou nosso acordo para poder duelar comigo.
- Violei o quê? – riu Leah – Fui condenada a 600 anos. Que diferença fazia? Além do mais, quem não queria matar aquele português lazarento?
- VOCÊ NÃO PODIA FAZER ISSO! – gritou Lílian, fazendo de repente tudo silenciar.
- Olha só, você ta deixando o público assustado. – sorriu Leah. Em seguida ela respirou fundo, e disse – Nós temos 7 minutos.
Imediatamente Leah recuou um passo, sacando a espada. Lílian imediatamente também recuou, girou o corpo e disparou um feitiço. Leah rebateu com a espada.
- ...Começou. – murmurou Lupin, cruzando os braços.
Nisso, Tiago se ergueu:
- Vá, Lílian! Acabe com ela!
Ao escutar isso, vários outros espectadores se manifestaram. Em instantes, boa parte do salão gritava para que ela matasse logo a rival. "Demônio! Mate o demônio!" "Faça ela sentir dor!" "Mate-a!" "Destrua ela por completo, para que sinta toda a dor do mundo"
- A torcida é a seu favor. – sorriu Leah.
- ...Você tá planejando alguma coisa. Eu sinto isso. – gemeu Lílian - ...Eu não vou sacar minha espada.
- ...Seis minutos.
Leah avançou. Lílian saltava, recuando. Os golpes de Leah cortavam o ar, rachavam o chão. Lílian se distraiu, e bateu as costas na parede. Se desequilibrou, mas conseguiu escapar da espada de Leah, que fincava na parede, rasgando sua capa branca.
- Não fuja de mim, querida. – sorriu Leah, pondo a mão no cabo da espada de Lílian, a seu alcance.
Lílian saltou, mas soltou um gemido de dor. No chão, um espirro vermelho.
- Opa, vacilou. – disse Leah.
Com as duas espadas na mão, Leah se reergueu. Lílian recobrou o equilíbrio, voltou a segurar a varinha com força na mão direita, e pôs a mão esquerda sobre o corte em sua perna.
- Ah, maldição, não vacile, Lílian! – gemeu Tiago, se sentando, nervoso.
- Vamos. Vamos. – sussurrou Dumbledore – Reaja, Lílian.
Lílian caminhou em círculos, junto com Leah.
- Tá vendo? Disse que não ia brincar. Tá vendo que é sério? – riu Leah – Não faça essa cara de brava!
Leah murmurou "cinco minutos" e avançou. Lílian, de mãos nuas, também.
- Kaiten Kembu! Seqüência de seis! – gritou Leah. Os feixes de luz cortaram o ar. Mas, após o quarto golpe, os ataques se dispersaram. Leah escorregou, dando uma bela cambalhota na arena, saltando e ficando de pé de novo. Com apenas uma espada nas mãos, Lílian do outro lado se reerguia, com sua espada novamente.
- Mas é uma puta mesmo! – xingou Leah.
Lílian segurou a espada e a varinha nas mãos, com firmeza. Nisso, quatro cortes se abriram, rasgando sua roupa e sua pele, bem de leve: dois na altura dos ombros, um na cintura e outro na coxa.
- Hum... ardeu. – murmurou.
- Ardeu a puta que pariu! – ralhou Leah – Sua vadia, avançou no meio do meu ataque, desviou da porrada e ainda catou a espada da minha mão!
- ...Se você quisesse, tinha me matado. – resmungou Lílian.
- É. Tem razão. – riu – Mas não ia ter a mesma graça.
Novamente as duas avançaram.
- Quatro minutos! – disse Leah. As duas se atingiam com poderosos ataques, fazendo o ar circular na arena como um furacão, ricocheteando luzes e estrelas para todo o lugar, assustando os presentes.
- ...Que porcaria é essa? – gemeu Lílian.
- ...Tô contando quanto falta pra eu acabar com você. – riu Leah.
Leah desceu um poderoso ataque descendo na vertical, ao mesmo tempo em que Lílian fazia o mesmo, mas de baixo para cima. O impacto fez as espadas voarem longe, e seus cacos caírem em diversas partes da arena.
- Oh, bosta. – xingou Leah – Ah, fazer o quê, vai à moda antiga.
Só que, da mesma forma que com as espadas, as duas se atacaram ao mesmo tempo, com as varinhas. Resultado: as armas mágicas também voaram.
- Não leve isso na brincadeira VOCÊ! – ralhou Lílian.
Leah rosnou, e atingiu Lílian em cheio no rosto.
- Sem espada, sem varinha, eu enfio a mão na tua cara, mesmo! – justificou-se.
Lílian revidou. Usar os punhos ou as varinhas era quase a mesma coisa. Os impactos eram enormes, e as duas facilmente eram lançadas longe. Leah bateu as costas na parede, sentindo a cabeça girar. Ao abrir o olho, Lílian lhe pregou um certeiro gancho no queixo, fazendo ela desmontar.
- Ai, pomba!... só três minutos!
Lílian saltou em Leah, e a prendeu pelos braços. - Muito bem, agora podemos conversar. – murmurou Lílian, com a testa e o nariz machucados – Conversar, ao invés de ficarmos aqui nos socando que nem duas descontroladas.
- Detalhe. – murmurou Leah – Eu... não quero... conversar!
Leah saltou. Lílian teve de pular de suas costas.
- Accio espada! – gritaram as duas ao mesmo tempo.
Suas espadas – agora apenas uma afiada e quebrada lâmina presa aos cabos – vieram para suas mãos. Mas Leah foi mais rápida. Lílian gemeu, sentindo o serrilhado caco da espada de Leah lhe rasgar a lateral da cintura. A tempo, Lílian pôs a mão no rosto de Leah:
- Flippendo.
Leah foi arremessada do outro lado da parede, rachando-a. Lílian se ajoelhou, sentindo o rasgo sangrar sem parar. Sua roupa branca se manchava de sangue. Ergueu o olhar, e se levantou, caminhando, ignorando que o sangue pingava no chão liso e brilhante, sujando-o. Leah se ergueu, com a lateral dos olhos também sangrando, cortados.
- Eu... falei. Dois minutos. – ofegou Leah, começando a suar. Ela apertou os olhos, sentindo a vista embaçar. Riu e começou a caminhar – Anda, tia. Dois minutos... é o que nos separa da eternidade.
- ...Se quer me matar... vá em frente. Pra valer. – gemeu Lílian, segurando sua "meia espada", também partida – Você sabe que não vou ser capaz de te matar.
- É. Eu sei. – riu Leah, cambaleando – Mas cê deve estar matutando alguma coisa aí, né? Pra me livrar. Mesmo porque, cê não quer me matar. Mas também não vai dar sua vida pra mim.
- Se eu morrer... – disse Lílian, retomando fôlego – A primeira coisa que eles farão é atacar você, e te esquartejar viva. No mínimo.
Leah atacou. Lílian teve uma certa dificuldade de desviar. Por um instante, Leah parecia ter virado uma fera.
- UM! – gritou, ofegante - MINUTO!
- O que deu em você!? – exclamou Lílian, recuando.
- Não seja FROUXA! – urrou Leah, disparando uma série de ataques em Lílian, que defendeu todos. Ao serem rebatidos eles atingiram as paredes, trincando-as.
- PARE! – gritou Lílian, com Leah avançando – Se você continuar assim, vai ferir os presentes!
- ...Não me importo! – gemeu, tossindo, atingindo Lílian com um feitiço, e avançando nela em seguida.
Lílian se ergueu, de lado, apoiando a mão direita no chão e segurando a espada na esquerda. Leah estava na sua frente. O braço direito para trás, segurando firmemente a espada. Um golpe certeiro. Lílian arregalou os olhos e recuou, sabendo que sua guarda estava completamente aberta.
- Isso aí. – sorriu Leah.
Tudo aconteceu em um breve instante. Mas, para Lílian, foi como câmera lenta. O público soltou um grande grito de espanto.
Um passo para atrás, e Lílian se reergueu, dando de cara com Leah, a menos de um metro. Ela pôs a mão no ombro de Lílian, esticando o outro braço para trás. Ia ser um belo e certeiro ataque. Mas, ao se erguer, recuando, Lílian pisou nos respingos do seu próprio sangue, na primeira vez em que se feriu. Escorregou no chão liso. Leah já estava em pleno ar, saltando sobre ela. Ao chegar ao chão, Leah pisou na capa de Lílian, e as duas foram ao chão, uma por cima da outra. Lílian prendeu a respiração e sentiu o corpo gelar ao sentir e escutar sua lâmina atravessar o peito de Leah, no instante em que bateram de costas na parede da arena, para, em seguida, escorregarem de lado, até o chão.
Silêncio. Lílian se apavorou. Estava sentada no chão, com as costas na parede, torta. Deitada sobre ela, em seu ombro, Leah, como se lhe abraçasse. E, no lado esquerdo das costas dela, o caco da lâmina prateada de Lílian, manchada de sangue. Ninguém no lugar se moveu ou falou.
- Eh... que mira. Acertou em cheio. – sussurrou Leah, ergueu o rosto, suspirando profundamente.
Lílian imediatamente pôs a mão direta no ombro de Leah, para lhe empurrar:
- Ah, não, o que.
- Pare. – pediu Leah, lhe empurrando, impedindo Lílian de se mexer – Não faça nada.
- Pelo amor de Deus, Leah, o que você.
- Parece perfeito, não? – sussurrou Leah, piscando molemente, interrompendo-a de novo. Lílian tremia. Tremia, apavorada. Não conseguia tirar as mãos da espada, com medo de ferir mais Leah, e sentia sua roupa e suas mãos se molharem com o sangue dela. Leah, ao contrário, parecia calma – A grande bruxa do bem finalmente acabou com a bruxa das trevas.
Lílian mordeu os lábios, se mexendo para empurrar Leah. Fechou os olhos com força, encolhendo-se, desabando a chorar:
- Meu Deus, o que foi que eu fiz.
- Shh... pediu Leah, baixinho – Não chore, Liloca. Você não me matou.
Lílian olhou o teto, com Leah ainda sobre ela. Ninguém escutava nada.
- Eu jamais faria isso. – sorriu Leah, sentindo os olhos se encherem de água e a vista escurecer – Cê realmente acha que eu teria coragem de manchar você justamente com a minha morte? Eu não sou tão podre assim.
- ...Como assim.
- Você nasceu para ser perfeita. – sussurrou, tossindo – Você é como um anjo. É pura. Eu jamais mancharia sua alma com meu sangue. Justo eu? Nunca.
Lílian voltou a chorar.
- Eu não seria capaz de fazer você levar o peso da minha morte nas costas. A culpa não foi sua. – ela piscou, sentindo a boca secar e os músculos desfalecerem – Quem me executou, Lílian... foi Dumbledore.
Lílian abriu os olhos, chorando, de boca aberta, e olhou Dumbledore, longe, na bancada, de pé.
- ...Eu pedi... – sussurrou Leah – De propósito. É melhor assim. O grande demônio não poderia simplesmente morrer envenenado. Seria uma grande vergonha. Ela deveria morrer pelas mãos daquela que é seu oposto exato. O grande mal deve ser vencido pelo grande bem. E todos viverão felizes para sempre. Deixe eles acreditarem que é assim.
Leah respirou fundo, e largou as armas, abraçando Lílian com força.
- De certa forma, Liloca, eu estou tendo o fim que mereço. E que deveria. O bem venceu o mal. Prometa para mim que vai levar essa história adiante. E que você nunca vai cometer outro... escorregão. - Não... – sussurrou Lílian, encostando a testa ao lado da cabeça de Leah – Não posso... mais viver sem você.
- ...Você aprende. – sorriu Leah, respirando profundamente, fechando os olhos – Eu sei que é brega, mas... não esquenta, meu amor, a gente vai se ver em algum outro lugar. Só se cuida... e cuida do meninão que você arrumou.
Dumbledore fechou os olhos, respirando profundamente. Apoiou-se na bancada, e abaixou a cabeça. Os que estavam ao seu lado se olharam. Lupin suspirou.
- Acabou. – disse, reerguendo o olhar.
Lílian permaneceu no lugar. Puxou a mão direta, que estava debaixo de Leah, e pôs a mão na boca. Mordeu os lábios com força, sentindo o corpo inteiro balançar. Respirou profundamente, e puxou a mão esquerda, arrancando a lâmina da espada do peito de Leah. Mas ela não se moveu. Então, Lílian, com as mãos ensangüentadas, a abraçou com força, desabando a chorar.
- Você... não fez isso. Comigo... – soluçou, segurando Leah com força, o rosto enterrado em seu pescoço – Por favor... não tinha que ser assim.
Com coragem, Lílian empurrou Leah para o lado, virando-a com cuidado. Com a mão direita tremendo sem parar, ela retirou o cabelo negro de Leah do rosto, machando-o de vermelho. Ela não parecia sentir dor, de fato. Parecia dormir, em meio aos ferimentos e ao sangue. De certa forma, parecia em paz.
Dumbledore se aproximou, de cabeça baixa. Lílian o olhou, ainda soluçando.
- Está na hora de deixá-la descansar. – sussurrou Dumbledore, fazendo Lílian abraça-la mais uma vez, chorando – Não se sinta culpada, ela quis assim.
Ele estava visivelmente abatido. Talvez, para ele, também era uma grande derrota. Ele deu as costas e esticou os braços:
- A sentença foi cumprida! – disse, abrindo os olhos e olhando a bancada do Ministro - A ré foi executada.
O Ministro pareceu soltar um grande suspiro de alívio. Imediatamente um dos bruxos bateu palmas. E, assim, quase todos seguiram, batendo palmas.
- ...Não façam isso. – choramingou Lílian, soluçando.
Imediatamente, entre eles, alguns se exaltaram.
- Eu sabia! – gritou um – Ela morreu! Graças!
- Finalmente! Paz! – outro gritou.
Tiago jogou os dois braços para o alto, aplaudindo, rindo:
- É! Eu esperei muito anos! E esperaria mais, se fosse preciso! Finalmente!
Dumbledore baixou a cabeça. Não tinha porque ele impedir que todos ali rissem, aplaudissem, comemorassem. Lupin e Longbotton passaram por ele, agachando-se ao lado de Lílian.
- Eu não queria... – soluçou Lílian – Que fosse assim.
- A gente sabe. – sussurrou Longbotton, confortante, pondo a mão na cabeça de Lílian – Mas é hora de deixa-la ir. Em paz.
- Ela tinha uma alma ferida por demais. – sussurrou Lupin, também confortante - Todas elas foram fechadas por você, Lílian... mas ela deveria estar cansada das próprias feridas. Foi do direito dela escolher cicatrizá-las longe da gente.
Lílian ainda olhou Leah, em seu colo, por um longo tempo.
- Para salvar aqueles que ela aprendeu a amar, ela decidiu dar sua vida. – disse Dumbledore, visivelmente abalado, mas sereno, como sempre – Com medo de que sua maldição lhe tirasse alguém mais precioso, ela mesma quebrou o próprio ciclo maldito. Vamos respeitar sua escolha.
- ...Você viveu desejando ser derrotada por mim. – sussurrou Lílian, olhando Leah, ainda passando a mão em seu rosto – E será isso que será contado. Você morreu pelas minhas mãos. Isso te deixará satisfeita...? – em seguida ela respirou fundo, fechou os olhos e lhe deu um doce selinho, antes de erguer o olhar e avisar – Leah Málaga, uma das bruxas das trevas mais cruéis que já pisou na terra, um demônio encarnado... foi morta num duelo com Lílian Evans, a jovem bruxa líder dos Aurores Supremos. Essa é a história que será contada por vocês, a partir desse momento.
Lílian saiu da arena caminhando pesadamente, olhando o chão. Tinha alguns curativos pelo corpo, e ainda usava a roupa de auror, agora manchada de marrom avermelhado, já que o sangue havia secado. Ergueu o olhar ao chegar do lado de fora da câmara do julgamento, e entre muitos curiosos e aurores, retirando os corpos do lugar, viu o Reverendo Joaquim. Ele a olhava completamente desolado.
- ...Perdoe Leah... – sussurrou Lílian – Por ter matado Manuel. Joaquim pôs as mãos - com o terço de madeira enrolado nos dedos – na boca, desabando a chorar:
- Oh, meu anjo, quem sou eu para condenar alguém? – ele abraçou Lílian, respirando profundamente, fazendo nela o sinal da cruz – Que ela tenha um bom descanso, agora. A alma dela precisa. Que o Senhor a acolha muito bem.
- "Senhor"? – sorriu Lílian, deixando ainda o choro sair, dando um risinho – Ela não ia gostar de escutar essa.
- Talvez. – também riu o padre, secando as lágrimas – Ela diria alguns palavrões... e que ainda teria que esperar muito tempo no purgatório.
- Não. – corrigiu Lílian – Ela diria que iria pro inferno, porque na visão dela, deveria ser mais legal.
O Reverendo Joaquim a abraçou de novo, lhe beijando a testa, e os dois choraram.
- Terei de ir, meu anjo. – choramingou o padre – Mas quero ter o grande prazer de ter você como amiga... o resto da vida.
- Sem dúvida alguma, Reverendo... eu prometo que irei vê-lo.
Lílian de novo ficou só com Dumbledore. Algumas pessoas tentavam tocá-la, agradecer. Alguns choravam, rindo. Sua felicidade era tão grande que não conseguiam se controlar. Entre a multidão, de repente, apareceu Tiago, exasperado.
- Lílian! – exclamou. Lílian ergueu o olhar, sem brilho. Os olhos inchados e molhados. Ele respirou profundamente, se aproximando – Ah, meu amor, fiquei tão preocupado... não imagina o quanto estou me sentindo aliviado... ver você bem, ver aquela maldita mulher no.
- ... Eu não queria conversar sobre isso, agora, Tiago. – sussurrou Lílian, debilitada – Por favor.
Tiago a olhou longamente. Respirou fundo, balançando a cabeça:
- Me desculpe. Peça o que quiser, Lílian. Eu juro que lhe faço.
Lílian o olhou longamente, voltando a chorar. Tiago se incomodou. Ela baixou a cabeça, chorando:
- Eu só quero... um abraço.
- Ah, meu amor... – suspirou Tiago, lhe abraçando com força, lhe beijando a cabeça, apertando-a com força – Acabou. Daqui pra frente... tudo será novo. Em paz. Eu prometo.
Dumbledore ainda permaneceu no Ministério. Mais tarde, Longbotton retornou à sala onde ele estava, sentado em uma mesa, apoiando a testa nas mãos.
- Mestre Dumbledore? – chamou Longbotton, quase num sussurro – Tudo pronto. Podemos ir.
- Ah, claro. – concordou, se erguendo – Vamos todos para casa.
- Infelizmente, nossos esforços foram em vão. – comentou, cabisbaixo – O Ministério ficará com o direito sobre o corpo de Leah, assim como poderá estampar seu rosto como troféu onde quer que queiram.
- Eu já esperava por isso. – suspirou.
- ...Ainda não consigo compreender ao certo por que a senhorita Málaga decidiu ser envenenada, e ao mesmo tempo, duelar. Manteve a "pose" até o fim.
- No fundo... Leah era uma grande dama. – disse Dumbledore, brandamente – De sangue nobre, família tradicional. Independente de sua maldição, ela era uma verdadeira dama. E uma verdadeira dama sempre sabe o momento de se retirar.
- ...Com certeza.
Amor ... devoção .
Sentimento ... emoção...
O trem cortava calmamente as montanhas européias, num dia ensolarado e fresco. Lílian estava encostada na janela, com a brisa balançando seu cabelo, escutando uma música. O trem parou, e Tiago a balançou de leve:
- Hey, bela adormecida. – e lhe beijou a mão, que ele mantinha entre a sua, quase a viajem toda – Chegamos. É a vila portuguesa.
Lílian acordou, e se ergueu. Os dois saíram. Na estação, Tiago finalmente a largou, dizendo:
- Quarenta minutos de parada. Depois, continuamos. Não vá se perder ou esquecer, heim?
- Não, não vou. – sorriu largamente – Volto rápido. Pode ficar aqui.
Tiago lhe beijou a mão, sorrindo:
- Esperarei sentado e ansioso.
Lílian se virou, e o padre Joaquim parecia orgulhoso de vê-la:
- Fica linda de aliança dourada. Mas... seu esposo deveria saber que, para uma jovem tão bela, andar sozinha com isso é um perigo.
- Sua oração tira a inveja de qualquer um. – riu Lílian – A propósito... o senhor fica bem com essa roupa de arcebispo.
- Oh, acredita numa coisa dessas? – riu Joaquim - Consegui me elevar rapidamente... devo muito a vocês. Foram experiências e ensinamentos inesquecíveis. Mas... vamos andando? O tempo urge.
Não tenha medo por ser fraco
Não tenha tanto orgulho por ser forte
Apenas olhe dentro de seu coração, meu amigo
Esse será o retorno a você mesmo
O retorno à inocência
Lílian caminhou calmamente até a ponta da baía. Era primavera, e grande árvores floridas coloriam o lugar. Era lindo. A vista, maravilhosa.
- É. Viemos numa época ruim. Olha que paz, e que beleza. – disse Lílian, respirando profundamente na frente de uma grande pedra, marcando um jazigo – Antes era tudo tão... tão seco... frio... escuro, nublado.
Ela olhou para baixo, e retirou da jaqueta a brilhante aliança de prata de Leah. A olhou alguns minutos, e se agachou, colocando-a sobre a pedra, e disse:
- Está aí, senhor Augusto. Estou lhe devolvendo sua companheira. Espero que você ainda esteja por aqui. E que, agora, Leah possa fugir com você. Vocês dois, eu sei, irão aprontar pra caramba, dois desmiolados sem controle soltos no além. Sejam felizes, onde estiverem.
Lílian se levantou, suspirou profundamente, e voltou. Chegou à estação, despediu-se de Otávio, de Joaquim, e voltou a entrar, sentando-se com Tiago. Ele percebeu que ela ainda escutava aquele aparelhinho mágico de música.
- Você gostou mesmo dessas músicas, heim? - comentou, sorrindo – Não achei que realmente conhecesse essas tranqueiras mágicas.
Lílian sorriu para ele, voltando a se encostar, a olhar a paisagem que ficava para trás. Fechou os olhos, escutando mais uma das músicas que Leah tinha guardado dentro daquele aparelhinho, adormecendo.
Se você quer, então comece a rir
Se você deve, então comece a chorar
Seja você mesmo, não se esconda
Apenas acredite no destino
Não se importe com o que os outros dizem
Apenas siga seu próprio caminho
Não desista e use a chance
Para retornar à inocência
Esse não é o começo do fim
Esse é o retorno a você mesmo
O retorno à inocência
Return to Innocence – Enigma)
- Fear Of The Dark -
(Medo do Escuro)
FIM
N.A1: Acabou! Ora essa, FdN e MdE demoraram e duraram mais que o esperado. Espero que tenha ficado mais legal que o esperado, também.
N.A2: Final triste? Talvez. É bem "angst". Mas, tinha que ser assim. Esse final ficou longo, quase 20 páginas. O dobro das páginas normais da MdE.
N.A3: matar alguém querido nunca é legal. escutando "watermark" da Enya é pior ainda, e eu acabei chorando. Mas relendo agora, nem dá pra chorar, rs. Agora to encerrado, escutando Return to Innocence. Tinha que por essa música é bem a cara desse final. (eu acho)
N.A4: O tema desse capítulo não deveria ser Gravity of Love, mas sim, ONE, do U2. Mas troquei. ONE é romântico demais, rs. Combinaria se tivesse um final feliz (eu acho). Também chutei Far Away do NickelBack, mas era mto "pra cima". Fica Gravity mesmo.
N.A5: Espero que tenham gostado! Acabaram-se as fics "baseadas na EdD". Agora, bola pra frente. No fim da EdD, chegaremos à conclusão do que possa haver da MdE no relacionamento "real" de Leah e Lílian. Porque, aqui, td mundo sabe, a cosia desandou. Não sintam-se pra baixo, porquê nada da MdE acontece de verdade na EdD. Talvez. Nhuuuuu N.A6: Valeu quem leu! Até a próxima!
