Capítulo 4: Fogos de artifício, água-de-guelricho e um monstro a ser encontrado
Harry Potter sorriu verdadeiramente ao ver os quatro garotos deixando seus aposentos. Eles acreditavam mesmo que poderiam enganá-lo? Bem, não o conheciam direito – haviam encontrado-se há menos de uma semana – mas ele os obrigaria a conhecê-lo, prometera para si mesmo. Estava chocado por quão bobo eles pensavam que era. Ele parecia tão idiota? Ele deveria parecer muito menos do que acreditava, pensando bem, ou eles nem teriam ousado.
Harry, cuidadosamente, parou à porta. Vira os alunos entrarem em seus aposentos, saírem deles, e também ouvira um pouco da conversa. Eles mencionaram alguma nota... que o tratariam como ele merecia e algum... monstro, pelo que ele entendera. Harry aguardava com um pouco de ansiedade o momento de encontrá-lo. Não esperava que o monstro lhe matasse; os estudantes não tinham razão alguma para pretender tal objetivo. Não era? Não... com certeza, não...
Entrou pela porta com cautela. Sentia-se um pouco estúpido por não ter colocado um feitiço apropriado para que ninguém invadisse o lugar – e essa possibilidade não era tão absurda, como ele acabara de constatar, então ele deveria dar um jeito nisso logo.
Ele não percebeu nada de anormal no living; aparentemente, nenhuma cilada perigosa fora ali colocada, e ele não encontrou nenhum feitiço também, sem contar que ele provavelmente sentiria se houvesse o mais inofensivo dos feitiços. Andou por todos os seus aposentos, sem um destino definido, passando devagar pelo living, pelo quarto, pelo banheiro e pela cozinha, sem encontrar nada de incomum. Não estava certo... eles não mencionaram a tal nota? E onde estava esse tal monstro?
Harry passeou novamente por seus aposentos, sem encontrar a nota em lugar algum. Era para ele recebê-la, não? Que sentido faria se ele não a pudesse ler? Então por que eles não a colocaram em um lugar com grande visibilidade? Ou será que ele era cego? Não, não era isso.
– Por mim tudo bem... então, nada de "vamos bagunçar os aposentos do professor malvado"...
Por que não? Harry certamente concordava com a idéia...
A água que espalhara pelo chão, ele fez desaparecer da mesma forma que fizera no Salão Comunal da Grifinória: com um movimento da mão. Poderia muito bem ter-se secado da mesma forma, mas estava com vontade de tomar um bom banho em vez disso; fora um dia exaustivo.
Trancou-se no banheiro, despiu-se e observou-se no espelho por algum tempo. Mantivera seu corpo e seus olhos quando mudara de identidade. Não vira razão para mudá-los; duvidava que alguém o reconhecesse somente pelo seu corpo.
A primeira surpresa da noite foi quando ele abriu a torneira. A água, ao encontrar seu corpo, parecia tão... estranha. Ele conhecia esse sentimento, mas não conseguia distingui-lo.
– Talvez eu só esteja cansado... – ele pensou, mas não acreditava realmente nessa possibilidade. Contudo, o que for que estivesse errado, ele resolveria depois.
Entretanto, ele mudou de opinião no mesmo instante em que viu o que estava errado.
De repente, suas mãos sentiam como se tivessem barbatanas e... ele tinha guelras.
Harry conhecia esse efeito muito bem; era água-de-guelricho. Inventada há algum tempo por um Mestre de Poções, era a mistura de água normal com guelricho, e ele não gostava disso. Sem contar que era ilegal, já que a pessoa que a tocasse não poderia respirar fora d'água e isso poderia ser fatal... Harry não gostava disso nem um pouco.
Ele não conseguia respirar. Ah, não. Droga! O que ele poderia fazer? Água... precisava de água!
Com um silencioso feitiço para conjurar água, Harry Potter inundou o próprio banheiro. Ar... finalmente! Essa foi por pouco!
Repentinamente, vários estouros encheram ser ouvidos; fogos de artifício que explodiram. Malditos estudantes... isso era um inferno! Teria ele realmente que esperar até que o último truque fosse posto em prática? Hmm...
Um estouro atingiu sua perna direita e esta começou a sangrar; logo, a água em torno do machucado estava vermelha. Um novo estouro. Maldição!
– Tenho de sair daqui! – Harry pensou às pressas, lembrando que, se saísse, não poderia respirar...
Outro fogo de artifício atingiu seu braço.
"Maldição!" ele pensou, e estava certo. Era como se tivesse sido amaldiçoado... Talvez ele pudesse controlar a situação de uma forma que poucos poderiam...
Harry concentrou-se bastante, o que não era fácil com todo o barulho que o cercava, alguns fogos o atingindo e machucando mesmo.
"Eu devo usar meus pulmões... meus pulmões... respirar pelos meus pulmões..."
Bem, funcionou. De repente, ele sentiu novamente seus pulmões, cheios de água. Fez a inundação desaparecer, sem nem perder tempo estalando os dedos ou algo do tipo; ele não precisava dessas frescuras para executar o feitiço.
"O QUE VOCÊS ACHAM QUE ESTÃO FAZENDO, CRIANCINHAS TÃO BOAZINHAS E INOCENTES? TENTANDO ME MATAR? ACHAM QUE ISSO FOI ENGRAÇADO? FOI TENTATIVA DE ASSASSINATO!" Henry Evans gritou para ninguém em particular.
Voltou para o quarto, desejando nada além de um bom sono. Deitou e adormeceu no mesmo instante.
– Você conseguiu? Funcionou? – uma estudante perguntou empolgada ao seu herói, Martin Whitby, quando este e seus amigos voltaram da "Operação Evans".
– Bem, eu espero que sim. Estava tudo ajeitado e não vejo como pode falhar, Clarissa – o garoto respondeu, rindo abertamente. – Tenho certeza que o assustamos bastante. Ele não ousará nos incomodar mais.
Clarissa sorriu com admiração.
– Eu só espero que vocês não tenham exagerado muito – um estudante mais velho, que Martin estava certo que era do sexto ano, disse. – Vocês não o colocaram em nenhum perigo, não é?
– É claro que não, Tom, não se preocupe – Ronny suspirou incomodado. – Foi só um pequeno susto. Tenho certeza que qualquer meio-aborto poderia lidar com aquilo...
– Bem... – Tom interrompeu. – Eu não tive nada a ver com isso, vocês sabem. Se alguém me perguntar, eu vou dizer que a responsabilidade é toda de vocês e que eu não vou assumir as conseqüências.
– Não chegará a tanto, Tom, tenho certeza – Leon disse. – Agora eu vou para a cama, companheiros. Foi uma noite estafante.
Com um sorriso, Leon subiu para seu dormitório. Os outros estudantes seguiram seu exemplo, pois estava ficando realmente tarde. Foram, perguntando-se quando Evans tomaria o próximo banho... e esperavam que pudessem ver os resultados, curiosos que estavam para saber como "aquele canalha" reagiria.
Harry Potter acordou quando o sinal tocou. Merda, as aulas! Ele tinha apenas meia hora para se arrumar e estar pronto para o café-da-manhã, e "se arrumar" não era só tomar banho, se vestir e tentar controlar seu cabelo ao máximo; também incluía cuidar dos ferimentos do dia anterior. Ele ainda se perguntava que diabos aqueles moleques pensaram que estavam fazendo. Eles subestimavam tanto os fogos de artifício? Não, não seriam tão estúpidos – seriam? Ele não sabia, mas ele descobriria isso com o tempo.
Aproximou-se da grande estante existente em seu escritório, que felizmente era conectada aos seus aposentos por uma porta. Muito útil, ela era.
Pegou um livro chamado "Soluções mágicas para todos os tipos de ferimentos" e o abriu. Demorou um minuto para que encontrasse a página com o título "Machucados sérios". Havia um feitiço fácil que ele poderia usar rapidamente; agora ele precisava...
– O espelho – Henry murmurou, voltando a seus aposentos.
Trancado em uma espécie de baú, que ele abriu com um feitiço e uma senha, estava o espelho. Havia também o álbum que Hagrid lhe dera no primeiro ano, um álbum que ele mesmo fizera – repleto de fotos de seus amigos –, a capa de invisibilidade e o Mapa do Maroto original.
Tirou o espelho de dentro do baú. A moldura em torno era dourada; ele poderia ser usado como um espelho comum se assim você desejasse, mas só se você desejasse. Harry Potter não precisava de um espelho comum agora. Ele precisava deste em particular. O próprio Alvo Dumbledore o presenteara com o espelho em sua formatura, e este se mostrara bastante útil algumas vezes.
Poderia usar-se o espelho para enfeitiçar a si mesmo. Harry não teria problemas em executar o feitiço descrito no livro, disso ele tinha certeza, mas não havia outra forma de usá-la em si mesmo a não ser com um objeto como aquele. Não deveria ser necessariamente um espelho; poderia ser qualquer outro objeto – e havia rumores que Urico, o Esquisito, possuía uma luva de baseball trouxa, que serviria para esse fim – contanto que estivesse encantado com o feitiço.
Harry segurou o espelho com a mão esquerda e apontou sua mão direita para ele, murmurando baixinho e devagar "Tumorum incendii sanate!"
Ele sentiu a queimadura em sua perna sarar. Era engraçado, ele pensou, muito engraçado realmente. Curar todos esses ferimentos poderia até ser divertido. O feitiço só teria de ser um pouco modificado...
Tentou lembrar-se de seus conhecimentos em latim, o que não era uma tarefa fácil.
"Hmm... tumorum... tumori... tumoro..."
Custou algum tempo, até que Harry finalmente disse "tumora incendii sanate" em direção ao espelho com um tom chateado em sua voz. Dentro de dez segundos, todas as queimaduras que ele adquirira à noite passada desapareceram. Ele não sentia mais a dor que o incomodara desde que acordara.
"E por que diabos você não fez isso da primeira vez, maldito feitiço? Com certeza, você sabia o que eu queria fazer", ele resmungou, ainda irritado, mas sem preocupar-se em falar muito baixo e impedir que qualquer pessoa... qualquer bruxo... que tenha bons ouvidos possa ouvir.
Harry ouviu um risinho meio abafado e virou-se para encontrar Alvo Dumbledore parado à porta com um olhar divertido.
"Alvo..." Harry não gostava da idéia de ter o amigo assistindo-no ao tentar concertar os resultados da... brincadeira dos estudantes. Se é que poderia chamar de brincadeira. Ele certamente nunca fizera algo assim...
– Meu caro amigo, o que aconteceu com você? – Alvo perguntou, rindo. – Eu vejo que você não teve... como sempre... problema algum em curar-se, mas antes estava muito mal...
Hmm... há quanto tempo Alvo o estivera observando?
– Bem, Alvo... eu acredito que algumas "agradáveis crianças" que você ensina aqui foram a causa disso.
– Mesmo? – Alvo não demonstrou surpresa. – Você com certeza sabe que eles não intencionavam machucá-lo, certo, Henry?
O sorriso no rosto de Dumbledore desaparecera de repente.
"Eles não são assim, você sabe... só foram muito longe dessa vez."
– Sim, eu sei que eles não queriam chegar tão longe – Harry suspirou –, mas isso não torna a dor menos desagradável. A propósito, você sabe quem fez isso?
Dumbledore encontrou o olhar de Harry.
– Não os puna muito severamente, Henry, eles só queriam assustá-lo...
– Quem fez isso, Alvo?
– Bem... – Dumbledore claramente não gostava da idéia de dedurar seus estudantes; ele acreditava muito neles, Harry pensou. – Um calouro da Grifinória entrou chorando no escritório de Minerva ontem à noite, onde nós dois estávamos tomando um pouco de chá. O pobre garoto contou-nos que os colegas estavam planejando uma brincadeira horrível com você àquela noite. Ele queria que cuidássemos de você, Henry.
– Ele não ousou se meter comigo, colocando em outras palavras – Harry disse com raiva.
– Bem... sim, talvez... mas ele nos avisou, apesar de tudo – Dumbledore declarou.
– E você não achou que seria bom me avisar?
– Sim, eu achei, Henry. Eu vim direto para cá, e estava prestes a bater à porta quando lhe ouvi gritar sobre "criancinhas tão inocentes tentando matar alguém". Achei que seria melhor não lhe incomodar àquela hora.
Harry suspirou.
– Você acertou, eu não estava de bom humor ontem. Eu vi os garotos que invadiram isso aqui, sabe. Longbottom, Whitby e Creevey. O time dos sonhos, quem mais? E aquele do sétimo ano... Kevin Smith... foi querido o suficiente para correr para cá e avisá-los que eu tinha consertado o vazamento. Eu esperava mais por trás daquilo, entretanto. Então dois grifos...
– Você fez um bom trabalho com aquele cano, sabe... ouvi algumas crianças falando sobre como foram quatro executores... – Dumbledore disse sorrindo.
– Estou aqui para lutar contra a pior magia negra, se necessário, colega. O que você espera? Mas obrigado de qualquer jeito. Então... quer se juntar a mim na busca de possíveis armadilhas aqui?
– Ah, claro, eu adoraria! – Dumbledore sorriu e continuou em tom de brincadeira: – O que temos por enquanto, chefe?
– Bem, recruta... água-de-guelricho no chuveiro e cerca de quinze fogos de artifício escondidos no banheiro... acho que isso é tudo.
– Ah, então será uma busca difícil, eu suponho...
Porém, não foi realmente difícil. Ambos encontraram, no instante em que entraram na cozinha, um pedaço de pergaminho que estava depositado sobre a mesa, com letras vermelhas brilhosas piscando.
Não mexa com os Grifinórios
Sonserino nojento!
Porque, se o fizer, se arrependerá!
Isso, obviamente, deveria ser uma ameaça, mas Harry Potter não conseguiu segurar a gargalhada. Um olhar divertido de Dumbledore o fez explicar.
– Eu fui insultado algumas vezes na minha vida, Alvo, e eles criaram algumas ofensas bem originais, devo dizer... mas essa é a primeira vez que sou chamado de Sonserino Nojento. Eu dizia isso sobre o Malfoy antes, sabe?
– É, eu me lembro – disse Dumbledore depois de rir também. – O relacionamento entre Grifinória e Sonserina não mudou nem um pouco, até hoje.
– Hmm... eu acho que um pouco de rivalidade pode ser divertido, às vezes – Harry disse, relembrando a boa época em que ele e os amigos aprontavam com os sonserinos... e quando acontecia o contrário também. Enquanto não ficasse muito sério, ele não via problema algum.
– Agora... terminamos? Ainda há um café-da-manhã esperando, sabia? – Dumbledore interrompeu suas recordações.
– Ah, claro. Se há mais alguma coisa, não estou ansioso para descobrir.
Mas ele descobriria mais cedo ou mais tarde. Harry Potter não pensou mais sobre aquele "monstro" que os alunos mencionaram. Ele não tivera pista alguma sobre o que aquilo pudesse ser, mas é claro que isso não significava que ele não existisse...
