Título: Rebirth
Autor: Angell Kinney
Casal principal: Shun & Hyouga ( Saint Seiya); Joseph ( Joey) Fatone – é meu personagem original; Carlo di Angelis pertence a Pipe
Classificação: +18
Gênero: Drama/Romance/Angst/Yaoi/Lemon/ Comedy
Spoilers: A fiction se passa após a SAGA DE HADES. Como não se sabe que fim se deu com os Santos de Athena após o Prólogo do Céu (Tenkai -Hen Movie) esse é o ponto inicial de nossa fanfic.

Nota1:Começo a contar a idade dos cavaleiros a partir de sua data de exibição no Brasil, ou seja, 1994. Na fic Shun tem 19 anos, o que seria então o ano de 2000, pois em 94 Shun tem apenas 13 anos okay?

Grato. Angell.


Parte: 07 de 10


Rebirth

Capitulo 7


-

Quando a porta bateu atrás de si Hyouga enfim achou que poderia enfim colocar tudo nos devidos lugares. Fleyr no seu papel de submissa, e Mime em seu papel de subalterno. Afinal se alguém disse a Becca que Fleyr era sua esposa era porque Mime se manteve por fora do assunto que fora combinado. Fleyr nunca mais seria chamada de esposa de Cisne. Fleyr era sua propriedade.

O rosto de Hyouga estava ganhando uma tonalidade acima do vermelho. As narinas fremiam, e então ele começou a falar. Bem, ele começaria a falar se Fleyr não tivesse se colocado de pé a sua frente. E para espanto de Hyouga ela não sentia absolutamente nenhum medo por vê-lo daquela forma.

- Para quê, esse escândalo Hyouga? – A loira perguntou o encarando. Como se os dias de humilhação nunca tivessem ocorrido e lhe infligido tanto pavor e dor, como de fato ocorrera. Ou pior, como se ainda tivesse o direito de se pôr de pé a frente dele. O rosto cor de alabastro o fitando de cima a baixo.

- Ora como OUSA? – Hyouga gritou erguendo a mão para ela.

A mulher não deu um passo para trás, nem fez menção de pedir clemência.

- Não encoste em mim Hyouga. Não sou, nunca mais serei, e nunca mais ouvirei você se referir a mim como Propriedade! – ela gritou a ultima palavra. Hyouga olhou para ela com incredulidade. Fleyr nunca alterou a voz, nunca gritara com ninguém. Nunca, nem quando eram casados – literalmente falando – ela se alterara. E agora parecia disposta a voar em cima dele se necessário.

Os olhos de Hyouga procuraram então desesperadamente por Mime. O mesmo continuava sentado. Olhos fixos nas teclas do piano. Não levantou o olhar para Hyouga.

- Deixe-me esclarecer as coisas por aqui. – Hyouga falou lívido de raiva. A voz mais baixa do que o normal, procurando intimidar a loira. – Enquanto Hilda governar Asgard, enquanto o poder dela me der o título de príncipe daquela terra, você vai, e deve se subjugar a mim. – Ele segurou o rosto dela entre os dedos de maneira cruel, quase lhe esmagando o queixo com os dedos.

Ela não recuou.

Deu um tapa na mão dele afastando-se do toque. Enojada. A expressão odiosa na face de anjo, cujo aquele homem ousou bater e tocar.

- Não! – A mulher gritou. Hyouga já estava perdendo a paciência.

O loiro olhou para Mime que não moveu um fio de cabelo ruivo como se esperasse alguma reação e então falou:

- Mime, pela vida dela, e bem dos meus filhos. Faça-a se calar!

- Idiota! Ainda não percebeu que Mime também não pode tocar em mim? Não percebeu que todo o seu "mundinho" ruiu aos seus pés Hyouga? Oh desprezível Hyouga. Como te odeio! Como te ODEIO! – Fleyr gritou á plenos pulmões a um Hyouga que a encarou com os olhos repletos de estupefação e ódio em igual tamanho.

- Você... Como ousa ainda me enfrentar! Perdeu as faculdades mentais, achando que como estamos fora de Asgard, eu não tenho mais poder sobre você mulher? Pois se enganou. Se você quer fugir de meu poder, vou lhe mostrar como posso subjugar você a isso! Sua vagabunda! – e dizendo isso desferiu-lhe um soco no rosto, com força. Sem aviso. A mulher cambaleou e caiu aos pés dele.

Mime fez se de pé.

Olhou para Hyouga maneando a cabeça com fúria.

Hyouga estava arfando de raiva, olhando para Fleyr que se levantava. Um fino filete de sangue escorria de seus lábios, mas ela não chorava. E sem que ao menos fizesse menção de fazê-lo, a loira agarrou um jarro de plantas em um dos móveis e atirou-o em Hyouga.

O loiro recebeu a pancada como um mortal, o vaso lhe atingiu a cabeça, mas o impacto não obteve o dano pretendido, por óbvio, ele ser um cavaleiro.

Hyouga fechou o punho.

Os cristais de gelo brotando no ar.

Ódio. Ódio tamanho por aquele frágil ser, que lhe cegava.

Recorreu às mentiras que ela contou. Recorreu ao dia que saiu da Grécia praticamente obrigado, e odiado pelos amigos. Odiado por Shun. Recorreu a aquele fatídico dia em que Shun o jogara para o alto, para trás, para fora de sua vida. Por causa daquela mulher.

- Parem os dois! – Mime gritou se pondo entre os dois. Fleyr não parecia disposta a sair do local onde estava. Pelo contrário, na sua raiva ela estava disposta a enfrentar Hyouga, lhe arrancar os olhos com os dedos se fosse possível. Lutar como uma leoa para se libertar daquele homem.

- Saia da frente Mime. Saia da minha frente! Eu lhe ordeno, se não quiser me enfrentar também. Eu vou matá-la, vou matá-la como ela matou a minha única chance de ser feliz! – Hyouga falou revoltado.

Mime não deu um passo. Mas o rosto do ruivo pareceu devastado por aquelas palavras. Não acreditava no que ouvia. E Fleyr gritou:

- Está vendo Mime, ao inferno que me jogou por causa desse amor cego, que nunca, nunca foi correspondido? Ele é OBCECADO pelo Andrômeda, abençoado seja o coração daquela pobre criatura, por ter suportado esse homem! – A loira falou também querendo passar por Mime e avançar no loiro. Mas foi segura pelo ruivo pelos braços.

- Cale-se Fleyr! – Hyouga ordenou.

- Ora, vá para o Inferno Hyouga – Mime falou raivoso. – Eu demorei a entender. Eu demorei a conceber na minha mente que tudo que Fleyr falou era verdade. Eu cheguei a pensar que você a deixaria em Asgard, ou a traria somente para olhar os filhos... E que nós...

- Nós? Nós Mime? Um dia houve algum nós! – Hyouga gritou impaciente. – Você servia aos meus propósitos e eu aos seus! Estamos e sempre estivemos quites. Você que pensava que estava me conduzindo, me revelando as coisas...

- E eu estava. Não venha me dizer que eu não sabia o que estava fazendo... – Mime falou com ira. O olhar magoado, constatando que de fato, nunca, nunca em sua vida, teria o que tanto sonhou com Cisne.

- Pelo amor dos Deuses. Vão discutir a perversão de vocês em outro local, mas fora da minha casa! Os dois. FORA! – Fleyr gritou.

Hyouga olhou estupefato para a mulher. Mime simplesmente parou de discutir e a encarou.

- Sim, senhora Polaris. Já sairemos de sua casa. – Mime concordou com a cabeça

- Cale-se Mime, e não seja enfadonho. Não existe respeito nenhum no Senhora que você fala. – Fleyr falou olhando para ele com asco – Só se ponha daqui para fora. Já fico satisfeita! – cuspiu com raiva.

- Cale-se você! – Hyouga falou olhando para Fleyr – Você enlouqueceu? Dando-me ordens, falando com Mime como se ele fosse um subalterno, e esse louco está lhe dando ouvidos. Você não é nada Fleyr. NADA! – Hyouga falou tremendo. A voz uns dez tons acima do normal. – Enquanto Hilda estiver no poder, e eu...

- Você que não entendeu. – ela cortou impaciente – Hilda, graças aos céus, está morta. Hilda se suicidou. Hilda de Polaris desencarnou. Se matou, não suportou ser deposta depois do que fez comigo! E mereceu, ah, aquela desgraçada, tirana, filha de uma puta, mereceu! – Fleyr esbravejou perdendo o decoro.

Não havia lágrimas pela irmã morta, nem Hyouga esperava mais isso. Como Hilda não chorou nenhuma quando a escravizou. Era ódio que Fleyr sentia. Era satisfação que ela sentia por saber que existia um cadáver frio e estuporado no chão, que ninguém fora velar.

Hyouga perdeu a cor e a fala ao mesmo tempo.

- É mentira. – sussurrou.

- Não Hyouga, não é. – Mime falou. – Fomos traídos. Eu, você, Hilda e Fleyr.

O chão de Hyouga rodava.

Como não percebera antes.

Como ele não percebeu antes de tudo? A troco de quê e por qual motivo Sigfried e os Guerreiros Deuses trairiam a Hagen, se eles o odiavam. Se eles odiavam Hyouga em todas as partes do seu ser?

- Mime seu idiota. Seu idiota completo. – Hyouga falou entrando em desespero, com as mãos em apelo para os céus.

Sentou-se tonto em uma das muitas poltronas do salão. A cor fugindo de seu rosto. O olhar vacilante. E Fleyr falou:

- Sim, vocês dois, são idiotas.


-

A situação mudara completamente dentro da Mansão na Av. Foch, em Paris.

Sentada confortavelmente em sua poltrona de pele de urso após se recompor, Fleyr de Polaris, uma jovem dama de dezoito anos, mãe de dois filhos, e casada por lei com Hyouga Shevchenko, colocava a trama da qual saiu a maior vítima; Em pratos limpos.

- Pois então, odiado marido. Como lhe dizia... Minha irmã está morta. – ela falou tirando os cabelos do rosto e fazendo uma pausa, onde passou a mão pelo pescoço branco e longo como de um cisne – Estou com a garganta seca... – comentou de si para si. Nada de explicações agora - um momento. – Fleyr pediu pegando a sineta para chamar os criados que se encontrava em uma mesinha de estilo vitoriano ao seu lado.

Hyouga já sabia que aconteceria, ela chamaria também Sorrento e a jovem Becca. Isso lhe daria mais segurança do que ficar sozinha com os dois homens lá dentro.

Mime também estava sentado agora. O olhar muito desolado. Triste. Completamente destituído de todo o viço que os olhos cor de escarlate um dia possuíram, pareceu envelhecer dez anos naquele instante. Hyouga o olhou e percebeu que não mais o desejava. Tampouco queria ou precisava ouvir a voz do Guerreiro Deus de Benetnash naquele dia ou dali para frente.

Fleyr tocou a sineta.

Os criados chegariam a qualquer momento.

Ela olhou para Hyouga que se levantou, abriu a porta que tinha trancado, e voltou a se sentar quase ao mesmo tempo em que Sorrento e Becca, entraram com as duas crianças ao seu encalço.

- Sorrento, querido. – Fleyr falou olhando para o homem, com delicadeza. – Desculpe os modos do meu marido.

- Não se importe Senhora Fleyr. Posso me sentar? – o belo jovem, de cabelos cor de lavanda perguntou.

- Óbvio que sim. Você também jovem Becca. Se pretender continuar trabalhando para nossa família, deve participar das conversas e saber guardar muito bem os segredos. Deve aprender a falar na hora certa, e ponderar sobre o que vai falar, e se falando, o conteúdo do segredo vai lhe proporcionar uma vitória pessoal, e causar um mal estar geral, ou se você sairá lucrando, mesmo a longo prazo. – Fleyr falou como uma legítima dama.

Inteligente. Influente. Com a eloqüência e força necessária para que Becca soubesse que apesar do escândalo de Hyouga, era ela quem mandava dali por diante.

Hyouga e Mime sabiam, amarguradamente, que ela estava certa. Sabiam que para eles a estrada tinha terminado ali. Se ao acordar alguém tivesse dito a Hyouga que estaria nas mãos de Fleyr naquela mesma tarde ele não acreditaria nem que fosse o próprio Cristo que tivesse contando.

O cavaleiro de Cisne estava entrando em choque.

- Pois de certo que sim, Senhora. Desejo continuar servindo a vocês. Serei um túmulo perante aos segredos. – a loira de cabelos tingidos falou.

- Pois então. Espere que as criadas encham nossas taças com água e conhaque, e saiam com as crianças. Por favor, não me interrompam enquanto eu falar. As notícias ainda são muito frescas e quero retratá-las fielmente junto a meu retrospecto

Todos ficaram mudos. Todos assentiram.

As criadas tiraram as crianças da sala, e saíram. Uma delas até fez menção de limpar a bagunça que Fleyr fez quando atirou o vaso a Hyouga, mas com um sinal de mãos delicado, mas imponente, Fleyr colocou a mulher para fora, sem dirigir uma palavra.

- Agora deixe me contar, na vida de quem vocês se meteram... e ao que me impuseram, por mesquinharia, e por o que este homem – apontou para Cisne. – Chama de amor.

OoO

A VERDADE DE ASGARD.

Fleyr deixou que o gole farto de água reanimasse seus ânimos e foi o que de fato aconteceu.

Olhando para um ponto fixo na parede, e ignorando praticamente que estava contando a história para pessoas, e não para paredes, ela deixou que a voz antes emotiva e carinhosa se tornasse fria e começou a falar:

- Eu ainda era uma menina quando Hilda chegou ao poder. Para ser mais concisa, minha mãe entregou o próprio cetro de Odin na mão de Hilda. E minha irmã se tornou sua fiel cópia. Mal mamãe estava fria no leito, Hilda, hediondamente chamou os Guerreiros Deuses e sentou- se no trono. Ela não chorou uma lágrima sequer por minha mãe. Ela não manteve luto por minha mãe. Ela simplesmente passou por cima disso. E me falou para passar também. –ela falou sem um pingo de emoção, como se revivesse aqueles dias em que a mãe morria no leito, sem que Hilda fosse um dia sequer lhe ver, enquanto moribunda pedia para ver Hilda e a mesma não lhe desferia uma palavra de alento. Dava para todos na sala imaginarem a pobre Fleyr prostrada ainda uma criança aos pés da cama da mãe, limpando o catre sujo de sangue enquanto a cruel doença que estourava os pulmões da mulher ia lhe ceifando a vida.

Fleyr tomou o líquido da segunda taça que tinha sobre a mesa de centro.

Conhaque. Forte, quente.

Pigarreou delicadamente e continuou. Agora olhando para eles. O olhar passeando de um canto ao outro da sala. Fitando Becca, fitando Sorrento. E óbvio, Hyouga e Mime.

O rosto dela plácido como uma estátua de cera com a cabeleira composta dos mais finos fios de ouro. Os olhos azuis piscina eram a única coisa que demonstrava que a mulher era embuída de vida.

- Entenda. Hilda foi criada para ser assim. Forte, governanta. Destemida e aprendendo a se fazer temer. E eu a odiava por isso, tanto quanto viva, e mais ainda como morta, pois não vi seu corpo estatelado em frente ao grande portal da cidade. Pois é, não é? Estou aqui infelizmente. – ela deu um sorrisinho cruel de criança. Mas o que era ela senão uma vítima das circunstancias, tão ou mais do que Hyouga. - Mas um dia ainda apreciarei as fotos daquela maldita estilhaçada no chão, como muitos apreciaram o da minha depreciação, feita pelo Senhor meu Marido, com o aval dessa infame defunta.

Ela falou com um sorriso medonho nos lábios.

Aquele tipo de sorriso que de tão malvado chega a gelar as veias de quem vê. E Becca e Sorrento estavam tão aturdidos que sem pensar a jovem secretária do lar se benzeu.

Tipicamente católico. Tipicamente desnecessário.

Todos sabiam que Fleyr não faria mal a ninguém dali a não ser Hyouga e Mime. A mulher estava a salvo.

Deixando de sorrir. Fleyr continuou. Estava se surpreendendo por ninguém a interromper:

- Mas isso não vem ao caso. O que importa é; Que eu nunca soube que Hagen era meu irmão até o dia em que nos deitamos pela primeira vez. Claro que ele sempre demonstrou um interesse enorme por mim e eu por ele. Mas nunca nos tocamos até depois dos Guerreiros de Athena arrancarem o anel Nibelungo de minha irmã. Até ali eu e Hagen sequer tínhamos nos beijado. E eu cheguei erroneamente a me envolver com o sedutor Hyouga. Que óbvio, já traindo Shun, tirou minha virgindade.

Ela fez uma pausa esperando que Hyouga falasse algo. Que Sorrento segurasse o queixo que caía desconsoladamente no chão, e Mime não fizesse uma cara de chocado tão comovente, que parecia teatral. Enquanto Becca estava tão perdida no assunto e nos fatos que se limitou a ficar calada. Fleyr sorriu e continuou.

- Não, não fiquem chocados. Eu não fiquei. Eu quis, bem eu achei que queria. Eu queria e mais do que isso precisava amar Hyouga, porque eu não entendia a raiva de Hilda por Hagen se interessar por mim. E eu sabia do que uma mulher que não chorou pela própria mãe no leito de morte era capaz de fazer. Mas vamos nos referir a política. A política de Asgard. E a reencarnação de Odin.

Fleyr falou fazendo uma pausa simbólica para resgatar a atenção entre um assunto e outro.

Hyouga estava tão aturdido que seu cérebro parecia querer escapar do crânio pelos ouvidos.

Levou a mão a cabeça, poderia estar tendo um aneurisma a qualquer momento. Mas a voz da mulher o hipnotizou e ele voltou a prestar a atenção no que ela dizia:

- Ao contrário do leigo Hagen que nunca soube como recorrer ao poder por ser filho de meu pai; e por infelizmente temer e respeitar demais Hilda para isso. Havia um enorme estratagema para tirar Hilda do poder desde que ela se sentou no trono. Afinal de contas, o Deus de Asgard, ao invés dos de Athena, era um homem, um homem normando e poderoso, e as terras de Asgard tinham que ter um soberano de igual aparência sendo uma política completamente patriarcal. Logo não era uma opção ter uma mulher no poder. Desde que se intitulara soberana Hilda era motivo de chacota. Hilda era vista como uma palhaça tentando manter o domínio sobre os Guerreiros Deuses. Vocês não imaginam o quanto ela era confundida, enganada e ameaçada por todos eles. Mime saberia disso, se parasse de se deitar com Fenrir e procurasse se ater mais as coisas do palácio. – ela alfinetou.

Mime olhou para ela chocado.

Até segunda ordem, nunca imaginou que seu romance com Fenrir nos tempos mais remotos fosse um assunto comum até a "loira insossa" que ele pensou que Fleyr fosse até o momento.

O olhar do ruivo procurou algum consolo em Hyouga, mas o mesmo parecia não querer olhar para ninguém a não ser a ex-esposa que retomou a fala sem dar tempo dos demais pensarem.

- Muito bem, quando eu me vi envolvida com Hagen já era muito tarde. Eu estava grávida e não sabia. E Hilda por só pensar que eu e ele estávamos de namorico, tendo somente dado uns beijos, nos chamou e disse. "Vocês são irmãos". Por trás disso, era óbvio que havia uma ameaça. Se eu estivesse com Hagen, como meu meio irmão, era claro que como filho de meu pai tanto quanto Hilda e eu, ele teria direitos muito maiores ao trono do que eu e ela. Vocês imaginam o que se passou pela nossa cabeça, minha e de Hagen nesse caso, quando Hilda disse cruelmente para ele se afastar de mim ou o encerraria num esquife de pedra. Hagen ficou furioso, óbvio, ele sabia que o direito de estar no trono era DELE. Mas Hilda também sabia disso, e sabia que, se ele governasse, os Guerreiros Deuses o apoiariam por ele ser homem, por ele ser companheiro de batalhas. Estou errada Mime?

- Não. Não está errada Fleyr. Óbvio que Hagen no poder seria muito mais agradável para os Guerreiros e para o povo. Hilda nunca obteve respeito. Ela obteve sim o medo de muitos quando estava com o Anel Nibelungo nos dedos.

- Sim, Mime. E tanto eu quanto você, sabíamos que Sigfried e os outros, fiéis e ao mesmo tempo falsos conselheiros de Hilda, a queriam fora do poder com a maior rapidez possível. Tanto que se não estou enganada, no mesmo dia que souberam que ele era filho de meu pai o procuraram para pedir que ele se levantasse contra Hilda. E meu amado não o fez.

Fleyr então fez uma pausa. Respirou fundo, para depois continuar. O olhar vítreo fixo no rosto de Mime que pela primeira vez na vida se sentiu ameaçado por aquela mulher tão frágil.

Pesava sobre ele a maldita consciência.

Pesava sobre ele a verdade que omitiu de Hyouga.

A crueldade que cometeu com Fleyr e com um companheiro em nome do sentimento mesquinho de poder usar Hyouga, de ter Hyouga, de enfrentar aquela mulher e humilhar Hilda. Porque para ele era uma vitória pessoal tanto como para os Guerreiros Deuses. Porque eles sabiam que a prepotente e fria Hilda sofreria a se ver enganada pela irmã. Que vacilaria e essa insanidade momentânea e dolorosa a faria perder além do autocontrole o apoio de seu povo.

- Não entendo, Fleyr se ele podia se levantar contra Hilda, por que não o fez? – Sorrento perguntou pela primeira vez. Parecia temeroso com a pergunta ou a reação de Fleyr, mas calmamente a loira respondeu:

- Não o fez porque sabia que uma vez no poder os guerreiros Deuses, e o próprio povo dos vilarejos e cidades de Asgard nos escorraçariam dali como duas cadelas. Eu e Hilda. E isso ele não queria. E até que Hilda me jogasse no calabouço na noite da morte de Hagen, não era o que eu queria para ela. Maldita seja! - Fleyr falou demonstrando ira – Afinal a filha da puta era minha irmã!

Sorrento ficou chocado com as palavras.

Hyouga esboçou um sorriso cruel, e Becca, bem, esta só se ateve ao final da frase, e óbvio chocou-se com a ira súbita da dona da casa.

- Sim, compreendo. Era melhor que ele lhe mantivesse a salvo e perto dele. - Sorrento compreendeu.

- Sim. Mas com isso, como ele se negou a ajudar os guerreiros, os Guerreiros Deuses se voltaram contra mim. E nesse caso, acho que consegui a antipatia de Mime e dos outros. – ela falou sorrindo mordazmente – Logo de pessoas e Guerreiros que eu sempre respeitei, mas não lamento ter perdido a amizade e apreço deles, não agora que vejo que sempre foram pessoas vis, e com ambição desmedida para o pior lado. - ela enfatizou, para continuar:

- Mas como eu dizia, nesse meio tempo eu me descobri grávida. E tinha que esconder isso. Ouvi falar de uma curandeira nos arredores de Asgard, uma feiticeira. Na verdade uma velha sacerdotisa de Deméter que conhecia as ervas necessárias para me livrar do bebê antes que Hilda soubesse ou desconfiasse de mim. Mas Hagen descobriu tudo e me impediu. Fora que a feiticeira não podia me dar à erva pela promessa de nunca tirar uma vida inocente e fruto de um verdadeiro amor. Me vi desesperada. Primeiro por isso, e porque quando voltava para Asgard com Hagen fomos visto por Mime e os outros. E foi ali, por me ver sair da casa da feiticeira que Mime e os outros inventaram que eu tinha comprado uma poção para enfeitiçar Hyouga assim que eu inventei que os bebês eram dele.

Todos ficaram mudos. Mime enfiou o rosto entre os braços.

Fleyr o encarou e prosseguiu:

- Mas não. Nunca houve poção. Cisne se deitou comigo porque quis. E sim poderia me engravidar se eu não estivesse grávida na ocasião. – ela falou encarando Hyouga e perguntou: - Está vendo senhor meu marido... O senhor realmente sabia de tudo quando resolveu matar Hagen covardemente, e me punir? Você foi justo?

Hyouga perdeu toda e qualquer eloqüência que tivera.

Era como se tomasse um soco no estômago sem chance de se preparar para isso. Esperava que Mime falasse algo. Que falasse que era mentira, mas o ruivo lacrimejava de vergonha.

Nunca vira Mime em tal estado. E O cisne olhou para Mime agora com raiva.

Como era Tolo.

Como foi tolo de não perceber que estava dentro daquele jogo nefasto. E sim ele se lembrava de ter bebido na taverna e ter se deitado com Fleyr no chão da Adega da Taverna onde dormia.

Lembrou-se de que era tão conveniente ter aquele corpo para lhe acalentar as noites enquanto Shun não estava ali.

Era tão gostoso possuí-la como mulher e às vezes como homem quando cruelmente lhe penetrava o ânus apertado e ela se contorcia sobre ele.

Apertar-lhe os seios fartos e rosados.

Era uma delícia possuir Fleyr quando desejasse ao seu bel prazer.

E ele até estranhou a atitude dela quando ela o negou naquela noite. Então ele a convidou para beber na tentativa de embriagá-la e possuí-la. E sim, ela sentou-se na mesa e ele insistiu.

E agora por aquela noite de volúpia ele se condenou.

Realmente ele poderia ter concebido Stawdsen e Stuward tanto quanto Hagen.

Ela só se aproveitou daquilo para livrar-se de explicar a Hilda que o filho era de seu próprio irmão.

Hyouga explodiu:

- E então se foi um plano. Você já tinha um pai pros seus filhos. Porque foi destruir a minha vida com Shun? Por que não manteve isso entre você e sua irmã? Não, você me arrastou, se casou comigo, me separou de Shun, e nada que você diga ou faça vai mudar isso!

- Hyouga, não seja injusto mais uma vez! – Fleyr impacientou-se pela primeira vez desde o inicio de sua história - Eu nunca lhe procurei para me deitar com você, nem fui a Grécia lhe arrastar para Asgard. Quem foi atrás de você foi Hilda e seus guerreiros Deuses, e ela persuadiu a Athena, Zeus a perdoe em sua santa inocência, a convencê-lo a reparar um mal que tanto eu e você sabíamos que não era mal desde a batalha de Odin. - A mulher falou com uma eloqüência digna de atenção.

Fez uma pausa entre muitas outras para tomar ar, e continuou com o mesmo tom, dirigindo-se agora a Hyouga e somente a ele:

- E eu, eu nunca lhe afastei de Shun. Ele que te jogou longe quando soube da sua traição. Andrômeda se afastou de ti pela sua traição e não porque EU estava grávida! E eu pouco me importei se você se casasse comigo ou não. De fato eu estava tão feliz por ser obrigada a me casar com você quanto um defunto no seu próprio enterro. – ela falou com descaso se ele se ofenderia ou não. E não obstante, vendo que os olhos estavam fixos nela e até Becca pareceu querer inteirar-se do assunto, prosseguiu:

- Por mim você poderia ir para cama com Asgard inteira que pouco me importava. Você achou realmente que eu te amava? Não. Eu nunca te disse isso. Nem sequer pedi pra você ficar comigo. Hilda que se impôs, e você, como um covarde, falou que se casaria sim. E abandonou Shun, pelo que eu sei, minha falecida irmã lhe deu um prazo de duas semanas para explicar-se a Shun, e quando chegamos, pelo que percebi você não se importou com ele antes. Não o deixou a par de mais essa traição... A maior pode-se dizer, devido aos fatos decorrentes. E Andrômeda foi o ultimo a ter conhecimento de tudo. A culpa foi sua Hyouga, e sabe por quê? Porque você se culpava e no fundo acreditava que tinha que se afastar dele em auto-penitência. Muito bonito em teoria, ridículo na prática, porque você transava com qualquer coisa que se movesse naquela e nessa época, e sabe muito bem disso. – Ela falou calmamente.

E era essa calma que fazia com que cada palavra de Fleyr reverberasse com efeitos cruéis na mente de Hyouga. Aquela mulher, ela nunca perdera o controle a não ser com a morte de Hagen. Aquela mulher agora era mais fria do que Hilda, e devia isso a Hyouga e Mime.

Hyouga ficou mudo.

Tinha recebido a resposta.

E o pior, a verdade estava na sua frente. Nunca a culpa fora de Fleyr se ele pensasse bem. Tudo que ela falava tinha uma coerência tão medonha que o destruía, como uma avalanche, levando tudo pelo caminho. Levando a alma dele e deixando somente a vergonha e o arrependimento.

- Bem, tenho que concluir isso logo, ou me esgotarei mentalmente para sempre. - Fleyr falou delicadamente pondo as mãos na cabeça.

Uma dama.

Sempre uma dama quando tinha chance de sê-lo. Essa atitude polida também era uma forma de jogar na cara de Hyouga e Mime que eles poderiam ter usado de diplomacia em vez de utilizar violência desnecessária.

Os dois estavam tão mudos que pareciam mortos. Só o rosto de Cisne que brilhava pelas lágrimas que desciam copiosas. Humilhantes. Mime em estado desolador.

- Não adianta chorar Hyouga. Não vai aplacar a sua consciência. Nem eu vou perdoá-lo. E você achava que eu queria o seu perdão... – a mulher foi irônica. – O fato é que após você ter se mudado para Asgard, os Guerreiros Deuses, que já o odiavam por Athena ter vencido a batalha contra Hilda, resolveram usa-lo. E para isso utilizaram da fraqueza que Mime tem por homens... E Sigfried, seu mais famoso ex-amante em Asgard, resolveu aproxima-lo de você. Eu sabia, sempre soube do romance de vocês. E sinceramente não me importava. Mas Hagen começou a se preocupar quando Mime demonstrou poder ir ao inferno para ter você para ele. Não é Mime? Não vai falar nada? É tão horrível conceber que eu pense? Que eu sempre pensei, mas não me vangloriava como você de uma coisa tão mundana, fale alguma coisa guerreiro Deus de Benetnasch?

- Fleyr... Eu nunca quis... Nunca...

- Não minta Mime, não mais. E não para mim. – ela aconselhou com calma, mas sua voz estava carregada de rancor e vitória pessoal agora. - Você quis, como você ainda quer Hyouga. E o que te dói agora é saber do fundo do seu coração podre, que quando eu te colocar daqui porta afora, o que não tardarei em fazer, nem Hyouga nem nenhum dos seus amiguinhos vai te querer! A sua prepotência, e, sobretudo falsidades te fizeram perder tudo, e eu realmente não sinto em lhe dizer que nem Hyouga lhe dará crédito após tudo que ele escutou. Ele escutou a VERDADE. Coisa que nem você nem ele puderam aceitar. Como Hilda não aceitou e hoje está morta! - ela disse se erguendo.

- E simplificando tudo. Sigfried ajudou vocês porque sabia que ajudando, faria com que Hagen, que o colocou em má situação quando negou o trono, seria destruído por Hilda, conseqüentemente ele falaria que não me matasse, mas me exilasse, e assim só teria Hilda como obstáculo. E óbvio te deu a tutela das crianças porque sabemos muito bem que nem eu, nem você queremos para Stan e Stu uma vida naquela terra maldita. Então ele manipularia Hilda através do amor frustrado que ela sempre sentiu por ele e do arrependimento. E quando ela menos esperasse, seria traída com um golpe de estado tão forte que a faria tentar contra a própria vida para não ser deposta. E foi isso que aconteceu.

- E o que aconteceu com Hilda? Como ela morreu? – Hyouga perguntou.

- Se jogou da Torre de Vallhalla, já lhes disse isso. Pelo que sei Sigfried encontrou a encarnação de Deus Odin, um menino normando de seis anos que fazia milagres como se fosse Zeus encarnado naquela terra maldita. Recebi tudo num dossiê pelas mãos de um cavaleiro de Deméter.

- Cavaleiro de Deméter? O que eles têm a ver com Asgard?- Hyouga cortou.

- O quê? Ah Hyoga, não seja tolo. Estamos na França. Jurisdição de Deméter. Logo quando chegamos no aeroporto de madrugada, enquanto você foi para o apart-hotel se encontrar com Julian e eu e Mime ficamos esperando Sorrento chegar para virmos para cá, dois cavaleiros de Deméter, á paisana óbvio, se aproximaram e me entregaram o dossiê de Sigfried onde o próprio nos conta em detalhes como Hilda enlouqueceu assim que pôs os olhos no menino e soube que ele de fato era o Deus Odin encarnado. De como ela se negou a abdicar do trono e se tornar regente, de como ficou maluca batendo nas paredes e correndo pelos corredores. Os guerreiros Deuses foram atrás dela, mas foi inevitável, ela gritou que só sairia do trono se estivesse morta. E se jogou pela janela da Torre. Então, Sigfried mandou uma carta de Alforria em nome de Asgard, me libertando de você. E óbvio devidamente assinada pelo garoto. Ou seja, um garoto de seis anos, possui uma opinião mais decente sobre escravidão do que você e Mime juntos. Deplorável Hyouga.

Hyouga engoliu em seco. Sabia que o momento derradeiro estava chegando. E ele não tinha ao que se apegar.

Estava perdido.

Hilda Morta. Deméter e Athena sabendo do que ele tinha feito. E a essa altura Shun o odiava mais ainda. Mas foi tirado de seu desespero pela voz da maldita esposa:

- E para completar. Para que você saiba. Essa casa é minha, pois nenhuma transação legal em meu nome pode ser feita após eu ter saído de Asgard e a carta de Alforria valer, sobretudo com meu dinheiro. Mas eu já conversei com Julian por celular enquanto você vinha com Sorrento e ele concordou em me ceder a casa. Afinal você já lhe entregou o meu dinheiro mesmo. O meu dinheiro, e de meus filhos. Filhos, cujo pai você assassinou! Ou seja, essa escritura que você tem, não vale de nada. Essa casa é minha.

E agora que você sabe de tudo Hyouga de Cisne. Dê o fora da minha casa! - ela gritou.

OoO

Shun estava feliz. Completamente feliz.

Fantasmas esquecidos. A tristeza parecia ter ido embora naquela noite maravilhosa.

Sorriu, mesmo antes de abrir os olhos. Ainda sentia o peito de Joseph sob sua cabeça. Seu nariz estava na altura dos mamilos do homem. E Joseph ainda dormia. A cabeça meio de lado, os cabelos castanhos e cheios caiam sobre sua face máscula.

Shun ficou assim. Observando-o dormir com carinho demasiado. Acariciou o rosto dele, e depois levantou-se da cama. Deveria sair sem acordá-lo. Mas assim que se moveu na cama sentiu que estava preso firmemente nos braços malhados de Joseph, como se o outro achasse que ele poderia tentar escapar como de fato ele estava fazendo.

Sorriu. E nesse momento Andrômeda percebeu que Joseph estava acordado.

- Bom dia pequeno.

- Bom dia grandão. – Shun respondeu sorrindo.

- Quer uma prova de amor agora? – Joey perguntou se sentando na cama. Shun ficou todo torto porque o moreno não o soltava.

- Prova de amor? – Shun devolveu a pergunta rindo sem realmente entender onde Joey queria chegar.

- Sim, eu te beijo agora. Com bafo da manhã mesmo. Sem escovar os dentes... – O moreno sorriu – Se eu sobreviver a isso, sobrevivo a tudo que venha de você... – Joey falou rindo.

- Então beija. Vamos ver... – Shun falou deixando o moreno tomar seus lábios.

O beijo foi modorrento porque estavam ambos com os lábios dormentes, mas foi algo engraçado. A boca de Joey pareceu a Shun muito seca, e a de Shun pareceu a Joey muito úmida. Sorriram ambos separando-se.

- É... estranho. – Shun comentou ajeitando o cabelo.

- É, também acho. Joey sorriu. - Agora vamos tomar café.

Os dois foram tomar banho juntos no banheiro contíguo ao quarto. Shun teve que se conter ao vê-lo ali nu novamente, o sexo grosso e pesado balançando entre as coxas fortes, aquela pilosidade negra subindo até o umbigo. Andrômeda teve vontade de se agachar e toma-lo novamente entre a boca. Mas ele sabia que se o fizesse nenhum dos dois sairia do quarto por tempo indeterminado.

Tomou seu banho permitindo que Joey o ensaboasse. Beijasse suas costas e lavasse o seu cabelo, desembaraçando-o com os dedos grossos. Quando o moreno acabou, Shun terminou por fazê-lo, ensaboando Joey e demorando-se principalmente no meio das pernas, onde o membro grosso começava a dar sinais de vida óbvios e suplicantes por algum alívio.

- Você acordou alguém, pequeno. – Joey brincou – Mas vai deixá-lo de castigo porque brincadeiras com ele, só mais tarde.

Shun fez cara de emburrado, mas compreendeu. Joey sabia o mesmo que ele, se começassem seria um suplício parar depois.

Saíram do banho e olharam o relógio. Quase sete e meia da manhã. Tinham que se apressar, o café deixava de ser servido no salão comunal as oito. Como era horrível a vida de cavaleiro neste aspecto, e seus horários de templos diáfanos. Mas se queriam pegar o melhor do desjejum era melhor se apressarem.

Joey vestiu uma camisa simples, branca, de manga comprida e uma calça jeans. Nos pés uma sandália do tipo havaiana. Os cabelos ele puxou para trás com um pente e fez um pequeno rabo de cavalo com a franja. Pegou os óculos escuros que estavam em cima da mesinha do quarto e colocou. Extremamente charmoso.

Shun ficou perdido. Como iria sair do quarto e ir para o salão comunal com a mesma roupa da festa? E nada que Joseph tivesse no armário ia caber nele. Mas o moreno já parecia ter pensado nisso. Tirou uma calça de twist e uma blusa estampada de dentro de uma das cômodas.

- De onde veio isso? – Shun perguntou, tentando afastar o pensamento de que poderia ser de algum ex-amante de Joseph. Mas o moreno simplesmente apontou para um porta-retrato em cima da mesma cômoda.

- Meu irmão. – Joseph explicou como se adivinhasse o que Shun estava pensando. E continuou:

- Ele pediu dispensa dos serviços de Deméter para se casar e constituir família. Na verdade ele era o primeiro cavaleiro, o que significa que ele tinha o mesmo posto que ocupo agora. Como ele vem me visitar quase sempre quando sai de Toscana, tenho roupas dele aqui. Tem mais algumas peças no closet. Vê o que melhor cabe em você.

Shun sorriu e se dirigiu ao closet espaçoso de Joey. Dava para uma pessoa morar lá dentro. Abstraindo esse fato, e a profusão de tecidos e roupas que tinha lá dentro, Shun escolheu uma calça jeans clara e uma blusa verde com branco.

Penteou os cabelos molhados com o pente de dentes largos e eles ficaram ondulados e desembaraçados. Óbvio, colocou os mesmos sapatos da noite anterior. Era demais que Joseph tivesse sapatos com o número do irmão guardados também.

- Bem, acho que podemos ir. – Joey falou abrindo a porta e saindo. Ficou esperando Shun sair e quando este o fez, enlaçou seus dedos nos dele de forma carinhosa.

- Estou sonhando? – Shun perguntou baixinho ao contemplar a vista de Paris acordando aos seus pés, a luz alaranjada dos primeiros raios de sol da manhã rompiam as nuvens e iluminavam o Sena. Os olhos de Shun perscrutaram a vista, e depois lenta e delicadamente o rapazote olhou para Joseph.

E Joseph falou com aquela voz doce e ao mesmo tempo forte o que Shun sempre quis ouvir:

- Não, meu querido namorado. Você não está sonhando.

E mais uma vez Andrômeda foi beijado.

OoO

Lá estava ele. Desolado. Triste e furioso por estar se sentindo assim.

Parada junto à porta, com os braços no regaço, Fleyr esperava que Hyouga terminasse de arrumar as malas e suas coisas, e que ao menos se despedisse das crianças. Mime já estava devidamente acomodado fora dos portões de sua casa, graças a Deus.

- Acho que você ao menos deveria vir visitar as crianças. – A loira falou secamente – Eles afinal, gostam de você.

- Sim. Posso pensar no assunto se estiver na França ainda. – Hyouga cuspiu, enquanto fechava a tampa da mala, puxando com violência demasiada a fita de couro da fivela. Ainda não tinha coragem de erguer o olhar para Fleyr, tampouco tinha vontade de falar com ela. Era um misto de vergonha e ódio muito grande para que as palavras que dissesse pudessem encontrar alguma coerência quando e se proferidas por ele.

- E você pretende sair da França? – A loira perguntou de maneira quase triste. Completamente teatral. E Hyouga fez força para responder sem ser indelicado como desejava:

- E você se importa?

- Claro que não. – Ela falou se retirando. - Becca lhe acompanhará até a porta. Tem alguns cheques assinados que ela lhe entregará. Você terá ao menos onde ficar por um tempo. Depois, que a sua Athena, tenha a misericórdia que eu não sinto, por você.

E ela saiu.

Tudo tinha acabado.

Tudo acabou quando ele abraçou os pequenos Stan e Stu que invadiram seu quarto querendo carinho, em sua santa inocência.

Segurou-os no colo. Os girou no ar. Beijou-lhe delicadamente as dobrinhas deliciosas entre os bracinhos e perninhas. Afagou-lhes os cabelos loiros.

Os amava. Os amara desde que nasceram. Isso não ia mudar nunca.

Doía lhe saber que tinha matado o pai daquelas crianças em um rompante de fúria.

Doía-lhe ter que se afastar daqueles dois.

Logo A jovem Becca apareceu na porta do quarto. Um talão de cheques nas mãos. Ele soube que teria que partir assim. Expulso.

Abraçou as crianças uma derradeira vez, com mais força que antes. E os meninos o olharam como se soubessem que ia demorar para vê-lo novamente, porque começaram a chorar.

- Papa... Papa! – Stan gritou quando ele se ergueu deixando-o sobre o carpete macio.

Hyouga não teve coragem de olhar para o garotinho. Se olhasse se desmancharia. Se olhasse choraria por sua vida, choraria por tudo que fizera ao longo daqueles dois anos.

- Papa precisa ir, querido. – Hyouga falou sem olhar para trás. Becca lacrimejava olhando o homem tentar segurar as lágrimas. Os olhos vermelhos, a boca tremendo com os dentes cerrados.

- Papa vai pá ondi? – Stuward perguntou correndo e se agarrando as pernas de Hyouga.

- O papai vai trabalhar. Um dia o papai volta. Pede pra Odin que o papai volta. – Hyouga falou se agachando mais uma vez e abraçando os dois. Agora que viessem as lágrimas. Estava sendo obrigado a deixar para trás a única coisa que o deu motivo de viver em Asgard. Estava sendo obrigado a deixar uma parte de si tão, ou mais importante que Shun, para trás. E isso era de fato, mais do que insuportável.

- Amo vocês. Amo muito vocês. Sempre vou amar vocês. – Hyouga falava chorando bem baixinho como se cantasse. E foi nesse momento que Fleyr entrou no aposento. Os olhos também vermelhos. Claro que ela viu a cena de longe, e a mulher se amparou a Becca, segurando os ombros da governanta que apesar do pouco tempo de convivência com eles, simplesmente se comoveu.

- Hyouga. Você tem que ir hoje, isso é certo. Mas se quiser, pode passar essa tarde com as crianças. – Fleyr falou.

- Se eu ficar hoje, vou querer ficar sempre. Fico grato pela sua condolência, mas não Fleyr. Não posso aceitar. – Ele falou se levantando, segurando as malas com uma mão e pegando o talão de cheques com a outra. – Cuide bem dos nossos filhos. – Falou saindo. E atrás dele ele ouviu o choro descompassado de Fleyr e de seus filhos.

- Senhora... Oh senhora! – ele ouvia Becca consolar Fleyr. Ele não sabia ao certo porque a mulher que deveria lhe odiar e o expulsava estava chorando, mas pelo choro desesperado dela, alto e com soluços secos, ele sabia que ela estava sofrendo, mas ele nunca entenderia o porquê, nem tentaria descobrir.

Mas estava feito. E ele mais do que ninguém sabia que tinha tido nas mãos a chance de mudar os fatos, para que eles não acabassem assim.

Chorando, Hyouga de Cisne cruzou a enorme porta principal da mansão e viu as escadarias enormes de pedra sabão. Viu o jardim diáfano que se estendia aos seus pés, tal qual o Éden. E viu o portão de ferro decorado sabendo que seria seu único caminho.

Desceu as escadas rápido. O talão de cheques bem guardado dentro do bolso interno, no blaiser que vestia. A única mala que tinha, enorme e de rodinhas, segura pela alça adjacente. Atravessou o jardim e o portão. Ganhou a rua. E encontrou Mime.

De certo que o outro tinha tanto para onde ir, quanto ele.

Ou seja, lugar algum.

E sabiam que teriam que conversar.

Prudência e rompantes foram o que os tinham desgraçado. Tinham de ao menos ser coerentes agora. Precisavam, infelizmente, pelo menos até esclarecer tudo que tinha se passado, um do outro.

O ruivo encarou o loiro sem nada dizer. E foi assim que permaneceu até que Hyouga pegasse um táxi e os levasse de volta para o apart hotel onde tinha ficado pela manhã quando encontrou com Julian.

Quando chegaram em frente ao Hotel Libertel Bellechasse, um hotel pequeno, porém muito gostoso, no numero oito da Rua Bellechasse, perto do Boulevard dês Invalides no sétimo arrondissement. A esquerda do Sena, Hyouga simplesmente se aproximou do balcão da recepção e falou rápido em inglês, se ainda teriam acomodações vagas. Foi informado que o apartamento que tinha se encontrado com Julian ainda estava vago, e foi ele que o cavaleiro solicitou.

Como já tinha estado lá dentro uma vez sabia que era confortável e ele precisava descansar antes de pensar em como levaria sua vida e o que faria com Mime.

Foram conduzidos por um educado rapaz até o quarto. E assim que Mime fechou a porta, e eles se viram sozinhos, Hyouga desejou ter gritado qualquer coisa menos o que falou assim que viu o homem a sua frente, mas não conseguiu:

- Satisfeito? Era isso que você queria? – Hyouga berrava descompassado – Sem casa, sem filhos, sem moral, sem nada! Vivendo ás custas do dinheiro da mulher cujo desgraçamos a vida. Ambos. Eu e você.

Mime o olhava aturdido. Em desespero interno, isso era bem sabido, mas não tinha respostas. Não conseguia formular nenhuma.

Limitou-se a procurar assento em uma poltrona próxima, que ele induziu que teria sido aonde Julian Solo tinha se sentado pela madrugada. Seu queixo tremia tanto que se o aquecedor não estivesse ligado poderia ser confundido com frio, mas era nervoso. Mime nunca imaginara estar em uma situação como aquela.

- Estrategista, frio, maldito seja você Mime, maldito seja você! – Hyouga gritava mais alto ainda – Fez o que fez, jogava com o destino dos outros, me fez cometer uma barbárie, você bem sabe! E para quê tudo isso, para ficar comigo? Só para ter alguém para dormir com você? Para provar o quê para quem Mime?

- Nunca foi para arranjar alguém para dormir...

- Ah esqueci que você tem muitos predicados para conseguir isso não é? – Hyouga falou mesquinhamente – Sigfried, Fenrir, eu mesmo... é uma lista memorável de belos guerreiros...

- Não me ofenda Hyouga. – Mime pediu desviando o olhar – Já estou na lama.

- Você merece pior do que isso. Olha ao quê você me reduziu! Olhe bem a sua volta. Um dia os cheques de Fleyr e a sua benevolência maldita que só me humilha em vez de ajudar, irão acabar. E eu ficarei como, sem dinheiro, sem rumo, sem ter para onde ou para quem voltar! – Hyouga falava tremendo dos pés a cabeça.

- E porque aceitou os cheques? – O ruivo perguntou, o queixo ainda tremendo. Os olhos vacilantes - Você sabe que eu tenho dinheiro para cuidar de nós dois em Asgard Hyouga.

- Pelo amor dos Deuses Mime! Você é idiota? Eu fui manipulado esse tempo todo por um imbecil? – Hyouga perdeu o resto de calma que lhe restava – Você realmente acha que eu prefiro ser sustentado por quem me enganou ao invés de Fleyr? E onde no inferno você concebeu que eu voltaria a Asgard, sabendo que Shun provavelmente está aqui do lado?

Mime o fitou mudo. Depois berrou:

- Sempre Shun! Sempre essa ridícula obsessão pelo Andrômeda! Maldito seja ele!

- Sim, maldito seja meu amado Shun, porque fiquei tão cego de raiva por estar longe dele que ouvi você! – Hyouga gritou.

- Mas não Cisne, você não se arrependeu. Conseguiu sair de Asgard, conseguiu...

- Consegui me ferrar e ver que confiei na pessoa errada. Consegui perceber que fui um tolo, que matei um homem inocente, sendo guiado por você, a maldita Hilda, e minha ira. Eu me apeguei aos motivos errados para punir Fleyr, e fui injusto. E percebo isso muito tarde. Muito tarde! – Hyouga falou se esgotando. Sentando-se na cama ao lado de Mime.

O ruivo ainda tentou estender as mãos para tocar os cabelos do loiro. Precisava abraçá-lo nem que fosse uma ultima vez. Hyouga estava desolado.

- Pode me tocar Mime. Sei que deseja. Sei que precisa. Estamos ambos, desorientados.

Mime abraçou cisne, e o loiro o abraçou também. Afinal de contas o que tinha lhe sobrado senão o pior de tudo. E sem que ao menos Hyouga esperasse Mime caiu em um choro descompassado. Visceral. Doente.

- Me perdoe. Me perdoe. Se você fez por amor, eu fiz porque precisava, porque eu precisava saber que você ficaria comigo, que você seria grato a mim. Eu precisava de você, eu preciso agora. Se você ama a Shun, eu te amo. Te amo. - Ele falou entre soluços.

- Isso não é amor. Você passou por todos como uma betoneira Mime. Passou por mim, pelo meu desejo, me manipulou. Me enganou. Quem ama...

- Não engana? – Mime completou baixinho. No abraço por trás, a boca colada a orelha de Hyouga. O que antes era sedutor agora era suplício e desespero.

Hyouga ficou calado ao ouvir o que o ruivo disse.

- E o que eu, você, e Fleyr já fizemos por amor? Não destruímos a vida de todos? Shun, Hagen, Hilda, você, e eu mesmo... o que nós fizemos por amor , ou o que quer que seja isso?

Cisne olhou para o homem que o abraçava.

O peito achatado e bem moldado colado as suas costas. Hyouga podia sentir o subir e descer desritimado da respiração acelerada. As lágrimas de Mime atravessando o tecido fino da camisa, molhando seu pescoço, quentes e urgentes. Estava óbvio que ele seria abandonado por Hyouga. Estava óbvio que isso não tardaria a acontecer, mas ele como uma criança desesperada que é afastada da mãe, queria e precisava impedi-lo.

- Por favor, me suporte um pouco mais... Deixe me ficar com você. Me permita ao menos isso... por piedade. – O ruivo pedia. As mãos seguras em desespero no peito de Hyouga. Firmes, necessitadas daquele contato febril. Possessivo. Angustiante.

E Hyouga percebeu que era a mais cruel verdade. Tanto que Mime não suportaria estar sozinho agora. E que Todos mentiram, não havia santos entre ele, Mime e Fleyr.

Não havia sobrado nada para ele agora, somente aqueles sentimentos; raiva, mágoa, desespero, e o arrependimento.

E junto com tudo, ainda tinha Mime.

OoO

Duas horas ou mais se passaram, e Hyouga achou que era a eternidade. Deitara na cama de casal espaçosa, com Mime abraçado a ele, ainda por trás e Hyouga percebeu que foi a única vez que se deitaram juntos apenas por deitar. Não havia mais desejo por parte dele. Não havia mais volúpia nem luxuria, e isso o espantava.

Mime estava muito colado a ele. O sexo grosso do ruivo, porém flácido, estava colocado na altura das nádegas dele. Era quiçá erótico, mas desnecessário se ater a isso. Mime dormia, tinha desmaiado de cansaço e desespero, necessitando tanto quanto ele dos braços de Morfeu para ao menos lhe dar um descanso dos pensamentos.

O jovem russo sentou-se na cama. Tinha de tomar um banho. Tinha de fazer algumas ligações. Tinha de ter um rumo por onde recomeçar do zero. A soma que Fleyr tinha colocado nos cheques era suficiente para que ele recomeçasse sua vida pela França ou em qualquer outro lugar do mundo. E Hyouga entendeu que a mulher tinha feito isso pelos filhos. Afinal de contas, ele era o único pai que Stan e Stu poderiam contar agora. Devia isso a eles. Deveria tomar um rumo na sua vida. Mas não sem antes falar com Shun. Falar com Athena e os outros. Mesmo que o odiassem, mesmo que o matassem, ele precisava ver os seus.

Antes de se erguer, olhou para Mime. Não sabia ao certo o que sentia por ele. Deveria ser-lhe grato, deveria odia-lo? Qual seria a atitude mais coerente? O ruivo o manipulara, o fizera cometer atos hediondos sem parar a sua mão. Mas ao mesmo tempo, Mime o amparara, cuidara dele.

Estava confuso. Estava perdido. Mas sabia que não poderia continuar com ele.

Pegando o cobertor aos pés da cama, cobriu Mime. O ruivo se remexeu na cama se ajeitando sob as cobertas e voltou a dormir.

Hyouga foi ao banheiro. Lavou o rosto vermelho e penteou os cabelos. Mas resolveu tomar um banho. Fê-lo com rapidez, e depois trocou de roupa. Colocou uma blusa canelada para suportar o frio de inicio de noite. Penteou os cabelos e colocou um gorro de lã.

Precisava resolver algumas coisas. Tinha de ir a um banco. Tinha de ligar para Kamus. Tinha que ajeitar sua vida e a de Mime. Tinha que recomeçar sem perder tempo. Sabia que o baile de Deméter seria dentro de cinco dias, e até lá todos saberiam que não estava mais com Fleyr.

Deu uma ultima olhada em Mime. E percebeu que não o odiava. Algo começava a mudar dentro dele. Mas ódio o visceral e cruel ódio, Hyouga não sentia.

OoO

Kamus se assustou quando o seu celular tocou, e ainda mais quando viu quem o ligava pelo visor do seu Nokia.

Estava sentado muito próximo de Shun e Joseph na platéia, enquanto assistia um dos inúmeros espetáculos de musica que ocorriam no reformatório de Deméter.

Era um lugar bonito. E bem estruturado. Situado há alguns quarteirões do palácio principal, mas dentro do mesmo terreno.

Ali os jovens meninos pobres, órfãos ou não, da periferia de Paris e do mundo eram ensaiados nos dotes da música clássica erudita. Saori tinha acabado de assinar uma parceria com Deméter para enviar grande parte dos garotos da fundação Kido para o reformatório, uma vez que não havia mais necessidade de novos cavaleiros.

E naquele local quase diáfano, os garotos e garotas aprendiam a tocar instrumentos variados, trabalhar afinando instrumentos e com a voz. E muitos sonhavam trabalhar com a Ópera de Paris.

Naquele momento os Cavaleiros de Athena estavam assistindo um solo. O solo era cantado por Dionísio, o Deus, ou Daniel, filho de Joey. Pelo que Deméter tinha dito, o pré-adolescente tinha se mostrado um rapaz muito apto a esses dons.

A voz lhe era limpa e polida. Alcançava notas tão estupidamente inumanas que fazia com que os cavaleiros se emocionassem e as amazonas chorassem.

E Kamus estava embebido na Opereta até a alma, quando o celular tocou.

Milo o olhou com desaprovação quando percebeu que Dionísio se desconcentrara com o toque animado do aparelho que destoava com tudo que se ouvia ali, mas se de fato isso ocorreu, o rapaz não demonstrou e continuou cantando La Passionata com a mesma devoção e comoção, enquanto um corpo de bailarinos dançava e voava graciosamente, no palco abaixo dele.

Kamus se levantou tentando não atrapalhar outras pessoas da pequena platéia, nem desviar o brilho da apresentação para si. Pegando o celular saiu para um canto mais isolado. Com o coração na mão e com os olhos fixos em Shun, o cavaleiro de ouro da constelação de Aquário ouviu tudo que Hyouga lhe contava. E aceitou encontrar-se com ele mais tarde, depois que tentasse falar com Athena.

OoO

- Parabéns Daniel! – Shun falou assim que o garoto conseguiu se desvencilhar da multidão de pessoas que o cercava.

- Obrigado Andrômeda. – o garoto agradeceu com um sorriso. Copia fiel do pai. – Finalmente, agora, poderei ter um tempo em paz, antes de ensaiar a ária de Canta Per me para o grande baile de Deméter. – o garoto comentou se pondo ao lado de Shun. - Eu poderia lhe mostrar um pedaço, e quem sabe você não canta comigo e em vez de um solo, faremos um dueto?

- Não, não... – Shun maneou a cabeça – Não tenho técnica, tampouco voz para isso. Vou ser um fracasso. – falou.

- Comece pelo falsete a princípio, depois meu pai pode lhe ensinar a cantar com os pulmões plenos. – Daniel falou – Quando ouvir a melodia, você vai vislumbrar o paraíso.

- Ai, não sei se devo! – Shun falou nervoso. Os olhos encarando os do rapazote.

- Bem, pode decidir isso mais tarde! – Joey cortou. – Agora vamos sair os três para tomar um sorvete, ir ao cinema e quem sabe fazermos uma festa no meu apartamento. Afinal de contas, seu avô está morrendo de saudades suas, Daniel! – Joseph falou pegando o filho pela cintura e colocando-o sobre os ombros.

- Ah papai, estou exausto! O vovô compreenderá que não pude aparecer. – Daniel retrucou – Mas fico com o sorvete e o cinema!

- Seu avô não tem necessidade de compreender mais nada, na idade dele. E sim, você vai. – Joey foi incisivo. – Depois teremos uma taça enorme de ice cream para você tomar, e uma seção de cinema. Está passando o quê para crianças no theatro?

- Pai, eu prefiro a Ópera! – Daniel falava enquanto era conduzido para a ala privativa onde ficavam os quartos dos cavaleiros. Shun acompanhava os dois, mudo.

Pensou se aquilo foi a parte que perdera da infância. O pai lhe colocando nos ombros, cinemas, conversas, visitas a familiares. Cuidado em demasia. Na idade de Daniel ele era ensinado a matar e a derrotar pessoas. Machucar seres humanos.

Meneou a cabeça. Voltou a prestar atenção na conversa a tempo de ouvir Joey falar:

- Não, a ópera termina muito tarde, e depois do cinema você vai dormir no apartamento de sua mãe e eu sairei com Shun. Afinal Lilith já está ficando nervosa com essa história de ou você estar saindo com Deméter ou comigo. Nunca tem tempo para ela. Ela é, querendo você ou não, sua mãe. – o moreno falou.

- Eu amo a mamãe! – Daniel falou enquanto Joseph o colocava no chão. Estavam os três no quarto de Joey, onde ele passara a noite com Shun. – Não sei de onde ela tirou essa idéia de que não a suporto. Ela que é cheia de paranóias.

- Então ao menos demonstre isso, meu filho. E não me olhe com essa cara. Você sabe que poderia passar mais tempo com ela. – Joey falou tirando a roupa do garoto na frente de Shun mesmo e o deixando nu em pelo, com as pequeninas vergonhas balançando entre as perninhas suculentas.

- Tudo bem pai, tudo bem... – Daniel falou enquanto Joseph o conduzia a banheira, e ligava as torneiras douradas para que liberasse a água na temperatura exata.

Shun ficou olhando o homem banhar o filho com carinho demasiado. Depois enxuga-lo, vesti-lo e penteá-lo com esmero.

- Agora converse com Shun que vou me arrumar. – Joey falou tirando a roupa na frente dos dois também. Shun se contorceu internamente. Ele era uma delícia. Era um homem delicioso. E viu que estava transparecendo todo seu desejo para o jovem Dionísio. Daniel simplesmente o olhava com os olhos negros repletos de satisfação. Era estranho que aquele menino soubesse a imoralidade que ele estava pensando e entendesse dela, não completamente, mas de certa forma, compreendia.

- Você acha ele bonito. – Daniel falou – Eu também acho. Meu pai é muito bonito mesmo. Só que você sente algo diferente de mim diante a beleza dele.

- Sim, isso é verdade. Quando você ficar mais velho entenderá. – Shun falou sem evitar ficar vermelho.

- Eu sei disso. Estudamos bastante a sexualidade humana aqui no templo. Afinal de contas Dionísio era o rei das festas de Baco, se bem que somos enfim a mesma coisa, então entendo a maneira que deseja meu pai, só que ainda não participo dos Bacanais que acontecem nos Sabás.

Shun arregalou os olhos. Bacanais? Ficou estupefato, mas satisfeito por saber que Daniel era muito mais esclarecido do que muitos. Não o considerava um pervertido.

Ficaram conversando até que Joseph saiu do banho e eles saíram pelo inicio de noite de Paris.

OoO

Enquanto isso, no apartamento privativo de Athena no oitavo andar do castelo, ao lado do aposento de Deméter estava ocorrendo uma assembléia extraordinária.

Sorrento de Cirene acabara de chegar com as derradeiras notícias sobre o que ocorrera na casa de Fleyr, e junto com Kamus tentavam expor a Athena o que se passara, e como se passara. Como Hyouga fora manipulado, e como a própria Fleyr somente o puniu o expulsando de casa.

A jovem Deusa de vinte anos estava atenta a todos os pormenores que seu cavaleiro e o Marina mais influente de Poseidon lhe apresentavam em nome de Hyouga. Eles estavam tentando persuadi-la a dar uma segunda chance ao cavaleiro de Cisne, e que ele não perdesse a armadura.

Saori se atinha a idéia de que a votação tinha estabelecido a opinião geral.

- E o que eu faço com a votação? Com a opinião de meus fieis cavaleiros?

- Desconsidere minha Deusa, é compreensível que Cisne precise de nosso apoio agora. Ele está por sua conta, e o que Hyouga conhece do mundo Athena? – Kamus falou.

- Kamus, meu querido. Compreendo que você queira cuidar de seu pupilo. Entendo, respeito, mas não concordo. Poupar o Hyouga de caminhar sozinho é diminuir seu aprendizado. Ele tem que aprender a utilizar o seu poder de maneira justa.

- E é justo tirar a armadura de um homem que foi ao inferno salvar a sua vida, minha Deusa? - Kamus falou impaciente. A voz fria quase congelando o ar. Saori o olhou demonstrando insatisfação diante a afirmação impertinente do cavaleiro de Aquário.

- Kamus. Vou ser completamente direta com você. Não é de meu interesse ter Hyouga no meu convívio novamente. Ele foi cruel, agiu como um doente completo e um homem indigno. Escravizou uma mulher e com o apoio de uma tirana com Hilda. Você acha que Hilda me persuadiu? Não Kamus, ela não o fez. Ela me comunicou que Hyouga tinha engravidado Fleyr e eu falei com ele que ele tinha que tomar uma atitude como homem ou como cavaleiro. Ele decidiu casar-se. Eu não o mandei se casar, tanto que eu o apoiei no que ele quis...

- Então, sem rodeios, minha senhora. Apóie-o agora que ele mais precisa. Os cavaleiros o odeiam. Você me perdoou quando não tive fé que você era Athena. Você trouxe Afrodite, Carlo e os outros da morte, e eu mesmo dos braços de Hades. Saori, Athena...

Saori encarou os olhos de Kamus. Tanta clemência, tanto amor por Hyouga. Então disse:

- Fale para Cisne me encontrar amanhã na casa de Fleyr. Vou conversar com ele e ver se ele é digno de uma segunda chance. Agora fale para todos os meus cavaleiros me aguardarem no grande salão. Vou comunica-los o ocorrido.

Sorrento que não falou nada desde que entrara sorriu. Kamus tentou não demonstrar, mas estava satisfeito. Aquela mulher que estava na sua frente era sua deusa. E sua palavra para ele era lei. Agora o destino de Hyouga estava nas mãos de Hyouga.

Shun mal tinha colocado os pés no salão principal, ainda de mãos dadas com o pequeno Daniel, quando viu Afrodite vir correndo atrás dele. Os cabelos cacheados novamente. Nos pés, sapatos de salto 15 cm. Parecia que fora pego se arrumando porque só o lábio de cima tinha batom.

- Corra comigo para o salão principal. Athena precisa nos ver. Algo novo sobre Hyouga que Kamus descobriu. – o pisciano falou.

- Agora o quê? Ele matou a Fleyr? – Shun perguntou com fúria no olhar. O pequeno Daniel sentiu o cosmo de Andrômeda oscilando. Joey que estava á frente deles no corredor voltou-se ao perceber que o namorado e o filho ficaram parados falando com Afrodite.

- O que houve? – O moreno perguntou.

- O pato. – Shun cuspiu entre dentes. – Tenho que ir para uma reunião com Athena, agora. Me desculpe. – falou para o namorado e a criança. - Não poderei ir.

- Oh meu Deus, vocês iam sair... – Afrodite falou limpando o batom borrado nas costas da mão.

- Eles vão sair. – Shun concertou – Sem mim. Vocês vão aproveitar a noite e depois você me pega aqui Joseph. – falou para o namorado se inclinando e o beijando nos lábios rapidamente.

- Sim. Me liga quando acabar a reunião. Vou logo com o Dadio para que ele veja o tal do Harry alguma coisa que está estreando no cinema.

- Harry Potter. – Daniel, Dionísio ou Dadio, como Shun aprendera agora, falou. – Depois eu te empresto o livro Shun! Vamos pai. Au revoir Afrodite! – E falando isso eles saíram.

Shun sabia que Joey estava preocupado. Mas o que ele poderia fazer. Queria que pelo menos um dia na vida não tivesse que ter a sua rotina atrapalhada pelo nome ou por lembranças de Hyouga.

Seguiu Afrodite até o Salão. Os outros cavaleiros já estavam lá. E Saori e Kamus contaram tudo que se passara na casa de Hyouga. De como souberam que o cavaleiro foi manipulado por Mime, de como Hilda era uma tirana. E que a própria Fleyr deu dinheiro do bolso dela para que Hyouga não ficasse na rua da amargura. Kamus pediu clemência alegando insanidade temporária para justificar as atitudes de Hyouga. Falou que ele estava em um ambiente hostil desde o principio, e de como eles, os cavaleiros, deveriam ouvir o coração deles e tentarem ajudar o cavaleiro que várias vezes salvou a vida de Athena ainda uma criança.

Shun percebeu que as opiniões ficaram divididas. De um lado Marin , Sheena, Afrodite, Milo, Ikki, Shaka, Santiago Shura, Aiolia e Aldebaran falando que Hyouga não merecia uma segunda chance no conselho.

Do outro lado, Mu, Saga, Kanon, Kamus, Dohko, Shiryu, Seyia e Carlo pedindo a clemência de Athena. Ele, Shun, não sabia o que dizer. Mas Athena se ergueu da cadeira onde estava sentada, até então, calada.

- Nobres guerreiros. Não estou aqui pedindo que aceitem Hyouga como se apagassem o que ele cometeu no passado, mas que o ajudem, e o auxiliem entender que foi errado, foi bárbaro e desumano, como Kamus e Sorrento dizem de coração, que ele bem o sabe e se arrepende. Todos nós conhecemos o bom Hyouga e o justo Hyouga de outrora. E por esse Hyouga, cheguei a conclusão que anulo a punição que lhe tira a armadura de Cisne e outorgo o conclave que ocorreu, dando a ele, sim, uma segunda chance, como dei a muitos de vocês que estão aqui e hoje se erguem contra Hyouga.

- Mas estávamos em batalha Saori! – Ikki falou. – A situação era outra. Não torturamos mulheres indefesas, nem matamos homens presos por grilhões.

- Eu sei Ikki. Mas isso estava na jurisdição de Hilda. – Kamus falou irritado.

- Outra louca insana, tanto quanto a maluca da Pandora! – Sheena falou se metendo. – Agora perdoar Hyouga é ser complacente com seus erros. Perdoar Hyouga é o mesmo que aceitar que Hittler era um perturbado ao invés de um pulha desumano e infernal. E o mesmo que dizer que o Holocausto foi brincadeira de crianças. Ele era insano e ponto. – ela escarneceu furiosa.

- Sheena, cale-se. Você mesma já cometeu atrocidades, ou se esqueceu das crianças que matou junto com Perseu? – Shiryu falou. – E a casa de Carlo. Athena perdoou nosso Máscara da Morte aqui. E ele colecionava cabeças! Que moral vocês tem para julgar Hyouga?

- Agora você virou advogado Shiryu? – Gritou Sheena.

- Parem todos! Agora! – Saori gritou se pondo de pé. – Eu já cheguei a uma decisão, e não vão ser vocês criando inimizades, lembrando atrocidades cometidas em um passado horrível que irão modificar minha idéia. – Athena falou batendo com o báculo da justiça no chão. O cosmo crescendo assustadoramente. Virulento. Magoado. - Agora SAIAM, podem voltar a suas atividades. – Athena falou com uma expressão irada no rosto. Nunca Saori parecera tão irritada e magoada. Seiya se aproximou da esposa rapidamente, mas ela fez um sinal para que ele se afastasse com as mãos.

- Estou bem, querido. – A mulher falou acariciando a barriga por cima do vestido. – Siga com os outros, por favor.

Sheena manteve seu olhar fixo na Deusa, enquanto os cavaleiros saíram da sala discutindo sobre a decisão tomada. Muitos chateados, outros satisfeitos. Não importa, o fardo de Hyouga seria o de ser o novo Aioros. Excluído e julgado.

Quando a Kamus, que foi o ultimo a sair, bateu a porta atrás de si, só restavam Shun e Sheena no aposento, fora Athena.

- E vocês, o que estão esperando para sair? – Saori falou se sentando novamente. Impaciente.

- Desculpe Athena. É Que tenho minhas razões para continuar aqui. Ainda não entendi onde você e Kamus querem chegar fazendo com que aceitemos Hyouga novamente. – Sheena disse encarando a mulher-deusa.

- Sheena, eu já me fiz bem clara. Acho que tampouco lhe importa a sorte de Hyouga agora. Sei que você está condoída da situação a que Fleyr foi subjugada. Sei também que é uma Amazona que sempre foi dura em relação aos homens. Respeito sua opinião, mas infelizmente, neste caso, predominará a minha. – Saori falou encarando a amazona de Cobra seriamente.

- Poder demais, sem saber usar não é Athena. Ótimo. Estou vendo como você usa o seu. – Sheena falou se virando para saída do aposento, mas parou á porta e girou sobre os calcanhares para encarar a Deusa. – Pensei que você fosse mais inteligente. E se não fosse capaz de o ser, ao menos fosse sensata. Usou-nos como idiotas, nossa opinião não lhe vale de nada a não ser sangrando por sua causa. Perdendo nossas vidas em um campo de batalha. Quando você tiver esse filho, você vai compreender o valor que uma vida tem! Que as coisas não voltam atrás, que os amores não se congelam no tempo. Hyouga destruiu muito, em troca de pouco. Não que eu não seja errada, que não tenha matado. Mas se matei crianças, eles eram desertores, estava sobre a sua jurisdição e...

- Sheena, já basta! – Shun pediu. – Você só vai se exaltar e magoar Athena desta forma. – Andrômeda pediu – Compreendo você. Sim, eu compreendo você. Entendo você, mas infelizmente a nossa vontade, neste caso não vale de nada. Neste conselho foi decidido...

- Não houve conselho Shun. Ouve Kamus, Athena, e um bando de homens errados, que acharam que podiam julgar um homem... E eu, uma mulher que achava que poderia bater de frente com uma Deusa. Estou exausta.

E a amazona de Cobra saiu. Abatida. Cabisbaixa. Derrotada.

Deixando Shun olhando para a Deusa. E Saori perguntou:

- Ela nunca... nunca esqueceu o Seiya não é?

- Se ela for igual a mim em relação ao Hyouga, temo dizer que sim. Infelizmente sim, Saori-san. – Andrômeda respondeu cabisbaixo.

Continua...


Agradecimentos aos comentários recebidos e ao incentivo de cada um de vocês.

Beijos
Angell Kinney